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América Latina: novelas como expressão artística de um subcontinente
Controle Remoto
12 ago 2020 | Por Mateus S. Dias (mateusdesouzadias10@usp.br) e Wálace de Jesus (walace.jesus@usp.br)

Os primórdios das novelas datam de 1348 a 1352, no período renascentista, com a coleção Decamerão, de Giovanni Boccaccio. A partir dessa obra surge o gênero literário novela, caracterizado por narrativas lineares, linguagem clara, ritmo acelerado e certa pluralidade dramática.

O princípio do que se conhece como as teledramaturgias atuais surge na França no século 19, com os folhetins. Eles consistem em edições seriadas de obras literárias de romance ou prosa de ficção, publicadas em jornais e revistas. Mais próximas do mundo novelístico de hoje estão as radionovelas, nascidas na década de 1930 nos Estados Unidos e posteriormente exportadas para Cuba — expoente no campo de produção de roteiros de radionovelas envolventes, que mais tarde inspiraram muitos outros países .

Com o surgimento da televisão, as novelas ganharam nova dimensão. Agora televisionada, a dramaturgia da América Latina dava início a um dos maiores estilos audiovisuais do mundo. As telenovelas passam a ser produzidas em grande escala e ganham os corações dos telespectadores, além de se tornarem uma das principais expressões artísticas do povo latino-americano. 

 

De Cuba para o resto da América Latina

Acompanhar uma novela na televisão faz parte da rotina de boa parte da população brasileira. As novelas são a “maior produção de arte popular da nossa televisão”, nas palavras de Nilson Xavier, autor de Almanaque da Telenovela Brasileira (2007, Panda Books), e se tornaram outro grande fenômeno de massa “depois do futebol e do carnaval ”.

Rita/Nina cortando cabelo de Carminha. 'Avenida Brasil' foi um dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira, sendo seu último episódio um fenômeno de audiência, que há muito tempo não era visto no Brasil. [Imagem: Reprodução/TV Globo]

Rita/Nina cortando cabelo de Carminha. ‘Avenida Brasil’ foi um dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira, sendo seu último episódio um fenômeno de audiência, que há muito tempo não era visto no Brasil. [Imagem: Reprodução/TV Globo]

O formato atual das produções novelescas brasileiras foi herdado e adaptado das novelas latino-americanas, que são reconhecidas pelo drama exagerado em seus roteiros e atuações. Mas como se deu essa herança? 

O surgimento das novelas na América Latina é especulado por volta de 1930, em Cuba, depois que o país importou o meio radiofônico. Acredita-se, então, que Cuba foi o berço do estilo latino-americano de dramaturgia, segundo Phillipe Xavier no artigo “Muito além do final feliz: a trajetória e consolidação da telenovela como produto cultural”. O sucesso do modelo cubano foi tanto que outros países da região o tomaram como inspiração, como foi o caso da Argentina, que se tornou outro grande expoente das radionovelas ao mesclar o modelo radiofônico com os jornais impressos, através de fotos das gravações. 

O México também é outro protagonista na dramaturgia latino-americana: o país foi um dos pioneiros a transmitir as telenovelas diariamente, com Senda Prohibida (Caminho Proibido) em 1958, adaptada do rádio para a televisão. O México fica atrás somente dos Estados Unidos, que inaugurou a indústria das telenovelas com Faraday Hill (Colina Distante) em 1946. 

Inicialmente as radionovelas dos EUA eram patrocinadas por empresas de sabão e de utensílios domésticos, o que continuou mesmo com a transição para a televisão. Disso surgiu o conceito de soap opera para se referir às novelas norte-americanas que, diferente das latino-americanas, ficavam no ar enquanto houvesse audiência. 

No Brasil, as primeiras transmissões de radionovelas ocorreram no início da década de 1930, com títulos importados e adaptados de Cuba — com todo o melodrama natural das produções, que posteriormente foi transferido para as telenovelas. A primeira transmissão nas televisões ocorreu em 1951 com Sua Vida Me Pertence, exibida pela TV Tupi. Entretanto, é somente a partir de 1963 que as telenovelas passam a ser transmitidas diariamente e ganham espaço nas programações das emissoras. A primeira novela com transmissão diária foi inspirada em um roteiro argentino: 2-5499 Ocupado.

Entre as décadas de 1960 e 1970 há o boom das produções de telenovelas na América Latina: Cuba, Brasil, México e Argentina são personagens chaves nesse roteiro histórico. Para Nilson Xavier, no final dos anos 1970, entretanto, o Brasil rompe com as “fantasias dos dramalhões” importadas de outros países latinos, e dá origem às novelas genuinamente brasileiras, que retratam o real e o cotidiano. 

A cisão ocorreu em 1969 com Beto Rockfeller na TV Tupi, uma das mais aclamadas novelas tipicamente brasileiras. Na TV Globo, a dramaturga cubana Glória Magadan foi dispensada. Seu modelo fora da realidade brasileira, com cenário em Marrocos e na França, com duques e ciganas, em nada combinava com o estilo que os brasileiros queriam adotar em suas novelas. A recém substituta Janete Clair começou a construir o império telenovelesco da Globo como é reconhecido atualmente, tanto nacional quanto internacionalmente.

Enquanto na TV Globo as produções nacionais ganharam destaque, no Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) Silvio Santos apostava nas novelas importadas do México. Ao longo de 40 anos da emissora foram transmitidos grandes sucessos mexicanos, como Maria do Bairro (1997), A Usurpadora (1999),  Rubi (2005) e o grande fenômeno adolescente Rebeldes (2013). Também produziram recentemente adaptações próprias dos sucessos infantis mexicanos como Carrossel (1989), Carinha de Anjo (2000) e Cúmplices de um Resgate (2002), e argentinos, como Chiquititas (1995).

Paola Bracho, Lizzet e Carlitos na janela da mansão. 'A Usurpadora' foi um sucesso mexicano reconhecido internacionalmente, reproduzido no Brasil pelo SBT em 1999. [Imagem: Divulgação/SBT]

Paola Bracho, Lizzet e Carlitos na janela da mansão. ‘A Usurpadora’ foi um sucesso mexicano reconhecido internacionalmente, reproduzido no Brasil pelo SBT em 1999. [Imagem: Divulgação/SBT]

Desde então, as novelas foram se adaptando com as novas tecnologias digitais e chegaram ao formato atual. A TV a cabo e os serviços de streaming, por exemplo, surgiram nos anos 2000 “roubando a cena” das novelas, e venderam o estilo de dramaturgia em forma de seriados, mais moderno e digital. A escolha dos telespectadores por esses serviços causou uma pequena turbulência na indústria das novelas no Brasil, principalmente na TV Globo. 

Mesmo diante dos obstáculos, as principais emissoras de novelas se reinventaram e passaram a formular roteiros mais atrativos, como ocorreu com Caminho das Índias (2009), Avenida Brasil (2012), Salve Jorge (2012), Amor à Vida (2013) e o mais recente sucesso internacional Verdades Secretas (2015), todas da Rede Globo. Elas também passaram a investir em serviços de streaming, como o GloboPlay, no caso da TV Globo, no qual novelas e conteúdos exclusivos encontram-se disponíveis. 

Angel desfilando em 'Verdades Secretas', de 2015. [Imagem: Reprodução/TV Globo]

Angel desfilando em ‘Verdades Secretas’, de 2015. [Imagem: Reprodução/TV Globo]

 

“É impressionante o poder das telenovelas na vida dos espectadores”

“Desde que o mundo é mundo as pessoas gostam de ouvir e de contar histórias, tradição essa que ficou ainda mais forte depois dos folhetins no século 19 e das famosas radionovelas”, destaca Vitor de Oliveira, roteirista de novelas e colaborador de O Astro (2011) e I Love Paraisópolis (2015). Ele também fala sobre a recepção favorável de muitas novelas brasileiras no exterior e na própria América Latina atualmente. 

Em contrapartida, pouco se conhece de outras produções latinas. “Brasil e México são os principais polos de produção de telenovelas atualmente”, relata Vitor, e aponta ligeiras diferenças: “Aqui no Brasil as novelas são adaptadas de acordo com a recepção, enquanto no México a dinâmica é de uma obra fechada, ou seja, é escrita de uma vez e só depois é gravada”. 

A aceitação dos telespectadores é essencial para as novelas no Brasil. Como explica Vitor, as histórias das tramas da televisão são moldadas a partir do imaginário da população. “Aqui, a novela é uma obra aberta: enquanto ela está sendo transmitida o roteirista ainda está escrevendo, o que possibilita a modificação de algum personagem, história ou até mesmo o desfecho da própria novela”, completa Vitor.

Ao mesmo tempo que moldamos a ficção, também somos influenciados por ela. “Mesmo as pessoas que não tem o hábito de assistir novela, alguma vez já foram influenciadas por ela”, seja pelo vestuário, por algum bordão famoso de personagem ou até mesmo por suas opiniões. “É impressionante o poder das telenovelas na vida dos espectadores”, relata Vitor, pois elas ditam modismos e comportamentos na realidade. 

Assuntos de relevância social também passam a fazer parte dos roteiros das telenovelas, principalmente após a década de 1980: “Embora o papel das telenovelas não seja educar, porque é sobretudo um produto de entretenimento, elas são responsáveis por abordar assuntos sociais importantes: alcoolismo, violência contra a mulher, homossexualidade e questões raciais, mesmo que bem pouco”, explica Vitor. 

'Salve Jorge' foi outro grande sucesso da TV Globo ao tratar narrativas sociais, como o tráfico e exploração de seres humanos e violência contra a mulher. [Imagem: Reprodução/TV Globo]

‘Salve Jorge’ foi outro grande sucesso da TV Globo ao tratar narrativas sociais, como o tráfico e exploração de seres humanos e violência contra a mulher. [Imagem: Reprodução/TV Globo]

Ele também defende o caráter artístico das novelas e todo o processo criativo que envolve um roteiro. Para além do entretenimento, as novelas também são produções artísticas latino-americanas reconhecidas no mundo inteiro.

 

Pluralidade e rivalidade

As primeiras novelas brasileiras chegaram até a se inspirar na forma, conteúdo, personagens excêntricos e dramas estrangeiros, mas não durou muito tempo. No final da década de 1960, com o gênero já consolidado no Brasil, as emissoras apostaram no rompimento com esses padrões criados pelos outros países latino-americanos, principalmente o México.

Com a cisão dava-se início a uma das maiores rivalidades Brasil versus México. Os roteiristas brasileiros viam o estilo do país como superior ao mexicano quando o assunto era novela; se enxergavam eruditos, enquanto os mexicanos eram vistos como “dramalhões”. Os produtores do México criaram um certo bloqueio a dramaturgia brasileira, como forma de não “dar o braço a torcer”. Mas as diferenças entre os estilos brasileiro e mexicano vão muito além do melodramático e do realismo.

As novelas brasileiras, além de abordarem questões sociais em seus enredos, possuem vários núcleos e tramas que se entrelaçam no decorrer dos capítulos, enquanto as mexicanas são focadas em apenas uma trama principal. O número de capítulos também é uma disparidade: as produções do Brasil chegam a ter oito meses de duração, enquanto as do México têm cerca de 150 capítulos. Além disso, a escolha por espaços abertos para gravação é um dos fatores que atribui realismo às produções brasileiras, o que também é um diferencial. Os mexicanos optam por gravações em estúdio na maioria das vezes, visto que o orçamento por episódio chega a ser até quatro vezes menor que o brasileiro.

Mesmo com essas divergências, as novelas latino-americanas trocam experiências entre si o tempo todo e apostam em formas que foram sucesso nos países vizinhos. Isso contribui para o sucesso delas em todo o subcontinente. Brasil, México, Cuba, Argentina, Colômbia, Venezuela e demais países importam e exportam entre si e com o mundo inteiro histórias sobre o cotidiano, romances e dramas únicos — exportam latinidades.

 

O sucesso telenovelesco 

A grade horária das emissoras latino-americanas tem um grande espaço dedicado a novelas, e chegam a apresentar entre quatro e cinco produções diferentes por dia. Mesmo com poucos títulos de sucesso recente, elas fazem parte do cotidiano popular e se moldam nos comportamentos da sociedade, assim como os influenciam. “A novela não só molda o comportamento dos espectadores como também constrói o seu diante da realidade da sociedade”, diz Vitor Oliveira.  

Esther Império Hamburger, professora do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA-USP e autora de O Brasil antenado: a sociedade da novela (2005, Zahar) opina: “Eu não enxergo as novelas como algo que paira acima, como se fossem divinas, e que influencia a gente que está aqui embaixo. Elas captam da sociedade, transformam e devolvem, as pessoas se apropriam de alguma maneira e devolvem também”.

 O triunfo das novelas está ligado ao fato das TVs estarem na maioria dos lares brasileiros. Esther comenta que “a televisão era um meio que chegava no Brasil inteiro”. Por isso, servia de vitrine para que pessoas de todos os lugares do país vissem o que acontecia nos grandes centros urbanos. 

Segundo a professora, as novelas não se limitam apenas à televisão. É perceptível que uma novela tem grande resultado, por exemplo, “quando os jornais mais importantes do país estão falando delas; é porque elas extrapolaram o nicho da imprensa especializada”, completa. 

Felipe Ferro Rodrigues, mestrando de História, Teoria e Crítica em Meios e Processos Audiovisuais na ECA-USP, e autor de pesquisas sobre a novela colombiana Café, com Aroma de Mulher (1994-1995), grande sucesso no país e também no Brasil, confirma a afirmação de Esther: “De repente eu descobri que a novela estava nos jornais todos os dias, em todas as editorias, não apenas no de entretenimento, mas também no de economia e no de política”. Ele ainda comenta as transformações e movimentações que a novela causava: “No El Tiempo [jornal colombiano] saíram algumas crônicas que contavam como as ruas de Bogotá ficavam congestionadas entre as 19h30 e 20h, porque as pessoas saíam de onde elas estavam e iam para casa ver a novela, que começava às oito da noite.”

Gaivota ganhou o coração de todos como protagonista na novela colombiana 'Café, com Aroma de Mulher' (1994-1995). Ela foi exibida pela primeira vez no Brasil em 2001, no SBT. [Imagem: Reprodução/RCN Televisión/Canal A]

Gaivota ganhou o coração de todos como protagonista na novela colombiana ‘Café, com Aroma de Mulher’ (1994-1995). Ela foi exibida pela primeira vez no Brasil em 2001, no SBT. [Imagem: Reprodução/RCN Televisión/Canal A]

Devido às grandes audiências, as novelas também estão fortemente ligadas ao consumo e à publicidade, herança das soap operas. Além de mostrarem para as pessoas o que acontece nas grandes cidades, elas também funcionam como propaganda. “As novelas funcionam como vitrines de consumo, elas atualizam sucessivamente a moda, os aparelhos domésticos, os modelos de carros, cada título traz uma nova atualização das tecnologias disponíveis”, diz Esther. Ela comenta que, quando fazia sua pesquisa de doutorado em comunidades periféricas brasileiras, encontrava nas casas das pessoas itens que poderiam ser classificados como de classe média. “Eu acho que existe uma lógica de consumo como inclusão social. Tudo que aparece naquela vitrine está acessível para ser consumido, mesmo sem ser da mesma marca, em várias prestações ou uma imitação”, finaliza.

Valéria e Maria Joaquina, na adaptação brasileira de 'Carrossel' em 2012, lançaram tendência com suas tiaras, que podiam ser vistas na cabeça de muitas meninas. [Imagem: Reprodução/SBT]

Valéria e Maria Joaquina, na adaptação brasileira de ‘Carrossel’ em 2012, lançaram tendência com suas tiaras, que podiam ser vistas na cabeça de muitas meninas. [Imagem: Reprodução/SBT]

As novelas estão fortemente enraizadas na cultura televisiva da América Latina. Desde a segunda metade do século 20, elas moldam o imaginário popular e criam um gênero único de dramaturgia latino-americano, reconhecido mundialmente. É uma das mais importantes expressões artísticas de um subcontinente e mostra talento em cada produção, ganha espaço em muitas plataformas de streaming e exporta a cultura latina para o mundo.

 

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