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As faces da 2ª Guerra no cinema
CINÉFILOS
03 dez 2019 | Por André Derviche (andrederviche@usp.br)

Em 2019, são lembrados os 80 anos de um dos eventos mais importantes da história da humanidade. No ano de 1939, o mundo pôde observar o início da Segunda Guerra Mundial, uma das grandes catástrofes políticas, ideológicas e morais de todos os tempos. Porém, também são nesses momentos nefastos que a arte encontra-se presente. Não são poucas as obras cinematográficas que tratam desse assunto, por isso, confira agora as diferentes visões que o cinema já apresentou deste momento histórico.


Casablanca (1942)

O intrigante romance de Rick e Ilsa é um dos destaques do filme [Imagem: Reprodução]

Foi exatamente na metade do conflito que chegou aos cinemas um dos maiores clássicos da sétima arte. Dono de sequências memoráveis e de uma trama intrigante, Casablanca inaugurou, da melhor maneira, uma nova fase do cinema em Hollywood.

Durante o ápice da Segunda Guerra, Rick Baline (Humphrey Bogart), um exilado americano, ganha a vida comandando uma casa noturna e ajudando diversas pessoas a escaparem do domínio nazista com vistos para a América. Porém, tudo muda quando ele descobre ter que ajudar uma antiga conhecida.

Entre os primeiros anos da década de 1940, a melhor opção da indústria cinematográfica obviamente foi não abordar temas que passassem por batalhas sangrentas ou genocídios. A saída foi usar a Segunda Guerra Mundial como um verdadeiro motor para as narrativas. Em Casablanca, ao mesmo tempo que o espectador sente a ameaça e hostilidade da expansão nazista, ele se vê ainda mais envolvido com a história que está sendo contada. Uma combinação perfeita entre suspense e romance fizeram do longa uma das obras mais encantadoras de seu período.


Noite e Neblina (Nuit et Brouillard, 1955)

Calçados das vítimas do Holocausto nazista [Imagem: Reprodução]

Passados dez anos de um dos eventos mais impactantes do século, surgem as primeiras obras que abordaram aquele sombrio período de maneira mais realista. O documentário produzido por Alain Resnais possui somente 32 minutos, mas eles são suficientes para chocar e arrasar até o mais resistente de seu público.

Composto somente por imagens reais do Holocausto nazista, Noite e Neblina acabou por se tornar um dos relatos mais crus da barbárie humana. A melancólica e carregada narração de Michel Bouquet transmite os elementos impiedosos daquele período, combinando o caráter informativo ao literário. Aqui se compreendem, de maneira mais fiel e direta, os detalhes da verdadeira máquina de morte idealizada por Hitler que atingiu milhões na época.


Quando voam as cegonhas (Letyat Zhuravli, 1957)

Tatyana Samoylova é um dos pontos altos como Veronika [Imagem: Reprodução]

De uma produção francesa, parte-se para uma soviética de dois anos depois. Aos moldes do que o Ocidente fizera em Casablanca, Quando voam as cegonhas apela para uma visão mais paralela da Segunda Guerra Mundial. O conflito bélico é uma peça importante para que os eventos do filme aconteçam, mas não é o elemento central da história que está sendo contada.

Veronika (Tatyana Samoylova) é uma jovem que vive na cidade de Moscou, na antiga União Soviética. Depois que seu namorado Boris (Aleksey Batalov) é convocado para lutar nos fronts, ela deverá enfrentar sozinha o peso de uma sociedade contaminada pelos horrores da guerra.

Ao se comparar Quando voam as cegonhas com obras como Casablanca, a relação imediata são duas histórias de amor interrompidas pelos eventos da guerra. Contudo, aqui o lado romântico e idealizado é menos aflorado em relação à visão hollywoodiana. Uma das belezas do longa acaba sendo observar a dinâmica estabelecida entre os personagens, em outras palavras, a maneira pela qual eles se relacionam. A evolução de Veronika, forçada pelas circunstâncias mais horríveis possíveis, dá um toque de originalidade para o espectador saturado de filmes de guerra. Tecnicamente, com aspectos que vão desde a fotografia até atuações, é uma obra impecável.


Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, 1989)

Indiana Jones (Harrison Ford) e Dr. Henry Jones (Sean Connery) [Imagem: Reprodução]

A menção ao nazismo já havia aparecido no primeiro longa da franquia. Em Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981), Indiana Jones deve encontrar a Arca da Aliança, para impedir que o artefato bíblico seja tomado pelo exército nazista. Um filme e oito anos depois, o arqueólogo mais famoso das telonas volta para resgatar seu pai e achar o Santo Graal, novo alvo dos alemães.

Dirigido por Steven Spielberg, o terceiro longa da saga Indiana Jones aposta certeiramente na aventura para conquistar seu público. Há uma visão mais enérgica e recreativa daquele período. Sem poupar críticas e verdadeiras ironias aos grupos nazistas, mas também apresentando momentos históricos como a queimada de livros realizada por Hitler, Indiana Jones e a Última Cruzada mais uma vez mostra o lado mais místico e científico da doutrina nazistas. Tudo isso como muita ação e aventura, características inerentes à quadrilogia.


Túmulo dos Vaga-lumes (Hotaru no haka, 1988)

Seita (à esquerda) e Setsuko (à direita) estabelecem um lindo vínculo [Imagem: Reprodução]

Ter uma animação a respeito da Segunda Guerra Mundial pode dar a ideia de que o tema é, de alguma maneira, suavizado. Porém, é depois da uma hora e meia de filme que um pré-julgamento como esse simplesmente é esquecido. Túmulo dos Vaga-lumes, representante das grandes produções animadas japonesas, é uma tocante história de um lado da guerra que muitos não conheciam.

Em meio a um Japão ameaçado pelos eventos da Segunda Guerra, os irmãos Setsuko e Seita devem sobreviver sozinhos depois da morte da mãe e da convocação do pai para lutar no conflito.

A premissa de se ter duas crianças à deriva da guerra já é por si só aterrorizante. O lado emocional do longa se aflora no momento em que o espectador tenta se colocar no lugar desses protagonistas. Os eventos do filme exploram diversos arcos entre os personagens: angústia, saudade e orgulho são só alguns dos sentimentos que permeiam o rico enredo. É com a soma desses fatores que Túmulo dos Vaga-lumes se torna um dos contos mais emocionais e tristes dos impactos humanos da guerra.


A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993)

O drama de parte do povo judeu sofrido na Guerra é retratado na obra [Imagem: Divulgação]

Esta não foi a primeira nem será a última vez que o nome de Steven Spielberg aparecerá na lista. Mestre em entender gêneros cinematográficos, o diretor norte-americano traz aqui uma das experiências mais memoráveis da sétima arte.

O longa, adaptado do livro homônimo não ficcional de Thomas Keneally, traz à tona a história de Oskar Schindler (Liam Neeson), um empresário nazista que ficou conhecido por salvar a vida de mais de 1.100 judeus poloneses.

Em mais de três densas horas de filme, a direção de Spielberg e o roteiro de Steven Zaillian colocam o espectador em estado de imersão total no contexto da época. As entranhas de um campo de concentração nazista, o clima de hostilidade vivido por grupos minoritários e até mesmo os charmes das camadas sociais mais altas da época acabam sendo arcos perfeitamente desenvolvidos. Vencedor de sete Oscar, incluindo o de Melhor Filme, A Lista de Schindler garante ao público uma experiência honesta e moralizante de um período tão sombrio como foi o da Segunda Guerra. 


Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line, 1998)

O grupo de soldados norte-americanos devem deter o avanço japonês [Imagem: Reprodução]

Quando se fala em Terrence Malick, é sempre importante frisar que suas obras podem não ser para todo tipo de público. Já demonstrado em longas impecáveis como Terra de Ninguém (Badlands, 1973), o caráter contemplativo é uma das características mais marcantes em sua filmografia como diretor. No longa de 1998 não podia ser diferente. Em Além da Linha Vermelha, Malick usa a Segunda Guerra para entender a conflituosa natureza humana.

Na segunda metade da confronto, um grupo de jovens soldados norte-americanos é enviado para conter o avanço japonês no Pacífico. Em meio ao clima de desespero e horror, eles encontrarão a essência de suas personas.

Entre quase três horas, o elemento que talvez mais ganhe destaque seja o roteiro. Também escrito por Malick, nele são criados, em diversos momentos, uma montanha russa de emoções, a qual conduz seu público ora para sequências alucinantes de batalha, ora para belos enquadramentos reflexivos e serenos. A partir daí, começa-se a explorar as nuances daquela história. Questionamentos filosóficos não só sobre a guerra em si, mas também sobre história humana garantem essa visão mais lírica e contemplativa de um período essencialmente caótico. Para muitos, um filme monótono, mas certamente uma profunda história sobre amor, amizade e frustração.


O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998)

Soldados aliados se arriscam ao desembarcar na Normandia [Imagem: Reprodução]

Steven Spielberg é um daqueles diretores que consegue se aventurar em diversos gêneros cinematográficos. De aventura a suspense, passando por ficção científica, ele consegue explorar o melhor de cada categoria. Não é à toa que aparece aqui mais de uma vez. Em O Resgate do Soldado Ryan, o diretor lida com a guerra de uma maneira mais realista, presenteando seu espectador com cenas de batalha magistrais e personagens bem construídos.

Como plano de fundo, é usado o fatídico Dia D, quando soldados aliados desembarcaram na Normandia para enfrentar aquilo que seria um dos últimos focos de resistência nazista. Mais especificamente, acompanha-se aqui os desafios do capitão Miller (Tom Hanks) e seu grupo, que recebem a missão de resgatar o soldado James Ryan (Matt Damon).

Como já era de costume, Spielberg traz mais uma vez personagens marcantes para o público. Cheios de camadas, cada um com suas próprias histórias, personalidades e motivações, os papéis desempenhados pelos atores garantem um longa-metragem verdadeiramente emocionante. Spielberg, acompanhado das excelentes performances de Tom Hanks, Edward Burns e Giovanni Ribsi, transita entre os horrores gráficos da guerra e seu lado mais humano, por assim dizer. Com sequências de ação de tirar o fôlego, mas sem abrir mão de emocionar a quem assiste, O Resgate do Soldado Ryan é, até hoje, lembrado como uma obra prima dos filmes de guerra.


Dunkirk (2017)

A tensão de jovens soldados presos nas praias de Dunquerque [Imagem: Reprodução]

Entre os melhores cineastas do século 21, sem dúvidas, o nome de Christopher Nolan deve ser lembrado. O diretor de uma consagrada trilogia de super-herói, de duas inventivas ficções científicas e de uma das histórias mais mirabolantes do século, também tinha que ter no currículo um filme de guerra. Depois da saga do Cavaleiro das Trevas, A Origem (Inception, 2010), Interestelar (Interestellar, 2014) e Amnésia (Memento, 2000), Nolan decidiu contar um acontecimento de guerra bastante conhecido entre historiadores.

Na Operação Dínamo, soldados aliados da Bélgica, do Império Britânico e da França devem ser resgatados da cidade de Dunquerque depois serem cercados pelo exército alemão.

Não era por tratar de eventos reais que Nolan deixaria de imprimir suas marcas registradas como cineasta. Um enredo sem linearidade, sequências de ação recheadas de muita tensão e um peso dramático colocado na medida certa marcam presença em sua obra. A parceria com o compositor Hans Zimmer é retomada e acaba sendo outro ponto alto na produção.

A tecnologia, assim, acaba sendo usada para a imersão total em batalhas aéreas e sequências de resgate. O diretor também mostra a seu público o peso dos eventos de uma guerra nas mais variadas escalas. Tudo isso sem precisar da já tradicional violência para chocar o espectador. Dunkirk traz uma visão mais técnica da guerra.

Entre os filmes aqui citados, é interessante notar o quanto um tema que completa 80 anos de existência já fora abordado de diversas maneiras. Romantizada, mais realista e até aventuresca… São várias as faces da Segunda Guerra Mundial no cinema. Com o advento de novas técnicas e tecnologias cinematográficas, foi possível recriar ainda mais perfeitamente grandes batalhas. Porém, uma guerra vai muito além disso. É um evento aterrorizante em diversas escalas. E relembrá-lo é não esquecê-lo, para que muito do que já foi vivido pela civilização não se repita.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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