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As perguntas sem resposta sobre a surpreendente caixa de Gwendy
Na Estante
19 jan 2019 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Companhia das Letras / Reprodução

Por Marina Caiado | marinafcaiado@usp.br

Imagine que você tem 12 anos e acaba de subir uma escadaria enorme chamada Escadaria Suicida. Um homem se aproxima de você e te chama para conversar. Ele diz que andou te observando e te dá uma caixa com botões e alavancas que parecem mágicos. As alavancas liberam chocolates que dão beleza e inteligência, além de moedas raras que valem milhares de reais.

Quanto aos botões, o homem explica que seis deles representam os continentes do mundo, com exceção da Antártida, e um outro botão representa tudo. Há ainda um oitavo botão que faz o que você quiser. O homem fala que você é a pessoa certa para ficar com a caixa. Quando você pergunta para que servem exatamente os botões, ele diz “por que perguntar o que você já sabe?”. E aí, o que você faria?

Isso é o que acontece com a protagonista de “A pequena caixa de Gwendy”, escrito por Stephen King e Richard Chizmar, logo no início do livro. E Gwendy aceita a caixa. Isso porque estava tentando perder peso naquele verão e os chocolates podiam ajudá-la. Quando comia um, não tinha vontade de repetir suas refeições ou comer doces. E um dinheirinho cairia bem também. Ela conseguiria muito com os dólares de prata Morgan de 1891, as moedinhas que saíam da caixa. Era como mágica.

Isso talvez compensasse a responsabilidade de ter consigo algo que pode explodir o planeta todo. Gwendy sabia que era isso que a caixa fazia. Podia explodir um dos continentes ou qualquer outro lugar. Talvez não exatamente explodir, mas causar um incêndio, terremoto, ou alguma forma de grande destruição. Será que ela estava certa? Se estava, será que poderia causar alguma catástrofe, mesmo que por acidente? Essas talvez seja as primeiras perguntas que ecoarão na cabeça dos leitores à medida que a história avança.

Depois que ela pega a caixa, começamos então a acompanhar a história de vida de Gwendy durante dez anos, o que é feito de forma genial. A protagonista é a única personagem realmente desenvolvida durante a história, mas isso é bem feito. É possível perceber as mudanças no seu comportamento à medida que o tempo passa. Vemos Gwendy amadurecer a partir de alguns episódios de sua vida, apenas aqueles que são de fato importantes para o enredo, sem rodeios.

Se não fosse assim, jamais seria possível resumir dez anos da vida de uma garota nas breves 168 páginas que compõem o livro, contando as ilustrações. Os capítulos também são curtos e a linguagem é bem simples. Pode-se dizer que até mesmo uma criança conseguiria ler o livro, a partir dos 12 anos talvez, embora a história de Gwendy abranja questões mais fortes e complicadas que seriam melhor entendidas por adolescentes e jovens adultos.

Isso pois apesar da menina começar o livro com 12 anos, ao final já tem 22, está formada na universidade e morando longe dos pais. Talvez aqueles que estão passando por essa fase da vida se identifiquem mais com ela, e vejam na Gwendy o jovem que são e a criança que foram, e como essas duas coisas estão ligadas.

Até porque, Gwendy é tão humana que identificar-se com ela não fica nada difícil. No início, é gordinha, tem um apelido maldoso na escola e não é popular, mas tem alguns bons amigos. Poderia ser qualquer um de nós, não apenas uma personagem de livro americano. Talvez por isso seja tão cativante. Mesmo quando se torna a garota mais bonita do colégio, com as melhores notas e desempenho nos esportes, continua humilde e gentil. Torcemos por ela e perdoamos seus erros, pois Gwendy é uma protagonista com a fórmula perfeita para ser amada.

Durante todos os acontecimentos que marcam o crescimento da garota, o leitor acompanha também sua forma de lidar com a responsabilidade extra que a caixa lhe traz. O horror em si não se faz tão presente no livro, mas o suspense sim. A ansiedade por saber o que vai acontecer no próximo capítulo é constante durante sua leitura. Além disso, durante a história, muito é dado a entender, e o leitor tem de decidir no que acredita.

Também há várias reflexões suscitadas pelo assunto da caixa. Apesar de não existir um objeto que faça com que continentes sejam destruídos, existem sim líderes mundiais que têm o poder de decidir quem vive e quem morre. Qual é o peso disso? É uma responsabilidade que algum ser humano devia carregar? Muito além da fantasia, a caixa pode ser também entendida como uma metáfora para esse poder. Isso é, inclusive, sugerido pelo livro em um episódio da vida de Gwendy.

Também é interessante falar que a história se passa entre os anos 1970 e 1980, e se utiliza de vários acontecimentos históricos para dar uma verossimilhança assustadora à história e fazer o leitor jurar, pelo menos por alguns segundos, que tudo aquilo realmente aconteceu a Gwendy. Ou então, imaginar como seria se tudo aquilo realmente tivesse acontecido a ela.

A imaginação dos leitores de “A pequena caixa de Gwendy” será bem explorada nessa edição em capa dura, trazida ao Brasil pela Companhia das Letras. As belas e intrigantes ilustrações foram feitas por Ben Baldwin e Keith Minnion para tornar a experiência de leitura ainda mais interessante. Com certeza, esse é um bom livro para ser devorado de uma vez só. No entanto, o tempo que ele leva para ser digerido pode ser bem maior, com reflexões que grudam na cabeça e uma protagonista que pode grudar no coração.

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