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Ayrton Senna de todos os Silvas
ARQUIBANCADA
01 maio 2016 | Por Jornalismo Júnior

Por Natália Belizario Silva

ayrton senna

Eu cresci em uma casa um pouco diferente das outras casas do Brasil. No país do futebol, é natural que as pessoas tenham um time do coração. Você pode se isentar de qualquer tipo de opinião, mas se você não tiver um time de futebol… é estranho. Pois bem, acabei me descobrindo corinthiana por conta do meu avô, que sempre gostou de assistir aos jogos na televisão ou acompanhá-los no rádio (ou os dois ao mesmo tempo). Mas meu pai, a figura da qual as pessoas normalmente herdam o time do coração, não era fã desse esporte. O barulho da TV nos finais de semana da minha infância não eram gritos de gol ou torcidas organizadas. O que eu sempre ouvi foi o ruído rápido, agudo e inconfundível dos carros de Fórmula 1. Eu nunca aprendi muito bem a torcer pelo Corinthians, mas desde pequena eu sempre soube quem era o responsável da paixão do meu pai pela F1 e o maior ídolo que o Brasil já teve: Ayrton Senna.

As corridas que hoje em dia meu pai assiste sozinho, sem ter com quem conversar sobre, eram um evento na época do Senna. As pessoas se reuniam em volta da TV, que ainda era um artigo de luxo no Brasil, para ver Ayrton correr e ganhar. No dia 1º de Maio de 1994, meus pais estavam se mudando para a sua primeira casa própria. Caixas pra todo lado, amigos ajudando na mudança e um fogão a ser instalado para garantir o almoço. O almoço, a prioridade número 1. A número 2 era assistir a provável vitória do Brasil na F1 em um fim de semana marcado por acidentes e tragédia (que viriam a ser tragédias). No primeiro treino livre, Barrichello não morreu por sorte. Seu carro bateu de tal forma que o impacto foi absorvido, fazendo com que ele não sofresse ferimentos graves. Senna interrompeu seu treino e acompanhou Rubinho até o centro médico, lugar do qual não saiu até ter certeza de que estava tudo bem. Visivelmente abalado, Senna passou a fazer exigências em relação a segurança da pista Tamburello. A programação da F1 seguiu como se nada tivesse acontecido. No treino de sábado, Ratzenberger perdeu o controle do carro e bateu em uma velocidade muito maior do que Rubinho: o acidente custou a vida do piloto, que morreu oito minutos após a sua entrada no hospital. Se Ratzenberger tivesse falecido dentro do autódromo, a corrida teria que ser cancelada.

Sem a classificação do treino de sábado, valeram os tempos do primeiro treino que colocavam Ayrton na pole position. Logo atrás dele, Michael Schumacher, seu novo desafiante. Às 10 horas, é dada a largada do Grande Prêmio de San Marino. Na nova casa da família Silva, a prioridade número 1 já havia sido cumprida e estavam todos sentados diante da TV para acompanhar a corrida. Ainda que para as novas gerações essa paixão pareça estranha, “gostar de Fórmula 1 no Brasil de 1994 era quase uma obrigação cívica, pois o que os pilotos brasileiros haviam conquistado nos últimos anos mostrava uma competência nas pistas que nenhum outro país havia igualado“, bem explica meu pai. Naquele tempo, os resultados da F1 não eram determinados somente pela sofisticação na engenharia do carro, mas pela competência e garra dos pilotos. Ayrton Senna não tinha o carro mais rápido da pista, mas a sua vontade de vencer era a maior entre todos os pilotos.

O safety car logo entrou na pista, por conta de um acidente causado por um piloto que não largou. Após uma narração dramática feita por Galvão Bueno, a corrida voltou ao normal com a mesma tensão da largada. A distância entre Senna e Schumacher aumentava, e a expectativa de que o brasileiro ganhasse a corrida continuava a mesma.

Aqui, antes do triste desfecho e final desse texto, faço uma pausa para contar a minha experiência com Senna. Nasci em 1996, não vi a paixão do meu pai assistindo as corridas do seu maior ídolo, mas eu sempre soube o que esse nome significava na história do Brasil e da minha família. Quando o documentário “Senna” foi lançado, em 2010, fiz questão de ir ao cinema assistir. Eu precisava entender quem foi Senna, para que ver meu pai assistindo aos prêmios de F1 de madrugada fizesse sentido. Ao longo do filme, meu coração foi ficando apertado por saber o final daquela história. Vendo as imagens de Ayrton na reunião dos pilotos após o acidente que causou a morte de Ratzenberger, eu torci para que a corrida do dia seguinte fosse cancelada. 1º de Maio de 1994, Tamburello, sétima volta. O fim de uma era na história da Fórmula 1.

Meu pai, no dia que deveria ser um dos mais felizes de sua vida, viu seu maior ídolo perder o controle do carro e bater violentamente em uma curva. A imagem da cabeça de Senna apoiada na lateral do carro bastou para que ele entendesse em 1994 (e eu em 2010) que era o fim. “O maior talento da F1 de todos os tempos nos deixava de forma trágica, mas da forma como muitos outros deixaram as pistas”, disse meu pai no relato que deu origem a essa crônica. Pouco após ao final da corrida, a Rede Globo foi mensageira da notícia que ninguém queria acreditar: Ayrton Senna morreu. No dia 1º de maio de 1994, a festa na nova casa da família Silva deu lugar ao silêncio inexplicável. Sigo sem saber muito bem como torcer para um time de futebol, mas com Senna eu entendi o significado de um ídolo na vida de uma pessoa.

Agradecimentos: Edson Soares Silva, meu pai.

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