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Bernardinho: Um marco no voleibol mundial

A história de sucesso do maior técnico esportista brasileiro

ARQUIBANCADA
27 jul 2021 | Por Maria Carolina Milaré Albuquerque (mariamilare@usp.br)

O voleibol brasileiro hoje é conhecido mundialmente como uma grande potência. Famoso não apenas por seus talentos individuais, mas por toda garra e determinação; o vôlei no Brasil deve muito de seu sucesso a uma figura especial que deixou seu nome e um legado no esporte: Bernardo Rezende. Conhecido como Bernardinho, o carioca revolucionou a forma de treinar voleibol e se consagrou o técnico mais vitorioso de todos os esportes coletivos no Brasil.


Início da carreira

A carreira de Bernardinho dentro do voleibol começou ainda jovem, como atleta. Em 1977, aos 18 anos, foi convocado pela primeira vez  para atuar no primeiro Mundial de voleibol da sua categoria pela Seleção Brasileira. 

Durante a carreira como atleta que durou até 1986, Bernardinho defendeu a Seleção e o time carioca do Fluminense. Mas, em uma geração com Bernard, Renan, William e Xandó, o levantador reserva não era o favorito dos fãs de vôlei. Foi somente alguns anos depois que seu nome ficou conhecido pelo Brasil, mas em outra função  — do lado de fora da quadra. 

Bernardo estreou na comissão técnica pela primeira vez nas Olimpíadas de Seul em 1988, quando foi convidado pelo até então técnico da Seleção Masculina, Bebeto de Freitas, para ser seu auxiliar. 

O time ficou em quarto lugar e, após as Olimpíadas, Bernardinho se questionava se deveria continuar vivendo de sua paixão, ou abandonava o esporte de vez e se dedicava à área de Economia, faculdade que havia concluído em 1984. 

A resposta apareceu um ano depois, quando uma colega, e ex-jogadora de vôlei do Fluminense, ligou para Bernardo da Itália, oferecendo-lhe a oportunidade de treinar o time feminino da Perúgia. A oferta era vantajosa, porém, o time se encontrava em último lugar dos rankings europeus. 

Mas, o que poderia talvez ser um empecilho para outros, para Bernardinho foi a oportunidade que encontrou de dedicar sua vida profissional ao voleibol. Sem nunca ter comandado um time sozinho antes, Bernardinho conta em seu livro Transformando suor em ouro, que precisou estudar, aprender e ler muito. E em três anos, levou o time do Perúgia a conquistar a Copa da Itália; o vice-campeonato italiano; e o vice da Copa Europeia. 

Em 1992, deixou o time perugiano e comandou o time masculino do Modena, também na Itália. Após um ano, no final de 1993, retornou ao Brasil. 


Trajetória com a Seleção Feminina

Não demorou para que, pouco tempo após seu retorno ao voleibol brasileiro, Bernardinho fosse convidado a dirigir o time feminino da Seleção Brasileira, agora, definitivamente como o técnico principal. 

Sua estadia no time ocorreu de 1993 a 2000. Durante  os sete anos de comando, apesar de crises e desentendimentos, realizou uma trajetória recheada de títulos. Dos vinte e sete campeonatos que a seleção participou, em vinte e quatro as meninas subiram ao pódio. Entre eles, a primeira medalha do vôlei feminino nas Olimpíadas: o bronze de Atlanta em 1996. 

Além da medalha olímpica conquistaram um ouro, quatro pratas, e um bronze no Grand Prix; três ouros no campeonato Sul-Americano; ouro no Pan;  dois ouros e uma prata no Montreux Volley Master torneio feminino que ocorre anualmente na Suíçae, para encerrar o ciclo, mais um bronze nos Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000. 

A maior rivalidade do time feminino nesse tempo, foi a seleção de Cuba, que era considerada, pela Federação Internacional de Voleibol, o melhor time feminino da década. Houve muitas disputas em quadra, além de confusões e provocações fora dela. Os dois países se enfrentaram vinte e sete vezes durante os sete anos que Bernardinho esteve na seleção. O placar, a favor de Cuba, ficou em 14×13 vitórias. 

Durante os sete anos, o time se renovou várias vezes, mas o árduo trabalho realizado por Bernardo, e sua equipe técnica, fez com que o Brasil conseguisse lutar por medalhas todos os anos. O time feminino finalmente aparecia dentro do cenário mundial de vôlei como uma ameaça para as demais seleções. 


Uma nova mentalidade

Após deixar a seleção feminina, Bernardinho começou a ser convidado para dar palestras a muitas empresas pelo Brasil. E pode até parecer que voleibol não tem nada em comum com negócios, vendas e produções. Mas, a verdade é que o modelo de treinamento executado por Bernardo pode ser aplicado a qualquer área da vida que se deseja alcançar êxito.

Palestra de Bernardinho na cidade de Itaboraí  [Imagem: Sandro Giron/Flickr]

Fora os treinamentos técnicos exaustivos, às vezes criticados pela cobrança intensa, alguns princípios eram imprescindíveis para formar o grupo de Bernardo. 

Trabalho em equipe era o principal deles. Não existia, para Bernardinho, talento individual nenhum por mais incrível que pudesse se sobrepor ao grupo. A meta estabelecida para cada jogo, cada competição, precisava ser vivida por todos, se quisessem alcançá-la. 

Rubinho  auxiliar técnico de Bernardo entre 2006 a 2016, e atualmente técnico do Sesi Bauru disse ao Arquibancada que Bernardinho possui uma capacidade incrível de identificar em cada pessoa seu potencial e extraí-lo ao máximo, seja atletas ou comissão técnica. “Ele consegue perceber, ele consegue direcionar as pessoas que estão com ele pra fazer o seu melhor. E cada um fazendo o seu melhor, obviamente, ajuda o crescimento da equipe como um todo”, comenta.

Rubinho, braço direito de Bernardinho [Imagem: Reprodução/FIVB]

Trabalho e persistência eram outros elementos muito importantes para Bernardinho. O líder sempre frisou a importância do trabalho constante e incondicional para melhorar as habilidades de destaque, ou para se tornar  bom naquilo que era uma fraqueza. Para Bernardo, o talento só adiantava se fosse acompanhado de muito trabalho. 

Além disso, liderança, comprometimento, ética e bons hábitos eram valores inseridos constantemente nos times de Bernardinho. Ele procurava conhecer, e entender suas jogadoras fora de seus lugares em quadra, para trabalhar individualmente suas motivações e limitações. O treinamento passou a não ser apenas físico, Bernardinho ensinava lições de vida.


História na Seleção Masculina

Ao final de 2000, Bernardinho foi convidado para comandar o time masculino da Seleção Brasileira, após a saída de Radamés Lattarie, e a sexta colocação do time nas Olimpíadas daquele ano. Levou consigo toda a equipe técnica que havia desenvolvido durante os anos na Seleção feminina para esse novo desafio. 

O começo dessa etapa foi muito vantajosa para a Seleção. A equipe foi campeã do Campeonato Mundial em 2002; do Sul-Americano em 2001 e 2003; campeã da Copa do Mundo em 2003;  campeã da Liga Mundial em 2001, 2003 e 2004. 

E para encerrar o primeiro ciclo olímpico,  conquistaram a medalha de ouro olímpica  em 2004, na Itália,  após derrotar Rússia, Estados Unidos, Itália e Polônia. A “geração de ouro”, como ficou conhecida, foi um dos times mais vitoriosos do Brasil e impressionou mundialmente por seus talentos individuais.

Bernardinho conta também no livro, que um dos grandes desafios em comandar uma Seleção tão vitoriosa não era alcançar bons resultados, e sim, conseguir se manter sempre lá no topo. E é aqui que entra outra característica fenomenal de Bernardo. 

Segundo Rubinho, ele possui um alto grau de inconformismo, sempre está buscando mais: “Conforme as vitórias, é natural que exista uma postura de relaxamento, por achar que talvez ganhe na próxima, sem tanto esforço. E ele consegue imprimir na equipe uma forma de não parar, de não deixar de treinar, pelo contrário, está sempre exigindo mais,  para que ninguém caia em um relaxamento, ou em uma zona de conforto, como ele mesmo diz”

Resultado dessa postura, e de muito treinamento, foram os anos seguintes igualmente vitoriosos para a Seleção. Na Liga Mundial, o Brasil conquistou mais cinco títulos. No Campeonato Mundial, outros dois. No sul-americano, mais seis medalhas de ouro. Nas Olimpíadas, protagonizou todas as finais, e conquistou ainda dois Pan-Americanos, e outra Copa do Mundo. Durante esses anos, a equipe masculina brasileira conquistou todos os possíveis títulos mundiais, e criou uma invencibilidade jamais vista antes no voleibol.

O último campeonato que Bernardo disputou como técnico da Seleção Masculina foi os Jogos Olímpicos do Rio em 2016, capítulo que merece destaque em sua história. O evento, por ter sido realizado em casa, representava maior pressão ao time, visto que as mídias esportivas, e até mesmo o público, contavam com a medalha do vôlei para o país. 

Rubinho, que também estava em seu último ano dentro da seleção, diz que foi preciso uma preparação mental intensa para esses jogos, inclusive com psicólogos, para que os jogadores enfrentassem tamanha cobrança. Além disso, dos doze atletas que estavam no time, oito disputavam sua primeira olimpíada. 

Considerando todos esses fatores, foi uma trajetória complexa para a Seleção. Mas, mais uma vez, a equipe de Bernardo se mostrou preparada e focada em seu objetivo. E em uma final contra um grande rival brasileiro, a Seleção impôs 3 sets a 0 no time da Itália, sagrando-se campeã dos Jogos Olímpicos, e encerrando brilhantemente o ciclo de Bernardinho na Seleção.

Comemoração da medalha de ouro nas Olimpíadas do Rio 2016 [Imagem: Reprodução/ Ministério do Esporte]


A herança de Bernardo

Após vinte e três anos comandando a Seleção Brasileira de Voleibol 7 anos no time  feminino e 16 no masculino , e somando mais de quarenta títulos para o país, é indiscutível que Bernardo deixou seu legado. 

Bernardo também teve participação na criação do Centro de Desenvolvimento de Voleibol em Saquarema-RJ, em 2001. O complexo esportivo, de referência mundial, conta com cem mil metros quadrados, e  uma superestrutura de treinamento, alojamento e convívio. 

O local é importante para proporcionar aos times um tempo de preparação e de proximidade maior entre os atletas, que reflete evidentemente no entrosamento em quadra. 

O técnico foi um exemplo de liderança e obstinação para todos que o acompanharam, dentro e fora das quadras. E apesar do público associá-lo a uma figura explosiva, seu trabalho sempre foi direcionado a melhorar o ambiente e as pessoas em sua volta. Ele revolucionou a forma de treinar, transformou o Brasil em uma potência mundial do vôlei, e foi referência para muitos outros esportes.

O técnico do Sesi Bauru observa que ele criou, de fato, uma cultura dentro do Voleibol. A mentalidade imprimida lá nas primeiras gerações, 2001, 2002, era assimilada a cada novo integrante que chegava à equipe, e foi ocorrendo subsequentemente até os dias atuais. Ele diz que mesmo com as particularidades da nova gestão, claro, são evidentes as marcas de Bernardo.

Bernardinho sendo carregado na Rio 2016

Bernardinho carregado pelos seus atletas e comissão técnica  [Imagem: Reprodução/ Ministério do Esporte]


Pós-Seleção

Após deixar a Seleção, Bernardinho dedicou-se apenas ao comando do time do Sesc-RJ, equipe feminina que  coordena desde 2004. O clube é o maior campeão da Superliga Brasileira, com 12 títulos;  tetracampeão da Copa Brasil e do Sul-Americano ; e 16 vezes campeão do campeonato carioca. 

Em Julho de 2020, o Sesc-RJ realizou uma parceria com o Flamengo, e houve a junção dos dois clubes, agora, como Sesc Flamengo. Dentro do projeto, Bernardinho trabalha no treinamento de jogadoras mais jovens, pensando em uma possível renovação para a seleção feminina. 

Ele implementou também dentro do ginásio de treinamento do Sesc Flamengo uma mini biblioteca para as atletas. Em uma sala de convívio das jogadoras,  colocou uma estante com  livros entre eles, de esportistas e líderes de sucesso que o guiaram em sua caminhada para incentivar as atletas à leitura e trabalhar, igualmente, a parte mental. 

Esse comportamento é mais um exemplo que demonstra o diferencial de Bernardinho dentro do esporte. O técnico não se limita aos treinos convencionais, mas preocupa-se com cada aspecto de seus atletas, pois sabe o que é fundamental para se tornarem grandes, dentro e fora das quadras.

Além de técnico, atualmente Bernardo exerce outras atividades empresariais, e é dono da ONG Instituto Compartilhar, que ajuda no desenvolvimento de populações carentes por meio do esporte.


Desafios atuais

Em Abril de 2021, Bernardinho divulgou que irá assumir o comando da seleção masculina da França, assim que acabarem as Olimpíadas de Tóquio. A nova etapa será mais um desafio na carreira de Bernardo, que sentiu falta de viver a adrenalina de estar presente no cenário das grandes competições mundiais, como comentou Rubinho. 

O objetivo de Bernardo é levar o time francês à conquista do ouro na próxima Olimpíada, que será em território parisiense. Agora, nas Olimpíadas de 2021, que se inicia nesta semana, o Brasil e a França estão no mesmo grupo, e se enfrentaram logo, na quinta rodada da etapa classificatória. 

Apesar da decisão de comandar o time francês, o técnico ainda continuará com seus trabalhos no Brasil e não pretende abandonar o time carioca. 

*Imagem de capa: Capa do livro Transformando suor em ouro

 

Arquibancada
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