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Chick lits: uma referência para meninas adolescentes
Na Estante
08 mar 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Maria Eduarda Nogueira (mariaeduardanogueira@usp.br)

O que são chick lits?

Segundo a definição da Wikipedia, chick lits são romances leves, divertidos e charmosos que abordam as questões das mulheres modernas. Esse conceito, apesar de válido e útil para quem está fazendo uma pesquisa rápida, é um tanto quanto injusto por restringir essa literatura a algo simples e fútil – o infame “romance de mulherzinha”, como são apelidados no Brasil.

Nem sempre chick lits são leves e também nem sempre abordam com tanta representatividade os “dramas da mulher moderna”. Nathalia Dimambro, editora do selo Seguinte da Companhia das Letras, diz: “Me incomoda muito que exista esse rótulo de chick lit porque ele é associado a romances ‘água com açúcar’, leves, superficiais, sendo que muitos deles tratam de temas importantíssimos como depressão e violência doméstica. Também me incomoda o fato de que romances com protagonistas homens são sempre vistos como universais, representativos da experiência humana em geral, mas livros com protagonistas mulheres que discutem carreira, família e relacionamentos são classificados como ‘literatura feminina’”.

Embora consagrado atualmente por designar um gênero muito querido pelo público, dentro da literatura jovem adulto (ou young adult, em inglês), o termo surgiu como uma denominação pejorativa. Nos anos 80, a disciplina sobre literatura feminina na Universidade de Princeton (EUA) era apelidada de “chick lit”, sendo “chick” uma gíria para garota e “lit” a abreviação de literatura. Atualmente, a nomenclatura mais usual e profissional é romance contemporâneo.

Para entender melhor como esse gênero se manifesta, abaixo estão alguns exemplos dos chick lits mais célebres dos anos 2000, época em que esses livros tiveram seu auge:

  • “O diabo veste Prada”, de Lauren Weisberger
  • “Melancia”, de Marian Keyes
  • “O diário da princesa”, de Meg Cabot
  • “Os delírios de consumo de Becky Bloom”, de Sophie Kinsella
  • “O diário de Bridget Jones”, de Helen Fielding

Quem lê, quem escreve?

A fim de abordar o tema de maneira mais ampla possível, é preciso saber a perspectiva de quem está a todo momento em contato com esse tipo de literatura. Dois exemplos notáveis são Aione Simões, blogueira literária, e Marina Carvalho, escritora brasileira, responsável por títulos como “Simplesmente Ana” e “Azul da cor do mar”.

Aione começou seu blog em 2011, motivada por um chick lit: em um passeio na livraria, avistou uma capa atrativa e cheia de ornamentos, que captou seu interesse. Após uma pesquisa na internet, percebeu que aquele livro estava sendo sorteado por um blog literário e pensou: “opa, como assim? Existem blogs falando sobre livros?”.

Depois desse primeiro contato com o universo literário online, não houve mais volta. Começou a acompanhar vários blogs, interagir com as criadoras, comentar os posts, até criar sua página na internet – cansou de ser espectadora, resolveu protagonizar no seu próprio espaço. Uma decisão que parecia óbvia, devido ao seu vasto interesse em livros, mas que veio acompanhada de um certo receio. Aione venceu o medo e hoje é dona do blog Minha Vida Literária, que também marca presença no Youtube.

Marina se entusiasmou com as palavras logo cedo. Adorava escrever histórias e se expressar por meio da escrita, com a qual se relaciona de forma “apaixonada e dependente”. Formou-se em jornalismo, mas foi através do ofício de professora de português e literatura que a decisão de se tornar escritora se oficializou. Para ela, a melhor parte de escrever um chick lit é a diversão que as histórias desse gênero trazem, fazendo a autora ou o autor mergulharem no enredo.

Diga o que lês e eu te direi quem tu és

Ao reduzir os chick lits a romances fúteis, perde-se o grande potencial que esse gênero tem. Sua capacidade de influenciar positivamente adolescentes e jovens adultas na formação de seu caráter é algo que não deve ser desconsiderado. Na medida em que garotas entrando na puberdade, ou até mesmo saindo dela, se veem representadas por personagens – sejam elas tímidas, extrovertidas, desastradas ou sortudas –,  toda a sua concepção sobre si mesmas muda. Nesse contexto, o sentimento de identificação e até mesmo de pertencimento é o que sobressai, influenciando na autoestima, na confiança e no autoconhecimento de meninas ao redor de todo o globo.

Para Marina Carvalho, “os chick lits chegaram ao mercado literário em boa hora, porque apresentam histórias cujas protagonistas normalmente são mulheres dinâmicas, cheias de atitude, o que reflete o comportamento das meninas que apreciam esse gênero”.

A influência desses romances amplia-se até mesmo ao hábito de leitura. Meninas pré-adolescentes começam a ler histórias que captam sua atenção, com personagens semelhantes a elas e… de repente, tornam-se leitoras ávidas, que levam seu amor por chick lits para além do universo do livro. Um exemplo disso é a popularidade das Bienais e Feiras Literárias, onde filas gigantescas se formam para conhecerem as escritoras preferidas e terem os livros autografados.

Dessa maneira, os enredos envolvendo peripécias amorosas, diários, delírios de consumo, aventuras cotidianas e situações constrangedoras não são apenas para o divertimento do público leitor. Eles atuam em uma esfera muito maior, utilizando-se do humor e do romance para transmitir mensagens sérias e que podem repercutir em toda uma geração de leitoras.

No aspecto comercial, o mercado editorial enxergou uma grande oportunidade, segundo Nathalia, pois as mulheres adolescentes e adultas tornaram-se parte de um “mercado consumidor grande e rentável”, levando à publicação de livros atraentes a esse público e à posterior criação de selos especializados.

Romance de mulherzinha?!

Por ser um gênero quase que inteiramente “para mulheres, de mulheres e por mulheres”, o chick lit sofre intenso preconceito por parte da sociedade e do meio acadêmico, que não reconhece essa literatura como algo relevante. A própria denominação “romance de mulherzinha” carrega um tom extremamente pejorativo e redutivo. Nathalia comenta que “na sociedade patriarcal em que vivemos, tudo o que é voltado ao público feminino é diminuído e ridicularizado, não só na literatura, mas também no cinema, na TV, na música — um ótimo exemplo são as boy bands”.

Aione, que é estudante de Letras na Universidade de São Paulo, diz que o preconceito com os chick lits vai além do meio acadêmico, pois também envolve a questão de gênero, já que “é uma literatura que se propõe a ser voltado ao público feminino, abordar temáticas deste universo: são protagonistas femininas em livros escritos por mulheres”.

Dentro dessa questão, a editora da Seguinte também opina: “há o fato de que muitos livros YA e chick lit são acessíveis, voltados ao grande público, e se tornam grandes best-sellers. A crítica, que valoriza apenas a ‘alta literatura’, tende a ver isso com maus olhos. Há uma opinião geral de que ter apelo comercial é sinônimo de não ter qualidade, uma ideia puramente baseada em preconceito literário”.

No entanto, retratar este universo é algo mais complexo do que as pessoas podem imaginar. Um possível empoderamento feminino entra em cena ao mesmo tempo em que falhas na representatividade podem ocorrer.

A presença de personagens brancas e de classe média que se encaixam nos padrões de beleza acaba por ser um clichê dentro do gênero, que se fecha a histórias de adolescentes e jovens adultas “fora do padrão”. Mesmo que narrativas sobre mulheres estejam sendo contadas, em uma atitude um tanto quanto empoderadora, é preciso também pensar nas falhas dos chick lits, que pecam ao desconsiderar a diversidade do público feminino.

É preciso considerar, porém, que as pautas feministas e das minorias são algo relativamente recente na sociedade em geral, o que se traduz em uma gradual metamorfose na literatura para mulheres, como cita Aione: “Está tendo uma mudança dentro do gênero porque as nossas discussões como sociedade estão mudando. Se eu ler um ‘chick lit raiz’ com os olhos de hoje, provavelmente vou encontrar vários problemas”.

Por isso, a crescente conscientização do leitor é um fator extremamente positivo para o universo da literatura. Ao demandar personagens mais diversas e cobrar pautas de interesse público, ele ajuda a construir um novo tipo de abordagem, que é bem mais inclusivo. Nos chick lits, isso se dá com a inclusão de personagens fora do padrão de beleza, de diferentes etnias e que afirmam sua identidade em meio a um mundo sexista.

Brazucas x gringos

É fato de que os chick lits se impõem com mais notoriedade nos Estados Unidos. Além de ser o lugar de origem do gênero, a indústria de Hollywood é também uma propulsora dessas publicações, ao levar para as grandes telas tantos sucessos literários, como “Os delírios de consumo de Becky Bloom” e “O diabo veste Prada”. O fato é que livros de comédias românticas adolescentes dão lucro e, por isso, são tão explorados. O universo de high school, com suas proms, jogos de futebol, líderes de torcida é extremamente romantizado e apelativo para o público jovem, em especial o brasileiro.

Contudo, é preciso avaliar até que ponto essa romantização dos chick lits norte-americanos não são prejudiciais à própria produção nacional. Marina Carvalho, sendo uma das representantes dessa literatura no Brasil, defende a máxima “cada macaco no seu galho”: “Sendo brasileira, prefiro retratar os costumes do meu país. É preciso incentivar a leitura daqui e promover o chick lit com todas as forças para que nossa identidade não se perca cada vez mais”.

Para Aione, ávida consumidora de livros de todas as nacionalidades, a principal diferença é a linguagem: “É muito diferente você ler um livro na sua língua, com piadas na sua língua do que você pegar alguma coisa traduzida. Quando lemos algo ambientado em um lugar que conhecemos, temos uma sensação diferente”.  

Além disso, o próprio contexto em que a obra está inserida pode influenciar na leitura. Em um período de tantas efervescências políticas e sociais, as denúncias através da literatura são cada vez mais notáveis. Um exemplo recente, que não se encaixa como chick lit, mas como literatura jovem adulto em geral, é “O ódio que você semeia”, de Angie Thomas. Nele, a questão étnica e a violência policial nos Estados Unidos são retratadas de forma explícita. Apesar do brasileiro médio ter consciência do que acontece nos EUA, a história é sentida de maneira diferente.

Em relação a isso, a dona do Minha Vida Literária comenta: “Todo livro está dentro de um contexto, não tem como fugir. Quando você lê um livro estrangeiro, você sai de uma realidade sua, nacional. Pode ser que isso influencie na leitura ou não, mas alguma coisa você perde. Quando o livro é nacional, há um maior ganho nesse sentido de compreender o contexto”.

Chick lits: um universo a ser explorado

Em suma, os chick lits constituem um subgênero com muito valor artístico e incrível capacidade de influência. A possibilidade de se identificar com uma personagem e suas vivências, a criação de um hábito de leitura e a afirmação da própria identidade são apenas algumas das várias vantagens que envolvem a experiência de ler um “romance de mulherzinha”.

A fim de incentivar a leitura, Aione Simões fez uma lista com três indicações de chick lits que valem a pena e explicou o porquê de sua escolha (você também pode conferir a resenha feita por ela em seu blog, clicando no título da obra):

“Tem muita questão emocional envolvida no sentido de que foi um livro que quando eu li, aos 15 anos, eu me apaixonei. Na época, eu pensei ‘que romance fofo, que história divertida’, então eu criei um carinho pelo livro e esse carinho com o tempo só foi se intensificando. A Sophia Kinsella é minha escritora preferida e minha referência dentro do gênero chick lit. Gosto porque o humor dela funciona demais para mim, são livros que eu leio dando gargalhada. Os romances são muito fofos, a maneira com ela envolve e cativa o leitor, sempre consigo me identificar de alguma maneira com as personagens.”

 

 

“É um livro incrível. Não possui um humor tão exacerbado por ser um livro muito mais voltado para o lado emocional, com passagens que dão um nó na garganta. É um daqueles livros que você termina com a sensação de quentinho no coração. Você passa a repensar a sua própria vida, você pensa nos seus sonhos, porque ele trata muito essas questões dos sonhos que deixamos para trás e, com isso, quanto de nós mesmos deixamos para trás. É uma história de resgate da protagonista que é muito forte, o centro da trama. É a personagem se redescobrindo e pensando em quem de fato ela é e o quê de fato ela quer.”

 

 

“Puxando ‘sardinha’ para os chick lits nacionais, o livro, além de ser muito engraçado, aborda muitas questões sociais e políticas do Brasil, revelando o próprio ativismo da escritora. A sua militância na obra não aparece de forma panfletária e sim de forma muito natural.”

 

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