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Cientologia e os prisioneiros da religião
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06 mar 2016 | Por Jornalismo Júnior

“Uma civilização sem insanidade, sem criminosos e sem guerra, onde o capaz possa prosperar, os seres honestos possam ter direitos e onde o ser humano seja livre para atingir maiores alturas, esses são os objetivos da Cientologia.” – L. Ron Hubbard, fundador da Cientologia.

A base da religião

A Cientologia gira em torno de um princípio básico: todos nós somos seres cheios de traumas, que ficam guardados no subconsciente de cada um. Essa parte “irracional”, que nós não percebemos, é chamada de mente reativa. Supostamente, ela guarda, em conjunto com a mente analítica, todas as experiências que temos, cheiros que sentimos, toques e visões. A analítica é a parte racional, que faz com que um indíviduo pense antes de agir e que toma atitudes bem planejadas e acertadas. Já a reativa carrega todos os eventos traumáticos que aconteceram na vida de alguém – é ela a fonte de toda a insanidade da população. Todos os distúrbios mentais, ansiedade, depressão e até problemas físicos vêm de um só lugar: da mente reativa.

O modo mais fácil de restaurar o equilíbrio e viver uma vida plena e feliz, segundo a Cientologia, é apagar todas essas experiências traumáticas. E, obviamente, é isso que a religião diz poder fazer por você. Os membros da igreja participam de audições – uma espécie de consulta, com um auditor treinado, que pede que você conte sobre as suas lembranças ou eventos passados. Mas não é só isso: utilizando um aparelho elétrico, o e-metro, o auditor é capaz de detectar quais memórias são prejudiciais. Uma corrente elétrica, de aproximadamente 1,5V, percorre o corpo do audicionado e passa para o aparelho, que aponta a variação de energia. O auditor percebe a oscilação e, a partir daí, é capaz de detectar a presença de pensamentos prejudiciais dentro da mente reativa.

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(Aparelho e-metro. Imagem: Divulgação)

Funciona mais ou menos assim: durante a sessão, a pessoa começa a falar sobre a relação com o pai, por exemplo. Em um determinado momento, o medidor aponta uma variação estranha: o auditor pede mais informações, e, sem se dar conta o indivíduo traz à tona uma lembrança de quando era pequeno, quando o pai foi violento e agressivo. A audição seria capaz de retirar a influência do episódio sobre a pessoa de hoje, que, assim, se tornaria livre para viver em plenitude.

Todo esse processo foi apresentado e explicado no livro Dianética – A Ciência Moderna da Saúde Mental, escrito porL. Ron Hubbard, em 1950. Depois de ficar por meses na lista de mais vendidos do The New York Times, a obra perdeu força. Hubbard, não satisfeito, resolveu então criar uma religião inteira baseada na Dianética: dois anos depois nascia a Cientologia. “Muito do que a Cientologia é, Hubbard havia escrito previamente na forma de ficcção científica (…) Ele transportou essas histórias imaginárias para a teologia dele”, diz o autor do livro Prisão da Fé – Cientologia, Celebridades e Hollywood, Lawrence Wright.

O começo

“Você não fica rico escrevendo ficção cietífica. Se você quer ficar rico, comece uma religião.”  – L. Ron Hubbard

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(Lafayette Ronald Hubbard. Imagem: Divulgação)

Em março de 1911, nascia Lafayette Ronald Hubbard, no Estado de Nebraska, nos Estados Unidos. O fundador da Cientologia era um aluno mediano – na verdade, nem chegou a se formar no curso de engenharia que cursava na capital Washington. Ele começou a se dedicar à escrita de contos populares de ficção científica, e obteve relativo sucesso na carreira, mesmo que não recebesse muito por isso.. Entre 1942 e 1945 serviu na Marinha norte-americana, mas nunca chegou a entrar em combate – Hubbard costumava dizer que havia afundado dois navios japoneses, quando, na verdade, atirou contra troncos de árvores e gastou a maior parte da munição em rochas submarinas.

Depois de fazer parte da Marinha, se estabeleceu em Los Angeles, onde participou de um culto de magia negra. Lá, conheceu sua primeira esposa, Sara Northrup, que, à época, ficou encantada pelo suposto herói de guerra que Hubbard dizia ser. No documentário Going Clear: Scientology and the Prison of Belief, sem tradução para o português, Sara afirma que só se casou com ele depois de ter sido ameaçada: se não se casassem, o namorado cometeria suicídio – foi durante esse período que o livro Dianética foi escrito. A esposa ainda relata que sofria agressões físicas: chegou a apanhar porque sorria enquanto dormia, já que, segundo Hubbard, ela estaria pensando em um outro homem. Depois de diversas brigas, o marido raptou a bebê do casal, levando-a para Cuba. Lá, ele torturava Sara, com diversas ligações mentindo que a criança estava morta. Por fim, retornou aos Estados Unidos e se divorciou.

O estrondoso sucesso da Dianética foi passageiro, e Hubbard estava disposto a garantir a sua renda com a fundação de uma religião. Para participar, era necessário ter bastante dinheiro – as audições e cursos oferecidos custavam caro e a medida que um fiél avançava na Cientologia, mais ele tinha que pagar. Como oficialmente não era uma religião, a seita tinha que pagar impostos, o que desagradava profundamente o fundador. Ele tentou, por diversas vezes, livrar a igreja das taxas, sem sucesso.

Em 1967, foi fundada a Organização Sea, que contava com navios para auxiliar Hubbard na expansão e fiscalização da Cientologia ao redor do mundo. Ele dizia também que estava estudando civilizações antigas, como elas funcionavam e como desapareceram. Os membros mais fiéis eram convidados a participar, tendo que assinar um contrato que durava 1 bilhão de anos (não, você não leu errado).

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(Contrato de 1 bilhão de anos. Imagem: Divulgação)

Durante a época como comandante da Organização Sea, Hubbard organizou a chamada Ética da religião. Segundo a “ética”, quando um auditor que estivesse no navio cometesse algum erro, ele deveria ser jogado no mar. Em 1970, quando a organização não era mais bem vinda em quase nenhum porto e Hubbard devia milhares de dólares à Receita Federal, ele se escondeu na Flórida. Ficou longe das lentes das câmeras até 1986, ano de sua morte.

Psiquiatras terroristas?

O método da Dianética é questionado por diversos grupos. Dois, em especial, acabaram por se tornar grandes inimigos da religião: a psiquiatria e a psicologia. Hubbard afirmou que todas as doenças, físicas ou mentais, são originadas na mente – elas seriam psicossomáticas. Assim, curando-se a mente através das sessões de audição, todo o resto ficaria curado também. Isso vai contra os princípios da psicologia e psiquiatria, ciências empíricas que utilizam medicamentos e pouco dão crédito à tratamentos como o da Cientologia, que utiliza um aparelho que mede a energia dos pensamentos. Como você deve imaginar, não existe nenhuma evidência científica que prove a existência da mente reativa e muito menos que mostre que realmente é possível medir pensamentos com eletricidade.

Para combater a “indústria da morte”, que é como os cientólogos chamam as práticas da psicologia e psiquiatria, a religião chegou a criar a Citizens Comission on Human Rights (Comissão dos Cidadãos para os Direitos Humanos), um grupo dedicado apenas a mostrar para o mundo a crueldade desses profissionais. Existe até um museu em Los Angeles, o Psychiatry: An Industry of Death (Psiquiatria: Uma Indústria da Morte), que apresenta um enorme leque de teorias conspiratórias. Para se ter uma ideia, lá é possível saber como os psiquiatras e psicológos foram culpados pelos seguintes eventos: morte de George Washington, ataques terroristas do 11 de setembro, holocausto, todos os tiroteios em escolas e até a morte da arte. Aqui já dá para perceber que se tornar um inimigo da cientologia pode não ser um bom negócio.

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(Museu Psiquiatria: Uma Indústria da Morte, em Los Angeles. Imagem: Divulgação)

O grande problema é que essa demonização é usada para controlar os membros da religião. Em casos de abuso de menores dentro da Cientologia, como o relatado aqui, os membros são convencidos a não denunciar o criminoso. Tudo porque ele poderia cair nas mãos de psiquiatras, e um membro da religião ser tratado pela psiquiatria é “inaceitável”. Além disso, a separação de Tom Cruise e Nicole Kidman, segundo os ex-membros, aconteceu porque o pai dela é psicólogo, e a atriz se recusou a cortar ligações com ele.

Almas intergaláticas

A Cientologia funciona em níveis: quando mais dinheiro um fiél dá para a religião, mais ele avança na hierarquia e mais segredos são revelados. Quando uma pessoa chega aos últimos níveis, ela tem acesso a documentos escritos pelo próprio Hubbard, que contam a verdadeira história do universo e da humanidade. É claro que esses arquivos não são mais tão secretos assim, afinal, você está prestes a ler agora o que eles dizem – em 1995, ex-membros decidiram vazar todas as informações na internet. Leia a história e tire suas próprias conclusões.

Há 75 milhões de anos, a população de todos os planetas vivia em um mundo parecido com o dos anos 50: as roupas, os carros, tudo era bem similar. Eles haviam elegido um governador para a confederação galáctica, chamado Xenu. O governador tinha que lidar com um dos maiores problemas da época: a superpopulação.

Xenu resolveu a situação da seguinte maneira: congelou pessoas, colocou-as em caixas e despachou todas em uma espaçonave. O destino era a Terra, ou Teegeack, como era chamado planeta prisioneiro. Os corpos eram jogados em vulcões, que depois eram atingidos com bombas de hidrogênio. Os espíritos desencarnados, chamados de thetans, entraram dentro de crianças recém-nascidas. Cada criança pode ter vários thetans dentro de si. Pronto: você acabou de descobrir a fonte e todos os males da humanidade, segundo a Cientologia.

Os traumas dos thetans passam para você, e eles se acumulam ao longo do tempo. Isso quer dizer que, durante uma audição, você está tentando expulsar todas as lembranças ruins de todos as pessoas que aquele espírito ocupou. Uma dor nas costas, por exemplo, pode ser proveniente de uma facada que o seu thetan levou há centenas de anos. E quando Hubbard estava a bordo da Organização Sea, estudando civilizações antigas, ele estava na verdade tentando encontrar um tesouro que ele teria enterrado quando era um príncIpe fenício.

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(Centro da Cientologia em Los Angeles, Califórnia. Imagem: Divulgação)

Achou bizarro? É um pouco, mas, até aí, nenhuma das religiões que conhecemos se baseiam em pincípios lógicos. Só que ninguém nunca teve que dar milhares de dólares para a Igreja Católica para descobrir que uma virgem deu á luz a um homem milagroso. Ninguém teve que pagar para o Islamismo para descobrir que o profeta Maomé ouviu os príncipios da religião através de um anjo. Esse jogo um tanto desleal é o que faz a Cientologia ser tão rica. É claro que eles possuem outros segredos: são eles que estimulam os fiéis a continuar injetando dinheiro na igreja.

Se agora você está se perguntando como e por que artistas como Tom Cruise e John Travolta se uniram ao grupo, você não está sozinho. A Cientologia possui um centro específico, com pessoas que trabalham só para atrair famosos. Mas esse não é o principal motivo: a fé que eles pregam diz que cada um pode ser o seu deus, o seu ser ser supremo. Essa é uma mensagem extremamente apelativa, principalmente quando grande parte das outras religiões coloca um outro ser acima dos humanos. Hubbard deixa isso bem explícito no seguinte poema:

“Você é um espírito, então

um deus

capaz

de criar espaço

e energia e tempo

e todas as coisas boas.

E aí você se rasteja, esquecido

de você mesmo e escondido

dos olhos de todos

fingindo que existe

uma fera

que anda e come e morre.”

Por Ana Luísa Fernandes
ana08m@gmail.com

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