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Com amor, Lover
Escuta Aí
26 ago 2019 | Por Por Gabriella Sales (gabriellasm@usp.br)

Lover: alguém que ama uma coisa ou pessoa designada. Em tradução livre, essa é a definição da palavra que dá título ao novo álbum de Taylor Swift, lançado em 23 de agosto. Em outras palavras, lover é uma pessoa que ama. Eis a melhor forma que a cantora encontrou, até hoje, para se definir e resumir o conteúdo de um álbum. O ponto central de Lover não é apenas o amor, mas também o processo de aprender a amar. 

Em um decreto de maturidade e consistência, a cantora deixa para trás a irreverência rebelde de Reputation (2017) e assume uma postura mais moderna, diferente de todas as suas outras obras até então. O sétimo álbum de Taylor é a concretização do seu processo de desenvolvimento como mulher e estrela da música pop, iniciado em Red (2012). A artista determina, de uma vez por todas, que não é mais a menina inocente da Pensilvânia, e muito menos a jovem deslumbrada com Nova York. Taylor deixa para trás idealizações e decepções e retrata o amor de uma forma sincera, diversa e real.

Trecho do videoclipe de Look What You Made Me Do, do álbum Reputation. [Imagem: Reprodução]

Através de faixas marcantes, que alternam batidas animadas com baladas profundas e enxutas, o álbum promove uma viagem por todas as sensações que o ato de amar pode proporcionar a quem se entrega a ele. A cantora e compositora finalmente se mostra pronta para assumir seus erros e acertos, sem transformar cada decepção em uma grande tragédia ou vontade de vingança. Por isso, a capacidade de fazer o público se identificar com os sentimentos descritos permanece como uma das maiores habilidades de Taylor, que sempre causou esse efeito sobre seus fãs. Entretanto, declarações de amor exageradas não mais funcionariam com um público que cresceu junto a ela, e por isso a mudança é, além de necessária, natural.

Taylor no vídeoclipe de ME!, primeira música do álbum, divulgada em maio [Imagem: Reprodução]

O ritmo contemporâneo de I Forgot That You Existed e Cruel Summer abrem o álbum com um certo tom de surpresa. Embora coerentes com o caminho em direção ao pop sintético, com marcas dos anos 80, que vinha sendo seguido pela artista desde 1989 (2014), as músicas apresentam uma roupagem mais moderna que segue a tendência do pop de adotar elementos do indie. Porém, o grande acerto de Taylor é apresentar outras propostas, como as melodias sinceras de Lover e The Archer e o acústico sentimental de Soon You’ll Get Better, com o trio Dixie Chicks. O equilíbrio fica evidente na própria composição das músicas. Enquanto que, nos primeiros álbuns de Taylor, as músicas eram compostas quase unicamente por ela, nos dois últimos as parcerias com produtores mainstream apareciam na grande maioria, se não em todas as músicas. Lover apresenta um bom balanço entre as duas possibilidades.

É essa diversidade que desperta o sentimento de que, apesar de ser uma proposta nova na carreira da artista, Lover contém elementos de todas as outras fases da cantora, porém com uma visão mais sóbria. A concisa It’s Nice To Have a Friend traz um tema há muito tempo favorito por Taylor, o retrato de um romance de uma vida inteira, como em Oh My, My, My, do seu primeiro álbum, Taylor Swift (2006). Contudo, o faz de uma maneira mais simples e cativante. Paper Rings traz a animação jovial de Stay, Stay, Stay, faixa de Red (2012) que destoa do tom magoado do álbum. Por outro lado, os acordes curtos de Death By A Thousand Cuts lembram a proposta de Clean, presente em 1989 (2014), e o tom irônico de Reputation (2017) ainda reverbera em canções como You Need To Calm Down e The Man

No vídeo de You Need To Calm Down, Taylor faz uma homenagem ao orgulho LGBT [Imagem: Reprodução]

A maior prova do crescimento de Taylor no álbum é justamente a forma que lida com o seu passado. Ao invés de recusá-lo, como no anterior, ela o absorve com cuidado. Ainda se permite agir de forma ingênua e apaixonada e recorda sentimentos da adolescência em Miss Americana & The Heartbreak Prince e I Think He Knows. Uma alegria mais infantil também aparece em ME!, com Brendon Urie, anteriormente lançada como single. Essas, assim como algumas outras faixas, passam batidas em meio à força do álbum, e se misturam mais com os estilos propostos nos dois últimos.

A atmosfera romântica toma conta do recém-divulgado clipe de Lover [Imagem: Reprodução]

Além da já famosa Lover, as inovadoras False God e Afterglow são pontos de destaque da obra, tanto por sua abordagem quanto pelas variações rítmicas, únicas na história das produções de Taylor. São faixas como essas que permitem o saldo do álbum ser positivo e efetivamente marcar uma mudança sutil, mas bem sucedida, na carreira da artista. 

Lover é o primeiro álbum de Taylor Swift do qual ela possui os direitos, o que foi evidenciado após uma polêmica envolvendo o dono de sua antiga gravadora, no último mês. Essa é parte de uma nova fase na vida da cantora, mais segura e discreta, que reflete diretamente no conteúdo do álbum. Não é o melhor de sua carreira, por trazer algumas melodias de difícil absorção, pouco contagiantes, mas com certeza é o mais consistente até então, e Taylor o canta com muita precisão e sinceridade. Torna-se fácil acreditar nela quando, ao fechar a obra, com a sentimental Daylight, diz: “Eu quero ser definida pelas coisas que eu amo, […] eu acho que você é o que você ama”. E, em Lover, ela garantiu – e admitiu – amar o amor. 

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