Home Escuta Aí Como as músicas cantam os vícios? – A representação das drogas nas canções
Como as músicas cantam os vícios? – A representação das drogas nas canções
Escuta Aí
25 out 2016 | Por Jornalismo Júnior

Lucy in the Sky with Diamonds, música dos Beatles com suposta alusão ao uso de LSD e polêmica repercussão, mostra o espectro que ronda o imaginário popular acerca dos vícios. Se a banda nega a referência, por que as pessoas ainda enxergam metáforas e subentendidos que a ligam à droga?

Historicamente, os vícios costumavam ser definidos como o uso de substâncias psicoativas, como o álcool, o tabaco e outras drogas. Porém, hoje, há um entendimento de que existem os vícios comportamentais, aqueles que se referem a compulsões repetitivas que causam consequências negativas para o indivíduo. No entanto, ainda não há um consenso em como classificá-los, pois eles acabam se confundindo com transtornos psiquiátricos.

De qualquer maneira, as músicas tendem a se distanciar dos conceitos científicos e refletem a maneira como os vícios são compreendidos pela sociedade. A maior parte delas aborda a dependência química, seja de modo explícito, velado ou banalizado. A ideia de que a mente humana pode atingir patamares desconhecidos instiga a curiosidade das pessoas, levando às mais diversas interpretações para as letras.

Esse é o caso de Lucy in the Sky with Diamonds. Por suas iniciais formarem “LSD” e sua letra apresentar termos surrealistas como tangerine trees (árvores tangerina), marmalade skies (céus de marmelada), cellophane flowers (flores de celofane) e kaleidoscope eyes (olhos de caleidoscópio), a música faz pensar que uma viagem alucinógena está sendo narrada. Porém, segundo John Lennon, a inspiração veio de um desenho que seu filho Julian fez de sua colega de classe Lucy O’Donnell. Ao voltar do jardim de infância, o menino disse que aquela era a “Lucy no céu com diamantes”, dando origem ao título da canção. Lennon sempre negou que a música fazia referência à droga, insistindo publicamente que a ideia surgira do desenho infantil.

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Desenho de Julian. Imagem: Reprodução.

 

O mesmo ocorre com  Hotel California, da banda Eagles. “Nós não tínhamos ideia de que aquela música iria afetar tantas pessoas no planeta como afetou”, disse o guitarrista Joe Walsh, no documentário History of the Eagles (2013). A canção conta a história de um viajante que se depara com um hotel de luxo onde resolve passar a noite. Inicialmente, parecia o lugar dos sonhos, mas vai se transformando em um pesadelo. Em certas passagens, sua letra deixa uma possível interpretação de que a entrada no hotel seria uma metáfora à iniciação nas drogas. No trecho my head grew heavy and my sight grew dim (minha cabeça ficou pesada e minha visão ficou turva), pode-se fazer uma associação aos efeitos de entorpecentes. As especulações ficam mais sintomáticas em seu parágrafo final.

Last thing I remember, I was

Running for the door

I had to find the passage back to the place I was before

‘Relax’ said the night man

We are programmed to receive

You can checkout any time you like

But you can never leave

A última coisa que me lembro, eu estava

Correndo para a porta

Eu tinha que achar a passagem de volta para o lugar onde eu estava antes

‘Relaxe’, disse o homem da noite

Nós estamos programados para hospedar

Você pode fazer o checkout a qualquer momento

Mas você nunca pode ir embora

Outra hipótese possível é a de que se referia, na verdade, a um hospital de psiquiatria situado entre Los Angeles e Santa Bárbara – o chamado Camarillo State Hospital.  O local recebia muitos artistas que tinham transtornos psiquiátricos, tuberculose ou vícios em álcool e drogas. A teoria é sustentada pela frase I heard the mission bell (eu ouvi o sino da missã0), já que havia uma torre do edifício com um sino desse tipo.

Porém, não há registros de que a canção seja, de fato, uma alusão ao uso de drogas. Segundo Don Henley, no documentário History of the Eagles (2013), “havia muita especulação ridícula sobre aquela música durante os anos”. Ele reconhece, no entanto, que ela possui uma mitologia só sua. “A minha simples explicação é ser sobre uma jornada da inocência para a experiência. Só isso.”

Já Glenn Frey estimula a curiosidade dos fãs ao admitir que ele e Don gostavam de músicas com significados ocultos. “E, talvez, em algum lugar naquela música, tem alguma coisa que é só sua e que ninguém nunca vai entender. Hotel California foi a nossa reação ao que estava acontecendo conosco”, disse no documentário.

Um pouco menos especulativo

Ok. Just a little pin prick. There’ll be no more aaaah! But you may feel a little sick.

Ok. Só uma pequena picada de agulha. Não haverá mais aaaah! Mas você pode sentir um mal estar.

Nesse trecho de Comfortably Numb, do Pink Floyd, não é difícil inferir uma referência ao uso de heroína, indo da sua aplicação aos efeitos colaterais. Essa droga, logo após ser injetada na veia, costuma provocar enjôos, tornando a menção quase explícita. Mas essa análise é mais pontual, não levando em consideração o papel da canção no filme The Wall e sua relação com a trajetória do personagem Pink. A música, por si só, conota esses sentidos, ainda observado em outras passagens.

I can’t explain, you would not understand

This is not how I am

I have become comfortably numb

Eu não consigo explicar, você não entenderia

Esse não é quem eu sou

Eu me tornei confortavelmente entorpecido

I do believe it’s working, good

That’ll keep you going, through the show

Come on it’s time to go

Eu realmente acredito que está funcionando, ótimo

Isso vai te manter em pé durante o show

Vamos, está na hora de ir

Há, ainda, músicas que falam sobre o uso de drogas de forma explícita, de modo que as referências sejam incontestáveis. Um exemplo é Heroin, do Velvet Underground. Não apenas a letra, mas também a melodia, compõem um relato fidedigno do uso de heroína – tanto no que se refere às sensações, quanto à consequente degradação. No início, baixo e bateria parecem mimetizar o pulso cardíaco em sua normalidade. Progressivamente, o instrumental vai acelerando, simbolizando a ansiedade em injetar a droga e a adrenalina seguinte ao ato. Quando o efeito passa, os instrumentos voltam a tocar mais lentamente. Esse ciclo se repete ao longo da música, como um reflexo da oscilação de humor decorrente do vício.

A letra em si está em completa sintonia com o que é sugerido pelo instrumental. A primeira frase já é bastante significativa ao deixar clara a onipresença do vício para além da excitação durante o uso. A sensação de estar perdido nos momentos de sobriedade é bem representada por I don’t know just where I’m going, que significa “eu não sei para onde estou indo”. O uso da heroína como uma fuga dos problemas do mundo material também é citado, acompanhado por agudos que beiram ruídos e que criam uma atmosfera extremamente agoniante. Entretanto, o eu-lírico parece resignado ao reconhecer que ninguém pode ajudá-lo, reforçando a ideia de que a música não se constrói sobre uma crítica ou uma exaltação do uso de heroína: trata-se apenas de um relato altamente verossimilhante.

When I put a spike into my vein.

Then I tell you things aren’t quite the same

Quando eu enfiar a agulha na minha veia

Então eu lhe direi que as coisas não são mais as mesmas

I have made the big decision

I’m gonna try to nullify my life

‘Cause when the blood begins to flow

When it shoots up the dropper’s neck

When I’m closing in on death

And you can’t help me, not you guys

Or all you sweet girls with all your sweet talk

You can all go take a walk

Eu fiz a grande escolha

Vou tentar anular minha vida

Pois quando o sangue começa a fluir

Quando isto chegar ao fim da seringa

Quando eu estiver chegando perto da morte

E vocês não podem me ajudar, não vocês, caras

Ou todas as doces meninas com suas conversas fáceis

Você todos podem ir embora

Heroin, be the death of me

Heroin, it’s my wife and it’s my life, ha-ha

Because a mainer to my vein

Leads to a center in my head

And then I’m better off than dead

Heroína, seja a minha morte

Heroína, é minha esposa e é a minha vida

Porque o caminho da minha veia

Leva ao centro do meu cérebro

E então estarei melhor do que morto

Because when the smack begins to flow

I really don’t care anymore

About all the Jim-Jims in this town

And all the politicians making crazy sounds

And everybody putting everybody else down

And all the dead bodies piled up in mounds

Pois quando a heroína começa a fluir

Eu realmente não me preocupo mais

Com todos os babacas desta cidade

Nem com todos os políticos fazendo sons malucos

Nem com todo mundo maltratando todo mundo

Nem com todos os corpos mortos empilhados em montes

Uma outra forma de abordar o vício em drogas na música é a partir da crítica ao seu uso. Em Vasilhame, o rapper Criolo tece um discurso bastante crítico ao uso normalizado do álcool. É o que logo indica o início da canção, com os versos: “Eu ouvi falar que os cara quer chapar, se pá / Beber até rinchar / Ah, será triste o fim / Álcool destrói o fígado e o rim”. Nesse sentido, a banda Alice in Chains lançou em 1992 o álbum Drain, totalmente voltado a expressar o que Jerry Cantrell e Layne Stanley – que faleceu de overdose – achavam do uso excessivo de entorpecentes. Eles defendem também o lugar de fala daqueles envolvidos nesse meio, sendo somente os usuários os que podem falar por si e seus sentimentos. É o que indica a música Would?, por exemplo, um dos clássicos da banda.

Into the flood again

Same old trip it was back then

So I made a big mistake

Try to see it once my way

Seguindo a maré novamente

A mesma viagem que eu fiz anteriormente

Então eu cometi um grande erro

Tente ver uma vez do meu jeito

Banalização?

Mas nem sempre as drogas, com seus efeitos a curto e longo prazo, são retratadas em toda sua complexidade. Não são raras as músicas que as banalizam, comparando-as, até mesmo, a estar apaixonado. A letra de Rehab, da Rihanna, por exemplo, é problemática quando diz ser preciso entrar em reabilitação para se recuperar de um amor – sua “droga favorita” –, considerando que existem situações de vícios em que realmente isso é necessário.

I gotta check into rehab,

‘Cause baby you are my disease

Damn, ain’t it crazy when you’re loveswept?

You’d do anything for the one you love

‘Cause anytime that you needed me I’d be there

It’s like you were my favorite drug

The only problem is that you was using me

In a different way than I was using you

But now that I know it’s not meant to be

I gotta go, I gotta wean myself off of you

Eu preciso entrar num centro de reabilitação,

Porque, querido, você é a minha doença

Droga, não é uma loucura quando você está completamente apaixonada?

Você faria qualquer coisa por quem ama

Porque sempre que você precisasse de mim, eu estaria lá

É como se você fosse minha droga favorita

O único problema é que você estava me usando

De um modo diferente de como eu estava te usando

Mas agora que eu sei que não era para dar certo

Eu preciso ir, eu preciso me livrar de você

Já a música Your love is my drug, da Kesha, vai ainda mais longe. O clipe de Rihanna é construído em torno de uma atmosfera down e da angústia de uma paixão que nem sempre é correspondida. Rihanna aparece triste, embora exista, no vídeo, toda uma sexualização da relação encenada com Justin Timberlake. Agora, Kesha, por sua vez, está se divertindo e sorrindo. Mesmo que Your love is my drug  possua temática similar – da droga do amor –, a própria melodia é mais animada, mais dance pop. Com isso, há toda uma banalização da referência às drogas: em determinada cena, por exemplo, Kesha exibe-se pintada em tinta glow, sensualizando em um cenário psicodélico.

Maybe I need some rehab or maybe just need some sleep. I got a sick obsession.

Talvez eu precise de alguma reabilitação ou talvez eu só precise dormir. Eu tenho uma obsessão doentia.

What you got boy it’s hard to find. I think about it all the time. I’m all strung out, my heart is fried. I just can’t get you off my mind, because your love, your love, your love is my drug.

O que você tem garoto é difícil de encontrar. Eu penso nisso toda hora. Estou deprimida, meu coração está frito. Eu não consigo tirar você da minha cabeça, porque seu amor, seu amor, seu amor é minha droga.

I’m addicted, it’s a crisis. My friends think I’ve gone crazy. My judgments getting kinda hazy.

Estou viciada, é uma crise. Meus amigos acham que eu enlouqueci. Meus julgamentos estão meio confusos.

I get so high when you’re with me, but crash and crave you when you leave.

Eu fico tão louca quando você está comigo, mas despedaçada e necessitada quando você vai embora.

panic

Capa do álbum Too Weird To Live, Too Rare To Die!. Imagem: Reprodução.

No entanto, a banalização não está apenas nos mais famosos ícones do pop. O Panic! At the Disco, que antes era visto como uma banda mais alternativa, hoje, tem algumas músicas que se aproximam de faixas pop de maior circulação – caso de Nicotine, do álbum Too Weird To Live, Too Rare To Die! Na letra, a paixão é dita como pior do que o vício em nicotina. Estar preso a uma dependência química é posto lado a lado a estar apaixonado: I taste you on my lips and I can’t get rid of you (eu sinto seu gosto em meus lábios e não consigo mais me livrar de você).

Ser uma banda considerada indie também não é sinônimo de ter músicas mais conscientes nesse sentido. Em Two Fingers, do Jake Bugg, a banalização aparece em uma perspectiva diferente: o cigarro é associado à sensação de liberdade e juventude. Ainda que a ideia esteja presente em toda a canção, ela fica mais evidente no refrão:

So I kiss goodbye to every little ounce of pain

Light a cigarette and wish the world away

I got out, I got out, I’m alive and I’m here to stay

So I hold two fingers up to yesterday

Light a cigarette and smoke it all away

I got out, I got out, I’m alive and I’m here to stay

Então dou um beijo de adeus para cada pedacinho de dor

Acendo um cigarro e desejo que o mundo vá embora

Eu saí, eu saí, eu estou vivo e aqui para ficar

Então eu levanto dois dedos para o ontem

Acendo um cigarro e fumo todos os meus problemas

Eu saí, eu saí, estou vivo e aqui para ficar

Ainda na temática do amor, os vícios nem sempre são mencionados de maneira banalizada. Habits, da Tove Lo, exemplifica uma situação em que, após uma desilusão amorosa, eles são usados como válvula de escape da dor e da realidade. O clipe, inteiramente em close no rosto da cantora, foca em suas expressões: ora de desespero, ora anestesiadas – motivações essas para buscar refúgio no uso de entorpecentes.

Spend my days locked in a haze

Trying to forget you babe

I fall back down

Gotta stay high all my life

To forget I’m missing you

Passando os dias trancada nessa névoa

Tentando esquecer você, amor,

Eu caio novamente

Vou ficar chapada toda minha vida

Para esquecer que eu sinto sua falta

Estando ainda muito relacionados às drogas, mesmo que cientificamente não sejam apenas uma questão de dependência química, os víciosabordados nas músicas continuam a instigar o imaginário popular. Como consequência, uma série de interpretações são feitas de letras que não necessariamente têm referências explícitasa elas; e quando têm, a complexidade do uso e dos efeitos é raramente abordada. Essa representação dos vícios reflete, então, nada menos do que a própria visão da nossa sociedade sobre eles.

Por Iolanda Paz Laila Mouallem
iolanda.rpaz@gmail.com | lailaelmouallem@gmail.com

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