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Da estante à rede: o mundo dos jovens escritores

Com os avanços tecnológicos e as mudanças no mercado editorial, as possibilidades de publicação foram ampliadas 

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05 ago 2019 | Por Leticia Cangane

A garota sorriu quando colocou o último ponto final. Olhar para a história pronta foi emocionante — só de lembrar de todos os obstáculos enfrentados para terminar de escrever, e olhar agora para o resultado… finalmente! Ela mesma achou que não conseguiria, em vários momentos. Pensou em desistir, afinal, é tão difícil manter a animação depois de um tempo, principalmente sem receber retorno. Parecia que ela não sairia do lugar nunca. 

Cada personagem levou semanas para ser desenvolvido. Até mapa astral ela fez! Pesquisa de significado de nomes, árvore genealógica, amigos de infância perdidos, a primeira vez que se apaixonaram, seus amores e fantasmas. E a trama então… Ela achava, no começo, que não seria assim tão difícil. Quero dizer, ela teve a ideia inicial, sabia como a história começava e como terminava, e até já tinha imaginado vários pontos no meio da trajetória. Então, era só escrever, não é? 

Mas a garota não contava com os bloqueios criativos. Nem com a dificuldade de encadear as ideias para levar a história do início ao final planejado, com verossimilhança e de uma forma que a agradasse. Deu preguiça, ela admite. Várias vezes. Mas quando ela terminava um capítulo e ele ficava perfeito, nada era tão bom quanto a satisfação de ler e reler o trabalho incansavelmente. Era instantâneo: o ânimo voltava e dava vontade de escrever até de madrugada! 

Ok, é isso. Terminei. Estou pronta para publicar, quero que todos vejam. A parte difícil já foi… certo?

A longa trajetória de um aspirante a escritor começa cedo, muitas vezes ainda na educação infantil, quando o contato com os primeiros livrinhos, histórias em quadrinhos e poemas de Vinicius de Morais começa. A paixão pela literatura vem de formas diferentes para cada um, mas quando nota-se, já está lá. Victoria Binaghi, de 19 anos, escreve desde que foi alfabetizada, ainda muito pequena. Ainda com cerca de 5 anos, a garota fez sua primeira história — nada muito elaborado, coisa de criança. Foi apenas o primeiro passo da sua jornada, que culminou na publicação de um livro aos 16 anos e na participação em duas coletâneas de contos. 

O campineiro Danilo Pessôa começou na poesia, lá para os 8 anos. Hoje, com 26 e prestes a publicar seu primeiro livro em versão física, Danilo conta que a qualidade dos poemas era “meio duvidosa, mas por conta da idade”. Para ele, a música também teve influência no seu estilo de escrita, que só migrou para os contos quando já estava com 15 anos. Na época, não teve nenhum “motivo especial” para entrar nesse mundo: sempre gostou muito de ler e escrever, então foi um caminho natural.

Victória não saia da biblioteca — as bibliotecárias eram suas melhores amigas; e os livros, seus companheiros desde pequena. Enquanto sofria bullying na escola, a jovem encontrou refúgio na literatura. Atualmente estudando Rádio e TV, Victória pretende seguir contando histórias, seja em forma de livros ou do audiovisual, com os roteiros que escreve. 

Victória Binaghi já tem três trabalhos publicados e muitos planos para o seu futuro na literatura [Imagem: acervo pessoal]

Entrando no mundo dos romances há pouco tempo, Danilo aponta que não desanimar é o principal obstáculo que precisa ser enfrentado pelos jovens escritores, “porque a escrita não é algo que o retorno, seja financeiro ou de público, vem rápido”. A Victória concorda e lembra que, durante o processo criativo, às vezes bate um medo de que ninguém leia ou se interesse pelo que está escrevendo. A paulista coloca que é uma situação difícil, em diversas situações o livro fica parado, sem ideias para continuar, ou então simplesmente precisa reescrever tudo de novo. 

E, é claro, existem as críticas. E o autor precisa estar pronto para lidar com elas, as quais não precisam ser levadas para o lado negativo. “A ideia que eu sempre dou é: se você tem um amigo próximo, mostre um pouco do seu livro, pergunte ‘o que você acha disso?’ Eu acho necessário você escolher pessoas próximas, de confiança, para te dar os primeiros feedbacks”, sugere Victória, que reescreveu seu primeiro livro depois da recomendação de uma amiga.

Com a história pronta, em mãos, é hora de decidir o que fazer com o texto, e os caminhos são vários. Além das editoras tradicionais (grandes, médias ou pequenas),  existem as editoras de nicho, que focam em assuntos ou gêneros específicos. Uma outra opção é o processo de autopublicação, custeado pelo autor, e as editoras independentes, que funcionam quase como gráficas. Paralelamente, livros artesanais e gêneros híbridos de publicação ganham espaço no mercado. Já no digital, há plataformas de suporte de texto como o Wattpad e a Amazon.

 

Editoras tradicionais

A garota estava em dúvida. Qual seria a melhor forma de publicar seu livro, agora que já estava pronto? O processo não era nada como ela imaginava. Na sua cabeça, iria mandar o texto para a editora dos seus sonhos, que leria e — Nossa! Descobriria seu talento! Então, ela fecharia um contrato, como uma “nova promessa da literatura”, e seu trabalho estaria em todas as estantes do país, com campanhas de divulgação na internet, sessões de lançamento com autógrafos e, claro, uma graninha entrando no banco. Aí, para o segundo livro, seria moleza: já teria o nome conhecido e uma quantidade significativa de leitores. 

Bom, parece que não é exatamente assim. Ela encarava a tela do computador, com a caixa de e-mails aberta e nenhuma resposta das editoras. Resolveu explorar as opções. Não existem só grandes editoras… É claro que ela queria uma dessas, mas talvez seja melhor começar mais devagar. Abriu o Google. “Editoras para publicação de livros.” Clicou na primeira. Tinha um número de telefone. Ela ligou. Contou que tinha escrito um livro e queria publicá-lo. Ficou empolgada quando ouviu “sim, claro, publicamos!”. Sem nem ler? Caramba! Mas aí veio a surpresa: ela precisaria pagar. Isso nunca tinha passado pela cabeça da garota! Ela teria que pagar para publicar o próprio livro?

A moça do outro lado explicou: 

— O livro vai com o nosso selo, entra no nosso catálogo. Nós cuidamos da diagramação e da capa, até fazemos o marketing. Você só precisa cobrir os gastos da produção. É como contratar um serviço: somos contratados para fazer isso para você. Depois, você participa dos ganhos com as vendas, claro. 

A garota agradeceu, disse que iria pesquisar mais um pouco e entrava em contato. 

Ao que parecia, ela não sabia nada sobre como o mercado editorial funcionava, e era a hora de descobrir, já que queria mesmo entrar nele. 

“O mercado editorial está passando hoje por um processo de muitas mudanças. Antigamente, o único jeito que você tinha de publicar um livro era via editora tradicional,” explica Paulo Verano, editor e professor do curso de Editoração na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Nesse contexto, o texto original deve ser enviado às editoras, que fazem a análise do material, checando a qualidade e a compatibilidade com a sua linha editorial. Outros aspectos também são considerados, como a “fama” ou “popularidade” do autor, para decidir se o livro vai ser publicado ou não.

Diversos fatores dificultam a entrada nas grandes editoras tradicionais. Entre eles, o planejamento anual de lançamentos, que possui um número definido de livros, gera grande competição por poucos espaços de publicação.  Uma consequência disso é que as editoras deixam de lado as “apostas”, ou seja, autores novos e desconhecidos do grande público, os quais não possuem garantias de retorno para as empresas. Victória Binaghi aponta que a seletividade é muito grande, com determinados nichos sendo privilegiados, como os livros de youtubers — “que nem eram eles que escreviam” — e os autores internacionais ou best sellers. “O mais difícil é que a gente quer editoras grandes, então a questão é como chegar até lá.”

As editoras mais comerciais fazem estudos sobre o retorno financeiro que os livros vão gerar.  Dão preferência para autores já conhecidos, seja dentro da própria casa ou não, pois a previsibilidade é maior e, consequentemente, os riscos diminuem. Por esse motivo, os escritores que fazem sucesso fora do país possuem maior facilidade de serem publicados aqui. Ainda pelo mesmo fator, a publicação de um primeiro livro é a mais difícil.

Uma figura que emerge nesse contexto é a do agente literário. Esses profissionais normalmente possuem contatos diretos com as grandes editoras e são procurados para auxiliar na publicação desejada. Os agentes literários são pessoas do mercado editorial que vão fazer a análise do livro. Se este for considerado bom, entram em contato com as editoras para divulgar o material e tentar sua publicação. A maior vantagem seria esse contato direto com a editora, uma vez que a quantidade de textos recebidos é enorme, e o papel do agente é garantir que o material receba atenção.

A experiência de Paulo Verano é bem representativa dessa realidade: 2 anos como gerente de publicação infantil da Ática, uma editora grande. Vários originais para avaliação. Muitos contatos de agentes literários. De editoras de fora. Originais de autores renomados que já eram da casa. Apenas um livro publicado chegou de maneira espontânea — e, mesmo assim, “mais ou menos espontânea”: era um autor que já publicava e que entrou em um espaço de apostas que o próprio Paulo conseguiu colocar na programação. 

Paulo Verano possui ampla experiência no mercado editorial e diz que é difícil, sim, a entrada no mercado, mas é possível [Imagem: Cecília Bastos/USP Imagens]

Ser publicado por uma editora tradicional é difícil, mas não impossível. Paulo Verano lembra do exemplo de Geovani Martins, autor de O sol na cabeça, que lançou o primeiro livro em 2018 pela Companhia das Letras e foi um sucesso de crítica e de público. Mas o material chegou via agente literário, que fez o intermédio entre o jovem autor e a editora. “Não tem fórmula. É difícil sim, dá para afirmar isso categoricamente. Mas não é impossível”, reitera Paulo.

Danilo Pessôa e Victória Binaghi tomaram outro caminho. A jovem até tentou uma editora grande mas, como não obteve sucesso, partiu para as menores, de autopublicação. Nesses casos, o autor faz um investimento que cobre os gastos com a produção do livro e a editora faz o trabalho de publicação completo. Depois, o autor ganha com as vendas do material. Victória conta que é o autor quem tem que correr atrás. Ela, junto da mãe, pesquisou editoras, ligou, conversou, analisou as propostas, os serviços oferecidos, os valores requeridos e, finalmente, escolheu a que melhor se encaixava com seu perfil. 

Danilo está prestes a publicar em formato físico seu primeiro livro. O contrato já está fechado e a data de lançamento definida: agosto de 2019. Porém, o trajeto não foi fácil. Segundo o próprio, “publicar livro físico é complicado porque, se você não tiver o pé no chão, vai acabar caindo na lábia de editoras que te cobram 5 mil reais para fazer a publicação. Não que seja errado, mas por 5 ou 6 mil reais você vai pagar tudo o que a editora precisa e ainda dar lucro para ela”. O jovem aponta que, muitas vezes, essas editoras não se preocupam com a divulgação do livro, pois elas já lucraram com o dinheiro que foi investido pelo autor. 

O processo de publicação em editoras desse perfil é mais simples, pois muitas vezes a análise e seleção dos textos não existe: caso o autor tenha interesse e possa pagar, a publicação é feita. O grande obstáculo nesse caso é financeiro, já que o autor pode não estar pronto para pagar o alto preço. Na verdade, em vários casos, o escritor nem sabe que a publicação é feita dessa forma. 

Todos os entrevistados acreditam que a chave para uma publicação satisfatória nesse tipo de editora é pesquisar muito. Existem empresas de autopublicação que aceitam, por exemplo, contra propostas de valores, e o processo acaba sendo mais acessível. Nestas, o autor e a editora dividem os custos da produção, com ambos investindo tempo e dinheiro. A maioria dos literatos iniciantes estão tomando esse caminho, que parece cada vez ganhar mais espaço entre a comunidade de autores e leitores, principalmente pensando no movimento de migração das plataformas digitais independentes para os livros físicos.

A autopublicação ou a publicação através de editoras menores pode ser uma porta de entrada para o grande mercado editorial. Paulo Verano aponta que existem diversos autores que começaram suas trajetórias literárias por esse tipo de veículo e hoje são publicados em grandes editoras — e o contrário também é verdade: autores renomados fazem o movimento inverso, partindo para as pequenas publicações a fim de testar outras experiências.   

Verano afirma que existem editoras independentes ou menores que cobram um investimento do autor, mas também há as que não o fazem. De acordo com ele, é importante que os jovens escritores tenham uma leitura mínima do mercado editorial, para fazer escolhas mais acertadas e atingir seus objetivos. 

 

As plataformas digitais

Publicação online? Oi? Tipo fanfic? 

Era como se o sonho literário da garota fosse uma bexiga, e alguém tivesse espetado ela com uma agulha. O ar se esvaía aos poucos, e a bexiga, murchinha, ia caindo no chão. 

Definitivamente não era um livro. Não era. Ou era? 

Digitou www.wattpad.com. “Onde as histórias criam vida.” A garota rolou a página e viu alguns nomes de autores conhecidos como propaganda. Começaram lá? Sério? 

Tinha várias histórias, capas e mais capas. Algumas sinopses bem interessantes. Era como uma livraria, só que digital. O ícone com o olho no canto superior das histórias marcava a quantidade de visualizações. Só podia ser brincadeira! Textos com milhares de leituras, milhões até. 

Ah, quer saber? O que custa tentar? 

A garota criou uma conta e clicou em “adicionar história”. Colocou o título, que tinha dado tanto trabalho para criar. Escreveu a sinopse. Acabou se empolgando, ela admite. O fato de o livro estar pronto parecia muito mais real agora. Colocou o primeiro capítulo. E o segundo. E o terceiro. Todos, até o último. Capítulo 34. Epílogo. Fim. 

Publicou. 

Será?

De fácil acesso e publicação gratuita, o Wattpad é a rede social “queridinha” dos jovens pelo mundo — seja para ler ou publicar seus originais. A interação com o público leitor é uma das maiores vantagens da plataforma, e a visibilidade para as editoras é grande. Fundada em 2007, a empresa nasceu da ideia de Allen Lau e Ivan Yuen de tornar livros e textos fáceis de serem acessados online. O aplicativo continua crescendo, lançando livros que se tornariam best sellers ao redor do mundo, como The Kissing Booth, que virou filme da Netflix em 2018, e a série After, com o primeiro volume adaptado para o cinema em 2019. 

Para utilizar o Wattpad, é necessário apenas criar uma conta, que é gratuita e pode ser usada tanto para ler e interagir com os outros usuários quanto para publicar textos de todos os gêneros. Victória conta que usou a plataforma por muito tempo, mas admite: podia ter insistido mais, porque “tem que perseverar para dar certo”. Talvez volte ao aplicativo no futuro. Segundo a garota, atualmente o autor precisa ser multiplataforma, se adaptar ao meio. “Em digital ou em físico, o que importa é que seja lido”, completa a autora. 

O Danilo começou publicando no seu blog pessoal, que está atualmente aposentado. Para ele, a vantagem é que podia postar o que quisesse, mas a desvantagem é que o alcance é baixo, ou seja, era muito difícil que o público dele chegasse aos seus textos. Dois anos atrás, migrou para o Wattpad, plataforma que mais usa atualmente. Com muita gente lendo e publicando em português, foi lá onde ele conseguiu público. Um de seus livros bateu a marca de dez mil leituras no início de 2019. O escritor ainda aponta que é um número ótimo, mas que não está nem perto do “alto escalão” do site, o qual chega a contar com milhões de leituras. 

Capa do livro “A Rainha de Gesso”, de Danilo Pessôa, no Wattpad. No topo, é possível ver os selos de premiações pelas quais passou

A vantagem para Danilo é que “você acha público, se souber divulgar. Fazer uma capa e uma sinopse que chamem atenção, e claro, ter um texto razoavelmente bom são o suficiente para atrair um público interessante.” Além disso, ser uma plataforma de leitura gratuita ajuda, pois uma quantidade maior de pessoas é atingida pelo texto. Porém, há desvantagens: zero retorno financeiro, por exemplo. 

Outro ponto a ser considerado é que existem gêneros mais populares que outros. No caso do Wattpad e de outros sites, os romances, principalmente os eróticos, ganham destaque. Então, segundo Danilo, não é saudável comparar números de leituras entre os gêneros, pois o público é diferente dependendo da temática. Na verdade, nenhum tipo de comparação é bom, pelo contrário — desmotiva. 

Vários autores mundialmente conhecidos do circuito literário atual começaram nessas plataformas, publicando originais ou fanfics (ficções feitas por fãs). Segundo Verano, isso acontece porque esses autores, que geralmente começam mais jovens, constroem uma rede de leitores ao mesmo tempo em que vão publicando e se desenvolvendo. Isso vai se tornando um valor: o autor move milhares de seguidores, o que o ajuda em suas experiências de autopublicação. Esse público tende a ser muito fiel, atraindo a atenção das editoras tradicionais, as quais buscam esses autores já testados e suas redes de leitores para publicação. 

Uma característica particular das plataformas digitais, principalmente do Wattpad, é que o autor é responsável por cuidar de todos os aspectos da sua publicação: da redação à divulgação, passando pela arte. Assim, o sucesso do trabalho depende muito do escritor. Danilo Pessôa diz que “o jovem escritor tem que se fazer. Tem que saber um pouquinho de assessoria de imprensa, de marketing. Tem que fazer suas próprias capas e sinopses escolher um título bom e tomar muito cuidado com erros ortográficos”. 

Outro serviço de autopublicação famoso atualmente é o da Amazon, no qual os textos são lançados como E-books para o Kindle, leitor digital da empresa. O KDP (Kindle Direct Publishing) é um sistema muito utilizado que, diferentemente do Wattpad e outros sites, remunera o autor de acordo com a saída dos livros. Neste, o escritor sobe seu livro, assina um contrato com a Amazon e esse material já aparece na loja, onde os leitores podem fazer o download. 

Danilo começou a usar o sistema da Amazon há um tempo, e está gostando da plataforma. Segundo o jovem, é muito fácil colocar o livro para circular, e o retorno financeiro, embora pequeno, é atrativo. Porém, ele lembra que, mesmo na Amazon, não há um suporte de divulgação e auxílio ao autor — ainda é ele por si mesmo. 

Além desses, existem vários outros suportes, entre sites, aplicativos e plataformas de e-books, que recebem textos na internet. Desde fanfics até poesia e quadrinhos, há lugar para todo o tipo de produção.

Graças às plataformas online de publicação, alguns mitos estão sendo derrubados, como a suposição de que as pessoas têm lido menos ou que, por causa da internet, apenas livros mais curtos são lidos. Como pode ser observado ao abrir um desses sites, os números de leituras são altos, chegando a casa dos milhões. Além disso, livros com mais de 500 páginas e séries literárias são populares entre os leitores. 

“Nós, da editoração, não temos que ver essas plataformas novas com preconceito, e os autores jovens menos ainda”, aponta Paulo Verano. Uma das principais vantagens de ser um escritor novo no mercado é a possibilidade de experimentar, e as plataformas digitais se encaixam muito bem nesse contexto. Verano lembra que as opções de publicação não se anulam: o escritor pode se autopublicar e publicar por uma editora tradicional ao mesmo tempo — é apenas uma questão de definir o quão exclusivo ele quer ser. 

A democratização vinda com as plataformas digitais também é um ponto a ser considerado. Com o surgimento dessas, qualquer pessoa pode publicar. Danilo Pessôa aponta que a indústria literária perde um pouco do poder de decisão e filtragem do que deve e vai ser publicado. Para ele, embora a qualidade do material possa cair em alguns casos, uma vez que agora não existem restrições de publicação, os bons textos estão presentes nesses suportes e acabam prevalecendo sobre os demais. 

 

Fora da curva – as outras possibilidades

Outros mecanismos de publicação também são possíveis. Prêmios de revelação de novos talentos, como o SESC de Literatura e o Barco a vapor, da editora SM, e concursos de seletivas de textos publicam material literário em diversos casos. Victória Binaghi já participou de dois livros de contos através de concursos da editora Andross, inclusive ganhou o prêmio de melhor conto da coletânea em um deles. Esse tipo de concurso costuma ser divulgado nas redes sociais, e o material é inscrito diretamente pelo autor. 

Manifestações literárias também vão ocupando cada vez mais lugares fora do comum na sociedade. A literatura periférica, por exemplo, é representativa no sentido de proporcionar novos caminhos de acordo com o contexto em que o material literário está inserido. Segundo Paulo Verano, o circuito literário na periferia de São Paulo é cada vez maior. O professor lembra que, embora os equipamentos culturais dominantes não ocupem esse espaço, a produção cultural e literária nesse contexto é rica.  Os escritores seguem se movimentando: seja em forma de saraus, rap e funk ou em livros, muitas vezes publicados pelas mesmas pessoas que já se organizam na região — e o resultado é muito significativo, chamando a atenção, inclusive, das grandes editoras tradicionais. 

 

Planos literários e o futuro

Quando questionados sobre o retorno financeiro, tanto Danilo quanto Victória foram categóricos: gostariam de viver de seus livros, mas sabem que é uma realidade difícil — e, além disso, escrevem porque amam, e não pensando no dinheiro em primeiro plano. “Eu não escrevo para ganhar dinheiro. Estou, lógico, me movimentando, fazendo algumas coisas para que a minha escrita dê um retorno financeiro, mas essa não é a finalidade em si. Se eu pretendo viver de literatura? Não é meu objetivo, mas eu gostaria muito”, disse Danilo. 

Victória pretende viver de sua escrita, mas não se restringe aos livros: “O artista tem várias maneiras de se comunicar ao mundo, e a gente não pode limitar. Eu gostaria de viver escrevendo, pode ser com roteiros, textos audiovisuais ou livros.”

Os dois, assim como a maioria dos aspirantes a escritores, conhecem as barreiras, onde o retorno financeiro demora para vir e nem sempre é o esperado. Paulo Verano afirma que o mercado literário é incerto por natureza, ou seja, não há garantia de retorno. A idealização também é um ponto a ser abordado nesse contexto: “Ah,  não dá para achar que você escreveu o primeiro livro e já vai ser famoso como a J. K. Rowling, sabe”, aponta Danilo. Ainda segundo Verano, salvo em casos excepcionais, os autores não vivem apenas dos seus livros, sobretudo com o primeiro. “São carreiras que se constroem”, coloca o editor. 

Para o futuro, Victória tem muitos planos. Entre eles, começar novos projetos, escrever novos livros e se formar na faculdade. A jovem também pretende, em breve, buscar um agente literário para ajudá-la na jornada em busca de uma grande editora. Danilo também não pretende parar: com o primeiro livro publicado em agosto e o segundo quase pronto, o sonho da literatura está apenas começando. 

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