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Do movimento olímpico ao paralímpico: diferentes micromundos no esporte
ARQUIBANCADA
18 jan 2021 | Por Sarah Lídice (sarahlidice@usp.br)

Todas e todos atletas têm uma história. De onde veio o interesse pelo esporte, quais foram os desafios enfrentados para conquistar reconhecimento e títulos na carreira… No esporte paralímpico, as narrativas são muitas. Cada atleta tem uma história particular construída a partir do potencial de sua deficiência.

Um levantamento feito pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) com os esportistas que atenderam aos Jogos Parapan-Americanos de Lima, em 2019, mostra que 52% deles haviam adquirido a deficiência ao longo da vida, de forma não congênita. Neste universo de atletas paralímpicos, há alguns que vivenciaram diferentes “micromundos” e acabaram por traçar uma dupla história no esporte: a de um atleta olímpico e, também, paralímpico.

O Arquibancada conta aqui algumas histórias de alguns desses atletas que, em vez de abandonarem o esporte por conta de impedimentos físicos, entraram no movimento paralímpico e reconstruíram sua carreira esportiva.


Susana Schnarndorf, de triatleta a paratleta

Susana Schnarndorf diz que já nasceu tendo a certeza de qual carreira queria seguir — e pensa assim até hoje. Na década de 1990, ela nadava, pedalava e corria diariamente: era atleta do triatlo, um esporte triplo que engloba circuitos de natação, ciclismo e corrida.

Ela conta que a adaptação ao esporte foi rápida e, em função dos bons patrocínios que tinha, dedicava-se exclusivamente aos treinos. Como triatleta, foi campeã brasileira por cinco vezes e completou 13 Ironman, a “Copa do Mundo” do triatlo.

Susana no campeonato mundial de triatlo, em 1995, no Havaí

Susana no campeonato mundial de triatlo, em 1995, no Havaí [Imagem: Arquivo pessoal]

Em 2005, Susana foi diagnosticada com Atrofia Multissistêmica (AMS), uma doença rara que afeta o funcionamento de vários sistemas no cérebro e que a fez perder gradativamente sua mobilidade. 

A atleta voltou a ter contato com a natação, integrando-se à seleção paralímpica em 2010, e destaca como essa mudança foi importante: “No início, não vislumbrava nada [possibilidades de novos caminhos no esporte]. Eu queria ficar viva. Depois veio o esporte, daí eu comecei a sonhar com a seleção brasileira, com a paralimpíada”.

Ela ainda comenta que, pelo fato de ter sido atleta de alto rendimento — com uma média de cinco a seis horas de treino por dia —, os sintomas da doença no seu corpo eram (e são) diferentes daqueles de quem tem a mesma doença, mas não pratica esportes.

A adaptação de Susana ao movimento paralímpico, contudo, não foi tão rápida. Sua memória corporal era ainda baseada em experiências esportivas anteriores à deficiência: “Essa adaptação, de estar ‘presa’ no meu corpo, em um corpo que não funciona mais 100%, foi bem difícil. Ainda é, porque na minha memória eu nado como eu nadava sem ter a minha doença”.

Seu desafio é, então, reaprender a nadar diariamente. “Cada dia eu acordo de uma maneira diferente. Tenho dias bons, mas tenho dias ruins também. Aprendi a lidar com a minha doença, a não me apavorar, a ter calma nos treinos quando eu não consigo fazer alguma coisa por causa da deficiência. É reaprender a nadar e a viver, todos os dias”, conta em entrevista.

Susana em competição de natação paralímpica

Susana em competição de natação paralímpica [Imagem: Arquivo pessoal]

Depois de sua entrada no movimento paralímpico, Susana Schnarndorf foi medalhista de bronze no Parapan-Americano de 2011, ouro no Mundial de Montreal de 2013 e prata nas Paralimpíadas Rio 2016, no revezamento 4x50m livre misto. Atualmente, mesmo com as adversidades provocadas pela pandemia do coronavírus, o foco é total para Tóquio 2021.


Começos promissores no futebol

Dois atletas que hoje fazem parte do movimento paralímpico começaram a vida esportiva com uma paixão em comum: o futebol. Bruno Landgraf e Cátia Oliveira foram jovens promessas do futebol brasileiro que, por imprevisibilidades da vida, tiveram os rumos de suas carreiras redirecionados.

Bruno conta em entrevista que, desde pequeno, o esporte esteve presente em sua vida. Praticou judô enquanto criança e depois começou a treinar futebol no time de sua cidade natal, São Lourenço da Serra, em São Paulo. Com 12 anos, passou na peneira do São Paulo Futebol Clube e entrou no time de base, treinando com mais intensidade e tornando-se guarda-redes do time. Landgraf também foi goleiro titular da seleção sub-17 campeã no Mundial da Finlândia, em 2003, sendo considerado um jogador promissor para o futebol brasileiro.

Bruno, quando era goleiro do São Paulo F.C.

Bruno, quando era goleiro do São Paulo F.C. [Imagem: Arquivo pessoal]

Cátia Oliveira, apesar do pouco tempo de prática como atleta, também era promessa. “Desde que eu tenho noção de pensar as coisas, eu estava com uma bola no pé. Sempre fui apaixonada por esporte, mas o futebol era a minha paixão, era o que eu queria fazer. Com o futebol, queria defender o meu país e ir para o mundial e para as Olimpíadas”, comenta com vivacidade a ex-jogadora, que esteve profissionalmente no futebol por apenas um ano e meio, à época dos seus 15 e 16 anos.

A virada na carreira desses dois esportistas se deu pelo mesmo motivo: acidentes automobilísticos que, em épocas e contextos diferentes, os deixaram tetraplégicos. 

Landgraf, que almejava representar o Brasil como goleiro nas Olimpíadas de Pequim (2008), acidentou-se em 2006, sofrendo uma grave lesão medular. No ano seguinte, Cátia também sofreu uma lesão na medula cervical que tirou a mobilidade de suas pernas, braços e tronco. O acidente ocorreu pela manhã, sendo que na tarde desse mesmo dia ela receberia sua primeira convocação para a Seleção Brasileira de futebol sub-17.


Landgraf: traves, velas e outros ventos

Depois do acidente, Bruno teve contato com a vela adaptada, na categoria skud-18. Essa modalidade, aberta a atletas com qualquer tipo de deficiência, é praticada por duplas, com a presença obrigatória de uma mulher. Foi assim que começou a trilhar um caminho nos para-desportos, acompanhado da atleta Elaine Cunha.

Ele comenta que o processo de transição de modalidades foi mais fácil por já existir uma “mentalidade de treino”, mas, mesmo assim, a mudança não foi simples: “Eu nunca tinha entrado num barco a vela, não tinha noção”. Ele conhecia essa modalidade na categoria olímpica, pelo fato de o Brasil ter grandes atletas e várias medalhas, mas desconhecia a vela adaptada.

Landgraf conta que o esporte ajudou — e ajuda — muito na sua preparação e na recuperação de seus movimentos: “Nos últimos anos em que eu estava velejando, treinava de quatro a cinco horas, tranquilo, sem cansaço”, o que contrasta seus primeiros contatos com o esporte quando, em poucos minutos de treino, seus braços já se cansavam pela falta de força.

Na vela adaptada, Bruno participou das paralimpíadas de Londres (2012) e do Rio (2016)

Na vela adaptada, Bruno participou das paralimpíadas de Londres (2012) e do Rio (2016) [Imagem: Arquivo pessoal]

Atualmente, com as determinações que retiraram a vela dos Jogos Paralímpicos de 2020 e 2024, dedicar-se a essa modalidade tornou-se mais complicado: “Fica um pouco mais difícil a questão do patrocínio, por não ter tanta visibilidade. O esporte paralímpico já não tem tanta visibilidade, algumas modalidades mais, outras menos”. O atleta, então, procura outros esportes, como a handbike e o rugby, para manter a parte física e também competir futuramente.


Cátia Oliveira: trocando os pés pelas mãos

Cátia Oliveira não pensava em jogar profissionalmente quando, seis anos depois do seu acidente, conheceu o tênis de mesa paralímpico. Naquele período inicial, depois da lesão, ela não vislumbrava novas possibilidades na carreira esportiva e praticava apenas como parte da recuperação. Hoje, é paratenista já classificada para representar o Brasil nas Paralimpíadas de Tóquio 2021.

Ela conta com emoção como começou a sua história profissional no novo esporte: “Quando fui para o meu primeiro campeonato foi uma coisa que não sei nem explicar. Acendeu de novo uma chama. Meu sonho voltou a brilhar, porque ele tinha se apagado. Pensei que eu não poderia mais fazer nada e me apaixonei pelo tênis de mesa de novo. Foi aí que começou”.

Cátia no mundial da Eslovênia (2018), onde levou a prata

Cátia no mundial da Eslovênia (2018), onde levou a prata [Imagem: Arquivo pessoal]

O fato de Oliveira ter sido atleta antes do acidente pode ter ajudado, mas ela destaca que o futebol e o tênis de mesa são categorias muito diferentes. “Troquei um esporte dos pés, pelas mãos, mas com uma lesão”, lembra a atleta ao falar de seus desafios e do intenso trabalho de fortalecimento: “Você tem que superar as suas limitações: não tenho o controle de tronco, não tenho força, mas tenho que pegar uma bola curta”.

Em 2018, na Eslovênia, Cátia levou a prata no primeiro campeonato mundial de que participou como paratenista. “Acho que não só a medalha, mas o resultado que o esporte paralímpico brasileiro está tendo, só mostra que a gente, nós do Brasil, os atletas paralímpicos, somos potência no esporte”, destaca. Agora, mesmo com a reviravolta alavancada pela pandemia, trabalha para chegar forte em Tóquio 2021 e conseguir mais medalhas — ou melhor, medalha de ouro.


André: um salto olímpico com pouso paralímpico

Nos anos 90, André Luiz Oliveira, dedicava-se ao atletismo em várias modalidades, com destaque ao salto em distância. Em 1997, com 24 anos, sofreu um acidente durante a prova de classificação para o Mundial de Atletismo. 

Ele narra o fato em seu blog pessoal: “Durante o salto, perdi o equilíbrio, e caí de forma inadequada, batendo o joelho esquerdo na borda da caixa de areia. Como consequência, tive lesões nos ligamentos, no nervo fibular e fratura na tíbia. Passei por três cirurgias, ficando com sequelas: perda parcial dos movimentos e sensibilidade do pé e perna, além de mobilidade reduzida”.

Quase oito anos depois, aquele salto olímpico, que desnorteou os rumos da carreira do atleta, gerou um pouso paralímpico que o levaria a saltar novamente: “Em 2004, trabalhando como árbitro numa competição paraolímpica, tive conhecimento que poderia ser um atleta paraolímpico. Foi aí que comecei a buscar informações de como poderia me classificar para competir. Em 2005, após oito anos, voltei às pistas”, escreve.

André competindo nas paralimpíadas de Pequim (2008) na modalidade do salto em distância

André competindo nas paralimpíadas de Pequim (2008) na modalidade do salto em distância [Imagem: Reprodução]

Sua performance como atleta paralímpico, na mesma modalidade em que se destacava no mundo olímpico, acabou gerando mais títulos: conquistou medalha de prata na prova de Revezamento 4×100 metros nas Paraolimpíadas de Pequim, em 2008. Participou também das Paralimpíadas de Londres, em 2012, dessa vez sem medalhas.

Ciro Winckler, ex-coordenador de Ciência do Esporte no Comitê Paralímpico Brasileiro, comenta sobre a recuperação de André: “O médico falou que ele nunca mais iria competir, ele competiu no salto em distância e foi vice-campeão mundial”.


Mais similaridades que diferenças

Os movimentos olímpico e paralímpico, dos quais todos esses personagens reais fazem parte, têm mais semelhanças do que diferenças. Winckler, que é também professor e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo, comenta que o ponto principal de distinção do esporte paralímpico é a diferença no sistema de classificação. 

“A classificação esportiva é a porta de entrada no movimento paralímpico, porque não basta ter uma deficiência, tem que ter uma deficiência ‘elegível’ para praticar o esporte”, comenta. 

Mudanças de classe por atletas, nesse contexto, são muito mais comuns e podem criar paradoxos: às vezes, o agravamento da doença pode ser “positivo”, na medida em que provoca uma mudança de categoria. 

O pesquisador destaca que, para as classes mais severas, como a da nadadora Susana, deve haver ajustes no treinamento, porque o corpo pode ter fadiga mais rápido: “Tem que treinar a mesma quantidade de dias, ter mesma rotina e regra. Só deve haver ajuste a partir do nível da deficiência, mas é bastante similar”, finaliza.

Mesmo com tantas similaridades internas entre esses movimentos, existem ainda muitos desafios a serem superados. Bruno Landgraf comenta que, atualmente, pelos jogos terem sido sediados no Rio em 2016, os para-esportes já são um pouco mais conhecidos. Contudo, a verba destinada e a mídia que tem o esporte paralímpico, assim como o olímpico, são poucas, o que gera dificuldades.

“Acho que a diferença é essa de visibilidade e, às vezes, um pouco também das empresas, de patrocinadores, conseguirem ver que um atleta paralímpico faz a mesma coisa, tem treinos iguais a um atleta olímpico. Não tem diferença, a única coisa que muda é o nome, de olímpico para paralímpico”, afirma o atleta.


Esporte para-todos

Para pessoas que sofreram perda de mobilidade e atividades motoras, o exercício é uma ferramenta valiosa para reaprender a usar o corpo e potencializar não só a organização neuronal, mas também a estrutura que permanece. 

A rede de hospitais Sarah Kubitschek, referência na saúde pública brasileira em tratamentos sustentáveis de reabilitação, aderiu ao tratamento com esportes nos anos 1980, contando hoje com dez modalidades. “Além de uma forma lúdica de exercitar os membros, surgiu a possibilidade de fazer uma nova carreira profissional para alguns pacientes”, conta em entrevista ao Arquibancada a presidente da Rede, Lucia Braga. 

“Tivemos diversos pacientes que iniciaram esportes no Sarah e se tornaram campeões paralímpicos em diferentes modalidades, como marcha atlética, hipismo, paracanoagem e tênis de mesa, entre outros”. Cátia Oliveira foi uma delas. 

Winckler, que pesquisa a relação de pessoas com deficiência no esporte, comenta ainda sobre um diferencial desses atletas: “[Para eles] melhorar a performance não é só correr mais rápido, saltar mais longe ou jogar algo mais mais longe. É também melhorar seu potencial de vida ou, como dizia o Oliver Sacks, o potencial criativo da deficiência”, em referência ao Dr. Sacks, neurologista que se interessava pelos contextos novos, e até mesmo positivos, propiciados pelas doenças.

E são justamente esses potenciais criativos que dão movimento aos esportes paralímpicos. “Você tem a determinação que os atletas têm para estar treinando com as dificuldades que o esporte paralímpico tem, então é sensacional”, destaca Landgraf.

“Depois que eu entrei nesse meio paralímpico, foi gratificante, porque com qualquer tipo de lesão você pode fazer um esporte. Para todas pessoas que vêm falar comigo, eu falo ‘assista às Olimpíadas, mas também às Paralimpíadas’”, sugere a atleta Cátia Oliveira, com animação.

Arquibancada
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