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Embarque nesse Carrossel
CINÉFILOS
23 jul 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Carolina Tiemi
carolinathaga@gmail.com

A franquia que inspirou o filme é longa: começa em Jacinta Pichimahuida, série infantil escrita por Abel Santa Cruz, autor argentino, na década de 40. Depois da republicação destes livros em 1967, as histórias migraram para outra plataforma, e inspiraram três novelas e dois filmes argentinos, três novelas mexicanas e um musical. Aqui, a trama originou a telenovela Carrossel e o spin-off Patrulha Salvadora, ambas produzidas e exibidas pelo SBT.

Em Carrossel – O Filme (2015), vemos as personagens conhecidas pela novela brasileira em fase de crescimento: nas férias, os alunos da Escola Mundial viajam para o acampamento Panapaná do senhor Campos (Orival Pessini), avô de uma das personagens, que cuida com amor e dedicação do espaço criado para divertir e ensinar as crianças. Porém, o vilão González (Paulo Miklos) e seu comparsa Gonzalito (Oscar Filho) tentam sabotar as brincadeiras e comprar o terreno, afim de transformá-lo em uma fábrica poluidora. De acordo com Maisa Silva, que faz a Valéria na trama, “a mudança foi que, além da gente ter crescido, nossos personagens amadureceram. E isso está presente nos assuntos, por exemplo nas paquerinhas”. “O público cresceu junto com a gente”, completa Jean Paulo Campos, o carismático Cirilo.

A adultização infantil e os clowns

carrosel_ofilmeAo analisarmos, porém, este crescimento o qual os atores se referem, vemos que se trata de uma mudança nos conflitos da trama, de cada personagem no seu âmbito interno e suas relações interpessoais, que se reflete, inclusive, nas falas. Quando a produtora Diane Maia viu a primeira passagem dos textos pelos atores mirins, notou que a linguagem usada já era infantil demais para aqueles pré-adolescentes que ali estavam, três anos após a gravação da novela. Os diálogos, então, se tornaram mais jovens, assim como o comportamento da turma. E para inserir todos os personagens dentro desse novo universo teen, os interpretes passam a cumprir papeis de nichos sociais, cada um. Cria-se a rica, o pobre, o romântico, a briguenta. E cada um é elevado à um nível de problematização que remete aos conflitos do mundo adulto: o amor e traição amorosa ou o desprezo pela convivência com outros tipos sociais e a luta contra um desenvolvimentismo desenfreado e destruidor. Algo que contrasta com a outra esfera, a dos adultos do mal. Ao mesmo tempo que essas vagas são preenchidas por representantes com uma média de 13 anos, os vilões são atrapalhados, cômicos, como esperamos de um filme infantil: aquele que faz as maldades mais simpáticas, que atrai o público sem medo, uma vilania de brincadeirinha. Nisto, Paulos Miklos e Oscar Filho fizeram bem -os grunhidos e ações caricatas de Gonzalito e a risada maléfica de González os tornam verdadeiros clowns da vilania.

A importância em pautar questões sociais

Tanto a novela, quanto o longa, tentam passar uma lição contra o preconceito. Seja ele racial, como vemos no caso do personagem Cirilo, seja ele expresso na chamada gordofobia, contra Laura (Aysha Benelli). Entretando, o elenco continua predominantemente branco, e o alvo das piadinhas continua sendo o único negro do grupo. Ainda que a história tente ilustrar o quanto os laços de amizade superam essas formas de discriminação, ao caracterizar personagens nordestinos e orientais, peca na estereotipação de ambos -a professora Graça, com seu sotaque deliciosamente nordestino, é uma personagem rasa, simples e atrapalhada, e Kokimoto é sempre associado às artes marciais nipônicas, usando faixas na cabeça e fazendo poses questionáveis.

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Essas presenças soam como tentativas forçadas de incluir grupos diversos no círculo de amizades, que correm o risco de ter efeito contrário no subconsciente do espectador, ademais ao considerarmos que a grande parte do público tem pouca idade, e ainda está formando suas ideias sobre o mundo e os seres humanos. Por isso, uma abordagem mais direta objetiva sobre esses temas, do mesmo modo como a preservação da natureza se mostrou na película, fez falta. Para um filme que ironizou a cultura das selfies com as cenas da Maria Joaquina (Larissa  Manoela) e uma novela que mostrou a rejeição e a desconfiança dos religiosos para com os ateus, as “soluções” no filme para o racismo e do bullying ficaram pequenas frente às brincadeiras hostis com o menino negro e a menina que está acima do peso dito “ideal”.

O novo som e as antigas referências

Um aspecto espirituoso e interessante de apontar é o fato do amadurecimento dos atores mirins tangir também a parte musical da série: se, enquanto crianças, as músicas tinham um estilo infantil, agora na adolescência, fez-se necessário mudanças até na harmonia, uma vez que, com a mudança natural do tom de voz, o produtor musical Fabio Góes precisou abaixar o tom das canções para se enquadrar no tom não mais agudo e infantil do elenco. Ao abraçar o novo modelo sonoro, Fabio também adaptou a letra para um ritmo mais moderno, e “Carro-céu”, além de ganhar uma nova cara, também divide espaço com a produção do titã Paulo Miklos, que ajudou na composição do tema do seu personagem. Entre os músicos do mundo adulto, a banda Queen aparece com uma homenagem para a música We Will Rock You. De acordo com os diretores Alexandre Boury e Mauricio Eça, os atores tinham o costume de cantá-la antes das gravações, como um time que entoa um hino. Ao ver esse momento de união do elenco, decidiram registrar a interpretação deles do rock britânico no longa-metragem. Do mesmo modo, é possível reconhecer traços do cinema de outras décadas. Difícil não lembrar de Esqueceram de Mim (Home Alone, 1990) em diversas cenas. Os diretores e a produtora assumiram: as referências estão sim na produçãoo e citaram também a inspiração de outras obras de Chris Columbus, como Gremlins (Gremlins, 1984) e Os Goonies (The Goonies, 1985), que enriquecem o produto final e divertem os espectadores não tão jovens.

Confira o trailer de “Carrossel – O Filme”:

https://www.youtube.com/watch?v=ni-3Kwd4RdE

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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