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Entre resistência cultural, os sebos
Na Estante
06 maio 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Sofia Aguiar

sofia.aguiar@usp.br

A calmaria e o aconchego invadem o espírito. A mente fica confusa sem saber para onde olhar. A imensidão de livros e catálogos entretém e, se deixar, permanecemos horas só analisando o nome das obras, as capas e lendo as sinopses. Ao mesmo tempo, o acúmulo traz a ideia de depósito. Não, não é um depósito, mas um lugar constantemente organizado. Com vocês, os sebos do Brasil!

A origem do nome é controversa. Alguns relatam que o termo “sebo” pelo aspecto ensebado que os livros ficavam quando ainda não existia luz elétrica. Outros dizem que ele surgiu pela própria dinâmica de leitura que, conforme manuseavam as páginas, elas ficavam sujas e com um aspecto ensebado. De qualquer forma, o termo se instalou na cultura nacional e fez com que o aspecto amontoado se eternizasse, em uma identidade de apresentação de um viés literário. Apesar dos anos, a essência não mudou.

Trabalhar em sebo é muito mais do que trabalhar em um depósito de livros. Sebo, na realidade, é um depósito de histórias, tanto as escritas no livros quanto, principalmente, a dos próprios doadores. É só chegar e o aconchego dos livros traduz um ar propício para compartilhar vivências.

E histórias incríveis são encontradas nos livros, nas conversas e, também, nos próprios sebos.

 

“As coisas têm vida própria. Tudo é questão de despertar a sua alma.” 

 Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez

A Livraria Louca Sabedoria, em São Paulo, é a representação dessa imensidão de contos. É um sebo referente a um serviço da Prefeitura, vinculada à Secretaria da Saúde, que tem a intenção de oferecer trabalho às pessoas em “situação de desvantagem”, referentes àquelas com maior dificuldade de se integrar no mercado de trabalho. A ideia do projeto surgiu dentro da saúde mental, como um serviço de tratamento. Denise Lazo é facilitadora do local e relata que, o que antes era destinado ao manicômio, agora preocupa-se em oferecer condição de vida. “Começa a ter os empreendimentos que vão se vinculando a ideia da economia solidária com algum tipo de trabalho mais saudável e foram se desenvolvendo.”

Surge, então, a livraria dentro de um espaço de tratamento visando a saúde mental. Conforme as pessoas foram doando livros, a ideia de sebo surgiu e a  livraria, até então sem espaço físico, se consolidou na construção do sebo. Continuando com a temática de saúde mental, Denise conta que vivem de doações, “mas conseguimos juntar várias obras. As pessoas se vinculam à ideia e passam a conhecer o espaço como um todo”.

Dentre histórias literárias, encontra-se a história de Ana Lúcia Rodrigues, trabalhadora do sebo. Ela estava em depressão e, certo dia, foi comer no local, onde também tem serviços de horta, artesanato e restaurante vegetariano. “Ouvi comentarem que precisavam de alguém para trabalhar já que não tinha muito trabalhador. Me deu uma coragem e falei que queria. Vim numa reunião e estou aqui até hoje, desde janeiro de 2018.” Pronta para completar seus 65 anos, Ana conta que começou organizando planilhas financeiras da livraria, passou pela do caixa e, depois, do empreendimento todo.

No meio tempo das responsabilidades, conta sobre a magia do sebo e como ele renovou sua vida. “ A energia que circula aqui é muito boa, gostosa, vem muita gente interessante aqui. Além disso, é muito legal o que recebemos. Temos livros de R$1, 2 e 3 para ser acessível para todos”.

Segundo Ana e Denise, sebo agrega. Agrega além da compra e extrapola para conversas e trocas de vivência. “Vem muita gente interessada em pensar, em refletir, ler um livro. Tem uma ideia”, relata Denise, que confessa também o ciúmes que sente quando compram o livro.

O catálogo dos sebos, no entanto, não se restringe apenas a obras literárias, mas passa também por vinis, CDs e DVDs. É, acima de tudo, um lugar que guarda história sob o prisma de agregar o antigo.

 

“Tudo depende do tipo de lente que você utiliza para ver as coisas.”

O Mundo de Sofia

França Martins trabalha em um sebo em Santos há vinte anos. Durante muito tempo, sentiu a necessidade de reestruturar a livraria e passou a oferecer discos também. Se identificando como livreiro e confessor pela confiança que ganha dos clientes, permitindo uma liberdade de conversa, França comenta que quem conhece a grande e boa literatura, busca por sebos. “Tem gente que procura remédio na farmácia e tem gente que está angustiado e  compra livro. Existe livro de educação financeira, psicologia.. Já vieram aqui até para comprar livro sobre como arrumar namorado. O que não pedem na farmácia, pedem aqui”.
Entre conversas com os clientes e como um bom conhecedor de literatura, França vai identificando o perfil da pessoa e o tipo de livro que procura. “Livros são didáticos e o ser humano é condicionado a aprender por eles. Ninguém acredita mais em conhecimento na conversa de sala, academia. Entendo que a pessoa é o que ela leu, não o que falaram para ela”.

Entre histórias que já vivenciou em seu sebo, França se encanta pela profissão e se orgulha do lugar em que trabalha mas admite que para lidar com livro é necessário ser livreiro. Exige-se, acima de tudo, uma sensibilidade de conhecer e saber ouvir.

Júnior é filho do dono do sebo Capítulo Primeiro, em Santos, e confessa encontrar em seu lugar de trabalho “uma paz difícil de achar”. Com uma livraria de mais de 20 anos e passada por gerações, seu sebo conta com diversos catálogos e, dentre eles, livros da própria cidade de Santos. “Muitas vezes os próprios autores santistas não acham seus livros em outros lugares e só encontram aqui. É grande valor histórico que mexe com a gente”.

Sebo Primeiro Capítulo [Imagem: Sofia Aguiar]

 

“Nunca temamos com os ladrões nem os assassinos. Estes são perigos externos, pequenos perigos. Temamos a nós mesmos. Os preconceitos, esses são os ladrões; os vícios, esses são os assassinos. Os grandes perigos estão dentro de nós. Que importa o que ameaça nossa vida ou nossas bolsas?! Preocupamo-nos apenas com o que ameaça nossa alma”

Os Miseráveis – Victor Hugo

Mesmo com a importância de um poço histórico e cultural, os sebos carregam uma constante declínio nas vendas. Eles resistem, mas cada vez mais estão mais propensos a desaparecerem do cenário nas cidades. Muitos culpam a ascensão da leitura virtual pela menor compra de livros, mas questiona-se se essa é a única razão que engloba a situação. Em que medida o interesse à literatura ainda permeia o imaginário nacional?

O surgimento de e-books levou uma migração do público dos livros impressos ao virtual. Pela facilidade e acessibilidade, o consumo por livrarias virtuais aumentou e fez com que os sebos tivessem que se reestruturar, como França, que começou uma parceria e, além do físico, migrou também para o virtual. Sebos tentaram se renovar mas o público se estagnou.

Júnior comenta que, embora o sebo tenha um vasto conhecimento, como livros de 1930, as pessoas já não ligam para seu valor histórico. “Os mais velhos vêm, conversam, contam dos livros que leram mas os jovens vêm, perguntam sobre o livro e saem. Ou só entram para dar uma olhada só para passar o tempo, conhecer o local”.

“Quando começaram os livros online, deu uma grande caída nas vendas, mas mesmo o e-book não está mais vendendo muito. Temos contato com a Martins Fontes e Saraiva e elas falam que mesmo assim estão ruins as vendas.” Em um dos bairros mais movimentados de loja de comércio e livrarias em Santos, o Primeiro Capítulo é, atualmente, o único sebo que resistiu e continua aberto.

Estabelecer um declínio dos sebos é, sobretudo, suscitar uma discussão sobre um possível ou real declínio de literatura no país. Enxergar os livros apenas como uma espécie de hobby acaba por defini-los como não necessários na constituição humana. Sob um aumento dos preços, o desinteresse se maximizou e fez com que livrarias e sebos fossem facilmente descartados do consumo nacional. E as primeiras consequências dessa nova visão já estão sendo representadas pelo fechamento de lojas e falta de circulação literária. Comprar livros passou a ser um símbolo de resistência à tal nova tendência.

O alto preço visualizado nas livrarias desestimula a leitura e implica em restringí-la como um fácil descarte no orçamento. Sob tal perspectiva, os sebos devem ascender-se como meio a ir contra tal ordem orçamentária. França reitera esse alto custo mas justifica: “Por isso que quem conhece, compra em sebo e não paga caro”.

Desde contos de fadas, suspense, transpassando pelo charme dos vinis e finalizando no aprendizado prático, sebos constituem um ideário nacional de consciência e resistência, didático, acessível e diverso. No entanto, assim como o cenário com ar de depósito que os sebos apresentam, o valor à antiga e grande literatura foi trancafiado em um depósito nacional de desinteresse. Aquém de uma reascensão da literatura, questiona-se até quando sebos resistirão.

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