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Especial Vinícius de Moraes: que seja infinito enquanto dure
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15 out 2013 | Por Jornalismo Júnior

Ícone da música e literatura brasileiras, autor de “Garota de Ipanema”, Vinícius de Moraes, o “poetinha”, faria 100 anos no próximo dia 19 de outubro

Por Vinícius Crevilari (vinicius.crevilari@gmail.com)

Foi no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro do Jardim Botânico, em 19 de outubro de 1913, que nasceu Vinícius de Moraes, um dos maiores expoentes da bossa nova – movimento da música popular brasileira dos anos 50. Além de cantor e compositor, foi diplomata, poeta e dramaturgo. Acostumado desde muito novo com as mudanças constantes de endereços pela cidade carioca, o que talvez tenha influenciado sua intensa vida boêmia, Vinícius começa sua carreira artística a partir dos 7 anos, compondo suas primeiras canções.

(Foto: Wikimedia Commons)

Também muito cedo, o “poetinha” – apelido dado por seu maior aliado da bossa nova, Tom Jobim – começa suas primeiras experiências com a literatura. Junto com dois colegas da escola, produz “Os Acadêmicos”, um épico escolar, feito em 10 cantos. Aos 14, conhece os irmãos Tapajós, com os quais realiza sua primeira parceria musical. Dois destaques dessa união são os sucessos “Loira ou Morena” e “Canções da Noite”, que tiveram relativo êxito na época.

Em 1933, Vinícius se forma Bacharel em Direito e no mesmo ano publica sua primeira obra, o livro de poemas “O Caminho para a Distância”. Este ano, aliás, fora muito fértil, pois também gravou com Joaquim Medina a canção “Dor de uma Saudade” e retomou a parceria com os irmãos Tapajós. No ano de 1935, publica “Forma e Exegese”, com o qual é reconhecido com o prêmio “Felipe D’Oliveira”, sua primeira condecoração literária. Na mesma década, torna-se adepto da Ação Integralista Brasileira (AIB) – partido de orientação fascista -, conhece e vira amigo de Carlos Drummond e Mário de Andrade e ganha uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas, na Oxford University. Volta da Europa com seu amigo Oswald de Andrade em 1939, com a eclosão da II Guerra Mundial.

Décadas douradas e Tom Jobim

A década de 1940 torna-se uma das mais frutíferas para nosso querido “poetinha”: publica “Cinco Elegias”, “Poemas, Sonetos e Baladas” e “Pátria Minha”, ingressa na carreira diplomática, dedica-se ao jornalismo – onde entra em contato com a crítica cinematográfica e conhece artistas memoráveis como Cecília Meirelles, Orson Welles, Pablo Neruda, Fernando Sabino, Oscar Niemeyer, entre tantos – e realiza uma extensa viagem ao Nordeste brasileiro, em companhia do poeta norte-americano Waldo Frank, onde muda suas concepções políticas, tornando-se um radical opositor da doutrina política fascista.

Apesar da morte de seu pai, do término de seu primeiro casamento e da perda de seu amigo Pablo Neruda, os anos 1950 também foram marcados como uma época fecunda para Vinícius. Nosso querido poeta se envereda por outros caminhos artísticos, colaborando com o diretor Alberto Cavalcanti na realização de um filme sobre o escultor Aleijadinho, compondo seu primeiro samba, “Quando Tu Passas Por Mim”, gravado pela cantora Aracy de Almeida e estreando sua primeira peça teatral, “Orfeu da Conceição”, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Destaca-se também, o lançamento de uma de suas obras mais memoráveis, a primeira edição de “Antologia Poética”.

Desta época, fica marcada na biografia de Vinícius de Moraes sua parceria com o cantor, compositor, pianista e violinista Antônio Carlos Jobim, mais conhecido como Tom Jobim. Desta união, surgiram obras inesquecíveis no imaginário bra, com ênfase para a composição do samba “Chega de Saudade” – marco inicial da “bossa nova” -, gravada pela primeira vez na voz da cantora Elizeth Cardoso (acompanhada pelo violão de João Gilberto) e o lançamento do LP “Por Toda a Minha Vida”, em 1959.

Contudo, o decênio de 1960 foram tempos de amadurecimento da bossa nova e da parceria com Tom Jobim; bem como da associação com outros artistas importantes da MPB. Neste mesmo período que surge a parceria de Vinícius de Moraes com artistas como Carlos Lira e Pixinguinha, que nasce o afro-sambra, criado por ele e Baden Powell – distinguindo-se a canção “Canto de Ossanha” – e é lançado o maior sucesso brasileiro de todos os tempos, a música “Garota de Ipanema”. Considerada a segunda canção mais tocada no mundo, ela já foi gravada em inúmeros idiomas e marca presença até no álbum póstumo da cantora britânica Amy Winehouse, “Lioness: Hidden Treasures”.

Ditadura e o fim da poesia

(Foto: Wikimedia Commons)

Porém, Vinícius de Moraes não saiu ileso dos anos de chumbo e sua aposentadoria compulsória da carreira diplomática, a partir do decreto do Ato Incostituicional Número 5 – o AI-5 – o deixou deveras deprimido, tornando a década de 1970 caracterizada pelo “início do fim” de sua carreira. Mesmo assim, publica o soneto “A Pablo Neruda”, lança LPs com Toquinho e o histórico álbum “Vinícius En La Fusa” – gravado durante um show na boate argentina La Fusa, em Mar del Plata, também em companhia de Toquinho e Nara Leão – e grava músicas com artistas como Chico Buarque, Maria Bethânia e Hermano Silva.

Falece devido ao um edema pulmonar, na manhã de 9 de julho de 1980, após se sentir mal pela manhã. Vinícius passara as horas antecedentes à seu falecimento em companhia de um de seus mais fiéis companheiros, Toquinho, planejando o lançamento do álbum de músicas infantis “A Arca de Noé”, com realce às músicas “Aquarela”, “A Casa” e “O Pato”. Deixou saudade para suas ex-mulheres e inúmeros outros amores, para seus 5 filhos e três netos e para o povo brasileiro.

O legado

Vinícius de Moraes faleceu há 33 anos, mas legou enormes contribuições na literatura e música tupiniquins. Nas letras, tendo feito parte da 2ª fase do Modernismo no Brasil (1930 – 1945), ajudou a guiar notadamente os rumos da poesia livre que havia sido criada pelos modernistas de 1922, adicionando à liberdade métrica, inquietação religiosa e filosófica. Na música, junto com Tom Jobim e João Gilberto, é considerado pai de um dos gêneros mais importantes da música mundial, a bossa nova, que encantou o mundo com a doçura e a languidez de suas melodias. Mais que difundir novos paradigmas musicais e literários, Vinícius transmitiu um novo jeito de olhar o povo brasileiro, através de um romantismo, uma melancolia e uma tranquilidade, até então desconhecidos por outros olhos.

“Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

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