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Esporte ou entretenimento?
ARQUIBANCADA
16 jul 2016 | Por Jornalismo Júnior
Luta de WWE (Imagem: Reprodução/extra.globo.com)

Luta de WWE (Imagem: Reprodução/extra.globo.com)

Por Breno Deolindo

O recente advento dos e-sports, a grande repercussão midiática de eventos norte-americanos como o Super Bowl e um crescente sucesso da WWE no Brasil retoma uma discussão que dura séculos: onde está o limite entre esporte e entretenimento?

Aquilo a que nos acostumamos

O futebol aos domingos não está livre de ser chamado de entretenimento. A transmissão televisiva é o principal indício dessa relação, mas ainda há outros fatores: a participação do público em momentos de pausa do jogo vem aumentando no Brasil, transformando uma partida num espetáculo maior.

Nos Estados Unidos, isso é parte da cultura esportiva local. Numa arena de basquete, todo intervalo conta com danças de cheerleaders, distribuição de camisetas por animadores de torcida e até mesmo eventuais pedidos de casamento acontecem. No futebol americano, idem. O show do intervalo do Super Bowl é uma produção à parte – outra equipe de câmera, som, iluminação e direção -, mas que se mistura muito bem com as emoções da grande final.

A própria memória esportiva é enriquecida por momentos alheios à competição em si. É impossível, por exemplo, pensar em Olimpíadas sem lembrar de momentos marcantes em suas aberturas e encerramentos. Ambos não estão necessariamente lado a lado, já que um evento pode ser facilmente lembrado apenas por aquilo que acontece dentro do campo, quadra ou piscina, mas algumas particularidades, como o choro de Misha encerrando as Olimpíadas de Moscou, são inesquecíveis.

A WWE

A World Wrestling Entertainment é uma companhia que promove inúmeros eventos de lutas, porém, como é de conhecimento da maioria, o desenrolar delas já está previamente decidido e formalmente roteirizado. Seria possível então considerá-la uma empresa esportiva assim como o UFC, por exemplo?

Primeiramente, é preciso deixar claro que todos os wrestlers da WWE possuem conhecimento de artes marciais e, entre eles, existe até mesmo um campeão universitário de wrestling (Dolph Ziggler, pseudônimo de Nicholas Nemeth) – suas capacidades atléticas são inquestionáveis, portanto.

No entanto, o que se coloca à prova em um duelo da organização não é necessariamente essa habilidade. Um lutador deste ramo cresce por seu carisma e identificação com os espectadores, o que se reflete em bons resultados no ringue – ao contrário dos esportes aos quais estamos acostumados.

Assim, a competição, prezada por muitos como um dos pilares da definição de esporte, é colocada em xeque. Não faz sentido, por exemplo, que uma equipe de futebol vença uma outra tecnicamente superior apenas por seu caráter. É ainda mais ilógico que uma partida dessas tenha todos os seus detalhes redigidos em um papel horas antes dela acontecer.

O tal carisma dos lutadores também é um ponto chave, já que aquele que sobe no ringue e aparece para as câmeras é um personagem interpretado por um cidadão comum. Tendo isso em mente, e considerando que os duelos são rotulados pela WWE como “entretenimento esportivo”, é muito fácil comparar os eventos a uma série de TV transmitida ao vivo.

Os videogames

Jogos eletrônicos, até pouco tempo atrás, eram apenas um meio de se divertir e passar o tempo livre. Contudo, alguns jogadores levaram isso além da descontração; um conhecimento intenso de cada personagem de Street Fighter, a criação de estratégias para derrotar um adversário previamente estudado e o olhar clínico direcionado à tela para contar o tempo entre um aperto de botão e outro. Esse conjunto, além de uma infinidade de outras características, cunharam um termo até então inexistente no nicho de videogames: profissional.

Culturalmente falando, a vitória de Daigo Umehara em uma partida de Street Fighter na edição de 2004 da Evolution (um dos maiores campeonatos de videogames do mundo) foi o primeiro pulso de um pensamento que atualmente é gigantesco.

É muito complicado diferenciar as reações dos espectadores da Evolution daquelas de uma arquibancada de futebol. Naquele momento, a diversão entrelaçou-se ao esporte de uma maneira inseparável. Confira o vídeo:

Hoje, Counter Strike, Dota 2, League of Legends e muitos outros que são instalados em computadores apenas para se jogar casualmente – assim como alguns marcam, casualmente, um futebol na quadra ou na rua mais próxima – são os chamados e-sports, que movimentam enormes montantes de dinheiro e lotam arenas com seu público.

A emoção

Mas, afinal, por que qualquer um desses exemplos consegue mover milhões de pessoas? Estádios se lotam tanto para o Wrestlemania quanto para o Campeonato Brasileiro de League of Legends e a final da Copa do Brasil. Por que um wrestler, um jogador de Dota e um atleta olímpico entram nesse ramo e se dedicam tanto a ele?

A resposta é muito simples e, por incrível que pareça, ela também justifica os milhões de tweets sobre o último episódio de uma temporada de Game of Thrones ou da novela das nove. Tanto o esporte como o entretenimento têm apenas um fim em sua existência: trazer emoções àqueles que estão envolvidos.

Não, o choro por um vice-campeonato não é o mesmo que aquele pela morte de seu personagem preferido – existem diferentes origens e tipos de sentimento, não é mesmo? Mas é impossível negar que a similaridade está lá. As duas coisas foram criadas, originalmente, para divertir; em diferentes naturezas e formas, sim, porém o cerne de ambas é o mesmo.

Etimologicamente, a palavra “esporte” está relacionada a “passatempo, divertimento”, segundo o dicionário Michaelis. Dada a intimidade entre os dois últimos termos com “entretenimento”, é possível afirmar que não há um limite concreto entre eles e, muito menos, uma necessidade urgente de rotular algo como um ou outro – ambos caminham juntos e, em algumas situações específicas, unem-se de forma inseparável.

Arquibancada
O Arquibancada é a editoria de esportes da Jornalismo Júnior desde 2015, quando foi criado. Desde então, muito esporte e curiosidades rolam soltos pelo site, sempre duas vezes na semana. Aqui, o melhor de todas as modalidades, de todos os pontos de vista.
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