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FLIP 2016 – 3º dia: Mulheres em cena
Eu Fui
03 jul 2016 | Por Jornalismo Júnior

A manhã do terceiro dia da Festa Literária Internacional de Paraty foi dedicada à Flipinha, de programação voltada para o público infantil. Sob uma tenda de circo, um ambiente colorido rodeado de livros e cheio de puffs convidava tanto os pequenos quanto os mais velhos para rodas de conversa.

As primeiras do dia a envolverem as crianças e adultos presentes foram as ilustradoras e autoras de livros infantis Angela Lago e Aline Abreu. Mostrando duas gerações diferentes, cada uma descreveu como entraram no meio e as dificuldades enfrentadas. Angela, que passou pelo boom da literatura infantil dos anos 70, conseguiu adentrar mais facilmente no mercado, apesar de viver na época da ditadura e ser mulher. Já Aline contou que teve dificuldades em achar uma brecha para entrar no meio, mas por sorte conseguiu lançar o primeiro livro com uma editora que acreditou no seu talento.

As mulheres também comentaram sobra as novas mídias. Angela, mesmo pertencendo a uma geração mais antiga, é entusiasta do livro digital. Acredita que não há como desprezá-lo e que é uma possibilidade de atrair o pequeno leitor de uma outra maneira, já que, além da imagem e do texto, pode-se trabalhar com o som, gerando interatividade.

Aline mostrou-se preocupada com o futuro da literatura infantil, já que o mercado se encontra em baixa. Angela, por sua vez, acredita que esse é momento de resistência. Os artistas não podem parar de divulgar os seus trabalhos e as redes sociais são um bom lugar para isso. “Povoem as mídias alternativas com seus trabalhos”, diz.

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Encontro de gerações mostra situações iguais em contextos diferentes. Foto: Beatriz Arruda

Em seguida, a correspondente de guerra Adriana Carranca se sentou para falar sobre seu livro-reportagem infantil Malala: a menina que queria ir para a escola (Cia das Letrinhas, 2015), que ganhou prêmios ao tratar com sensibilidade um tema difícil e transformá-lo em algo agradável para crianças.

Ao contar a história do livro e a vida da Nobel da Paz, Malala Yousafzai, que inspirou a narrativa, Carranca abordou a questão da educação no mundo e como esta é a melhor maneira de se acabar com desigualdades. “Se você tiver um mesmo nível de educação, você iguala todos”, conta.

A autora explicou como ao escrever o livro quis contar a história verdadeira, uma vez que as crianças estão muito mais informadas e é preciso tratá-las com respeito. Mas ressalta que, apesar de ser honesta, usou uma linguagem específica voltada para os pequenos. Na roda, Adriana tomou o cuidado de, assim como no livro, voltar sua atenção para as crianças, desde as palavras que usou até as respostas das perguntas delas.

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Adriana Carranca responde as questões dos adultos, mas volta toda sua atenção para a criançada. Foto: Beatriz Arruda

Adriana complementou suas explicações apresentando às crianças as burcas e véus usados no Oriente Médio, mostrando como, nas palavras dela, “dentro do véu, há uma pessoa”, tratando dos estereótipos e tabus que costumam surgir no Ocidente. Finalizando, a autora contou como faz suas reportagens, seus métodos de entrevista e sua motivação. “Viajei para escrever uma história de guerra, mas encontrei muito mais histórias de paz e superação.” E completou, abordando a questão dos conflitos no mundo, “se a paz não for para todos, ela não é para ninguém.”

As duas mulheres da FLIP

A mesa 14, “De Clarice à Ana.C, se iniciou ao meio-dia de sábado, trazendo como convidados Heloísa Buarque de Hollanda, amiga e editora de Ana Cristina César, e Benjamin Moser, biógrafo e fã número 1 de Clarice Lispector, além de mediação da poeta Alice Sant’Anna.

O propósito do debate, segundo a mediadora, era traçar um paralelo entre as duas mulheres já homenageadas pela Festa Literária.Abordando o primeiro contato dos palestrantes com as respectivas escritoras, Alice Sant’Anna contou ao público que “se Heloísa descobriu Ana Cristina, Benjamin redescobriu Clarice”.

Destacando as semelhanças entre as duas autoras, os palestrantes levantaram a questão da religião e da fé inabalável na linguagem, já que ambas foram inovadoras neste campo, além do fato de, para elas, a escrita ser, ao mesmo tempo, “vida e morte”, obsessão e libertação. Quanto às diferenças, Heloísa ressaltou que Ana C. “fingia o tempo todo, criava uma falsa intimidade com o interlocutor”, ao passo que Clarice era sempre sincera.

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Conversa procura mostrar as semelhanças e diferenças entre Clarice e Ana C., grandes mulheres da literatura brasileira. Foto: Walter Craveiro

A mediadora também abordou o fato de Clarice e Ana Cristina serem, ao mesmo tempo “tão herméticas e tão populares”, sendo tão difíceis de alcançar e entender, mas também completamente arrebatadoras. Segundo Clarice, seus livros devem ser lidos por pessoas de “alma formada”, destacou Moser, enquanto Ana C. contava que seus poemas eram voltados para aqueles de “coração puro e doce”, relembra Heloísa.

Por fim, os palestrantes entraram na questão do feminino em Ana C. Ela mesma definia a intimidade e a linguagem como aspectos inerentes à feminilidade, já que ser homem, para ela, era escrever narrativas com “começo, meio e fim”, como contou Heloísa, algo que evitava veementemente.

A mesa se encerrou com um áudio de Ana Cristina sobre o ato de escrever cartas e trocar correspondências, deixando no ar um sentimento profundo de necessidade de ler e compreender estas duas, que eram tão maravilhosas e enigmáticas à suas próprias maneiras.

A Nobel, Svetlana Aleksièvitch

Neste mesmo dia, o Sala 33 esteve presente na coletiva de imprensa com a primeira mulher ganhadora do prêmio Nobel de Literatura com um livro de não-ficção, a bielorussaSvetlana Aleksièvitch. Falando exclusivamente em sua língua mãe, a autora dos livros Vozes de Tchernóbil e A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, ambos publicados pela editora Companhia das Letras, respondeu perguntas de diversos veículos.

Primeiramente, foi perguntada sobre o papel da mulher em diversos setores, como na literatura e na guerra. Para ela, se o mundo estivesse nas mãos das mulheres, ele seria muito melhor, pois elas são mais interessantes no que escrevem e têm maior sensibilidade para tratar de assuntos difíceis, como conflitos e amor. Ela destaca que ainda não se chegou a um patamar de igualdade entre os gêneros: “A sociedade precisa aprender à tratar e defender as mulheres”, diz.

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Svetlana conta que sofreu com o machismo devido aos temas que tratava em seus livros, considerados literatura masculina. Foto: Giovanna Querido

Svetlana também citou o fato de não haver nenhuma diretriz que ensine à ser humano qualquer a ser voltado para o bem e que o mundo não dependente disso para ser melhor: “Não é questão de orientação política ou religiosa, mas sim humana.”

Questionada sobre a escrita de temas complicados, como conflitos armados, a autora tem uma opinião formada: “Os escritores que falam sobre assuntos como guerra, deveriam ser como cirurgiões”, destacando a necessidade destes de se distanciarem do acontecido para expressá-lo com maior objetividade. Disse ainda que muitos a veem como escritora de catástrofes, mas ela não se considera assim, apenas “coleciona almas humanas”.

Mais tarde, no mesmo dia, a escritora voltou a falar, dessa vez para muito mais pessoas, na mesa 16, Encontro com Svetlana Aleksièvitch, mediada por Paulo Roberto Pires. A conversa iniciou-se com a leitura de trechos dos dois livros dela publicados no Brasil, o que levantou a questão sobre a temática de seus romances: “Não são livros sobre guerra, mas sobre o mundo que esses acontecimentos criaram”.

Jornalista de formação, Svetlana disse que os jornais refletem informações banais e supérfluas, e ela se sentia muito limitada. Procurar algo mais profundo foi uma questão pessoal, já que desde criança gostava de ouvir histórias: ”Desde a infância ouvia as vozes dos homens. Meus livros expressam essas vozes”.

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“O mundo não vai ser salvo pelo homem racional”, alerta Svetlana Aleksièvitch. Foto: Beatriz Arruda

Foi traçado ainda um paralelo entre os desastres de Tchernóbil e Fukushima. Segundo Svetlana, o primeiro foi envolvido de uma ignorância generalizada, permitindo que ocorresse e se alastrasse para além de fronteiras geográficas. Já no segundo, as pessoas envolvidas sabiam como lidar com a situação e, mesmo assim, deixaram que as consequências de tal catástrofe fossem inúmeras. “A humanidade não aprende com seus erros”.

A autora, por fim, revelou que não pretende mais escrever sobre os temas conflitos e desastres. Tudo que ela tinha a dizer a respeito já foi dito, de acordo com a própria, e escrever sobre isso lhe custou um esforço físico e emocional, com o qual não pretende mais lidar. Revelou ainda que está trabalhando em um novo livro cuja temática é amor, um assunto, para ela, tão complicado quanto os anteriores.

Por Beatriz Arruda e Victória Martins
beatriz.arruda12@gmail.com | victoria.rmartins19@gmail.com

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