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‘Friends’: o que mudou no audiovisual desde a estreia da série
Controle Remoto
07 dez 2020 | Por Isabella Marin (isabellamarinsilva@usp.br)

No dia 22 de setembro, Friends celebrou 26 anos do lançamento de seu episódio piloto, em 1994. Desde lá, a sitcom consolidou sua fama e ganha cada vez mais fãs ao redor do mundo, apesar do tempo. A série marcou a vida da audiência dos anos 1990 e também das gerações posteriores. Com seu humor e drama, a diversão é garantida. Mas, afinal, como Friends consegue ser um fenômeno até hoje? E quais mudanças o mercado audiovisual sofreu desde sua estreia? 

 

A série

O ano era 1994. Uma época em que Madonna estava em seu auge, a música Only Wanna Be With You de Hootie and The Blowfish tinha acabado de ser lançada e, logo mais, nasceria o sucesso de Titanic (1997). É nesse cenário que se situa Friends, com os seis personagens principais: Monica (Courteney Cox), Rachel (Jennifer Aniston), Phoebe (Lisa Kudrow), Chandler (Matthew Perry), Joey (Matt Leblanc) e Ross (David Schwimmer). O grupo de amigos morava na cidade de Nova York e compartilhava suas vivências cotidianas e seus dramas em cada episódio — do início até seu término em 2004, foram exatos 236 capítulos. 

Elenco da série Friends: da esquerda para a direita, Lisa Kudrow, Matthew Perry, Jennifer Aniston, David Schwimmer, Courteney Cox e Matt LeBlanc. [Imagem: Reprodução/Sanjeev Mishra/Flickr]

Elenco da série Friends: da esquerda para a direita, Lisa Kudrow, Matthew Perry, Jennifer Aniston, David Schwimmer, Courteney Cox e Matt LeBlanc. [Imagem: Reprodução/Sanjeev Mishra/Flickr]

A série é uma sitcom, ou seja, uma comédia de situação. Este formato acompanha pessoas comuns, família, amigos (como é o caso de Friends) em situações do cotidiano, e apresenta tudo com muito humor. Normalmente, são gravados com plateia, que assiste e reage ao vivo às cenas, e são os responsáveis pelos “sacos de risadas”, ou claques, que aparecem nos episódios de vinte a trinta minutos que vão para a televisão. 

A sitcom tem também uma produção bem específica: por conta do baixo orçamento e por se tratar do dia a dia de um grupo de pessoas, as cenas se passam em poucos cenários — como o apartamento de Monica e Rachel ou de Chandler e Joey, o Central Perk, cafeteria onde os amigos se reúnem, e até o local de trabalho de Chandler. Tais cenas eram gravadas em estúdio, com o uso de aproximadamente quatro a cinco câmeras para gravar toda a ação, com algumas raras cenas externas ou em um tipo diferente de cenário.

Outras sitcoms que usaram o mesmo esquema de produção foram Seinfeld (1989), That 70s Show (1998) e The Big Bang Theory (2007), todas norte-americanas. Hoje, seriados de comédia já não costumam usar o formato de sitcom, é o caso de Brooklyn Nine-Nine (2013- ) e The Good Place (2016-2020).

Bea Góes, roteirista do curta Só Olhando e da websérie Quarentenados TV, relata que uma série como Friends já não é mais produzida atualmente. “Era gravado com platéia, em poucos cenários. Hoje, cada vez mais o público está exigente com a estética de um filme. Como as sitcoms não podiam ter um valor de produção muito alto por serem multicâmera e serem gravadas com plateia, esse tipo de produção não é mais tão bem recebida atualmente”, comenta a também criadora do canal Narratologia e mestranda na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), no Programa de Meios e Processos Audiovisuais. 

 

Smelly Cat, Smelly Cat,

What are they feeding you?

Smelly Cat, Smelly Cat

It’s not your fault

Não tem como ser minimamente fã de Friends e não conhecer a música Smelly Cat, de Phoebe Buffay. A canção é uma marca registrada da personagem e, ser cantora, ainda que cantando mal, é uma característica dela. Não só a música de Phoebe, como a limpeza excessiva de Mônica e as piadas de Chandler são elementos bem característicos de cada personagem. Esses pontos na construção da personalidade de cada um deles faz a série se destacar das demais. 

Porém, ainda que tais elementos sejam importantes, Rubens Rewald, roteirista, dramaturgo e diretor de diversos longas, como Corpo (2007) e Super Nada (2012), levanta outro ponto relevante para a fama de Friends: o reconhecimento dos telespectadores com os personagens. Segundo Rewald, a história de jovens que estão se tornando adultos consegue abranger vários públicos diferentes. A série capta não somente o público jovem que se identifica com aquilo que está acontecendo no momento, como também o próprio público adulto que, por uma questão saudosista, assiste o seriado. 

Notar como os personagens se mostram falhos e imperfeitos é mais uma particularidade que Rubens destaca como ponto de sucesso da série. “Outra característica muito forte, a partir dos anos 1990, são personagens imperfeitos, cheio de defeitos, erros e hesitações, o que facilita na sua identificação. Não são super-heróis ou super-heroínas”, explica.

No documentário Friends Forever (2019), longa que mostrou como eram os bastidores e conversas com os produtores, Warren Littlefield, presidente da rede NBC Entertainment na época que Friends ainda era produzida, confessou o que ele considerava ser o motivo de tanto sucesso do seriado. Pelas suas palavras, “o mundo hoje é o mais conectado que jamais foi, mas acho que, ao mesmo tempo, não nos conectamos. A série segue reafirmando como a verdadeira conectividade acontece e como são os relacionamentos reais”. 

Aliado à isso, há ainda um bom roteiro com uma boa construção da história. O elenco foi bem selecionado e cada história de personagem foi bem pensada, mas para isso tiveram de ter bons atores e produtores. “Os atores são muito importantes numa série dramática, eles vão garantir um pouco a identificação, esse binômio personagem-ator: não adianta um bom personagem com um ator mais ou menos, e não adianta um ator ótimo e um personagem mais ou menos”, comenta Rewald. 

Durante os dez anos, não houve saída de nenhum ator do elenco principal, apesar de alguns personagens secundários terem deixado a série. Os seis principais permaneceram por todo o tempo de produção, o que permitiu que os roteiristas se aperfeiçoarem na escrita das falas específicas para cada personagem, já sabendo como ficaria quando os atores fossem ensaiar. 

Na terceira temporada, David Schwimmer, o ator que interpretou Ross Geller, propôs que todos do grupo ganhassem a mesma quantia, US$ 75 mil cada um por episódio (apenas nesta temporada, conforme a série avançava esse valor se alterava). Essa mudança ajudou novamente os roteiristas, que não precisaram mais  usar personagens só para que aparecessem no capítulo e recebessem por isso. A liberdade ficou maior e fez com que as cenas fossem mais fluídas, sem mais tal obrigatoriedade.

O elenco principal de Friends reunidos brindando. [Imagem: Reprodução/TheWB.com/Flickr]

O elenco principal de Friends reunidos brindando. [Imagem: Reprodução/TheWB.com/Flickr]

 

Por trás das câmeras

Apesar dessa maior liberdade, era também necessário que continuassem seguindo uma ordem da trama que estava sendo contada e manter a linha do seriado. Normalmente, o responsável por manter essa estrutura narrativa é o showrunner ou um produtor que estaria mais à frente da série.  

Toda o seriado seguiu um modelo de episódios procedurais, ou seja, episódios que apresentavam início, meio e fim, como um ciclo. Esse formato mais independente possibilitava que as pessoas não perdessem partes importantes da trama caso não assistissem a um ou outro episódio, já que eles passavam uma vez por semana na TV, dentro da programação.  

Outro ponto alto é o drama serializado que a série segue. Trata-se do conflito central que move o seriado, que a inicia e, normalmente, quando resolvido, finaliza a série. Em Friends, a serialização se dá pelo relacionamento conturbado de Ross e Rachel, tanto que a série começa com a entrada de Rachel ao grupo e termina com a volta do namoro entre o casal. No episódio piloto fica evidente qual será o ponto central do seriado: começa com Ross relatando que só queria ser casado novamente, no momento exato em que Rachel aparece vestida de noiva. Nesse instante, os produtores fazem uma conexão entre os dois personagens, ainda que não fique transparente de imediato aos telespectadores. Confira a cena mencionada: 

“A partir dos anos 1990 começou a entrar um arco [narrativo], então mesmo nas sitcoms há um procedural com arco. As tramas se fecham no episódio, mas você tem cada temporada como uma super trama que vai indo adiante”, comenta Rewald. O roteirista também fala dos acontecimentos dentro de cada temporada e como o relacionamento de Ross e Rachel vai se movendo com o tempo: “Em uma temporada o Ross está afim da Rachel, mas ela não está nem aí, e isso vai passando de episódio por episódio. Em outra é diferente, a Rachel que está apaixonada, mas ele está em outra. Cada um desses episódios tem sua trama episódica e tem essa grande linha que é o arco”.

O casal Ross e Rachel da série Friends. [Imagem: Reprodução/Friends Tv Show/Flickr]

O casal Ross e Rachel da série Friends. [Imagem: Reprodução/Friends Tv Show/Flickr]

A roteirista Bea Góes comenta sobre a produção da série: “Apesar de ter algumas piadas sexistas, que eram comuns na época, as pessoas gostam da consistência: Friends entrega a mesma narrativa em todos os episódios. E essa consistência narrativa é atemporal”. 

 

Luz, câmera…AÇÃO!

Para colocar todo esse roteiro do papel em prática e dar vida a série, há um processo que leva tempo e muito esforço de toda a equipe.  

O documentário The One That Goes Behind The Scenes (2004) revela os bastidores das gravações de alguns episódios na época, principalmente o Aquele em Vegas: parte 2 e Aquele depois de Vegas, e mostra todo o processo da produção em si. Desde o trabalho da equipe que constrói o cenário, da que edita as cenas gravadas para ir ao ar, e ainda o esforço dos técnicos em criar efeitos sonoros. 

Friends ia ao ar todas as quintas-feiras, às 20h, após Mad About You (ou Louco por Você, em português) e antes de Seinfeld, outras sitcoms. Para ir ao ar na quinta, a equipe de roteiristas e os próprios atores tinham muito trabalho prévio. Primeiro, os roteiristas se reuniam para escreverem as falas, cada um contribuindo com sua ideia ou piada. Depois desse processo, que levava certo tempo, acontecia o ensaio dos atores junto aos diretores, que assistiam e faziam alterações naquilo que não tinha ficado legal. 

Conforme o documentário, a principal parte de um seriado como Friends, uma sitcom, é ter um roteiro engraçado de maneira que as pessoas entendam sem precisar de maiores explicações sobre, com conexões entre as falas dos seis personagens. Se uma piada não é tão engraçada, eles passam por uma longa noite de reescrita. “Acho que não é tão fácil quanto parece, senão não estaríamos lá até às 5, 6 e 7 horas da manhã com 14 pessoas incrivelmente inteligentes [reescrevendo]”, relata Marta Kauffman, uma das criadoras da série, no especial.

O dia da gravação era outro fenômeno: já começava com aproximadamente 500 fãs da série participando de uma escalação de 300 lugares para o show. Esses fãs ficariam aproximadamente cinco horas dentro do estúdio assistindo às cenas e sua filmagem para depois todo aquele material ser transformado em apenas vinte a trinta minutos de episódio. Nesse meio tempo, a plateia dava indícios do que estava funcionando ou não: se o pessoal não desse tanta risada com tal piada, os produtores se reuniam para tentar reformular a tira ali mesmo. 

Uma curiosidade interessante é que, na época, a série era exibida em formato de tela 4:3, devido ao formato das TVs de antigamente. Tanto que, se analisarmos o início do seriado, vemos que as principais interações entre personagens ocorria sempre no meio da tela, sem muita preocupação com as laterais. Com o tempo e com o desenvolvimento das televisões, a série passou a utilizar o formato 16:9.

Ross, Joey e Chandler no Central Perk na 4ª temporada. [Imagem: Reprodução/Ajfamoustk/Flickr]

Ross, Joey e Chandler no Central Perk na 4ª temporada. [Imagem: Reprodução/Ajfamoustk/Flickr]

 

A era da Netflix e do streaming

Hoje, a forma de produzir séries é diferente. Com o crescimento das plataformas de streaming, como a Netflix, outros modelos de produção passaram a ser utilizados. 

Bea Góes elenca duas mudanças principais: “A primeira diz respeito à qualidade da produção, as plataformas exigem nas séries de TV um padrão que antes só pertencia ao cinema”. A segunda, de acordo com a roteirista, diz respeito ao tempo de produção. “Há um bom desenvolvimento do roteiro antes da gravação, que também é detalhada, porque a série só será lançada quando todos os episódios estiverem gravados”. Esse sistema faz com que exista uma priorização da qualidade do trabalho em detrimento dos prazos estipulados, algo que ocorre mais na TV.

Outro ponto é que a maneira de consumo mudou. Antes, as pessoas apenas assistiam à série em sua programação, no dia que passava na televisão, e não a qualquer momento, como acontece hoje com as plataformas de streaming. Essa mudança possibilita também que as pessoas façam maratonas de séries, o tal binge watch

“Isso muda a característica não só da escrita do roteiro, como da produção. Você não precisa mais lembrar o espectador do que aconteceu na semana atrás”, explica Rewald. O dramaturgo cita também os ganchos entre os intervalos de comerciais na transmissão do episódio. “Não tinha que ter só um gancho final bom, tinha que ter um gancho comercial. O roteirista já escrevia com os breaks comerciais e, ao final de cada break, tinha que ter um gancho que garantisse que o espectador não ia mudar de canal durante o comercial”, algo que já não acontece mais.

A série Friends foi um fenômeno nos anos 1990 e, mesmo com as modernizações do mercado audiovisual, consegue manter seu sucesso e audiência ainda hoje. Há, certamente, muitos que não gostam da sitcom norte-americana. Porém, até mesmo essas pessoas não podem deixar de notar que Friends tem uma boa produção e muita influência nos dias atuais.

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