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Há política nos movimentos LGBT de hoje?
Eu Fui
14 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Foto: Daniel Terra / Jornalismo Júnior

Os primeiros dias de julho foram marcados por uma sequência de movimentos voltados para a diversidade, retomando os valores da comunidade LGBTQI+ na cidade de São Paulo.

A mais celebrada entre elas, a parada LGBT, ocorreu no primeiro domingo de junho e conteve inúmeras atrações e artistas diversos compondo os shows nos trios elétricos. Apesar do evento em si já ser muito conhecido por grande parte da população brasileira, a legitimidade política dentro desses movimentos ainda é indagada.

Sabendo do tema deste ano, “Nosso Voto, Nossa Voz”, o Sala33 conversou com Fábio Ortolano, membro fundador do coletivo LGBT “Mandala” (UFSCar-Sorocaba), doutorando em Psicologia Social na USP, multiplicador de cursos de cultura de paz e respeito à diversidade no Senac São Paulo e pesquisador das Paradas LGBT entre 2008-2014, a fim de esclarecer alguns pontos que ainda nos parecem incertos sobre a parada como sendo o movimento mais substancial da temática.

 

Fábio, você poderia explicar o porquê de estudar o conteúdo da diversidade tão profundamente?

Eu sempre acreditei nas Paradas do Orgulho de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) como espaços de emancipação e afirmação de identidades. E me interessei por estudar o tema por participar delas. Iniciei meus estudos sobre as Paradas LGBT de São Paulo (capital e Campinas) em 2008, quando fiz uma Iniciação Científica no curso de Bacharelado em Turismo, pesquisando o uso do evento como espaço de lazer pela juventude. Posteriormente, estudei a hospitalidade dos hotéis classificados como gayfriendly na cidade de São Paulo. No mestrado, em Mudança Social e Participação Política, estudei as concepções de sexualidade e direitos humanos dos participantes das Paradas LGBT de São Paulo e Campinas. Atualmente, mesmo não estudando as paradas, continuo acreditando em seu potencial de intervenção social.

 

Na sua concepção, qual a importância de um evento tão grande, voltado para a pluralidade, como a parada LGBT?

Acredito que temos duas grandes contribuições das Paradas LGBT.  Primeiro, a importância da manifestação das sexualidades diversas em lugares públicos, essa não sempre comum nos espaços de sociabilidade. Convém ponderar que as paradas congregam pessoas de várias regiões, faixa-etárias, religiões, classe social e raça, sendo assim um espaço democrático e inclusivo, ao passo que muitas vezes em outros lugares há menos aceitação social, inclusão e acolhimento. Segundo, vejo como importante a visibilidade massiva, trazendo o tema da diversidade sexual e das múltiplas identidades de gênero para a pauta cotidiana, não apenas nos grupos de militância, nas universidades e espaços educacionais. Assim, auxiliam na emancipação de pessoas que ganham força pelo reconhecimento e afirmação de sua existência. Lembro de uma entrevistada que dizia ganhar força para seguir no trabalho, onde não assumia sua sexualidade. Infelizmente, nem todos os ambientes são inclusivos e acolhedores da diversidade.

 

Quais impactos que o movimento tem na sociedade como um todo?

São vários impactos, positivos e até negativos. Positivos como a visibilidade massiva, a qual põe em discurso as sexualidades marginalizadas, dando voz a múltiplos sujeitos; a aproximação e sociabilidade de uma pluralidade de pessoas num espaço público e fora dos equipamentos privados de consumo, embora tenha aumentado uma programação paralela ligada a um circuito de mercado. Outro impacto positivo é o desdobramento que ela possibilita. Hoje, como professor, trabalho em várias multiplicações o respeito às diversidades e noto o quanto as paradas favorecem uma escuta empática do assunto.

E quanto aos impactos negativos, penso quando o evento reforça alguns estereótipos ocasionados pela dinâmica de grandes eventos, como uso abusivo de bebidas alcoólicas e exercício da sexualidade em público, potencializados em representações já preconceituosas. Associa-se no imaginário social as práticas do evento à promiscuidade, o que é um erro. É preciso contextualizar a reflexão, assim como quando pensamos no carnaval, nas festas universitárias, nos rodeios pelo interior, nas vivências do erotismo em geral. Não vejo problema nas práticas, mas sim nas lentes que usamos para julgá-las.

 

Atualmente, a parada encaminha mais para um movimento político ou de um “mero evento festivo”? E como se dava essa força política há alguns anos?  

Não me parece uma novidade o caráter festivo do evento. Ele sempre foi um ato de afirmação com um formato próprio. Sempre escutei sobre “ser um carnaval fora de época” no Brasil. Contudo, salvas as diferenças locais nas marchas e postura dos participantes, todas as paradas do orgulho LGBT mundo afora que já li primam pela afirmação e visibilidade. E elas têm contribuído muito para os avanços sociais, quando notamos a pauta da diversidade sendo incorporada em vários contextos e instituições, como escolas, universidades, empresas, casas legislativas, cartórios, famílias e até igrejas. São diversos movimentos que, mesmo não tendo ligação direta com as Paradas, certamente são influenciados por suas referências simbólicas. Além disso, não vejo problema algum em ser festivo, pois isso não elimina seu viés político. Inclusive, várias dimensões da consciência política são construídas por meio das Paradas LGBT, como a identidade coletiva, os sentimentos de justiça e injustiça, a vontade de agir coletivamente, o reconhecimento dos antagonistas, pois tudo isso é antecedido pelos afetos e sociabilidade. Muitas vezes temos uma ideia restrita de movimentos sociais, esperando modelos de scripts e atuação, quando na realidade também são múltiplos e diversos. Ademais, o simples fato de manifestar a sexualidade num espaço público já é político.

 

A posição de Fábio deixa claro o que extraiu ao longo dos seus anos de estudo, evidenciando  uma concepção fora do senso comum. No entanto, na primeira Marcha do Orgulho Trans que aconteceu na sexta-feira, 1 de junho, poderia-se perceber como esse grupo (transexuais, transgênero e travestis) é ainda mais marginalizado na sociedade.

Os militantes no trio reforçaram a vontade de serem tratados como seres humanos em hospitais e postos de saúde porque, além de silicones e cirurgias, esses indivíduos também adoecem como qualquer outra pessoa e o lado humanístico dentro desses ambientes hospitalares é extremamente insólito.

Hanny, mulher transexual heterossexual, estava presente na Marcha do Orgulho Trans e exprimiu um pouco de sua concepção a partir de sua vivência como membro da diversidade. Para ela, o grupo ao qual está inserida é esquecido na sigla (LGBT) e, por isso, é tão importante uma mobilização particular com o intuito de conceder maior visibilidade a essa camada suprimida pela comunidade patriarcal. É relevante mostrar “que elas estão no mundo, que elas também são gente”, mesmo Hanny não acreditando que o Movimento do Orgulho Trans terá um efeito na sociedade, em consequência da desunião da comunidade LGBT como totalidade e que a parada, até então, é insuficiente para ser de fato uma ação política.

São inúmeras questões que ficam no ar e essas inquietações servem para entender um pouco como as pessoas inseridas dentro desse contexto trazem o assunto em voga, fora do ângulo midiático que trabalha, em sua maioria, percepções conservadoras. Nesse sentido, as opiniões se somam para uma mobilização consciente na hora do voto, não esquecendo 2018 como ano eleitoral e a necessidade do país de uma força política que represente a pluralidade. Por isso, deve-se considerar as pequenas mudanças como reflexo de um grande marco no futuro, pois se o movimento LGBT chegou onde está hoje, exigiu muita batalha. As lutas diárias não podem parar, a força deve ser mantida e a comunidade LGBT deve dirigir-se à essas concentrações convicta de transformações, sem deixar de inserir nos ambientes políticos a representatividade, que ainda se encontra ausente no Brasil.

Por Daniel Terra
danielterra@usp.br

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