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Hibisco Roxo: O Feminismo de todo dia
Na Estante
10 fev 2016 | Por Jornalismo Júnior

Eu estou tentando desaprender diversas ideias de gênero que internalizei conforme eu crescia – confessa Chimamanda Ngozi Adiche em sua palestra para o TED Talks chamada We All Should Be Feminists. Estamos todos tentando, ou ao menos deveríamos, Chimamanda.

Chimamanda lançou em 2003 seu primeiro livro, Hibisco Roxo (Companhia das Letras, 2011). Em 328 páginas (que parecem 10, tamanho o poder do livro de prender a atenção) a personagem principal, Kambili, narra sua vida permeada por um silêncio que não a deixa respirar. Seu pai Eugene, um importante industrial nigeriano, destrói a vida de sua família dia após dia por conta de sua religiosidade extrema. Na vida pública, Eugene é respeitado por ser dono de um importante jornal e ajudar todos em sua comunidade. Na vida privada, sua família o teme e vive sobre uma corda banda, ciente de a qualquer momento Eugene pode tornar-se violento caso seja desapontado.

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(Legenda: Capa de Hibisco Roxo, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Imagem: Divulgação)

A narrativa nos faz parar de respirar a cada vez que Eugene está por perto para avaliar o comportamento de Kambili, seu irmão Jaja e sua mãe. A família vive em Enugu (cidade natal de Chimamanda), em uma casa suntuosa, com jardins e grandes portões. A desigualdade social da Nigéria permeia o livro, no caminho de Kambili de casa até a escola, nas doações feitas por Eugene. Os traços do colonizador aparecem nas atitudes de Eugene, na sua religião extremamente branca, no seu inglês “britânico” nas missas de domingo. Por esses e outros aspectos, Hibisco Roxo é um bom livro também para aqueles que querem conhecer melhor a realidade da Nigéria. Mas o traço mais marcante da narrativa é a transformação que Kambili sofre conforme a história se desenvolve.

O ponto crucial da transformação se dá por conta de uma visita de Kambili e Jaja a casa de sua tia Ifeoma (mesmo nome da mãe de Chimamanda), que vive em Nsukka e é professora universitária, mãe solteira de 3 filhos. Entre eles, está Amaka, que ironiza o comportamento de Kambili sempre que possível. A diferença gritante entre as duas meninas de idades próximas diz muito sobre como o convívio com um pai opressor e uma mãe submissa moldaram Kambili para não ser ninguém.

Chimamanda conta em seu discurso para o TED Talks sobre o que ouviu de um jornalista quando lançou Hibisco Roxo: Estão dizendo por aí que o seu livro é feminista. Não foi um elogio. Hibisco Roxo não é um livro que explica as origens do feminismo ou que pretende militar, mas demonstra como o comportamento feminista se dá na prática. Não existem passagens no livro de discursos sobre o feminismo, mas ele está ali. A narrativa nos mostra o quão dolorido é viver sob constante vigia de um pai opressor. Kambili fala baixo, não dá um passo sem se preocupar com o que vão pensar sobre ela, assiste a episódios de violência e permanece (por muito tempo) no silêncio que não a deixa respirar. O encontro tenso com a prima Amaka abre os olhos de Kambili para um mundo diferente, no qual mulheres estudam não para conquistar maridos, no qual mulheres dizem o que pensam, no qual mulheres existem. Amaka é a semente do feminismo que todas nós precisamos encontrar no meio do caminho.

Chimamanda é a árvore, talvez o hibisco roxo, que deu flores feministas. Beyoncé está entre as mulheres influenciadas por Adiche. Ela incluiu em novo álbum um trecho do discurso “We All Should Be Feminists” na música Flawless e se preocupou em empoderar suas fãs, o que tem se tornado cada vez mais frequente no mundo pop:

“My mama taught me good home training

My daddy taught me how to love my haters

My sister told me I should speak my mind”

O álbum que leva o nome da cantora tem ainda outra música que trata de questões feministas de maneira crítica, como Pretty Hurts. Beyoncé conta nesse vídeo que a música narra sua vida e sua trajetória como uma artista, e também sobre como Chimamanda Adiche cruzou o seu caminho.

“Pretty hurts

We shine the light on whatever’s worse

Tryna fix something

But you can’t fix what you can’t see

It’s the soul that needs the surgery”

Hibisco Roxo, Flawless e Pretty Hurts deixam claro porque todas nós devemos ser feministas. Amaka, Chimamanda e Beyoncé  tem feito um bom trabalho em semear o feminismo por aí.

Por Natália Belizario
nabelizarios@gmail.com

 

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COMENTÁRIOS
Júlia
Eu AMO a Chimamanda e AMEI Hibisco Roxo! Qndo puder, leia Americanah tbm, é fabuloso (tem resenha no meu blog) www.literaturaliteral.wix.com/litblog
15 fev 2016
 
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