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Imagens do Aleijadinho: mestiçagem, memória e identidade nacional
Eu Fui
01 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Crisley Santana / Jornalismo Júnior

Infelizmente, ainda é comum encontrar pessoas supervalorizando a arte europeia em detrimento da brasileira. Essa, por sua vez, normalmente não é a primeira que vem à cabeça quando pensamos no conceito de Arte, afinal, o desmerecimento de nossa própria cultura faz-se presente no colonizado imaginário brasileiro. Por conta disso, exposições como Imagens do Aleijadinho, em cartaz desde março no MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), representam extremo valor histórico-cultural para que possamos compreender nosso passado por meio de peças inegavelmente autorais e tecnicamente impecáveis.

A exposição está inserida dentro de um programa do MASP em 2018 cujo objetivo é contemplar “histórias afro-atlânticas, com exposições, seminários, programas de mediação e publicações em torno das trocas culturais entre a África, a Europa e as Américas”, segundo o curador Rodrigo Moura. Teve início em 10/03 e permanece até 03/06, com 37 esculturas de Aleijadinho, além de um acervo de obras de outros artistas que auxilia na contextualização do passado mineiro-aurífero no qual a arte do escultor se insere.

Antônio Francisco Lisboa (1738-1814) é filho de um artesão português com uma escrava e, já assim, representa o Brasil enquanto fusão racial e cultural, com presença notória da influência africana. O menino, quando criança, assistia ao seu pai, também entalhador, e desde então se iniciou na vida artística. Aos 40 anos, desenvolveu uma doença degenerativa nas articulações, mas não parou de esculpir – daí o emblemático apelido Aleijadinho.

As obras, nesse contexto da doença, parecem refletir o sofrimento do artista através dos característicos olhos amendoados e profundos. A maioria delas são representações de santos e figuras católicas, pois eram sobretudo encomendadas pelas igrejas, no intuito barroco de imersão na fé por meio de uma estética rica em detalhes e de expressões faciais carregadas de sentimento.

Riqueza de detalhes impressiona nos machucados, no corpo e nas vestes em Cristo da Flagelação ou da Coluna. (Imagens: Raul Garcia / Jornalismo Júnior)

Além dos detalhes e da expressividade no rosto das figuras, algumas chamam atenção pelas cores mais fortes, como o amarelo, o verde e o vermelho, que introduzem mais vivacidade ao conjunto de obras que permanecia dentro das catedrais. Isso talvez se deva ao motivo de catequização intrínseco ao estilo barroco/rococó, no sentido de atrair o olhar dos fiéis para as imagens de representação e enaltecimento dos personagens bíblicos.  

São Joaquim e Nossa Senhora das Dores, com cores vibrantes e detalhes nas dobras das vestes. (Imagens: Raul Garcia / Jornalismo Júnior)

Na parte de trás da sala, há obras adjacentes à arte de Aleijadinho. A parede contém mapas de Minas Gerais e de Vila Rica, pinturas de paisagens de Ouro Preto, fotografias de detalhes das esculturas do artista, além de desenhos, gravuras e impressões sobre papel. Ao observar tais elementos, é como se fizéssemos parte do cenário das cidades do Ciclo do Ouro no século XIX; logo, trata-se de uma experiência muito imersiva e, ao mesmo tempo, coerente com o restante da exposição.

Imagem: Raul Garcia / Jornalismo Júnior

Por fim, exibem-se, ainda, duas páginas do livro O Aleijadinho e Álvares de Azevedo, de Mário de Andrade, no qual o modernista exalta o equilíbrio e a singularidade de uma arte essencialmente mineira e brasileira produzida por Aleijadinho. Assim, o escritor analisa de uma perspectiva crítica o impacto do barroco mineiro na arte mundial e na formação de nossa identidade nacional.

Imagem: Raul Garcia / Jornalismo Júnior

Hoje, pode servir de lição àqueles que se voltam ao estilo europeu e dão as costas à arte brasileira: “É certo que elas não possuem majestade, como bem denunciou Saint-Hilaire. Mas a majestade não faz parte do Brasileiro, embora faça parte comum da nossa paisagem. Carece, no entanto, compreender que o sublime não implica exatamente majestade. Não é preciso ser ingente para ser sublime. As igrejas do Aleijadinho não se acomodam com o apelativo “belo”, próprio à São Pedro de Roma, à catedral de Reims, à Batalha, ou à horrível São Marcos de Veneza. Mas são muito lindas, são bonitas como o quê. São dum sublime pequenino, dum equilíbrio, duma pureza tão bem arranjadinha e sossegada, que são feitas para querer bem ou pra acarinhar, que nem na cantiga nordestina.

Por Raul Garcia
raulgarcia@usp.br

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