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Infiltrado no Green Book
CINÉFILOS
13 jul 2019 | Por Pedro Lobo (pcostalobo@gmail.com)

“E o Oscar vai para…”

Silêncio no Teatro Dolby, no iluminado palco em Los Angeles, Julia Roberts em seu vestido rosa-choque prepara-se para anunciar o maior prêmio da noite.

“…Green Book”

Surgem os gritos, ressoam as palmas. Os maiores nomes da indústria do cinema aplaudem de pé o filme cinco vezes nomeado. Três vezes vencedor. Melhor do ano de 2019.

Mas há um homem que não comemora, o diretor de terno roxo levanta indignado, tenta sair dali, sem sucesso. Ao retornar, seu protesto é dar as costas ao discurso de vitória. Spike Lee perdia, de novo, a principal categoria do Oscar.

Dentre a temática do racismo, triunfa o emocional (e branco) Green Book sobre o político Infiltrado na Klan. A polêmica racial que permeou o embate entre as duas obras remete a questões muito mais antigas, marcadas pelo “#OscarSoWhite” (Oscar tão branco), em 2016.

 

“OSCAR SO WHITE”

Na edição daquele ano, pela segunda vez consecutiva, dentre os 20 indicados para categorias de atuação, não havia negros. Nenhum. A consequência foi um movimento que tomou a internet, questionando a falta de representatividade em Hollywood. Figuras como Don Cheadle, Will Smith e o próprio Spike Lee boicotaram o evento.

O humorista Chris Rock foi o apresentador na ocasião, fazendo um monólogo irônico e voltado à temática racial. 

“Vocês percebem que se eles nomeassem apresentador, eu não teria nem conseguido esse emprego!”

Desde então, a Academia buscou diversificar seus membros: a porcentagem de não brancos no grupo passou de 8% (2015) para 16% (2018). Nos últimos três anos, foram oito filmes indicados na categoria principal a abordar questões étnicas. Doze atrizes e atores negros.

 

O POLÍTICO CONTRA O EMOCIONAL

Infiltrado na Klan

O discurso de Spike Lee não faz curvas. Sua abordagem política norteia o filme, seja para pontuar questões que envolvem o movimento negro até hoje, seja para atacar o governo Trump e todo o setor que representa.

O avançar atual de uma filosofia centrada no nacionalismo e no homem branco traz para o roteiro personagens certos de sua superioridade, incomodados com a presença de homens negros na televisão, e com o politicamente correto que os impede de chamá-los de “macacos”. Eles temem ser substituídos.

Um discurso recorrente é o da presença de homens na política que representam os ideais da Klan, aspirando até ao cargo de chefe do Executivo. De maneira bem direta, o presidente americano é referenciado, até seus slogans de campanha —- “America First” (América Primeiro) e “Make America Great Again” (Tornar a América Grandiosa de Novo) —- vão surgindo nas falas do longa.

Quanto a questão negra, a discussão com o atual não é menos explícita, temas como beleza e auto aceitação, violência policial e estigmatização do povo preto, ainda em voga, são tratados de forma crua, sem floreios.

Ao final, se a crítica não estava clara para alguém, Infiltrado na Klan utiliza filmagens reais da atuação de grupos nacionalistas e supremacistas em 2017. Intencionalmente, as imagens chocam e mostram uma realidade de ódio nada distante.

 

 Green Book

Ao olhar o histórico do diretor Peter Farrelly, é fácil ver de onde vem o melhor do filme. Responsável pela trilogia Debi & Lóide e pelo remake de Os Três Patetas (2012), o cineasta sabe fazer rir. Sua aposta é numa dualidade clichê, mas bem feita: o falastrão desbocado, simples e até mesmo tosco, que é Tony Lip, com o refinado, fechado e sarcástico Don Shirley. Dupla que dá certo.

Mas humor não é tudo que sustenta a história, também carregada de muita emoção. Aos poucos a amizade dos dois protagonistas cresce, dá lugar a troca de experiências que constrói sua convivência. Quando chega o momento, o discurso de Don, cansado de tudo aquilo que passara, é arrebatador, os pêlos se arrepiam todos e o sentimento da cena é inegável. Já o racismo inicial de Tony dá lugar a empatia, que toma conta do final do filme, quando as lágrimas chegam.

Em dado instante, depois de terem presenciado o pior do preconceito racial, um policial para o carro dos dois, uma rua deserta numa noite escura. A tensão é inevitável, o medo da farda, construído pelo longa, é agoniante, faz passar pela tela o que sente a população negra todos os dias. 

Ainda que a discussão racial seja simples, menos densa, é essa a proposta do filme. O foco é voltado a uma perspectiva sentimental, humana, distinta das cutucadas de Infiltrado na Klan, mas não desrespeitoso. 

 

O RACISMO ESTRUTURAL CONTRA O RACISMO INDIVIDUAL

Ao tratar de filmes cuja temática é o racismo, surge a necessidade de distinguir os conceitos de racismo individual e estrutural. 

O primeiro vem de atitudes, crenças ou comportamentos pessoais que carregam preconceito, seja consciente ou inconscientemente. Em ambos filmes é possível vê-lo: o homem branco esconde a carteira, repete ofensas, reproduz estereótipos, tanto Don quando Ron enfrentam problemas com a polícia pela cor da pele, esse é o racismo mais explícito.

Já o segundo, reflete políticas e práticas estabelecidas dentro das instituições, que possuem o intuito de promover ou excluir determinados grupos sob critérios raciais, independente de intenção individual. O exemplo mais evidente é segregação racial nos EUA, retratada em Green Book e estabelecida por meio de lei, no entanto, esses dispositivos são igualmente comuns de forma mais velada, como mostrado em Infiltrado na Klan.

Mesmo que ambos contenham indícios das duas formas de discriminação, o longa estrelado por Mahershala Ali, devido a sua abordagem menos complexa, prioriza a intolerância mais óbvia, escancarada, como a separação dos espaços —- banheiros e hotéis —- para pretos e brancos. Enquanto isso, o de John David Washington mostra um sistema que protege a si mesmo, que após todos os avanços da operação na Klan, esconde do público suas descobertas e interrompe a investigação. Estrutura que não foi feita para o negro vencer.

 

O PRETO DESLOCADO

Longe da vida popular, dos guetos e da pobreza, a negritude de Don Shirley é questionada. Dentre os negros ele é deslocado. Mesmo vivendo num trono em seu castelo, apresentando-se nos palcos para a nata da sociedade rica e branca, fora dali ele é só mais um preto.

“Então, se eu não sou preto o suficiente, se não sou branco o suficiente e não sou homem o suficiente, então me fala, Tony, o que eu sou?!”

A pergunta que surge durante toda a viagem é “por que se submeter a isso?”. Por que passar pela humilhação, pelas ofensas, pela agressão? O Doutor acredita que essa seja a contribuição que está ao seu alcance: tentar, mesmo que minimamente, mudar a percepção das pessoas por meio da arte.

“Ser um gênio não é o suficiente. É preciso coragem para mudar o coração das pessoas”

Longe da vida ativista e revolucionária do movimento negro, a negritude de Ron Stallworth é questionada. Dentre os negros ele é deslocado. Mesmo vivendo diariamente o racismo, assim como seus irmãos, seu não radicalismo destoa, Ron não odeia a polícia e não faz da luta social trabalho de tempo integral.

Assim, como tira que vê com bons olhos mudar o sistema de dentro pra fora, Ron encontra olhares tortos pela profissão até por aqueles que salvou, incluindo a namorada, líder estudantil do ativismo preto. 

“Minha consciência não vai me deixar dormir com o inimigo”, é o que diz Patrice

Ainda que distintas, ambas as obras carregam em seus protagonistas um mesmo questionamento interno: o encaixar-se dentro do que se espera do homem de pele escura. A verdade é que o que move os dois, tanto o pianista apresentando-se no sul, quanto o policial infiltrado no sistema, é a busca pela libertação de seu povo. Da sua maneira.

 

CRÍTICAS E ESCOLHA DA ACADEMIA

Green Book é polêmico. A obra sobre racismo através de uma perspectiva branca havia erguido debate antes mesmo de faturar tudo o que faturou. A suposta infidelidade com os fatos que afirma basear-se e uma temática de white savior tem caído contra o filme.

O roteiro com idealização de Nick Vallelonga, filho de Tony, foi chamado de mentiroso pela família de Don, que não foi consultada para a construção da história. A personalidade do Doutor Shirley, sua relação com os irmãos e até mesmo a amizade com Lip Vallelonga foi questionada.

“Mais uma vez a versão branca da vida de um homem preto”, disse Carol Shirley Kimble, sobrinha de Don

No entanto, há relatos de amigos, e até do pianista em vida, que corroboram o retrato que foi ao cinema. 

“Foi como se ele estivesse de volta em vida. Por duas horas ele (Mahershala Ali) nos deu o Dr. Shirley de novo”, disse Michael Kappeyne, ex-aluno de piano de Donald

Já a questão do white savior estaria presente não apenas na película de Peter Farrely, mas em Hollywood como um todo. O conceito remete a presença de um bondoso personagem branco que tenha de salvar um não-branco —- como se o último precisasse ser salvo, ou não pudesse fazê-lo sozinho.

Questionado sobre o assunto, o diretor negou o título: ”Sim, Tony Lip salva a pele de Dr. Shirley algumas vezes, mas Dr. Shirley salva a alma de Tony Lip, fazendo dele uma pessoa melhor”

Ao escolher seu Melhor Filme, a Academia do Oscar considera toda a controvérsia. O retrato do racismo através do olhar do homem branco, salvador ou não, se encaixa com a maioria caucasiana de votantes, abordando a questão de maneira mais branda, menos polêmica que o ácido Infiltrado na Klan.

 

NO FINAL DAS CONTAS

Mas afinal, seria a vitória de Green Book um erro ou um acerto histórico? Depende.

Tendo em mente a proposta dos dois filmes, a decisão não é um pecado. Há espaço para os dois: seja para o emocional e humano, seja para o ácido e político. É claro que pensar em uma escolha que privilegia o “dedo na ferida” talvez fosse, socialmente, mais relevante, mas difícil de imaginar dentro da Academia de hoje.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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