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O Globo de Ouro e o futuro das premiações americanas

Os movimentos antirracistas e feministas põem Hollywood contra as cordas e algumas premiações estão tendo que se adaptar ou acabar

CINÉFILOS
19 jun 2021 | Por Matheus Nistal (matheus.nistal@usp.br)

Ao final de todo ano, normalmente, começa a temporada de premiações do cinema americano. Do Gotham Awards à grande noite do Oscar, muitos trabalhadores e artistas são indicados e premiados nesse período, que dura quase 4 meses. Contudo, um pouco de olhar crítico sobre quem premia e quem é premiado deixa evidente o machismo e o racismo latentes na indústria. 

Essas estatuetas, que custam poucas centenas de dólares para serem produzidas, são de extraordinária importância para os artistas, tanto financeiramente quanto em credibilidade. Uma mera indicação pode impulsionar a carreira de um jovem artista enquanto que o contrário o mantém na invisibilidade. 

A importância desses selos de qualidade é ainda maior para quem tem pouca representatividade na indústria. O Oscar que ficou entre Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016) e La La Land: Cantando Estações (La La Land, 2016) foi mais vital para a carreira de Barry Jenkins, diretor de Moonlight, do que teria sido para Damien Chazelle, diretor do filme com Emma Stone. Apesar de ser 6 anos mais novo, Damien já tinha tido mais chances em Hollywood do que Barry, e emplacado Whiplash: em Busca da Perfeição (Whiplash, 2014), que ganhou 3 estatuetas. 

Foto dos indicados ao Oscar 2015. [Imagem: Reprodução/Oscar]

Foto dos indicados ao Oscar 2015. [Imagem: Reprodução/Oscar]

No mesmo ano de lançamento de Moonlight, o movimento #oscarsowhite (oscar tão branco) tomou as redes sociais ao apontar apenas uma pessoa negra na foto de indicados de 2015. Foi seguido ainda por outro movimento de grande impacto, o #metoo (eu também). Denúncias de assédio sexual e moral contra o produtor Harvey Weinstein, incentivaram outras vítimas a quebrarem o silêncio e mostrar ainda mais esses problemas que a indústria escondia.

Hollywood e a Academia se viram contra a parede e nos últimos anos anunciaram algumas mudanças. Para um filme concorrer a um Oscar a partir de 2023 deverá seguir uma série de cláusulas de diversidade. Além disso, houve um aumento do colégio eleitoral da premiação. De pouco mais de 6000 votantes em 2015 para 9427 em 2020, garantindo mais diversidade entre os votantes. 

Enquanto isso, o Globo de Ouro conta com 87 membros votantes. 

Criado e organizado pela Associação dos Jornalistas Estrangeiros em Hollywood (HFPA, na sigla em inglês),  em 1944, com a missão de disseminar a cultura norte-americana, a premiação funciona basicamente como todas as outras: o estúdio investe milhões na campanha do filme com festas, outdoors, anúncios em revistas e sites. Em troca, ao ganhar o prêmio, o estúdio normalmente vê um aumento significativo de sua bilheteria. Contudo, como o universo de votantes é muito pequeno, esses votantes têm um enorme poder.

Até 2004, a própria premiação do Oscar era fortemente influenciada pela do Globo de Ouro, o que lhe rendeu a fama de “termômetro do Oscar”. Mas, então, a Academia decidiu fazer sua cerimônia no final de fevereiro, e não no final de março. Atualmente, quando os prêmios da HFPA são entregues, o Oscar já está começando a contar seus votos.

Mesmo sem “prever o resultado do Oscar”, o Globo de Ouro continuou sendo muito prestigiado pelos estúdios por dar muita publicidade aos filmes e ser facilmente controlável. Denúncias de compra de votos são recorrentes e a premiação é constantemente motivo de críticas e piadas.

Em 2016, o filme Animais Noturnos foi indicado após Tom Ford, diretor do filme, dar de presente para cada membro da HFPA dois perfumes de sua própria marca. Quando o fato virou notícia, cada membro foi obrigado a devolver um dos perfumes.

Denzel Washington falou como ganhou seu primeiro Globo de Ouro: “Alguns de vocês devem conhecer Freddie Fields. Ele me convidou para o meu primeiro almoço da HFPA. Ele disse que eles iriam assistir meu filme. Eles iam vir até nós. Você vai tirar fotos com todos eles. Você vai segurar as revistas, tirar as fotos, e você vai ganhar o prêmio. Eu ganhei naquele ano”. Ele contou essa história quando recebia da própria HFPA um prêmio homenageando o conjunto de sua carreira.

Os estúdios costumam ter um tratamento especial com alguns desses 87 membros. Pagam viagens luxuosas, vinhos, perfumes, além de cederem longas entrevistas com celebridades que outros jornalistas não têm acesso. Alguns desses artistas já mostraram insatisfação e problemas mais graves já surgiram. Em 2018, o ator Brendan Fraser acusou o ex-presidente da Instituição, Philip Berk de assédio sexual durante um dos almoços da HFPA. Berk mesmo já havia relatado o episódio em tom de anedota na sua biografia.  A associação se defendeu dizendo que foi só uma brincadeira.

Manifestantes do Black Lives Matter em frente à Cinemateca Americana [Imagem: Devin Berko/Unsplash]

Manifestantes do Black Lives Matter em frente à Cinemateca Americana [Imagem: Devin Berko/Unsplash]

Existem membros sérios na organização do Globo de Ouro, como a jornalista brasileira Ana Maria Bahiana, mas é difícil saber quantos têm a mesma integridade, uma vez que a lista inteira de associados é confidencial. 

Em recente investigação, o Los Angeles Times concluiu que nenhum dos 87 associados é negro. Isso foi o estopim para que artistas anunciassem boicote. Tom Cruise proferiu que iria devolver os prêmios que recebeu do Globo de Ouro. A emissora americana NBC, que transmitia a festa, cancelou a exibição em 2022. 

A HFPA se defendeu dizendo que sua associação é formada por imigrantes de 44 países, 33 línguas diferentes do inglês e que a maioria da associação é composta por mulheres, portanto não faltaria diversidade. Em resposta a Jornalismo Júnior, disse que não vai mais usar o cadastro da MPA (Motion Picture Association) – associação que reúne os grandes estúdios da indústria cinematográfica americana e tem um cadastro de cerca de 200 jornalistas estrangeiros em Hollywood – como critério para o seu processo seletivo. Essa etapa do processo seletivo seria um dos impedimentos para que pessoas negras integrassem o corpo votante do Globo de Ouro. Contudo, em 2013, a jornalista britânica negra Samantha Ofole-Prince foi considerada para ser votante, por fazer parte da MPA desde 2011, mas acabou rejeitada nas etapas posteriores.

Outras medidas foram anunciadas para os próximos meses, como a divulgação pública de todos os membros associados, novos códigos de conduta e investigações tanto internas quanto externas. Questionada sobre a viabilidade da cerimônia em 2022 sem a transmissão da NBC, a HFPA respondeu que está focada em “reformar a premiação e trazer as mudanças que já estão muito atrasadas”.

Nesse passo, as premiações hollywoodianas, que são partes fundamentais  da indústria do cinema americano, estão se reestruturando à procura de abarcar as demandas dos movimentos sociais. Resta saber o quão profundas e estruturais serão essas mudanças e se elas serão satisfatórias na resolução desses grandes problemas sociais e de representatividade.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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