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Representatividade no cinema: a falta de protagonismo negro nas telonas
CINÉFILOS
12 dez 2020 | Por Marina Bittencourt (maribcg@usp.br)

Origem do cinema negro

O cinema surgiu em 1895, em Paris. O cinema negro, no entanto, começou a ser produzido a partir de 1905 nos Estados Unidos, focado para o público afro-americano. O que diferenciava o cinema negro — race films — daqueles colocados em cartaz em todos os estados era justamente a proposta quanto aos personagens de cor. Enquanto no primeiro, os negros eram utilizados como objetos e artefatos para ridicularização, nos race films, eles eram colocados como protagonistas, tendo suas vidas postas como foco da narrativa.

O cinema negro trouxe temáticas e histórias que entravam num embate direto contra os filmes da Hollywood branca, tentando trazer personagens afrodescendentes como figuras multidimensionais, longe dos seus estereótipos comumente retratados e repetidos na mídia popular (mainstream media). Esses filmes variavam em categoria e abrangiam desde dramas até comédias e suspenses.

Carregando o peso da sociedade em que se encontrava, o cinema sofreu  com as diferenças e conflitos raciais da sociedade norte-americana até o final da década de 1960. Por conta das leis em vigor em diversos estados, principalmente os localizados no sul do país, atores negros eram vetados de interpretar uma série de papéis em filmes brancos – como por exemplo o de interesse romântico com um ator branco.

Durante a era do cinema mudo, por exemplo, personagens afrodescendentes no cinema abraçado pela mainstream media eram feitos por atores brancos utilizando blackface (maquiagem escura sobre o rosto para imitar o tom de pele negro).

Pôster de divulgação do filme The Black Klansman. [Imagem: Reprodução/Robert Caramico – SGS Productions]

Grandes estúdios se recusavam a produzir longas protagonizados por atores pretos tendo em vista que seriam barrados nos cinemas em diversos estados por conta das leis de segregação vigentes, logo perdendo dinheiro de bilheteria e não gerando o lucro esperado.

Durante a década de 1960, os filmes produzidos desafiavam os medos brancos de miscigenação, como The Black Klansman (1966), originalmente lançado como I Crossed the Color Line. O longa recebeu duras críticas por fazer promessas de sonhos brancos, enquanto  os movimentos negros norte-americanos emergentes no final da década argumentavam por uma sociedade puramente negra.

Esses filmes, contudo, nunca tiveram grande destaque na mídia popular, tendo orçamentos baixos, pouca divulgação, e baixa ocupação em salas de cinema pelo país.

 

Evolução da diversidade ao longo dos anos

Durante a década de 1970, os personagens afrodescendentes retratados em filmes hollywoodianos voltaram a ter o estereótipo combatido por diretores  no início do cinema negro. Logo, o público ficou cansado do mesmo personagem ser retratado continuamente nas telonas, e mesmo assim, pouca coisa mudou.

Sweet Sweetback’s Baadasssss Song, filme de 1971. [Imagem: Reprodução/Melvin Van Peebles – Yeah, Inc.]

Com o passar das décadas, o lugar ocupado por atores negros na mídia popular não mudou consideravelmente. Estes ainda ocupam os mesmos papéis secundários em filmes de grande orçamento. O cinema negro continua existindo nos Estados Unidos, tendo dezenas de filmes produzidos todos os anos, obras que colocam personagens negros no centro das narrativas. No entanto, esses longas pouco aparecem na grande mídia.

A mudança sistemática da representação afrodescendente no cinema hollywoodiano vem sendo trabalhada desde o seu surgimento, enfrentando os desafios da sociedade norte-americana, como o sistema de separação de raça que se encontrava em vigor até 1968 e o racismo enraizado na sociedade ocidental que se encontra até os dias atuais. Foi somente a partir dos anos 1990 que personagens negros começaram a ocupar papel de maior destaque em tramas do cinema hollywoodiano branco.

Até mesmo com diretores brancos, como Quentin Tarantino, que os colocou dentro do seu elenco principal na obra de 1994, Pulp Fiction, com Samuel L. Jackson interpretando o papel de Jules Winnfield, um dos assassinos de aluguel junto à Vincent Vega, interpretado por John Travolta.

Jules Winnfield. [Imagem: Reprodução/Miramax Films]

Ainda como personagens secundários, e sem roubar o holofote do principal branco, os personagens negros aumentaram nas décadas de 1990 e 2000, um longo percurso até, na década de 2010, conquistar a maior mudança feita na mainstream media na atualidade.

 

Falta de protagonismo em Hollywood

Com o advento da alta das redes socias e a emergência de uma nova onda do movimento negro, muito se foi cobrado. Conversas começaram, o que resultou no discurso de Chris Rock no Oscar de 2016 – que foi mais uma das edições que falharam em nomear ao menos um ator pertencente à uma minoria – gerando constante cobrança de inclusão de personagens de cor por parte dos telespectadores.

Não muito depois, em 2017, a falta de validação do cinema negro veio na forma do Oscar de Melhor Fotografia. Entregue à La La Land: Cantando Estações (La La Land, 2016) por engano, e depois direcionado ao verdadeiro ganhador, Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016), o momento histórico televisionado ao redor do globo serviu como um simbolismo para a ação histórica e constante de Hollywood com o cinema negro:  por mais que seja merecido o holofote, este não é dado sem antes haver hesitação.

Chiron sob o luar. [Imagem: Reprodução/David Bornfriend – A24]

Tal acontecimento foi comentado por diversas celebridades americanas que atuam constantemente para a maior visibilidade da comunidade negra estadunidense. Vozes como Jay Z comentaram sobre o assunto, produzindo até mesmo um curta no início do videoclipe de sua música intitulada Moonlight.

O curta é uma paródia do famoso seriado americano Friends (1994), que narra a história de seis amigos brancos de classe média que passam pelos desafios do final dos 20 anos, ao tentar encontrar emprego e descobrir como podem se encaixar no mundo.

A série foi diversas vezes criticada e acusada de ter sido uma cópia do seriado Living Single (1993), que tinha o mesmo enredo, a mesma quantidade de personagens e fazia parte da televisão negra americana. No entanto, o seriado teve vida curta, com apenas cinco temporadas, o que muitos acreditam ter ocorrido pelo fato do holofote ter sido roubado por Friends, sendo ainda hoje lembrado e comentado em comparação ao seu opositor branco.

Nesse curta, os personagens tão amados da televisão norte-americana são substituídos por atores negros, — Issa Rae, Tessa Thompson, Tiffany Hadish, Lil Rel Howie, Lakeith Stanfield e Jerrod Carmichal — e o episódio segue com as mesmas falas e mecanismos do episódio original (Aquele em que Ninguém Está Pronto, 1996), somente para acabar com a parte principal do episódio, quando Carmichal, que interpreta Ross, conversa com seu amigo (interpretado pelo comediante Hannibal Buress) sobre o que ele achou da cena.

Nisso, ele responde: “É um lixo… É apenas um episódio de Seinfeld com pessoas negras… Quem pediu por isso?”. Com o fim da filmagem, Jerrod sai do cenário com a música tocando para um ambiente mais escuro cuja única iluminação é uma porta meio aberta.

Friends com atores negros. [Imagem: Reprodução/Alan Young – Carter Enterprises]

A crítica do curta combinado com a letra da música levanta a questão sobre as pessoas afrodescendentes sempre estarem tentando se encaixar em um mundo que não pertence a eles, para terem todas as suas conquistas menosprezadas pelos donos daquele mundo. O vídeo acaba com a voz do apresentador do Oscar ao entregar o prêmio de Melhor Fotografia, fazendo de novo uma referência ao acontecimento citado anteriormente.

Inclusividade em Hollywood não é um tópico pouco conhecido ou comentado. A Universidade da Califórnia, UCLA, realiza uma pesquisa denominada Hollywood Diversity Report (Relatório de Diversidade em Hollywood, em português) que contabiliza a quantidade de minorias nos filmes mais vistos.

De acordo com o relatório, apenas 9% do elenco dos filmes era composto de atores pretos, enquanto a maioria ainda era composto de atores brancos, com 77%. Essa diferença ainda se aprofunda ao olhar o sexo dos atores, enquanto mulheres negras ocupavam somente cerca de ¼ desses 9%.

Apesar do crescimento no contingente de personagens negros desde a década de 1990, mais notoriamente ocupando papéis coadjuvantes como Dionne (Stacey Dash) em Patricinhas de Beverly Hills (Clueless, 1995), Morpheus (Laurence Fishburne) em Matrix (1999), Rhodes (Don Cheadle) em Homem de Ferro (Iron Man, 2008), entre tantos outros, foi somente na última década que a mainstream media viu a maior explosão de protagonistas afrodescendentes.

 

Crescimento do protagonismo na mainstream media

O que marcou o pico dessa explosão, não só na mainstream media como também na cultura popular, foi o lançamento do longa Pantera Negra (Black Panther, 2018), sendo o primeiro super-herói negro a receber um filme solo, apesar de alguns já aparecerem como parceiros de super-heróis em filmes anteriores.

A obra foi a primeira do gênero de super-heróis indicada para diversos Oscars, e assim como seus irmãos da Marvel, ultrapassou a marca de 1 bilhão de dólares em bilheteria, tendo alcançado o título de 3ª maior bilheteria em 2018, e ainda hoje ocupando um dos lugares no topo do ranking.

Seguido dele houve a apresentação de Sam (Anthony Mackie) como o novo Capitão América em Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame, 2019), o elenco de MIB: Homens de Preto – Internacional (Men in Black: International, 2019) contou com uma mulher negra (Tessa Thompson) no elenco principal, filmes de ação como Projeto Gemini (Gemini Man, 2019), As Viúvas (Widows, 2018) e As Golpistas (Hustlers, 2019) também apareceram carregando essa diversidade, se expandindo para outros gêneros cinematográficos como drama e terror, com o lançamento de obras como Corra! (Get Out, 2017), e Nós (Us, 2019).

É a primeira vez na história que filmes com protagonistas afrodescendentes ocupam papel de destaque na mainstream media. Algumas das histórias, no entanto, caem na monotonia do salvador branco. Isto é, a necessidade da indústria de retratar um personagem branco como o herói misericordioso, que sem ele, o personagem de cor estaria perdido e indefeso. Exemplos da categoria são: Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), À Espera de Um Milagre (The Green Mile, 1999), Green Book: O Guia (Green Book, 2019) e Histórias Cruzadas (The Help, 2011).

Além do foco do branco salvador, Hollywood encontra dificuldades em retratar, ainda hoje em 2020, histórias com personagens de etnias diferentes cujo o principal foco não sejam as suas etnias ou o racismo.

Daniel Kaluuya em Viúvas. [Imagem: Reprodução/Merrick Morton – 20th Century Fox Film Company]

A influência do cinema

A sétima arte retrata o mundo e a sociedade contemporânea, histórias que, reais ou fictícias, têm inspiração em algo do mundo concreto. Cenas existem no cinema porque existem na vida real, ou representam algo que existe. O mundo não é homogêneo e a inabilidade de contar histórias do cotidiano com diversidade nos personagens invisibiliza esse número tão vasto de pessoas.

Crítica também comentada no início do vídeo Moonlight de Jay Z, ao escolher justamente o seriado, famoso até os dias atuais, que escolhe retratar pessoas comuns no seu dia a dia, demonstrando a impossibilidade de fazer o mesmo com pessoas negras.

A cineasta brasileira Sabrina Fidalgo explica em entrevista concedida à Jornalismo Júnior, que hoje em dia a dificuldade para vender uma ideia com um protagonista negro mudou. “Acho que até pouquíssimo tempo atrás era assim [difícil vender uma ideia com um protagonista negro]. Mas eu acho que hoje em dia não mais, acho que hoje em dia a gente está conseguindo virar esse jogo”, comenta a cineasta. E complementa; “se você não tem ideia de um projeto com um protagonista negro, dificilmente você vai conseguir alguma coisa [vender alguma ideia]. Isso é uma das vitórias que a gente está tendo. Mas é uma coisa muito recente, é uma coisa desse momento.”

O cinema é capaz de mudar ideias e influenciar massas de acordo com pesquisadores da comunicação, tal como Walter Benjamin. Inclusive, foi utilizado de forma política pela primeira vez na campanha comunista na Alemanha dos anos de 1930, e em seguida nas campanhas nazistas da mesma era. Desde então, ele se tornou arma poderosa, utilizada para campanhas políticas e campanhas mais fracas, como publicidade para diversos produtos.

Com essa capacidade de influenciar massas, o mundo sofreu com a propagação dos ideais racistas reflexivos das décadas passadas, e sofre ainda hoje com a falta de representatividade real e protagonismo nos cinemas, principalmente o estadunidense, que influencia a cultura popular ao redor do globo.

Max, Kyle e Regine em Living Single. [Imagem: Reprodução/Bryan Hays – Warner Bros. Entertainment Inc.]

Sabrina Fidalgo explica se a etnia de um personagem realmente importa ao contar uma história. “Eu acho que sim e não. Sim dentro de um panorama de racismo estrutural dentro do audiovisual brasileiro, porque não temos representatividade à altura do número da porcentagem de brasileiros que se auto declaram negros. Então a maioria das produções dão protagonismo às pessoas brancas”. Ela complementa: “nesse sentido eu acho que é importante sim. Acho que a gente realmente tem que lutar por esse espaço, pela criação democrática do protagonismo negro. E [acho que] não [é importante a etnia do personagem] porque do ponto de vista narrativo eu acho que qualquer papel pode ser interpretado por qualquer pessoa.”

Ela também fala como em produções brasileiras personagens negros só são inseridos se isso for determinado para a produção. “Eu acho que a gente tem que naturalizar a presença negra de modo que a gente tire os negros dessas rubricas raciais até porque a maioria das produções brasileiras só dão papéis para pessoas negras quando existe essa rubrica no projeto.”, ela conta que a especificação racial do personagem é necessária no cinema brasileiro para que os produtores considerem fazer o teste com pessoas negras, porque de outra maneira, essas eles automaticamente pensam em atores brancos para interpretar os papéis.

Ela ainda explica que há responsabilidade por parte das pessoas envolvidas nas produções de filmes quanto à falta de diversidade. Há pouco tempo, diretores e produtores não se sentiam responsáveis, mesmo com a emergência das discussões sobre racismo, essas pessoas devem ser não só responsabilizadas, como culpabilizadas. “Você não pode instaurar na cinematografia e no audiovisual de um país que [as produções] é o retrato de uma cultura [retratando] apenas uma parte da população. Você não pode excluir a maioria dessa população dessas obras de uma maneira totalmente irresponsável como tem sido feito até agora”, reforça a cineasta.

 

Diversidade no cinema brasileiro

Cidade de Deus (2002). [Imagem: Reprodução/Miramax Films]

Em comparação ao cinema estrangeiro, em específico o estadunidense, o brasileiro se mantém atrasado em termos de diversidade nos protagonistas de suas obras nacionais.

“Esse [o cinema] chegou ao Brasil assim como o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravatura. Ele continua na vanguarda do atraso também nessa questão racial. O Brasil é ainda um dos países mais atrasados nesse sentido, é um dos países mais racistas, é um dos países que ainda não entendeu o poder da diversidade. Apesar de ter a maioria da população preta, as pessoas brancas são aquelas que ainda detêm o poder em sua maioria aqui no Brasil”, explica Fidalgo.

Ela explica que a detenção do poder pela elite branca brasileira junta-se à incapacidade da mesma em compreender que o público não quer ver a propagação dos discursos racistas e estereotipados que tomam as telas brasileiras. A classe mais pobre da população está cada vez mais consciente sobre seu papel na sociedade e sobre as questões raciais, afirma ela, e elas têm a liberdade de não consumir algo que não as representa.

“Então, eu acho que se essas pessoas brancas realmente não se conscientizarem, o que vai acontecer é que vai ser o fim, praticamente, do audiovisual brasileiro, porque as pessoas vão deixar de consumir por conta dos motivos que eu falei”, comenta Fidalgo.

O processo da indústria cinematográfica no Brasil se deu de forma diferente do que se viu nos Estados Unidos. Conforme citado por Fidalgo, “se deu como toda outra indústria introduzida no país, seguindo os viés elitistas e construído em cima de uma sociedade de liberdade recente”. Diferente do cinema estadunidense, o brasileiro não passou pela sua era do cinema negro (black cinema), não houve opositor para bater de frente com o cinema branco.

“Acredito que não há um esforço coletivo para mudança de narrativa, são sempre os mesmos atores negros em muitas novelas”. Geralmente, a narrativa é baseada no sofrimento ou em ser alvo de racismo quando são protagonistas. No que diz respeito ao cinema, vemos uma representação mais voltada à denúncia da realidade do país, contudo é interessante ver que em filmes como Que Horas Ela Volta, as personagens não possuem sua identidade racial evidenciada e explorada. A figura de ambas é ambígua. No caso, a atriz que fez Jéssica passou por bronzeamento para o papel.

Ela complementa: “acho tão significativo ver que numa narrativa que seria de protagonismo, em que a raça é totalmente entrelaçada à questão do trabalho doméstico, isso não foi abordado. Para mim, um destaque é o filme Temporada. Eu gosto da leveza e da narrativa com personagens feitos por atores negros com várias camadas em suas personalidades. E é significativo que seja o trabalho reflexo de uma equipe com pessoas negras”.

“Falta profissionais negros sendo considerados, capacitados e contratados por empresas e grandes produtoras que criam narrativas para mídia. Não vai existir mudança, enquanto a estrutura for mantida como está”, conta Stephanie Ribeiro, arquiteta e colunista na revista Marie Claire, sobre a falta de personagens negros.

Alfazema, 2019. [Imagem: Reprodução/Sabrina Fidalgo – Cavideo, Fidalgo Produções]

Foi somente recentemente que cineastas negros, como Sabrina, entraram em cena para oferecerem uma real oposição ao cinema nacional marcado por desigualdades. Como Sabria citou em entrevista, “o cinema continua sendo uma arte elitizada, em que o consumo pelas classes mais baixas é impossível com os preços exorbitantes dos ingressos, e tendo a maior parte da população preta nessas classes, esses cineastas ainda contam histórias para a classe média branca brasileira”.

 

Como o público se sente e como pode mudar o cenário atual

Com o advento da internet, e a então chamada democratização da informação, houve de fato a maior conscientização sobre diversos discursos, incluindo a diversidade racial, por uma maior parte da população, afetando principalmente os jovens, faixa etária que mais utiliza as redes sociais e a internet como um todo.

T’Challa e Nakia. [Imagem: Reprodução/Rachel Morrison – Disney]

De acordo com a pesquisa realizada para esta pauta com 69 pessoas, 100% alega achar importante a diversidade nos filmes. Quando pedido para comentar o porquê as respostas que mais se repetiram giraram em torno da representatividade de minorias e a escolha da forma de sua retratação não faz justiça à realidade diversa que encontramos no mundo.

“Grande parte da população, principalmente no Brasil, é negra, e mesmo assim a maior parte dos filmes tem elencos majoritariamente brancos. Além disso, a realidade do povo negro sempre foi mostrada nesse tipo de mídia apenas com o enredo “racial”, raramente retratando vivências mostradas em filmes com protagonistas brancos, filmes de romance, por exemplo”, conta uma das respostas.

“Imagino que a diversidade em obras cinematográficas seja fundamental para entender a realidade. No mundo, não existem apenas pessoas brancas e loiras, além disso, esse tipo de preocupação é importantíssimo para a representatividade cultural e imagética de povos não brancos. Muitas crianças pretas, por exemplo, nunca tinham visto um super-herói preto antes de Pantera Negra, e, falando por experiência própria, não se reconhecer nos produtos que você consome te fazem entrar em conflito com seu próprio papel na sociedade e sua autoestima: se todos os heróis são brancos e homens, eu sou o vilão?”, conta uma outra resposta.

Ribeiro menciona o dano causado pela repetição de negros nos mesmos papéis. “As pessoas normalizam a narrativa, da falta de protagonismo, a ideia que negros possuem só histórias negativas, o sofrimento tratado como verdade absoluta, e o pior de tudo é pensar que muitas pessoas sequer se incomodam em ver negros apenas de coadjuvantes, como se nossas histórias não fossem dignas de serem contadas.”

Joe, personagem principal de Soul. [Imagem: Reprodução/Disney-Pixar]

Essa perspectiva do público se repete ao observar redes sociais que contam com a maior parte do contingente de jovens, como o Twitter, em que  nascem campanhas, como #OscarsSoWhite que protestam contra a falta de diversidade nos filmes indicados na premiação.

Também surgem críticas de filmes em forma de memes, como os feitos sobre o design de Sonic no filme Sonic: O Filme (Sonic the Hedgehog, 2020), cobranças e críticas sobre diversidade, como as feitas recentemente sobre o futuro filme da Pixar, Soul: Uma Aventura com Alma (Soul, 2020), em que mais uma vez o protagonista negro é transformado em outra coisa durante a maior parte do filme, como ocorreu com a primeira princesa negra Tiana, em A Princesa e o Sapo (The Princess and the Frog, 2009).

A mudança já está em processo, mas é dever do público demonstrar o que quer a partir do seu consumo. Boicotar todas as produções em que não se vejam representados, como sugere a cineasta Sabrina Fidalgo, e cobrar publicamente, como sugere a colunista e arquiteta, Stephanie Ribeiro. “Existem inúmeras histórias não contadas para que se mantenha essa estrutura colonial, racista e patriarcal”, comenta na entrevista.

A luta pela mudança começou há mais de um século e se mantém em mesma intensidade. Resta ao público continuar lutando para que todas as histórias possam ser contadas e vistas nas grandes telas, sem um filtro de cor ou temas.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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