Por Thaiza Souza (thaizasouza@usp.br)
Desde 2024, cerca de 8,8 milhões de brasileiras sofreram violência digital, principalmente por meio de mensagens ofensivas e/ou ameaçadoras enviadas de forma recorrente, de acordo com pesquisa do Instituto DataSenado em 2025. Segundo Lara Cannone, psicóloga e pesquisadora nas temáticas de gênero, grupos que discutem a identidade masculina trazem à tona assuntos que visam a manutenção de um sistema patriarcal.
Um levantamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de 2026, identificou pelo menos 120 canais no YouTube Brasil disseminando conteúdo de misoginia. Os canais acumulam mais de 23 milhões de inscritos e 130 mil vídeos, com uma taxa de crescimento de 18,5% no número de seguidores desde 2024. A crescente coincide com o aumento de casos de feminicídio e de estupro no Brasil, em 2025, com 12 mulheres vítimas de violência a cada 24 minutos, segundo pesquisa da Rede de Observatórios da Segurança.
A misoginia acontece quando alguém utiliza o gênero feminino como critério para desqualificar uma mulher e atribuir a ela o fator de inferioridade, de acordo com Stephanie Azevedo, advogada especializada no direito da mulher. Ela explica que o desafio de mudar esse tipo de comportamento é complexo porque, às vezes, nem sequer existe a noção de que a misoginia é um comportamento nocivo.
Segundo a psicóloga Lara Cannone, com o compartilhamento de ideais baseados em libertação masculina por meio da internet, estes grupos, apesar de terem muitas camadas, entram no algoritmo de usuários que se identificam e criam uma comunidade com seus próprios signos e símbolos. Termos como “incel (aglutinação do inglês involuntary celibate, que significa “celibatário involuntário”, em tradução livre)” , “alfa”, “beta”, “sigma” e “red pill (pílula vermelha, em tradução livre)” foram incorporados pelas redes.
A criação de símbolos na machosfera
De acordo com Cannone, o fenômeno da machosfera “é uma reprodução de uma lógica de pensamento imperialista importada por homens que se dizem despertados para a verdade acerca das mulheres e das consequências negativas que o feminismo trouxe para a sociedade”.
A expressão red pill, juntamente com a “blue pill (pílula azul, em tradução livre)” tem origem no filme Matrix (1999), que exemplifica situações enxergadas como conflitantes, como a escolha de um caminho a ser seguido, segundo a psicóloga. Red pill simboliza a aceitação de uma verdade incômoda com o ideal de superação; já blue pill representa a manutenção de uma vida ignorante, uma mentira confortável.
Dentro desse contexto, em comparação com as escolhas de um homem, a psicóloga explica que quem escolhe a primeira pílula assume que está apto para a libertação de uma suposta manipulação feminina, um homem que terá sucesso econômico, social e sexual. Enquanto quem escolhe a segunda, é uma pessoa fraca que aceita essa “ilusão” e torna-se menos masculina. “A pílula vermelha faz parte de um filme de ficção, e não é um filme que tem o intuito de provocar nenhuma discussão de papel de gênero”, afirma Canonne.
Os grupos utilizam terminologias para sua autoclassificação. Segundo Renato Kelvin Lopes, sociólogo pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador de violências de gênero, os “alfas” estão no topo da pirâmide e são os homens que atingem o padrão social e de beleza do grupo, já os “betas” são homens vistos como indesejáveis e sem sucesso na vida financeira e pessoal.
Para Lopes, os homens que estão nesse meio lutam ativamente para favorecer sua própria masculinidade e rebaixar outras. O sociólogo explica que os homens desse grupo só podem ser masculinos criando um contexto em que o outro indivíduo não é. “Quando entramos nesses grupos masculinistas, a maneira como eles se referem a homens “blue pill” é um jeito misógino. Eles chamam esses homens de ‘viados’, de ‘man-gina’ [homem-vagina, em tradução livre] estão a todo momento associando esses homens à feminilidade”, ressalta Lopes.
“O gênero é uma forma primária de organizar o poder”.
Renato Kelvin Lopes

A divulgação online do discurso red pill
Segundo a psicóloga Lara Cannone, um dos temas mais frequentes dentro dos debates da machosfera é a manutenção de valores patriarcais, que se refere a grupos que se veem oprimidos dentro de uma sociedade que consegue cada vez mais liberdade e direitos para mulheres. De acordo com ela, os integrantes da machosfera veem a conquista feminina como uma quebra da manutenção da hierarquia de gênero, colocando-os à mercê do movimento feminista.
Andrew Tate, um dos influenciadores com mais alcance dentro dos grupos red pill, declara: “Sou um realista, e quando você é realista, é sexista. Não há como estar enraizado na realidade e não ser sexista”. Os integrantes com mais relevância, assim como Tate, utilizam esse argumento para ir contra meios que protegem mulheres, alegando falta de confiabilidade na aplicação de leis, como a Lei Maria da Penha, que é vista como um instrumento de opressão contra os homens, e não como um instrumento de proteção às mulheres, de acordo com Azevedo.
Para Nataly Oliveira, psicóloga com foco em estudos de gênero e sexualidade, algo que vem à tona na machosfera é a dificuldade de se responsabilizar, o que faz com que o único momento em que a mulher é vista como sujeito é quando ela carrega a culpa.
As pessoas que participam de comunidade red pill alegam que plataformas digitais não garantem o direito de liberdade de expressão, onde as regulamentações e leis, como a lei da misoginia e o banimento de usuários em redes sociais, são uma ameaça ao seu direito de fala e uma forma de censura. Para Lopes, a defesa de um país livre de censura serve como motivação para dar continuidade aos ideais antissistêmicos dentro da comunidade.
Economia, política, academia e venda de cursos de desenvolvimento pessoal são temas que aparecem, além da misoginia. Dentro dessa lógica, os grupos com discurso red pill tornam-se cada vez mais um espaço de formação e socialização ideológica, que traz comentários de ódio que parecem maquiados à primeira vista, de acordo com Cannone. Ela explica que essa estratégia faz com que homens que estejam insatisfeitos com sua atual situação entrem nesse espaço, e o propósito inicial — superação masculina frente à suposta opressão feita por mulheres — vai sendo inserido no imaginário desses usuários pouco a pouco.
Para Canonne, a estratégia utilizada por grupos red pill é preocupante porque capta a atenção de homens frustrados ou os convence de que deveriam estar em uma posição social mais privilegiada do que estão. “Essa estratégia de convencimento a partir de propostas que são sedutoras acabam se sobrepondo à qualidade do conteúdo que é divulgado”, aponta a psicóloga.
O prejuízo também é masculino
De acordo com o sociólogo Renato Kelvin Lopes, o problema da masculinidade tóxica — conjunto de comportamentos que baseiam-se na ideia de que a virilidade exige dominação, agressividade e a supressão de emoções — é que ela não prejudica somente as mulheres, mas também os homens, que sentem essa questão ainda que de forma menos latente. Frases como “homem não chora”, “não age como uma mulherzinha” ou “homem não leva desaforo para a casa” reafirmam papéis de gênero que já estão estabelecidos, segundo Lopes. Esses tipos de afirmações causam baixa tolerância à frustração e dificuldade para aceitar “não” como resposta.
Segundo a advogada Stephanie Azevedo, o problema de uma criação sem desenvolvimento emocional é que a única maneira que meninos expressam desconforto é por meio da raiva. Por causa desse distanciamento sentimental, meninos que não seguem o padrão esperado para o seu gênero sentem-se desajustados e desamparados. “Se um menino é um pouco diferente disso [padrão social], ele já se sente inadequado. E aí ele encontra um grupo que fala: ‘olha, encontramos nosso culpado, nosso bode expiatório’, que, no caso, são as mulheres”, afirma Azevedo.
Dentro das comunidades de autodesenvolvimento, o líder de opinião utiliza a figura do homem como “provedor” e “másculo” para lucrar atraindo meninos que precisam de amparo, segundo Canonne. A psicóloga explica que uma das formas que os participantes conseguem mais alcance é com a utilização da “estética de ostentação” para dar valor ao que está sendo dito. Para isso, segundo a psicóloga, mostram objetos de alto valor aquisitivo que estão sendo vestidos ou adotados, e transmitem informações sem embasamento teórico.
“Sem o controle das redes sociais, o conteúdo chega para adolescentes e crianças, que têm menos capacidade ainda de discernimento, criando um efeito de massa com muito mais facilidade”.
Lara Canonne
A misoginia além das telas
Em fevereiro de 2026, quatro homens e um adolescente de 17 anos foram indiciados por cometer um estupro coletivo contra uma jovem de 17 anos no Rio de Janeiro.
Em áudio enviado para amigos, um dos homens comemora o crime dizendo: “a mãe de alguém teve que chorar”. Outro deles, no dia em que se entregou à polícia, utilizava uma blusa com o escrito “regret nothing” (não se arrependa de nada, em tradução livre). A frase é um dos lemas incentivados por Andrew Tate, empresário e influenciador da machosfera, que é também acusado de violência sexual pela justiça da Romenia e do Reino Unido. Tate é o escritor de um livro chamado “The Tate Bible”, onde frases como “Mulheres gostam de diversão. Você pode fazer o que quiser com uma mulher, até ser horrível com ela, mas não a deixe entediada.” são encontradas.
Segundo Oliveira, aos poucos, o imaginário formado dentro do ambiente digital de que a violência, mesmo que de forma mascarada, é a única forma de expressar os sentimentos desses meninos, causa o aumento de casos de violência contra mulheres.
O impacto da misoginia no cotidiano das mulheres
De acordo com uma pesquisa da SaferNet, houve o aumento de 224% dos registros de casos de misoginia na internet em 2025. Para Canonne, as mulheres ficam mais vulneráveis, desprotegidas e com um alerta contínuo de que a qualquer momento pode acontecer uma situação de perigo.
De acordo com Azevedo, a partir do momento em que a população não considera um discurso de ódio como crime, esse discurso acaba sendo fortalecido. O Senado aprovou, em março de 2026, o Projeto de Lei 896/2023, que criminaliza a misoginia e a equipara ao crime de racismo. Para a advogada, esse projeto tem o propósito de impedir que falas machistas sejam discursadas, para que não ocorra o crescimento desses ideais dentro da internet.
Ao ser questionada sobre a lei, Azevedo afirma que é possível que falhas iniciais na aplicabilidade da lei aconteçam, assim como acontece com o crime de racismo. As falhas, segundo ela, acontecem principalmente pela necessidade de interpretação da lei, que se baseia nos danos morais que causaram ao indivíduo — que podem ser relativizados dependendo do contexto da ação. Apesar de eventuais dificuldades, a advogada defende que qualquer medida que dificulte o acesso de jovens aos grupos da machosfera terá um efeito essencial e perceptível nas próximas gerações.

Já Lopes, apesar de defender a aprovação da lei, acredita que seja importante também trazer à tona assuntos que mostram que a machosfera não é a causa, e sim o efeito. “Para isso, precisamos sair do senso comum do fenômeno, o que não é fácil”, afirma.
O recorte de raça dentro da misoginia
Segundo uma pesquisa do Aláfia Lab, dentro dos casos de racismo digital em que o gênero da vítima foi informado, observa-se que as mulheres representam a maioria das vítimas de violência racial reportadas ao Disque 100, sendo 61% dos casos.
Ao ser questionada, Oliveira defende que não há violência sem a participação de fatores sociais. Mesmo que grande parte dos casos de machismo envolvem mulheres pretas, os casos que recebem mais atenção são voltados para vítimas brancas de classes econômicas mais altas, segundo a psicóloga. “Mulheres negras ainda hoje precisam reivindicar o lugar delas a todo momento; elas não são vistas como pessoas e a reportagem não chega nelas nesse sentido”, afirma.
Oliveira ressalta que a falta de notícias acerca de vítimas de racismo pode fazer com que o movimento red pill não seja relacionado ao preconceito em um primeiro momento, o que dificulta a contenção dessas ações. A psicóloga lamenta que, mesmo com o raro alcance desses casos, algumas mulheres são inibidas quando falam sobre a violência, seja pelo contexto social de punição e de julgamento — por um papel de gênero que é perpetuado pela sociedade — ou até mesmo por meio da mídia.

Como esvaziar a machosfera?
A forma de como desintoxicar esses espaços de misoginia ainda é um debate em aberto, segundo o sociólogo Renato Kelvin. A psicóloga Lara Cannone acredita que construir uma educação que explique sobre relações de gênero desde a infância teria um resultado positivo no futuro. “Nem sempre paramos e pensamos ativamente em o que entendemos ser mulher ou ser homem significam. Simplesmente reproduzimos e performamos o que aprendemos de forma automática,” afirma a psicóloga.
De acordo com ela, caso a criação de meninos e meninas com um letramento de gênero não seja possível na infância, o acompanhamento terapêutico e a queda da concepção de que homens não devem lidar com emoções seria uma boa opção para o questionamento de conceitos já estabelecidos. Canonne defende que a psicoterapia beneficia não apenas mulheres que estão buscando a compreensão de suas individualidades, mas também homens que não tiveram a oportunidade de entender que lidar com as próprias emoções não significa reprimi-las.
Para Canonne, além dos homens desses grupos ficarem cada vez mais empobrecidos intelectualmente e afetivamente, eles também acabam virando um fator de risco para os grupos que os cercam. Então, métodos de cuidado psicológico feitos no ambiente individual que consideram questões estruturais, como raça, gênero e classe, fazem com que o sujeito seja um multiplicador na sociedade de uma vida coletiva mais saudável e inclusiva, defende Lara.
A psicóloga Nataly Oliveira defende o ensinamento de conteúdos de gênero para que esse letramento abarque mais indivíduos. “Precisamos falar sobre isso porque, muitas mulheres de classes mais baixas, durante atendimentos psicoterapêuticos, não conseguem nem entender as problemáticas das ações desses homens; elas acham que isso é normal”, afirma.
“Eu fico me perguntando: como podemos levar o que aprendemos academicamente para essas mulheres, falar na linguagem delas?”
Nataly Oliveira
