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Copa do Mundo 2026 | Após 52 anos, República Democrática do Congo volta ao Mundial

Em meio a surto de Ebola e conflitos armados no leste do país, os Leopardos enfrentam a tarefa difícil – mas não impossível – de passar da fase de grupos e fazer a melhor campanha do time desde 1974

Por Débora van Pütten (deboravp@usp.br) congo

A República Democrática do Congo conquistou a penúltima vaga para participar da Copa do Mundo da FIFA 2026 após derrotar a Jamaica na etapa de repescagem. A vitória foi garantida pelo gol do zagueiro Axel Tuanzebe e permitiu que o país africano retornasse ao campeonato depois de 52 anos sem participar.

Os Leopardos, como é conhecida a Seleção Congolesa, integra o Grupo K, junto com Colômbia, Portugal e Uzbequistão, e realiza sua partida de estreia contra Portugal nesta quarta-feira (17), às 14h (BRT), em Houston, Texas.

‘Pas a pas, malembe malembe, tozo koba’

Em uma mistura de francês, língua oficial da República Democrática do Congo, e lingala, língua nacional do país, a frase diz que ‘De passo em passo, devagar, avançamos’. Esse lema aparece com frequência em legendas de publicações da Confederação Congolesa de Futebol e reflete a trajetória da seleção.

A primeira e última vez em que os Leopardos participaram de uma Copa do Mundo foi em 1974. A RD Congo, que ainda se chamava Zaire, representava o primeiro país da África Subsaariana a participar do Mundial. Foram zero gols congoleses em três jogos: o primeiro, contra a Escócia, terminou com o placar 2 a 0 para os europeus; no segundo, a Iugoslávia goleou o time africano por 9 a 0 e, no terceiro, o Brasil venceu por 3 a 0.

Apesar da passagem curta, o Zaire protagonizou um momento marcante no duelo contra a Amarelinha. Durante uma cobrança de falta, Ilunga Mwepu saiu da barreira de defesa e chutou a bola para o lado contrário ao do gol, antes mesmo da equipe brasileira terminar de se preparar. Na época, a jogada foi interpretada como ingenuidade de um time desconhecedor de regras futebolísticas. Hoje, contudo, atribui-se o ocorrido à pressão resultante de diversas ameaças feitas aos jogadores pelo governo do país, como não deixá-los retornar a Zaire, bem como executar as famílias dos atletas que decidissem ficar na Europa. 

Depois da derrota para o Brasil e da consequente eliminação, a República Democrática do Congo não tinha retornado à competição. Até agora.

Em vídeo divulgado no canal do YouTube da Fecofa Rdc, o técnico Sébastien Desabre declarou que a Copa do Mundo de 2026 é um marco de sucesso de um projeto esportivo na seleção nacional. Para ele, se trata de uma oportunidade para mostrar no que os Leopardos e ele têm trabalhado nos últimos quatro anos.

‘Bendele ekweya te’

Traduzida para o português, a frase em lingala afirma que ‘nossa bandeira não cairá’. Para além do ocorrido em 1974, a atuação do time congolês ainda perpassa questões econômicas, de saúde e políticas nacionais e internacionais. Os jogadores reconhecem isso e a delegação congolesa se posiciona de diversas formas em defesa do país.

No Campeonato Africano das Nações (AFCON) de 2024, por exemplo, o time protestou em campo contra o conflito que atinge a parte leste da RD Congo, agravado pela exploração de recursos naturais: o território é rico em cobalto, mineral crucial para a transição energética à nível internacional. O protesto aconteceu há dois anos, mas alguns dos jogadores convocados para a Copa já integravam o time e participaram do movimento, como os atacantes Cédric Bakambu e Yoane Wissa, e o técnico Sebástian Desabre.

Em postagem compartilhada no Instagram, Bakambu fala sobre a oportunidade de alertar o mundo sobre o que acontece no país, agradece aos colegas de time por se posicionarem e encerra com ‘#FreeCongo’ (do inglês, ‘#LiberteOCongo’)  [Imagem: Reprodução/Instagram/@bakambu17] 

A República Democrática do Congo agora é também afetada pelo vírus do Ebola. Em 17 de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS)  declarou se tratar de um surto da doença. Depois disso, a delegação cancelou a ida ao Congo para treinos e se instalou na Bélgica. Ainda assim, o amistoso entre os Leopardos e o time do Chile, na Espanha, foi cancelado por autoridades locais

No dia 21, o governo dos Estados Unidos declarou que, para entrar no país, a delegação congolesa precisaria ficar em isolamento por três semanas. Como medida sanitária, o país norte-americano também restringiu a entrada de residentes do RD Congo. Nesse cenário, a FECOFA pediu à FIFA que os torcedores sejam reembolsados, mas, até o momento, a organização não respondeu. 

Em meio a tudo isso, os Leopardos encontram motivação na torcida congolesa. Michel Kuka Mboladinga é o torcedor que se tornou símbolo após assistir, de pé, com a mão direita erguida, todos os jogos da seleção em 2025. A pose é um tributo a Patrice Lumumba, líder político congolês que foi peça chave da luta contra o colonialismo no século XX. Em 2026, Mboladinga faz parte da delegação oficial para a Copa do Mundo. 

A decisão que oficializou Mboladinga como parte da delegação foi aprovada pelo presidente congolês Félix Tshisekedi [Imagem: Reprodução/Instagram/@fecofadrc]

Convocação e tática de jogo da RD Congo

Em relação à parte esportiva, a lista com os 26 jogadores convocados foi divulgada por Desabre em 18 de maio. Deles, 23 integraram o time que defendeu a RD Congo durante o Torneio Classificatório da Copa. Os outros três – Kakuta, Kalulu e Batubinsika – não participaram dos playoffs, mas jogaram pelo Congo no AFCON de 2026.  A escalação completa é:

Goleiros:

  • Lionel Mpasi (Le Havre, FRA)
  • Thimothy Fayulu (FC Noah, ARM)
  • Matthieu Epolo (Standard de Liège, BEL)

Defensores:

  • Chancel Mbemba (Lille, FRA)
  • Aaron Wan-Bissaka (West Ham, ING)
  • Axel Tuanzebe (Burnley, ENG)
  • Arthur Masuaku (Lens, FRA)
  • Joris Kayembe (Genk, BEL)
  • Steve Kapuadi (Widzew Łódź, POL)
  • Rocky Bushiri (Hibernian, ESC)
  • Dylan Batubinsika (AE Larissa, GRE)
  • Gédéon Kalulu (Aris Limassol, GRE)

Meio-campistas:

  • Noah Sadiki (Sunderland, ING)
  • Samuel Moutoussamy (Atrómitos, GRE)
  • Edo Kayembe (Watford, ING)
  • Ngal’ayel Mukau (Lille, FRA)
  • Charles Pickel (Espanyol, ESP)
  • Nathanaël Mbuku (Montpellier, FRA)
  • Brian Cipenga (Castellon, ESP)
  • Meschack Elia (Alanyaspor, TUR)
  • Gaël Kakuta (AE Larissa, GRE)

Atacantes:

  • Théo Bongonda (Spartak Moscou, RUS)
  • Fiston Mayele (Pyramids FC, EGI)
  • Cédric Bakambu (Real Betis, ESP)
  • Simon Banza (Al Jazira, EAU)
  • Yoane Wissa (Newcastle, ING)

Em relação ao planejamento técnico dos jogos, especulações sugerem que o esquema tático aplicado será o 4-4-1-1. De maneira simples, ele é composto por uma linha defensiva (4), os meia-campistas (4), um atacante (1) e um meia-atacante avançado (1), que faz o elo entre o ataque e o meio-campo.

O time representado acima pode não ser o que entrará em campo, visto que o infográfico também foi construído com base na hipótese de escalação feita pelo Lance. No amistoso contra a Dinamarca, por exemplo, outros atletas jogaram, como Kayembe e Kalulu  [Imagem: Débora van Pütten/https://www.buildlineup.com/

Destaques da República Democrática do Congo

Chancel Mbemba  

Capitão do time, Mbemba joga pelos Leopardos desde 2012 e, atualmente, defende o Lille, na Ligue 1 francesa. Já jogou pelo Newcastle, da Inglaterra, e pelo Porto, de Portugal, e venceu o Championship (2017) e a Taça de Portugal (2022). É um jogador de destaque na África e costuma usar sua visibilidade para falar sobre questões sociopolíticas do território.

Yoane Wissa  

Em setembro de 2025, Wissa sofreu uma lesão no joelho enquanto defendia a RD Congo nas Eliminatórias da Copa. Ele ficou afastado e voltou a tempo do jogo decisivo contra a Jamaica, em 2026. Fora do continente africano, atua pelo Newcastle, da Inglaterra, mas, antes disso, se destacou na Ligue 2 francesa como atleta do FC Lorient e foi um dos atacantes destaque da Premier League quando jogava pelo Brentford.

Cédric Bakambu 

Conhecido como o talismã dos Leopardos, Bakambu concedeu, em outubro de 2025, uma entrevista em que declarou que seu “sonho mais selvagem é jogar pela RD Congo na Copa”. O sonho virou realidade. Com 21 gols pelo time, é o segundo maior artilheiro da história da seleção, atrás somente de Dieumerci Mbokani – que marcou 22 gols. Atualmente, joga pelo Real Betis, da Espanha. 

Da esquerda para a direita, Mbemba, Wissa e Bakambu, em diferentes jogos pela República Democrática do Congo [Imagens 1 e 2 – Reprodução/Wikimedia Commons; Imagem 3 – Reprodução/Instagram/@bakambu17]

*Imagem de capa: Reprodução/Instagram/@fecofadrc

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