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Do New Queer Cinema à contemporaneidade: A relevância do cinema independente para a representatividade LGBTQ+
CINÉFILOS
08 jan 2021 | Por Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br) e Pedro Ferreira (umpedroferreira@gmail.com)

No início dos anos 1990, nasce o New Queer Cinema. O novo cinema queer foi um movimento independente que rejeitava a heteronormatividade e propunha filmes com temáticas ligadas à representação de pessoas LGBT à margem da sociedade.

 Selvagens, sexuais e provocativas, as obras desse período eram reflexos da crise de AIDS dos anos 1980. O ativismo e a comunidade formada dessa tragédia fizeram obras vigorosas e que marcam a história dos movimentos LGBTQ+ no mundo. A própria palavra queer é um termo guarda-chuva, baseado em uma antiga ofensa, que foi ressignificado por pessoas LGBT como forma de designar todas as pessoas não heterocisnormativas.  

Nos Estados Unidos, desde filmes como Looking for Langston (1989) de Isaac Julien, o pioneiro Poison (1991) de Todd Haynes e o clássico Paris Is Burning (1991) de Jennie Livingston são exemplos da força criativa e produtiva da comunidade nessa época. 

Em território nacional, o novo cinema Queer coincide com um momento problemático para o cinema nacional. Os anos 1990 se iniciam com uma tremenda estagnação na produção de longas-metragens. Nos anos 70, o país produzia em média 80 filmes por ano, sendo que, em 1992, apenas nove longas foram lançados. Em 1995 se inicia o “Cinema de retomada” e o primeiro filme a tratar da homossexualidade é Jenipapo (1995) de Monique Gardenbeg. 

 

O filme-documentário Paris is Burning retrata a comunidade LGBTQ+ nova-iorquina durante os anos 1980. [Imagem: Reprodução/Youtube]

O filme-documentário Paris is Burning retrata a comunidade LGBTQ+ nova-iorquina durante os anos 1980. [Imagem: Reprodução/Youtube]

Entre 1995 e 2011, o total de longas que retratavam alguma forma de vivência queer foi equivalente a 16. Destes, apenas três detiveram um público acima de cem mil pessoas. De 2011 em diante, uma série de filmes com temática LGBTQ+ obtiveram maior impacto comercial e, também, houve um fortalecimento em produções universitárias e acadêmicas sobre sexualidade e gênero.


A representatividade ao longo dos anos

A representação de LGBTQs no cinema já ocorria desde seus primórdios, ainda que de forma velada. Entre 1894 e 1895, o inventor William K. L. Dickson produziu um curta-metragem mudo intitulado The Dickson Experimental Sound Film — com o apoio da Edison Studios, empresa de Thomas Edison. Em seus 17 segundos, dois homens dançam juntos ao lado de um violinista. 

Segundo o historiador e ativista Vito Russo, em seu livro The Celluloid Closet, a produção teria recebido o título de “The Gay Brothers”. A afirmação é contestada com base no contexto da época, em que a dança entre militares do Exército estadunidense era comum, e até mesmo pelo significado da palavra gay, que, em inglês, pode significar “alegre” e “jovial”. Ainda com a polêmica, o curta é comumente referenciado como a primeira representação de homossexuais no cinema.

Durante a maior parte do século 20, a indústria cinematográfica impôs uma censura a cenas que contivessem sexo, nudez, obscenidades e profanação. Para fugir de ser enquadrado em um dos dois últimos, o papel do homossexual nos longas-metragens oscilava entre o alívio cômico, a vilanização ou o desboque em um final trágico. Homens gays com trejeitos afeminados eram ridicularizados nas telas. Vilões perversos e arrogantes tinham suas sexualidades questionadas. Personagens homossexuais nunca tinham direito a um final feliz.

As narrativas centradas no perfil de homens gays brancos se manteve constante até recentemente, ainda com problemáticas atreladas aos personagens. Filmes como O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005) reproduzem uma relação homoafetiva pautada pela heteronormatividade. Já quando o foco narrativo passa para um casal lésbico em Azul É a Cor Mais Quente (La vie d’Adèle, 2013), o resultado foi a sexualização das protagonistas e denúncias de abuso durante as gravações.

No entanto, novas produções parecem construir um horizonte mais diverso na representação de corpos LGBTQ+ no cinema. O aclamado Moonlight (2016), por exemplo, conta com protagonismo negro e um complexo enredo de descoberta de identidade. No Brasil, o filme Alice Júnior (2019) foi capaz de abordar uma vivência trans de forma leve e bem-humorada sem tampouco minimizar a transfobia e os desafios enfrentados por essa população. 

Ainda assim, as grandes produções nacionais e estrangeiras têm se isentado e falhado em representar vivências da comunidade, que estão sendo cada vez mais exploradas pelo cinema independente.

 

Anne Mota interpreta a adolescente Alice em Alice Júnior. Na imagem, a menina está sentada em sua cama [Imagem: Reprodução/Netflix]

Anne Mota interpreta a adolescente Alice em Alice Júnior. [Imagem: Reprodução/Netflix]


Os desafios da representação LGBTQ+ no cinema

Em escala global, a questão da representatividade LGBTQ+ no cinema passa por pequenos avanços. Ellie Lockhart, doutora em estudos comunicacionais, questionou-se sobre a quantidade de filmes com protagonismo queer e sua rentabilidade. 

Em entrevista para o jornal Observer, ela afirma que gostaria de frisar a relevância da representatividade para além das produções cinematográficas indie, adentrando o domínio dos filmes de alto orçamento e de grande sucesso de bilheteria. A pesquisadora chegou à conclusão de que, em média, apenas 2% dos filmes possuem algum personagem com protagonismo que seja identificável como queer. E que esses filmes possuem uma audiência muito disposta a assisti-los, tanto em filmes dramáticos — pelos quais são um pouco menos expressivos e de nicho —, quanto em filmes de franquia, como em Deadpool 2 (2018). Lockhart pontua, no entanto, que ela espera que possam existir representatividades melhores do que Deadpool.

A importância da representatividade e diversidades generalizadas no audiovisual vem da sua relevância para a inclusão de temas que dialoguem com a realidade dessas minorias. Além disso, existe uma invisibilização ao excluir tais pessoas dessas produções, uma vez que elas são formas de conteúdo consumidas diariamente por milhares de pessoas. E, para realizar uma representatividade funcional, o tema principal da obra nem sempre deve se limitar à sexualidade e gênero. 

“A hegemonia entre corpos faz parecer que existe o normal e existe o outro. E esse outro não está no mesmo nível de humanidade, esse outro não pode falar de outra coisa senão a condição de ‘outro’”, afirma o cineasta Hugo Katsuo, especializado na representação de corpos amarelos no audiovisual. Para ele, seria interessante incluir pautas LGBTQ+ em produções que não as têm exatamente como sua única temática definitiva. 

 

Em The Old Guard, uma cena de beijo gay, raro em filmes de ação.

Cena de The Old Guard. [Imagem: Reprodução/Netflix]

Em The Old Guard (2020), filme de ação protagonizado por Charlize Theron, os personagens Nicky (Luca Marinelli) e Joe (Marwan Kenzari) são um casal. Entre demonstrações de afeto generalizadas, e até mesmo uma cena de beijo gay, o filme se destaca por naturalizar uma relação gay em um filme de ação. 

Para tanto, também existem questões que envolvem a inserção da população LGBTQ+ no mercado de trabalho. A necessidade de maior diversidade não está ligada somente às telas, mas também aos backstages com maiores contratações de profissionais mais diversos em fotografia, direção, roteirização, direção de arte etc. Isso porque, com a perspectiva de pessoas que sentem na pele tais condições, erros grotescos, como o do longa Azul É a Cor Mais Quente, podem ser evitados.

Em virtude da abundância de identidades possíveis e formas de expressá-las, o principal desafio em representar a comunidade LGBTQ+ é sua maior força: sua pluralidade. É complexo afirmar em fórmulas para expressar os indivíduos dessa comunidade, mas é fácil apontar maneiras incorretas e recorrentes. 

O conceito de Tokenismo surgiu nos Estados Unidos dos anos 1960, momento em que o país passava pela forte mobilização popular em favor dos direitos civis de afro-americanos. Foi utilizado pela primeira vez por Martin Luther King Jr, em um artigo de 1962, em que explicava o tokenismo como um projeto que integra o mínimo de diversidade para gerar uma falsa sensação de igualdade. 

Na questão cinematográfica das populações LGBTQ+, o tokenismo impera em personagens secundárias sem quaisquer relevância que se identificam como queer sem ter um desenvolvimento real dessa identidade. 

E, claro, tendo em mente que o principal desafio é a não representação, existem erros conceituais e produtivos repulsivos. A sexualização de lésbicas para públicos masculinos, bissexuais que somente se relacionam por interesse, produções g0ys, ou seja, em que homens se atraem por homens sem se identificarem como gays ou bissexuais e também personagens gays direcionados ao alívio cômico de heterossexuais, muitas vezes promíscuos e afeminados, são exemplos recorrentes. 

O defeito principal desses estereótipos encontra-se exatamente no fato de que não partem de uma narrativa feita por membros da comunidade, mas sim a partir de concepções errôneas e excludentes de cineastas e roteiristas de outra realidade.

Portanto, a relevância do acréscimo dessas minorias ao mercado de trabalho está na própria produção de conteúdo de qualidade e sem estigmas. Para o cineasta Daniel Ribeiro, o cenário brasileiro é promissor nesse sentido. “Hoje em dia, quando as pessoas estão começando um projeto, elas perguntam: ‘Você conhece um roteirista negro?’, ‘você conhece uma roteirista trans?’”. Ele afirma que, mesmo que algumas pessoas realizem isso por tokenismo, outras percebem o essencial dessas visões: “Se a gente não faz parte daquele grupo, a gente não sabe a complexidade daquele retrato”. 

 

Da esquerda para a direita, os personagens Leonardo (Guilherme Lobo) e Gabriel (Fabio Audi) protagonizam o casal de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Uma ótima representação da comunidade LGBTQ+ [Imagem: Reprodução/Lacuna Filmes]

Da esquerda para a direita, os personagens Leonardo (Guilherme Lobo) e Gabriel (Fabio Audi) protagonizam o casal de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. [Imagem: Reprodução/Lacuna Filmes]

Daniel é um dos principais nomes do novo retrato cinematográfico LGBTQ+ de 2012 para cá. Sua produção Hoje eu quero voltar sozinho (2014) é baseada no curta Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010) e ambos contam a história do romance de dois garotos gays. O filme foi vencedor do prêmio Teddy, direcionado a obras LGBTQ+, do Festival Internacional de Cinema de Berlim e foi o escolhido pelo Ministério da Cultura brasileiro para representar o Brasil na disputa pelas indicações ao Oscar de melhor filme estrangeiro daquele ano. O caso da obra é de um curta-metragem que inspirou um longa-metragem de sucesso, o que denota a relevância das produções independentes para a difusão de representatividades. 

Hugo Katsuo pontua a ausência de experimentações e referências de minorias raciais e queer na cinematografia nacional. Para ele, as produções universitárias e de curtas são mais transgressoras e acessíveis aos cineastas, mas elas não chegam ao grande público: “Acho que a produção universitária independente de curta-metragem está focando muito nisso. Mas o problema do curta é que ele acaba sendo consumido muito mais por um público que já tem um repertório de cinefilia do que pela maior parte da população”.

Assim, a diversidade ganha espaço nas produções audiovisuais independentes. Em decorrência dos altos custos de produção de longa-metragens, os curtas se destacam. Alguns, como o afrofuturista queer Negrum3 (2018), de Diego Paulino, que perdeu o apoio da Ancine para participar do festival de cinema LGBTQIA Queer Lisboa, e o documentário poético sobre transsexualidade Preciso Dizer que Te Amo (2018), de Ariel Nobre, são apenas alguns exemplos de um cenário nacional frutífero e cada vez mais abrangente.

 

Negrum3, curta-metragem sobre a juventude negra LGBTQIA+ da cidade de São Paulo. [Imagem: Reprodução / Reptilia Produções]

Negrum3, curta-metragem sobre a juventude negra LGBTQIA+ da cidade de São Paulo. [Imagem: Reprodução/Reptilia Produções]


Cinema e diversidade são atos políticos

2019 foi um novo ano recorde para a representatividade LGBTQ+. Mas, na verdade, o recorte é melhor definido se reduzido somente aos homens gays cisgêneros e brancos. Há gigantes lacunas nas representatividades lésbicas, bissexuais, transsexuais e de qualquer outra forma de diversidade sexual e de gênero.

De acordo com o relatório da ONG Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (GLAAD), houve uma redução por três anos consecutivos no número de pessoas queer não-brancas representadas em filmes. E, até mesmo dentre os homens gays caucasianos, muitas vezes eles são representados por poucos minutos e não possuem relevância para a trama.

Enquanto o meio mainstream ainda cede lentamente as suas ficções de mundo completamente heterossexuais, o cenário independente, tão mais suscetível a experimentações, insere seus holofotes em novas histórias. Narrativas que são relevantes para a inclusão e a diversidade, tanto sexuais e de gênero quanto raciais.

O Novo Cinema Queer foi um movimento nascido do independente que construiu um dos maiores pilares de conteúdo da comunidade LGBTQ+. Semelhantemente, existe hoje uma pulsão, uma força latente entre a produção universitária e de curtas sobre gênero e sexualidade que podem representar as minorias bissexuais, transsexuais, lésbicas e não-binárias em geral de modo saudável e admirável. 

A falta de diversidade é menos de um problema único à indústria cinematográfica e de entretenimento e muito mais um reflexo de condições estruturais e conjunturais de exclusão. A conquista desses espaços seria, também, um início de redefinição da relação de toda a sociedade com a comunidade LGBTQIA+. E o começo disso está na produção independente. 

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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