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Vogue: ‘Ballroom’, resistência e protagonismo negro e transexual
Controle Remoto
18 nov 2020 | Por Mateus S. Dias (mateusdesouzadias10@usp.br)

Quando se fala em vogue, é comum pensar em três coisas: a revista de moda feminina mais influente e conceituada do mundo, o estilo de dança e Madonna. De certa forma todas estão interligadas. A primeira é a inspiração da dança, e a última popularizou e deu destaque a esse estilo, exportando-o para o mundo.

Marcada por um passado de resistência, o vogue (ou voguing) está fortemente ligado à cena ballroom e às competições, com sua popularização na década de 1990, e posteriormente sua entrada no esquecimento. Entretanto, a cena tem voltado à tona com programas que ressuscitam os dias de glória do estilo.

 

O início da cena

O vogue nasceu e popularizou-se nas balls, que teriam surgido quase um século antes da dança, com o 1º Baile Anual Old Fellows, no bairro nova-iorquino do Harlem em 1867, no qual homens e mulheres vestiram-se do sexo oposto para competir.

Entre 1920 e 1935, aconteceu o chamado Renascimento do Harlem, que – assim como ocorreu na Europa nos séculos 14 a 16 – foi um movimento intelectual, cultural e artístico que resultou na explosão de produções de obras centralizadas na vida das pessoas negras. O movimento possuía muitos líderes abertamente LGBTQI+. No Harlem, entre as década de 1960 e 80, pouco mudou. Ali continuava a ser um local de ativismo e cultura da comunidade queer, as balls estavam cada vez mais populares e serviriam de berço para o nascimento do vogue.

O surgimento do voguing não é claro, nem mesmo sua época. Alguns apontam ter surgido nas celas de Rikers Island, onde gays negros estavam presos devido à perseguição policial nos bares e boates de Nova York, apesar de a Lei Seca ter sido abolida em 1933. Na prisão só entrava um conteúdo, as revistas Vogue, e a partir daí os detentos começaram a imitar as poses. Quando livres, inseriram os movimentos nos bailes.

Paris Dupree no documentário Paris is Burning. [Imagem: Divulgação IMDb]

Paris Dupree no documentário Paris is Burning. [Imagem: Divulgação IMDb]

Outra história muito aceita sobre o surgimento do vogue está associado à drag Paris Dupree. Quando dançava e jogava indiretas para outras queens, ela teria tirado de sua bolsa uma revista Vogue, aberto-a, imitado a pose de uma modelo, e feito isso de novo seguindo o ritmo da música. As outras drags repetiram os movimentos, tentando a cada vez superar a pose anterior. Assim a moda teria se popularizado nas balls.

Após seu surgimento, a dança tornou-se o carro chefe da cena ballroom, relativo às balls, e alcançou a atenção de grandes celebridades. Madonna, em uma boate de Manhattan, conheceu José Gutierrez, bailarino dominicano e membro da House of Xtravaganza, uma casa local. A Rainha do Pop pediu a ele que lhe mostrasse o voguing, ele dançou e ela adorou. José ficou responsável por coreografar o vídeo seguinte de Madonna e ensiná-la o estilo. Assim, em março de 1990, nascia o hit Vogue: a música esteve no topo das paradas em mais de 30 países, vendeu mais de seis milhões de cópias e se tornou a canção mais bem sucedida daquele ano.

Trecho do clipe de 'Vogue', de Madonna. [Imagem: Reprodução/YouTube]

[Imagem: Reprodução/YouTube]

Em 1990, também era lançado o documentário Paris is Burning, de Jennie Livingston. O filme acompanha a vida da comunidade LGBTQI+ na década de 80 em Nova York, mostra o cenário ballroom e os desafios que os voguers enfrentavam quanto à raça, gênero, sexualidade e classe. O filme se mostrou extremamente necessário e ganhou diversos prêmios, como o Grande Prêmio do Júri no Festival Sundance de Cinema e o Urso de Ouro de Melhor Documentário. Mesmo com algumas controvérsias o documentário contribui, junto com a turnê mundial Blond Ambition de Madonna, (que contava com alguns bailarinos do cenário ballroom), para expandir a cena do Harlem e elevá-la ao mainstream. O vogue popularizou-se no Brasil do meio para o final dos anos 2000, com o Trio Lipstick

O voguing influenciou coreografias de outros grandes nomes, como Beyoncé, Rihanna, Ariana Grande e Azealia Banks. A era pós Madonna e Paris is Burning teve a volta da cultura ao underground, mas o movimento ballroom e o voguing não pararam por aí. A cena continuou com novas gerações que permaneceram lutando e fazendo do cenário um lugar político. 

O voguing possui três estilos principais. O Old Way, que surge entre as décadas de 60 e 80, é a forma antiga e clássica de se dançar, baseado nas poses da revista Vogue e nos hieróglifos egípcios, e caracterizado pelas linhas, simetrias e precisão na execução. O New Way surge no final dos anos 80 e início dos 90, como uma nova versão do voguing, que envolve ginástica, flexibilidade e elasticidade. E por último, o Vogue Femme, que nasce por volta de 1995, com as mulheres trans. Esse estilo exalta feminilidade, e foi o que mais se popularizou e esteve presente em coreografias de grandes artistas pop a partir dos anos 2000. O Vogue Femme tem cinco fundamentos básicos: Hands Performance (movimentos e ilusões criados com as mãos, braços, pulsos e dedos, geralmente contando uma história); Catwalk (forma de caminhada exageradamente feminina, onde as pernas são cruzadas uma sobre as outras, quadris são jogados para os lados e o braços para frente, contrários às pernas); Duckwalk (uma caminhada agachada, chutando os pés e que exige grande equilíbrio); Floor Performance (movimentos sensuais feitos no chão) e Dip (uma queda ou mergulho, quase sempre acontece no clímax da música).

 

O cenário ballroom

Os bailes se tornaram muito populares somente na década de 80, e até o início da década de 70 os grandes e famosos eram praticamente dominados pela comunidade branca, que quase sempre vencia as competições. Crystal LaBeija, uma drag queen negra de Manhattan, se viu farta do racismo que as minorias étnicas sofriam naqueles locais. Em 1977, resolveu criar então seu próprio baile e também sua casa, que abrigava membros da comunidade gay e transexual de negros e latinos. Assim, a House of LaBeija dava início à cultura das casas, inspirada nas maisons da alta-costura (em tradução do francês, maison equivale a casa, e aqui se refere às marcas da haute couture), e construiria um legado que jamais poderia ser esquecido.

O ballroom, além do lugar onde aconteciam bailes e as competições, também se tratava de um local de afeto e acolhimento. As casas eram formadas por LGBTQI+ mais velhos, que eram chamados de “pais” e “mães”  acolhiam jovens homossexuais e transexuais expulsos de casa, e faziam com que essas crianças se sentissem representadas na figura de seus pais.

Henrique, pai da House of Zathura de Belém (PA), conta: “As mães e os pais pegavam essas crianças e diziam: ‘Você é amado, você pode ser amado, tem um local onde você é especial’. Esse lugar é o ballroom. Ballroom é isso, é família”. Família que foi importante para o crescimento de Denzel, filho da Casa de Serpentes de São Paulo (SP), e expandiu seus conceitos de coletivo e amizade: “Antes de eu entrar na  house, eu era uma pessoa com autoestima muito baixa, e a Ivan está sempre tocando nesse ponto com a gente, falando que esse espaço é nosso. Elu passa essa determinação para nós”, diz Denzel sobre a pai de sua casa.

Atualmente, o ballroom é dividido em duas cenas, a Kiki e a Mainstream, Esta última se refere às casas que cresceram e evoluíram a partir da década de 80, como a LaBeija. São casas maiores, já inseridas em um contexto internacional, com uma finalidade mais competitiva, como nas grandes balls. A cena Kiki se assemelha muito com o início da cultura das casas. São casas menores, “geradas através da experiência, da vivência, do contato direto com outras pessoas”, diz Henrique, que vem de uma casa da cena Kiki.

Essa vivência não é uma constante, de forma que as casas possuem objetivos diferentes, formatos diferentes que se adaptam de acordo com seus membros. Matysha, mãe da House of Boneketys, a primeira do Espírito Santo formada por pessoas trans e mulheres, conta que o maior objetivo das boneketys é juntar a comunidade através da cultura ballroom e “dar acesso à cultura e à arte para pessoas pretas, trans e periféricas como nós, fazer desses espaços, além de um espaço de luta e resistência, um espaço em que a gente pode trocar amor e afeto que nunca nos foi dado”.

Nas competições dos salões de baile, os vencedores recebem troféus e o título de legendary. São diversas categorias particulares à vivência do local em que se está inserido. As categorias podem ser de Estética, que exaltam e protagonizam a beleza dos corpos periféricos que compõem esse cenário, a exemplo de Face, Runway, Best Dressed e Body; categorias de Performance – as mais famosas são Sex Siren, na qual os participantes apresentem sexualidade e sensualidade aos jurados, e Realness, em que se representa papéis, geralmente carregada de sátira; e, por fim, as categorias Dançáveis, em sua maioria ligadas ao Vogue. 

Categoria de Realness chamada Royalty na série Pose. [Imagem: Divulgação/IMDb]

Categoria de Realness chamada Royalty na série Pose. [Imagem: Divulgação/IMDb]

Apesar de o voguing já ter chegado ao Brasil ainda nos anos 2000, o ballroom surge no país apenas em meados da década de 2010. Entretanto, alguns aspectos da cultura daqui são diferentes dos estadunidenses. Ambos atingem a comunidade LGBTQI+ periférica, mas o ballroom aqui encontra um outro cenário, o que acarreta em categorias únicas: “A gente tem nossas brasilidades, tem categorias de samba, de funk, de brega funk, de capoeira, categoria de quadradinho; então isso chega diferente aqui”, diz Ivan, pai da Casa de Serpentes. 

 

Resistência e significados

Quando surgiu na década de 60, o vogue já era extremamente politizado. O voguing e a ballroom eram os únicos espaços onde pessoas transexuais, gays, negras e latinas tinham protagonismo. Ivan aponta o papel da dança como forma de empoderar essas pessoas: “O vogue era o único espaço onde todas essas pessoas poderiam estar no topo, vencer e ter um grande papel, como se fosse o papel principal em uma novela”. 

Essas pessoas eram  marginalizadas na sociedade e geralmente não tinham vez, principalmente as travestis e as mulheres trans. “Mesmo que seja por uma noite, essas pessoas se tornavam protagonistas, tornavam-se estrelas. As pessoas celebravam a beleza negra, a beleza trans, cada tipo de beleza interior, cada particularidade que elas tinham”, completa Ivan. 

“Você, além de estar dançando, está contando a sua história. Vogue é contar sua história. Então você está improvisando ali, mostrando para jurados, para todas as pessoas naquele baile que sua performance é tudo que você passou e está passando”, aponta Henrique. A dança deu voz a histórias que antes eram silenciadas e serviu de protesto para que fossem ouvidas. Henrique ainda diz: “O vogue, além de uma dança, também é uma forma de expressão, através das movimentações, da resistência, de onde ela surgiu e dos corpos periféricos que eram minorizados na sociedade. O vogue deu uma possibilidade para que esse corpos se expressassem em sua perfeição”.

A dança é também sobre aceitação, sobre autodescobrimento e conexão com outras pessoas. Para Henrique, ela ajudou-o a descobrir novas formas e possibilidades: “Encontrei no Vogue uma forma de me expressar, que eu não tinha utilizado antes. Acho que através dele eu descobri outras possibilidades do meu corpo agir e se estruturar”. Para Matysha, ele foi sobre conexão com si mesma e as outras integrantes da House of Boneketys. “O voguing representa autoaceitação, autoconhecimento corporal e mental. A partir da dança, podemos nos conectar melhor com nós mesmas e umas com as outras. O Voguing nos trouxe afeto e confiança, e traz a nossa segurança”.

Para Ivan, o vogue é político. Quando surgiu como casa, e deixou de ser apenas um grupo de dança, a Casa de Serpentes serviu de palco para debates e questionamentos como gênero e sexualidade, e se tornou assim um lugar mais político: “Um lugar onde a gente pudesse, além de se sentir confortável para dançar, ter esses questionamentos de se posicionar como casa, que é uma coisa que a cena ballroom pede”.

 

E agora?

Após a reentrada ao underground, o vogue voltou a ganhar visibilidade quase 30 anos depois dos seus dias de glória. Começaram a surgir programas e reality shows que retratam o Vogue e a cena ballroom ou se inspiram em seus formatos para construírem conteúdo. RuPaul’s Drag Race (2009-presente), do grupo VH1, é um dos mais famosos. Mesmo que o programa retire a cultura e o protagonismo de outros grupos da cena, o seu formato busca inspirações nas competições dos salões de baile.

Quadro do teaser de Legendary, que aborda o vogue. [Imagem: Reprodução/YouTube]

Quadro do teaser de Legendary. [Imagem: Reprodução/YouTube]

A série de televisão Pose (2018-presente), da FX, se passa na Nova York dos anos 1980 e conta a história de Blanca com jovens LGBTQI+, expulsos de suas casas e acolhidos na House of Evangelista, da qual ela é mãe, ao mesmo tempo em que retrata a cena ballroom e o vogue. Há também o reality show Legendary (2020-presente), da HBO Max, um programa no qual casas da cena ballroom estadunidense competem entre si em categorias como moda e dança, incluindo o Vogue. Esses dois programas dão visibilidade para as pessoas que realmente estão inseridas no cenário ballroom, e permitem que pessoas de fora realmente compreendam a cena.

O vogue tem ressurgido no cenário global e dado voz a minorias que por muito tempo foram silenciadas, levantando debates sobre gênero, sexualidade e preconceito. Ele permite que novas pessoas conheçam, se apaixonem pela cena, e descubram novas formas de se expressar e se conectar. E, principalmente, atua politicamente na promoção do protagonismo queer, negro e transexual.

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