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Literaturas Afrofuturistas: para pensar um futuro negro

O movimento que surgiu em meio à contracultura e que segue influenciando artistas até a atualidade

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11 dez 2020 | Por Mariana Marques (m4rimarques@usp.br)

O Afrofuturismo voltou a ter destaque nas redes sociais após o lançamento da nova produção cinematográfica de Beyoncé, Black is King (2020), e com o recente falecimento de Chadwick Boseman, ator que viveu o Pantera Negra nos filmes da Marvel. O movimento que surge nos anos 60, em meio à luta pelos direitos civis e dos movimentos de contracultura, foi fortemente influenciado pelo Beatnik – antecessor do movimento Hippie. Marcado pelo brilhantismo de Sun Ra que, no filme Space is the Place (1974), desempenhou as funções de roteirista, compositor e protagonista, o Afrofuturismo segue sendo um elemento influente nas produções artísticas em todo o globo.

Autora da Duologia (In)verdades e (R)evolução, Lu Ain-Zaila é uma das maiores referências atuais da literatura afrofuturista no Brasil. Na sua visão, o “Afrofuturismo pode ser entendido como a tomada para si da racionalidade negra pela pessoa negra em seus termos, pois na condição social eurocêntrica em que vivemos, os signos impostos são brancos”. A consequência disso, afirma Lu, é a crença de que a única racionalidade que existe é branca.

Um bom exemplo disso é o racismo, uma vez que é estruturador da sociedade, é muito presente na tecnologia e em seu desenvolvimento. Se recentemente tivemos polêmicas envolvendo o funcionamento dos algoritmos de aplicativos, como o Instagram e o Twitter, décadas atrás as polaroids não focavam rostos negros. Situações problemáticas envolvendo reconhecimento facial e carros autônomos também podem ser observadas. “Isso é a branquitude em ação sem diferença de classe econômica”, afirma Lu. Por isso, Afrofuturismo traz a Afrocentricidade a partir do qual afirma a pessoa negra como centro de sua própria produção. O processo visa a reconstrução da maneira como as pessoas negras se enxergam, para que a partir disso elas possam elaborar um futuro para si.

Mas e a Literatura?

Beyoncé, Spike Lee, Janelle Monáe, Ellen Oléria e até mesmo Michael Jackson são exemplos de artistas influenciados, em maior ou menor grau, pelo Afrofuturismo. Por isso, quando pensamos no tema, não é incomum lembrar, quase automaticamente, das produções do audiovisual que nos teletransportam para novas (ou velhas) realidades desconhecidas através das imagens e dos sons. Mas há também outras formas de pensar e expressar o afrofuturo.

Ironicamente, o termo foi cunhado por um homem branco em 1994. Mark Dery, em seu ensaio De volta para o Afrofuturo (Black to the Future), descreve como “Afrofuturismo” as ficções especulativas que abordam temas e preocupações afro-estadunidense no contexto da tecnocultura. E se na ficção científica eurocentrada o futuro da humanidade (humanidade essa que é majoritariamente, branca e masculina) é detalhadamente descrito em livros, no Afrofuturismo isso também ocorre. Conhecer a literatura afrofuturista nos trás a possibilidade de imaginar um futuro no qual as pessoas negras, em toda sua integridade e subjetividade, existem.

Octavia Butler


Vencedora dos prêmios Hugo e Nebula, Octavia Butler é considerada por muitos, a rainha da ficção científica. Uma das precursoras na literatura afrofuturista, a autora começou a ganhar atenção do público nos anos 80. Em suas obras, ela criou protagonistas femininas negras em histórias que envolvem ficção científica, racismo e independência feminina em uma combinação de tirar o fôlego. Durante a década de 90, vários de seus clássicos que consolidaram sua carreira foram publicados, com destaque para A Parábola do Semeador (1993), Parábola dos Talentos (1998) e Kindred, Laços de Sangue (1979).

N.K. Jemisin

[Imagem: Reprodução/Arquivo pessoal]


Única pessoa a ganhar três vezes consecutivas o prêmio Hugo Awards, a escritora N.K. Jemisin acumula prêmios e indicações no mundo da ficção científica. Todos os volumes de sua trilogia A Terra partida: A Quinta Estação (2017), O Portão do Obelisco (2018) e O Céu de Pedra (2019) só podem ser descritos como um sucesso entre a crítica. Eles compõem uma distopia afrofuturista que se desenvolve enquanto aborda violência, opressões raciais e o desejo humano pela sobrevivência. Outra obra de destaque em sua trajetória é o conto Non-Zero Probabilities que em 2009 foi finalista do prêmio Nebula.

Nnedi Okorafor

Apesar de não se considerar parte da literatura afrofuturista, Nnedi Okorafor não pode deixar de ser citada. Autora do sucesso Quem teme a morte, Onye e a Profecia (2013), a autora nigeriana insere em suas obras diversos elementos em comuns ao Afrofuturismo. Para ela, o Afrofuturismo está ligado à perspectiva negra diaspórica. Em vez disso, para descrever sua arte, Okorafor utiliza africanofuturista, e, às vezes, afrojujuísta nas suas obras fantásticas. Na visão da autora, os termos estariam mais enraizados nas tradições e cosmovisões do Continente Africano. Isso fica bastante evidente nas suas obras em que o pensamento afrocentrado é capaz de surpreender o leitor junto a uma percepção do tempo que desafia a linearidade ocidental.

E no Brasil?

O país com maior número de pessoas negras fora do Continente Africano não poderia deixar de ser profundamente afetado por uma filosofia tão emancipadora como o Afrofuturismo. No Brasil, os afrofuturistas têm trilhado um caminho que propõem uma fabulação do futuro que realmente faça sentido para quem vive em um mundo criado a partir da diáspora africana.

Publicar livros no Brasil é uma tarefa árdua e autores negros costumam ter ainda mais dificuldade para ver seus trabalhos inseridos no mercado editorial. Nesse contexto, pensar em um selo editorial que volte seus esforços para a publicação de literatura afrofuturista brasileira pode parecer algo tão distante quanto a existência de carros voadores. Bem, algumas fabulações sobre o futuro acabam virando realidade.

Kitembo Edições Literárias do Futuro surge com uma proposta diferenciada: ser um espaço seguro para que escritores e escritoras negros possam publicar livros para além do ultrarealismo. Fundada em 2018 por Israel Neto, Anderson Lima e Aisameque Nguenge, moradores da Brasilândia, Zona Norte da capital paulistana, o selo já publicou títulos como Amor Banto em Terras Brasileiras (2018) e Os Planos secretos do Regime (2020).

Ainda nos seus primeiros anos de mercado, a Kitembo (cujo nome homenageia a divindade de origem bantu de mesmo nome) já enfrentou grandes desafios. O maior deles foi se posicionar, “somos uma editora que não vai publicar livro de poesia, não vai publicar realismo. A gente vai publicar fantasia, terror, afrofuturismo, e isso era uma barreira” disse Israel. Como a editora busca um público leitor amplo e diverso, o preço das publicações também eram outro empecilho a ser superado. “Vivemos em um país com o livro mais caro do mundo. Precisávamos fazer um livro bom e barato”. É por isso que só publicam obras que custem até, no máximo, 25 reais.

O objetivo das histórias afrofuturistas, de acordo com Israel, não é ter algum compromisso com o futuro, mas justamente fazer com que pessoas negras pensem nele. Essa nem sempre é uma missão simples, “a urgência da vida, do agora é tão primordial para a gente, tão sufocante, que às vezes não permite que possamos pensar no futuro”, afirma. Mas também pode ir muito além disso: “eu sempre brinco que, quando Gene Roddenberry escreveu Star Trek, os designers não pensaram que 60 anos depois ia existir um celular igual ao que eles fizeram. Então eu acho que isso é uma oportunidade que a gente tem de colocar a nossa marca no futuro”, conclui o editor.

Quando se trata dessa elaboração do futuro, feita por pessoas negras, Lu Ain-Zaila não acredita que isso aconteça de modo natural em nossa sociedade. Muito pelo contrário, existe a normatização da ideia de genocídio e ódio ao que é diferente, que refletem a maneira com a qual lidamos com nosso passado escravocrata. “Exatamente o que aprendemos na escola. Se passa pelas mortes de milhares de pessoas com uma frase seca e vazia. Se fala escravidão como se não fosse nada.”

Por isso, o passado e o presente também são parte das produções afrofuturistas. O provérbio africano Sankofa desempenha um papel importante nos textos de Lu Ain-Zaila. “Posso afirmar que o Sankofa é a minha metáfora partilhada, aquela que de primeira posso compartilhar com o público.” O termo, que é representado por um ideograma em forma de pássaro com a cabeça voltada para trás, significa que nunca é tarde para retornar e recuperar o que ficou para trás. O símbolo foi habilmente traduzido por Abdias Nascimento como “retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro”. Não à toa, foi escolhido por Zaila e muitos outros, que enxergam o Afrofuturismo como algo essencial no caminho de recuperar uma consciência afrocentrada que foi destruída pela diáspora.

E o futuro do Afrofuturo?

Assim como muitos jovens, Gabriele Diniz, também conhecida como G.G. Diniz, compartilha o que gosta nas redes sociais e através de vídeos no Youtube. Por meio de seu canal, chamado Usina de Universos, ela conta suas experiências como leitora e escritora de ficção e fantasia. Aos 23 anos, Gabriele já possui diversos títulos publicados, neles algo em comum: a fantasia e a ficção são sempre marcantes.

Leitora assídua desde a infância, ela conta que o envolvimento com a ficção científica foi algo mais recente. Ao contrário da maioria dos casos, o desejo em escrever dentro do gênero veio antes do contato com as histórias, aos 17 anos. A partir daí, os livros de ficção e fantasia ganharam mais espaço na prateleira, e junto com a paixão surgiram questionamentos.

“Onde estavam os autores e autoras negras desses gêneros?”. Em busca de uma resposta, G.G.Diniz descobriu o Afrofuturismo. Para ela, a importância do movimento é, justamente, desconstruir a ideia de que as pessoas negras só podem ser retratadas em posições de subalternidade. “É importante que a literatura aborde o racismo e suas dores, mas as pessoas negras não se reduzem só a isso. O afrofuturismo mostra que personagens negros não se reduzem só ao estereotipo e a dor racial.”

Pensando nisso e dando continuidade aos artigos publicados no Medium junto de outros dois autores, Alan de Sá e Alec Silva, surgiu o Sertãopunk: Histórias de um Nordeste de amanhã. Mais do que apresentar aos leitores histórias que retratam um futuro para a região Nordeste, o livro procura elaborar um novo conceito dentro das produções culturais brasileiras, um movimento nordestecêntrico de ficção científica na literatura. Tendo por inspiração o Afrofuturismo, o Solarpunk e o Realismo Mágico; o Sertãopunk busca, entre muitas coisas, desconstruir a imagem nacional que foi construída a cerca da Região Nordeste.

Para G.G. Diniz, pensar um futuro nordestino foi uma experiência interessante, “não mudou o modo como eu enxergava a região, pois sou muito bairrista, amo meu país Nordeste, e sempre fui bastante ciente das possibilidades da região. Mas definitivamente mudou o modo como eu encarava a minha própria produção literária”. Isso porque, até aquele momento, ela, uma escritora cearense, não havia publicado nada que tivesse por ambiente a sua própria região.

Assim como muitos outros autores, Gabriele acredita que a importância do Afrofuturismo vai muito além de criar ficções nas quais existam pessoas negras. Ele coloca as pessoas negras enquanto sujeitos e protagonistas das próprias histórias, as passadas e as futuras. Reconectar-se com suas origens e pensar futuros possíveis para as pessoas africanas e afro-diaspóricas é empoderador e necessário. “É para nós, feito por nós, e sobre nós”, conclui Gabriele.

Mesmo reunindo diversas perspectivas e modos de ser, o Afrofuturismo conserva dentro de si, algo de único e especial. Capaz de inspirar dezenas de gerações de escritores passadas, ele ainda desperta curiosidade e fascínio. Reafirmando, a cada público leitor conquistado, o quanto trabalhar representatividade, protagonismo negro, perspectivas não ocidentais e um futuro livre das políticas de genocído, seguem sendo necessários.

O Afrofuturismo aponta um caminho que contraria a lógica social vigente, e nos convida a repensar tudo o que nossa sociedade tem estabelecido enquanto verdade absoluta. Longe de ser uma novidade, o Afrofuturismo permanece conservando seu caráter revolucionário, que nos convida a nos emanciparmos de uma concepção de passado, presente e futuro construídas longe da negritude e nos lembra que nunca é tarde demais para voltar e pegar o que ficou para trás.

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