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Inteligente, sim. Humana… talvez?

“Rafael não abriria mão do conforto, eficiência e organização de uma cidade inteligente. Mas às vezes ele imaginava como seria viver em uma cidade clássica.”

JPRESS
25 abr 2019 | Por J.Press

Por João Pedro Malar
joaopedromalar@gmail.com

Rafael acordou com um barulho estridente, que só poderia significar uma coisa. 6 horas da manhã, hora de acordar. Não havia sentido em lutar contra o despertador do seu celular. Assim que ele terminasse de tocar as cortinas do seu quarto iriam se abrir, o sistema da sua cozinha iria abrir a porta da despensa e da geladeira, uma garra robótica delicadamente pegaria todos os alimentos para o seu café da manhã, que seriam levados para um sistema de rampas e depositados nos equipamentos de preparo. Tudo isso feito, a garra e as rampas seriam recolhidas para dentro da parede e a refeição estaria pronta, exatamente do jeito que ele gostava. Era difícil dormir com o cheiro de omelete e bacon.

Sinceramente, ele odiava e amava a tecnologia. Tinha momentos em que parecia controlá-la, em outros, era ela que assumia o papel de mestre. Parecia bastante limitador em certos momentos. Ele lembrava das histórias que seu pai e avô contavam, sobre um período em que a tecnologia ainda não era tão desenvolvida quanto agora, em 2045. As coisas pareciam mais fáceis, as pessoas, mais livres. A vida em 2018 provavelmente era muito mais interessante e cheia de oportunidades, diferente da vida agora, mais rígida, fechada.

Enquanto se vestia e escovava os dentes, Rafael ia refletindo sobre isso, em mais um dos seus devaneios matinais. A tecnologia simplificava muito as coisas, talvez até demais. Diariamente o que ele ia vestir, comer, o trajeto que tomaria, as propagandas que veria, os produtos que compraria, a rota que tomaria para casa, as possíveis paradas. Tudo era definido previamente por uma série de algoritmos, e as “sugestões” que ele apresentava eram difíceis demais de serem recusadas. No fim, Rafael escolhia ter a vida da qual ele ocasionalmente reclamava, mas quem não escolheria isso?

Saindo do banheiro, ele foi até a sala, ondes as cortinas lentamente subiam, trazendo à tona a bela vista que o jovem tinha da metrópole. Costa Nova era uma das últimas cidades inteligentes construídas durante o boom da chamada “urbanização inteligente” no nordeste do Brasil. A construção havia sido iniciada em 2025 e finalizada em 2030, relativamente rápido se comparada com as outras cidades inteligentes construídas no período. Depois disso, o foco governamental deixou de ser a construção de cidades inteligentes, mas sim a adaptação de outras cidades em cidades inteligentes. No fim, era mais barato fazer isso do que a construção do zero. Sem a parceria de empresas interessadas na realização dos empreendimentos, só restava essa alternativa.

Na época da inauguração de Costa Nova, Rafael já vivia em uma cidade inteligente, a primeira do país, inaugurada em 2020, mas o pai fizera questão de levar a família para a mais moderna do país. A questão era que Costa Nova não apenas contava com uma tecnologia de ponta, sendo referência mundial no assunto, como ela também tinha uma garantia de emprego para os moradores. Altos prédios de vidro com uma bela arquitetura, ondulados, com buracos, retangulares, ovais. 40% da cidade com área verde, ruas limpas, tudo planejado. Era realmente um sonho.

Os pais saíram de Costa Nova e foram viver a aposentadoria numa casinha em algum lugar pacato do litoral. Rafael ficou. Ele amava sua cidade.

Terminado o café, saiu de casa, usou a digital para trancar a porta e então pegou o elevador — que havia sido chamado pela inteligência artificial do seu prédio assim que ele apertou o botão de abaixar cortinas no painel próximo à porta — até o hall. Ele morava ao lado de uma das estações de metrô da cidade — não que isso importasse algo. O trajeto até uma estação era rápido porque toda a cidade foi construída de modo a garantir o menor tempo gasto possível no trajeto para o trabalho ou outros locais.

Costa Nova era grande para os padrões de uma cidade planejada. Tinha cerca de 500 mil habitantes, e por isso foi considerada o grande teste de uma cidade inteligente no país. Era um tremendo desafio diário administrar a cidade, desafio esse que recai sobre a inteligência artificial localizada no coração da cidade. Era para lá que Rafael ia agora, ele é um dos supervisores técnicos do sistema de administração de Costa Nova.

Assim como dizia na programação do seu celular, os trens chegavam de três em três minutos. A cidade estava com um recorde de oito meses sem atrasos no transporte público. A última vez que um atraso ocorreu foi quando toda a energia caiu após uma falha na rede de transmissão, desligando toda a inteligência da cidade e transformando Costa Nova em um verdadeiro caos. Além de falhas esporádicas, como essa, ou raras quedas de energia, o outro grande inimigo da cidade eram os hackers.

Os ataques aconteciam quando alguém conseguia burlar o avançado sistema de segurança da cidade. Por mais moderno que fosse, os furos inevitavelmente existiam e eram muito bem explorados. Os escândalos das invasões derrubavam qualquer prefeito. A cidade ficava parada, à mercê de algum desconhecido que por algum motivo havia resolvido tentar burlar o sistema de segurança e obtivera sucesso. Até que a situação se resolvesse — e ela sempre se resolvia — muita gente já havia sido prejudicada.

Atrasos que podiam ir de dez minutos a absurdas duas horas (ninguém da cidade esquecia o grande hack de 2037), falta de iluminação pública durante a noite, sistemas da polícia, bombeiros e socorristas completamente fora do ar. Um trânsito infernal, com o sistema de carros e veículos públicos autônomos entrando em surto ao tentar compensar a quebra de conexão com o sistema geral urbano (isso quando os próprios veículos não eram hackeados). Em resumo, uma cidade inteligente podia ser bem burra, e a imagem que isso deixava, por mais que essas situações fossem bastante esporádicas, assustava a todos.

Chegando na estação, Rafael começou a descer as escadas rolantes e admirou a construção. Todas as estações da cidade eram parecidas. A base era quadrada, mas o topo e os lados eram inspirados em onda, dando uma ideia de movimento, progresso. A ondulação variava de estação em estação. Eram todas brancas, espaçosas, geralmente tinham um andar na superfície e um no subsolo. Elas eram operadas quase que inteiramente por robôs: de limpeza, orientação, recarga de bilhetes, acompanhamento especial. Geralmente também estavam no lugar um oficial de segurança, que administrava todas as câmeras e tinha o controle das portas, elevadores e escadas, e um funcionário para casos que requeressem a atenção de um humano, cada vez mais raros.

Chegando na plataforma, um grande painel digital o esperava na frente da escada. Nele, as pessoas tinham acesso a todos os trens que se aproximavam, e podiam reservar os lugares vagos. Caso houvesse mais pessoas que lugares, novos surgiriam do chão do trem e todos poderiam se sentar. Eram raros os casos em que alguém ia em pé no trem. A operação toda podia ser feita também pelo celular ou relógio inteligente, o painel era só uma garantia para os esquecidos.

Como seu lugar já estava reservado, ele só esperou em cima do sistema de esteiras rolantes que o deixariam na porta da fileira do seu lugar. O trem chegou exatamente no horário marcado e Rafael se sentou. No assento à sua frente havia um local para recarga de aparelhos eletrônicos e também era possível puxar uma pequena mesinha. Quatro pessoas iriam descer antes dele, então ele pegou o quinto lugar. Todo o espaço do trem que era ocupado por passageiros tinha as laterais funcionando com portas. Ainda havia a ponta traseira e a região logo anterior à pequena — e sempre desocupada — cabine de controle. Nela ficavam os que queriam ir em pé, os que carregavam coisas grandes, pessoas com deficiência ou alguns passageiros que recebiam autorização para usar o transporte com animais.

O metrô era bem rápido, mas ainda dava para admirar a cidade. Era possível colocar óculos, localizados no assento à frente, e usar um programa para escolher o que você veria nas portas laterais de vidro. Rafael preferia a vista natural. De qualquer maneira, as duas visões eram sempre atrapalhadas pelas propagandas que surgiam esporadicamente.

A presença ou não de empresas privadas no sistema de inteligência da cidade sempre despertava muito debate. Por um lado, permitir que elas colocassem propagandas nos painéis (que estavam presentes em prédios, veículos e até latas de lixo) ou equipamentos sonoros reduzia os gastos da prefeitura com manutenção e assim era possível investir em outras áreas ou reduzir impostos. Por outro lado, aplicativos de namoro, por exemplo, podiam usar as câmeras para guardar características físicas suas e disponibilizá-las para os usuários do app. Era possível saber quantas pessoas acessavam um site caso elas usassem a internet pública, ou saber horários mais eficientes para determinadas propagandas.

A lei de proteção de dados garantia que nomes nunca fossem liberados. Mas era possível saber que havia alguém que pega metrô todo dia em um horário x que é fã de carros e aí garantir que ele visse uma propaganda de carros no trajeto. Volta e meia alguém ganhava um processo pois dizia que seus dados pessoais estavam sendo violados e vendidos pelo próprio município (sem falar nos casos envolvendo duas empresas). Mesmo assim, havia a questão de manutenção do anonimato, assinatura de termos de concordância e outras questões legais. O tema era complexo, e sem um bom advogado era difícil derrotar a prefeitura ou as grandes empresas nos tribunais.

É claro que havia variações. Alguns prefeitos eram mais abertos ao mercado, outros, menos. A atual fazia parte do primeiro grupo. Era engraçado, pois os dados sempre mostravam o aumento do consumo e o crescimento das empresas, e assim quase todos pareciam esquecer que estavam sendo manipulados e usados. Não que Rafael não fosse, até ele que era um operador do sistema urbano central, que conhecia todo o mecanismo, entendia das manipulações e trocas de informações, era manipulado. Ele sabia, e aceitava isso. Existiam jeitos piores de se viver.

Rafael não abriria mão do conforto, eficiência e organização de uma cidade inteligente. Mas às vezes ele imaginava como seria viver em uma cidade clássica. Ter uma desculpa para chegar atrasado ou faltar no trabalho. Ver gentilezas diárias de pessoas se unindo para superar os problemas urbanos constantes, momentos de delicadeza e ternura em um congestionamento, ou uma parada forçada. Ele não sabia descrever ao certo. Mas aquilo parecia mais humano. Imperfeito, sim, mas humano.

As coisas agora pareciam mais restritas. Sim, havia mais agilidade, mais eficiência, mais organização, mais inteligência. Mas às vezes tudo parecia perfeito demais, controlado demais. Havia uma certa beleza na imperfeição. E por mais que Costa Nova fosse bela com seu design futurista, altos prédios luminosos e brancos, o belo rio que era cortado por balsas de fundo transparente ou a extensa área verde da cidade, ela nunca parecia ser tão bonita quanto uma imagem de uma cidade grande do começo do século XXI. Faltava algo.

O pai ria toda vez que ele comentava isso. Ele falava que o filho tinha essa visão porque nunca viveu em uma cidade clássica (ou “rudimentar”, como eram chamadas pelos defensores da modernização urbana). O caos existente nela era rapidamente reduzido e até extinto a cada modernização pela qual passava. Um rio que passava a ser despoluído e tornava-se navegável. Planejamento de bairros. Conexão de latas de lixo, postes e outras coisas a um sistema integrado. Investimento em transporte público e integração de veículos autônomos a um sistema inteligente de orientação e coordenação coletivo. A mudança era tão grande que os cidadãos aceitavam o aumento de impostos, ou perder um pouco da liberdade, em troca de investimentos da iniciativa privada. A troca parecia muito justa.

O aviso sonoro tirou o jovem dos seus pensamentos. A próxima estação era o chamado Nexo Urbano. O coração tecnológico de qualquer cidade inteligente. Próximo a ele ficavam a prefeitura, diversos centros de pesquisa e os quartéis centrais dos bombeiros, polícia e socorristas. Rafael suspirou. Já começou a se levantar e a organizar mentalmente o que precisaria fazer no dia de hoje.

Afinal de contas, a cidade não se manteria inteligente sozinha.

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