Home Personagem Julia Roberts: Desconstruindo conceitos desde 1990
Julia Roberts: Desconstruindo conceitos desde 1990
CINÉFILOS
08 jun 2019 | Por Gabrielle Abreu (gbabreudeoliveira@gmail.com)

Julia Roberts. O que vem à sua mente ao ouvir esse nome? Dependendo de qual filme você já a viu fazendo, é bem provável que você se lembre das comédias românticas que ela protagonizou. Ora uma prostituta, ora uma atriz famosa, ora professora e até dona de casa fugitiva. Julia Roberts sempre (sem exceção), interpretou personagens fortes e independentes, mesmo em papel secundário.

Julie Fiona Roberts, nasceu no estado norte-americano de Geórgia, em 28 de outubro de 1967. Antes de trilhar sua carreira consagrada no cinema, ela foi modelo, trabalhou em uma sorveteria e foi vendedora numa loja de sapatos. Aos 17 anos, ela decidiu ser atriz e se mudou para Nova York, quando entrou para uma agência de modelos e começou a fazer curso de interpretação.

Mas afinal, como Julia Roberts tornou-se um símbolo de beleza? O primeiro filme a lançar a carreira de Julia foi Uma Linda Mulher (Pretty Woman, 1990), no papel de Vivian Hard, prostituta de luxo que se apaixona pelo galã solitário (e extremamente rico) Edward Lewis, interpretado por Richard Gare.

Atrás de perucas e regras de “não beijar clientes”, Vivian cativa Edward pela personalidade sincera [Imagem: Copyright Walt Disney Studios Motion Pictures]

Na trama, Vivian é levada a conhecer a high society ao lado de Edward que não tolera, em momento algum, que Vivian seja tratada de forma inferiorizada por sua condição social e ocupação. Na verdade, em muitos momentos, Edward se diverte ao presenciar a espontaneidade de Vivian em contraste com pessoas que levam a opinião pública extremamente a sério.

Conforme a conhece, Edward vai aos poucos nutrindo admiração por Vivian [Imagem: Copyright Walt Disney Studios Motion Pictures]

O filme rendeu indicação ao Globo de Ouro e tornou o nome de Julia Roberts conhecido. O diretor do filme, Garry Marshall, não pensou em Julia como primeiro nome para interpretar Vivian. Muitos outros nomes foram cogitados, e a favorita do diretor, a atriz Molly Ringwald, queridinha dos anos 80 que atuou em Garota de Rosa-Shocking (Pretty in Pink, 1986) recusou o papel por não se sentir à vontade em interpretar uma prostituta.

No ano seguinte, Julia Roberts aventura-se em um suspense, o filme Dormindo com o inimigo (Sleeping with the Enemy, 1991) inspirado no livro de mesmo nome escrito por Nancy Price e publicado em 1987. No papel de Sara, Julia interpreta uma esposa e dona de casa que convive com seu agressor e marido, Martin, interpretado por Patrick Bergin. Após quatro anos de agressões físicas e psicológicas, Sara simula a própria morte e foge para uma cidade pequena. Lá, ela se apaixona por um morador local, só que as cicatrizes de sua antiga relação ainda estão abertas, fazendo com que ela tenha dificuldades em demonstrar afeição e se entregar ao amor recente.

Sara planeja sua fuga durante meses antes de fugir de Martin [Imagem: Copyright 20th Century Fox]

Seu marido, Martin, se depara com a possibilidade de Sara ainda estar viva e a caça como um predador até encontrá-la. Na trama de suspense, presenciamos a agonia e medo de uma pessoa que passou por traumas irreparáveis e luta por sua chance de ser livre.

Seis anos depois, estreia o filme O Casamento do meu melhor amigo (My Best Friend’s Wedding, 1997), um dos 10 filmes mais bem-sucedidos de 1997 que ajudou a fazer de Julia Roberts a ‘rainha das bilheterias’ no fim da década. Diferente de qualquer produção até então feita em Hollywood, o filme te faz morrer de amores (ou de ódio) pela personagem vivida por Roberts, a crítica gastronômica, Julianne (Jules para os íntimos). No filme, Jules é convidada para o casamento de seu melhor amigo Michael, interpretado por Dermot Mulroney, que não via à anos. Até aí, tudo bem. Entretanto, ela se dá conta de que nutre fortes sentimentos por ele. Começa então, a saga de quatro dias para tentar separar Michael de sua noiva, Kimberly, interpretada pela carismática Cameron Diaz.

Jules aproveita seu conhecimento sobre os gostos de Michael para aconselhar Kimberly a fazer exatamente o oposto [Imagem: Copyright Columbia Pictures]

Julia vive a vilã perfeita, que usa de artimanhas para que nunca desconfiem do que ela está tramando. Conforme o filme avança, você facilmente consegue criar simpatia pelo casal principal e reparar que Jules está sobrando na equação. Felizmente, ela também repara isso e deixa seu plano maquiavélico de lado. Ela termina o filme sozinha e resiliente de que fez o que era certo.

A virada da década foi muito boa para Julia Roberts, que estreou o filme Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento (Erin Brockovich, 2000), filme biográfico dirigido por Steven Soderbergh e escrito por Susannah Grant. A própria Erin Brockovich vendeu os direitos da sua história por míseros 100 mil dólares (o filme arrecadou  ao todo 256 milhões de dólares ao redor do mundo).

A trama conta a história de Erin, mãe solteira de três filhos que precisa arranjar um emprego depois de ser largada pelo segundo marido. Ela sofre um acidente de carro e processa o médico que a atingiu. Ela perde o caso e seu advogado, Ed Marsy, interpretado por Albert Finney, atribui a perda ao comportamento explosivo de Erin no tribunal. Convencida que a culpa de não ter ganho a causa é de Ed, Erin o encurrala para que ele consiga um emprego para ela em sua pequena firma de advocacia.

Mesmo Erin não tendo cursado direito, são dados a ela arquivos de um caso de imóveis na qual a empresa multimilionária, Pacific Gas and Electric (PG&E) está se oferecendo para comprar uma residência no município de Hinkley, Califórnia. No arquivo, estão anexados laudos médicos dos residentes da propriedade com todas as despesas médicas pagas pela própria empresa. Intrigada com esses registros , Erin decide investigar. Ela então descobre evidências de que as águas subterrâneas em Hinkley estavam contaminadas com cromo hexavalente ー  composto totalmente cancerígeno. A trama se estende com a persistência de Erin em juntar fatos que comprovem a culpa da empresa em poluir a água da cidade e consequentemente, prejudicar de forma irreparável a vida dos residentes do local.

Erin é demitida por não comparecer à firma enquanto investiga o caso por conta própria, sendo readmitida logo depois  [Imagem: Copyright Columbia Pictures]

A personagem de Julia Roberts é vista com desconfiança por parte dos advogados. Mulher de muitos atributos físicos (e que sabe como usá-los), todos a veem como uma mulher vulgar e sem conhecimento. Em determinado ponto da história, Erin se envolve romanticamente com o novo vizinho, George, interpretado por Aaron Eckhart, que assim como ela, vai muito além das aparências. Motoqueiro e construtor civil, George decide passar um tempo longe do trabalho e se voluntaria para cuidar dos filhos de Erin. A partir daí, a personagem foca totalmente no novo trabalho.

Passando-se meses, ele começa a se cansar da nova vida de dono de casa e babá integral, e tenta com apelação emocional, persuadir Erin a largar o emprego, caso contrário, iria embora. Não precisa ser gênio para imaginar o que ela escolheu. A vida deu uma oportunidade de Erin provar o seu valor, e é isso que ela faz. Com esse papel, Julia Roberts foi a primeira atriz a ganhar o Oscar, o Globo de Ouro, o BAFTA, o SAG e a Critics ‘Choice (Critics Award) pela mesma interpretação.

Depois do sucesso estrondoso de Erin Brockovich, Julia Roberts torna-se mais seletiva com os filmes que participa, atuando em menos produções para dar mais atenção à família. No filme O sorriso de Monalisa (Mona Lisa Smile, 2003), a atriz vive a personagem Katherine Watson, professora de História da Arte que aceita lecionar em uma das escolas femininas mais tradicionalista dos Estados Unidos ー Wellesley College ー, lugar onde as melhores e mais brilhantes jovens mulheres do país são ensinadas a transformarem-se em cultas esposas e responsáveis mães na década de 50.

Katherine faz uso de suas aulas para desconstruir a arte e consequentemente, desconstruir o pensamento passado de geração em geração de que para uma mulher ter sucesso ela precisa casar e ter filhos. Uma de suas alunas, Joan Brandwyn, interpretada por Julia Stiles, afirma ter interesse em cursar Direito mas está para receber uma proposta de casamento. Katherine aproveita a oportunidade para tentar persuadir a aluna de que ela será muito mais feliz e bem sucedida se for cursar a faculdade ou fazer ambos, casar e estudar.

Katherine utiliza a arte como ferramenta para desconstruir o pensamento tradicional de suas alunas [Imagem: Copyright Revolution Studios e Columbia Pictures]

Em muitos momentos da trama vemos o conflito de pensamentos entre o conservador e o liberal, de forma que Katherine é uma das únicas a lutar e estimular que suas alunas pensem com suas próprias cabeças. Ainda assim, Katherine se choca ao ver entre as estudantes aquelas que tiveram outra perspectiva por causa de suas aulas e mesmo assim, optaram por seguir o caminho pelo qual “nasceram para seguir”.

Os tempos mudaram e os personagens de Julia Roberts amadureceram. Na comédia romântica inspirada na autobiografia da jornalista e escritora Liz Gilbert, Comer, Rezar e Amar (Eat, Pray, Love, 2010), ela vive uma mulher que vai à Itália, Índia e Indonésia, em busca de autoconhecimento após uma crise existencial, um longo e doloroso divórcio e uma paixão mal-resolvida.

Liz vai à Itália buscar os prazeres de comer, depois à Índia, buscar a sua fé e finaliza na Indonésia, onde busca o seu equilíbrio e por acaso, redescobre o amor. Não há como negar que a história de Liz é inspiração para muitas mulheres que estão tão absortas em seus problemas, que muitas vezes perdem a própria essência.

Liz busca em diferentes culturas a identidade que perdeu ao longo dos acontecimentos da vida [Imagem: Copyright Columbia Pictures]

Esperando encontrar as respostas para seus dilemas nessa viagem, Liz descobriu muito mais sobre si mesma e sobre o mundo do que jamais esperaria encontrar. Julia Roberts consegue captar a atenção do espectador em cada peculiaridade, e é visível a evolução da personagem no decorrer da trama.

A atriz ainda consegue se superar a cada personagem marcante que protagoniza. Agora, ela volta com tudo no filme O Retorno de Ben (Ben is Back, 2018) no papel de uma mãe destroçada por conta do vício do filho mais velho, Ben, interpretado pelo indicado ao Oscar, Lucas Hedges. É importante pontuar que o filme não trata apenas do vício em drogas pesadas, mas fala também da maternidade e de seus desafios, brilhantemente interpretada por Julia, que oscila entre uma mãe neurótica e sensível.

Holly resiste em confiar em Ben em meio à felicidade proporcionada pela volta do filho [Imagem: Copyright Diamond Filmes]

O legado que Julia Roberts deixa para seus fãs e para o cinema é de uma mulher que consegue, a cada personagem, deixar sua marca como mulher independente, forte e à frente de qualquer convenção da sociedade. Ela te encanta com o charme e sorriso de “Monalisa”; ela te faz torcer por ela mesmo quando está errada; te força a pensar e rever o que é imposto à todas nós, todos os dias. Mais do que uma atriz que alegra nossas tardes e arranca suspiros ao vê-la contracenar com galãs de Hollywood, nos faz vibrar pelo simples fato de sermos quem somos. Fortes, independentes e donas de si.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*