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Laços do coração

Histórias de famílias que foram construídas através de um poderoso vínculo: a adoção

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13 abr 2020 | Por Maria Luísa Bassan (marialuisaobassan@gmail.com)

Eu sou filha do meio. Tenho um irmão mais velho, que está no quarto ano da faculdade de Biologia, e uma irmã mais nova, que prestou o vestibular pela primeira vez. Embora diferentes na aparência, e mais ainda na personalidade, nosso laço se deu antes mesmo de nascermos. Somos filhos de nossa gestora. Ela nos desejou, nos gerou em seu ventre  e nos educou juntamente com nosso pai. Hoje estamos caminhando com nossas próprias pernas, rumo ao que cada um deseja para si.

Sei que a minha formação familiar não é a única que existe. Entre tantas outras, seja com um ou dois pais, uma ou duas mães, avós, filho único, caçula de cinco ou o mais velho entre dois, algumas delas não foram criadas a partir do ventre, mas sim do coração. A adoção é uma forma de acolher o filho não gerado, mas ainda sim desejado por uma família, seja ela qual for. 

Para encontrar pessoas que topassem compartilhar suas histórias relacionadas à adoção, entrei no grupo Histórias de Adoção do Facebook e me surpreendi com as postagens. Uma enorme rede de apoio é criada entre aqueles que desejam adotar, que estão passando pelo processo e que são pais adotivos, como forma de dividirem experiências e darem apoio nessa caminhada tão bonita, ainda que extensa. Em uma postagem despretensiosa que fiz, quase 20 pessoas se ofereceram para conversar comigo sobre o assunto. Esses são alguns dos depoimentos que recebi.

 

Ana Flávia e Maria Fernanda

A professora Ana Flávia Cambraia, 43 anos, adotou sua única filha, Maria Fernanda, com um ano e um mês, em 2011. O processo de adoção iniciou em março de 2010 e se estendeu até agosto do ano seguinte. O desejo de adotar sempre esteve presente na vida de Ana Flávia, mas uma condição de saúde a impulsionou na tomada da decisão. “Próximo de eu me casar, descobri que tinha uma doença renal hereditária, a qual poderia comprometer uma gravidez”, ela conta. A adoção foi conversada com seu marido Douglas – na época, namorado –, que também possuía esse desejo. Depois do casamento, a adoção foi concretizada.

Família adotiva

Ana Flávia com a filha e o marido [Foto: Reprodução/Redes Sociais]

A insegurança sobre o tempo que levaria o processo fez com que algumas pessoas questionassem a decisão de Ana Flávia, mas ela sempre se mostrava firme quanto ao desejo de adotar. “Nessa expectativa de como seria o processo, a família aprendeu muito com a gente”, ela compartilha.

Ela e Douglas conheceram a Maria Fernanda por foto, no fórum. Embora Ana Flávia ainda estivesse insegura, tamanho o peso da decisão, seu marido quis conhecê-la na hora. Na sexta-feira em que foram ao abrigo, Ana Flávia conta que, quando a moça que veio trazer a Maria Fernanda os recebeu, ela abriu os bracinhos e foi andando até seu marido – hoje, os dois possuem uma ligação muito forte. “Eu ficava olhando pra ela e pensando ‘gente, que coisa maluca!’”. Na segunda-feira de manhã, foram buscá-la no abrigo definitivamente. Quando perguntei da emoção do momento, Ana Flávia me disse que não foi tão mágico assim, como as pessoas geralmente apontam. “No meu coração surgiram dúvidas, angústias, não de ser a Maria Fernanda ou não, mas da minha posição. Eu estava pensando nesse passo tão grande que estávamos dando na constituição da família”, ela aponta.

Pelo fato da Maria Fernanda ter chegado para o casal com pouco mais de um ano, Ana Flávia diz que não teve dificuldades quanto ao convívio com a filha. Conforme ela foi crescendo, porém, perguntas sobre o fato de não ter nascido de sua barriga foram surgindo. Desde muito cedo, Ana Flávia não escondia o fato de Maria Fernanda ter sido adotada. “Falo sempre pra ela que, apesar de tudo, eu sou sua mãe, que cuida de você, que te ama, que está com você, que quis você, que planejou você mesmo não sendo da barriga.” Como mãe adotiva, ela diz que a maior surpresa está relacionada ao amor materno: “É imensurável mesmo, potente e muito presente. O amor está em tudo e todos os lugares, e conforme o convívio acontece, ele não muda, só aumenta.”

 

Andreia e João Pedro

Andreia Schweitzer, editora de 48 anos, adotou João Pedro aos 9 meses, hoje com 7 anos. Ela, que sempre quis ser mãe, escolheu a adoção após alguns tratamentos para engravidar, sem sucesso. “Foi um dos períodos mais tristes da minha vida: a sensação de escalar o Everest e cair rolando lá de cima”, ela relembra. Quando compartilhou com a família a decisão, seu pai ficou inseguro, pois sabia que a criança poderia não ser parecida com ele, descendente de alemães. Andreia, por sua vez, não se deixou abalar: “falei: ‘pai, eu já perdi uma criança, não vou correr o risco de perder outra. Pra mim, ela pode ser amarela de bolinhas azuis, que vai ser muito amada’”.

O processo de adoção se estendeu entre 2010 e 2012. Quando ligaram do fórum pela primeira vez, falaram de três irmãos – dois meninos e uma menina –, mas Andreia e o marido não tinham condições de receber os três. Na vez seguinte, ligaram para falar de uma menina de 10 meses, mas não puderam adotá-la, pois não estavam na cidade quando receberam a ligação e o fórum não poderia aguardar a volta deles. Na terceira ligação, falaram do João Pedro.

Família adotiva

Andreia com o filho João Pedro [Foto: Reprodução/Mídias Sociais]

“Quando fomos ao fórum conhecer a história do João, a psicóloga ficava folheando o processo e nós víamos que tinha uma foto ali no meio, que ela não mostrava. Meu marido conseguiu virar a página com a foto, e a gente se olhou sorrindo: era um bebê lindo!”, Andreia conta. O casal foi conhecer a criança no mesmo dia e ela era a mais nova do abrigo. “À noite, conversamos bastante, mas a verdade é que a decisão já tinha sido tomada.” No dia seguinte, avisaram em seus respectivos trabalhos que iriam buscar o filho, e às oito da noite, chegaram ao abrigo. “O chefe dele ligou para saber se tinha dado tudo certo, estava numa pizzaria com as funcionárias. Quando percebi que não havia comido nada o dia inteiro, fomos para a pizzaria também. Foi a primeira comemoração da chegada do João”, ela recorda.

Andreia ficou de licença-maternidade por quatro meses e considerou o período inicial de convívio com o filho muito tranquilo. Os amigos fizeram um “chá com bebê” logo que João chegou e os primeiros passos e palavras foram vivenciados ao lado dele. Por outro lado, os primeiros desafios enfrentados estavam relacionados à saúde de João: ele nasceu com sífilis congênita, negativado com os primeiros exames após sua chegada. Tempos depois,  foi identificado entupimento dos canais auditivos, tratado com cirurgia e fonoterapia. Hoje, foi diagnosticado com Déficit de Atenção após notarem atraso em relação às crianças de sua sala na escola. Sua gestora era usuária de drogas e não passou por pré-natal. “Se ele tivesse uma gestação melhor, talvez não passasse por isso. Mas prefiro pensar que o ‘se’ não existe: ele é meu filho, tem esses problemas que precisam de acompanhamento e nós fazemos o que podemos pra que ele se desenvolva da melhor forma possível.

 

Mariana e Julia

A técnica judiciária Mariana de Sá, 35 anos, sempre quis ser mãe e viu na adoção uma possibilidade de realizar o desejo de maneira solo. Os conselhos que ela recebia da família sempre eram em relação ao fato de ser solteira e não pela escolha da adoção. Sobre isso, Mariana conta que conheceu muitos casais nos grupos de adoção e o principal impedimento da maioria era a discrepância na motivação para adotar. “Isso dificulta as avaliações psicossociais durante o processo. A psicóloga que me avaliou questionou o fato de eu ser nova para adotar solteira, mas por ter pensado muito sobre, me saí bem na avaliação”, ela aponta.

Seu processo durou menos de um ano, entre outubro de 2012 e julho de 2013. Sua filha Julia chegou com 15 meses, de um perfil que muitos adotantes optam por excluir de suas opções: ela era portadora do vírus HIV. “Eu li e pesquisei muito sobre adoção antes de dar entrada no processo e já tinha uma ideia do perfil que eu iria escolher.” Mariana conta que, para cada pergunta que a equipe fazia, ela pensava “por que não?”. “Para algumas eu tinha resposta: não tinha condições financeiras de bancar o tratamento de uma criança com uma deficiência muito severa naquele momento, mas para a maioria dos itens eu não via motivos para recusar uma criança com aquelas condições.” O que ajudou foi o fato de conhecer casais com filhos HIV+ e saber que o vírus é tratável, com bom prognóstico.

Filhos adotivos

Os filhos Julia, Jorge e Nina, juntos [Foto: Reprodução/Mídias Sociais]

Quanto à emoção de adotar, Mariana compartilha que foi “mágico a seu modo”. “Quando a conheci, tive a sensação de que não estava vivendo aquilo e anos depois descobri que eram sensações normais de mulheres em trabalho de parto, com muita ocitocina.” Ela fala que o sentimento era semelhante ao de estar anestesiada, e chorou de emoção apenas no dia seguinte ao primeiro encontro. “Desabei”, compartilha.

Hoje, ela se considera muito sortuda, porque os desafios enfrentados com a filha foram os naturais à idade e o fato dela ter sido acolhida ao nascer e no abrigo ajudou muito. “Agora, além da Ju, tenho gêmeos biológicos com minha esposa Valéria. Eles dão mil vezes mais trabalho do que ela deu”, Mariana brinca.

 

Adriana, Luana e Manuela

Adriana Rodrigues, servidora municipal de 45 anos, só sentiu vontade de ter filhos depois de casada, porém, pelo fato do casal não poder engravidar, a adoção se mostrou como alternativa, apoiada por família e amigos. Hoje, ela é mãe de Luana, 13 anos, e Manuela, 9 anos, irmãs biológicas.

Em 2006, ela e o marido deram entrada ao processo de adoção. “Naquela época, os casais que estavam na fila podiam visitar os abrigos”, Adriana explica. Ela conta que, em um dos abrigos que visitou, conheceu um garoto de nove meses – inicialmente, o desejo do casal era a adoção de um menino –, mas não se sentiu conectada com a criança. No mesmo dia, uma das funcionárias do local carregava uma menina no colo e eles se encantaram por ela. No ano seguinte, visitaram outro abrigo, dessa vez para conhecer um menino de dois anos, e a menina pela qual se apaixonaram anteriormente estava no local. “Mudamos o nosso perfil para três anos com a esperança de ficar com o garoto, mas com o tempo, fomos nos apaixonando cada vez mais pela menina também”, lembra Adriana. 

O casal queria muito ficar com as duas crianças. Ligavam sempre no fórum perguntando da situação deles e por vários finais de semana, iam visitá-los no abrigo, até que um dia chegaram lá e o menino havia sido adotado por um casal que já estava com o irmão dele. “Nós começamos a insistir então na adoção da menina, até que em julho de 2006, fomos chamados para buscá-la, nossa filha Luana.”

Família adotiva

A família de Adriana reunida [Foto: Reprodução/Mídias Sociais]

Quatro anos depois, Adriana deu entrada em outro processo de adoção, dessa vez buscando como perfil um bebê. Para a surpresa dela e do marido, o fórum informou que há dois dias havia nascido a irmã da filha deles. “Desde o final de 2009, falávamos para a Luana que ela teria um irmãozinho, pois queríamos até então um menino. Ela sempre falava que não; seria uma irmãzinha e iria se chamar Manuela”, Adriana conta. No processo de conversa com a assistente, perguntaram o nome da criança caso ela ficasse com o casal, e eles prontamente responderam “Manuela”. Depois de 40 dias, puderam recebê-la na família.

“Pelo fato de podermos visitar os abrigos, de certa forma nos preparamos para o convívio com nossas filhas”, Adriana explica. Ela diz que a vivência com famílias formadas pela adoção também ajudou muito. Quanto ao encontro com as filhas, ela conta que não foi mágico, mas que “você sente que está diante de seu filho ou filha”.

 

Carina e Sharon

A professora Carina Henzel, 34 anos, sempre quis ser mãe por meio da adoção. “Talvez por me descobrir LGBT cedo, a vontade de adotar passou a fazer ainda mais sentido”, ela aponta. Além disso, sua visão política do mundo a fez ver na adoção uma maneira de não contribuir para a superpopulação que o planeta enfrenta. “Tenho sorte de toda a minha família e amigos terem uma visão de mundo parecida com a minha, então todos sempre me apoiaram nessa decisão.”

Mãe e filha

Carina e a filha Sharon [Foto: Reprodução/Mídias Sociais]

Carina conheceu sua filha Sharon, adotada aos 14 anos, através do apadrinhamento afetivo. “Primeiro me tornei madrinha dela, depois pedi a guarda.” Segundo a professora, quando se conheceram pela primeira vez, ela sabia que Sharon seria sua afilhada. “Eu ia conhecer em torno de oito meninas no abrigo. Fui lá pra encontrar aquela que seria minha ‘primeira opção’, mas não houve um ‘match’ entre a gente. Quando vi a Sharon, olhei em seus olhos e senti uma identificação.” Na volta para a casa, Carina já estava escrevendo um-mail para informar que, caso Sharon quisesse, ela desejava ser sua madrinha. Elas vivem juntas desde janeiro e recentemente saiu a nova certidão da Sharon.

As histórias de Carina são sempre muito bem recebidas no Histórias de Adoção. Além de seus compartilhamentos no grupo, ela mantém a página Adoção tardia, dia a dia no Facebook e Instagram, onde fala sobre seus dias ao lado de Sharon. Quando perguntei a ela o motivo de ter criado a página, Carina explicou que se sentiu na obrigação de fazê-lo. “Falo de uma adoção que deu certo, uma família que se formou através da adoção tardia. Por que eu não iria compartilhar? Acho que é minha responsabilidade social trabalhar para desmistificar a adoção tardia.” Ela diz que sempre conversa com Sharon sobre a página e defende que, se alguém disser que se inspirou na história delas para adotar um filho ou filha já adolescente, “minha missão vai ter sido cumprida”. Antes disso, um texto seu chamado Adoção real havia viralizado nas redes sociais.

Carina se afirma como uma pessoa que não idealiza ou romantiza nada do processo adotivo, mas pontua que “conhecer a Sharon certamente foi o dia que mudou minha vida pra sempre”. Mesmo sendo mãe solo, ela não se sente sozinha, pois conta com o constante apoio dos pais, irmãos e amigos, uma comunidade que a ajuda a criar a filha. Agora, Carina está no processo de habilitação para a adoção de sua segunda filha, Flora, cuja idade será de zero a dois anos, e mal pode esperar para ver Sharon como irmã mais velha.

 

Loredana e sua família adotiva

Pude perceber que a adoção é um tema do qual os adotantes estão sempre dispostos a falar sobre, mas eu queria ouvir também o lado de quem foi adotado. A estudante Loredana Cardim, 19 anos, foi adotada com um dia de vida. “Assim que eu nasci, já ligaram pra minha família adotiva falando que teriam uma filha”, ela conta. Sua gestora não tinha condições de criá-la.

Família adotiva

A família adotiva de Loredana [Foto: Reprodução/Mídias Sociais]

A adoção sempre foi um tema tratado de maneira muito natural em sua família, visto que, além dela, também adotaram um menino mais novo. Loredana estava presente no dia em que foram buscá-lo. “Além disso, minha família tem um livro em casa chamado ‘Faltava você’, que conta a história de uma família indo buscar o neném. Sempre foi minha história preferida e eu ficava muito feliz quando lia”, ela recorda.

Sobre seu contato com a família biológica, Loredana conta que este sempre foi um assunto aberto. Ela poderia escolher se queria ou não conhecê-los. “Com 17 anos, li sobre minha família biológica no processo de adoção, mas não me sentia pronta para conhecê-los. Um dia depois do meu aniversário de 18 anos, recebi uma mensagem de uma das minhas irmãs biológicas. Entrei em choque.” Ela demorou para aceitar a relação com suas sete irmãs e mãe biológica, mas hoje tem bastante contato. “Nutro um carinho enorme por elas. Não digo que é amor de família, mas sim um carinho diferente”, Loredana completa.

Hoje em dia, a estudante diz que sente gratidão por suas famílias, biológica e adotiva. “Ter uma família adotiva me ensinou a não julgar a história de uma pessoa, porque não sei os motivos que as pessoas têm para tomarem certas atitudes.” Para Loredana, família é amor, e ela se diz muito feliz por ter sido adotada pela sua.

 

A simplicidade dos momentos em família

Os seis depoimentos me emocionaram muito, pois embora os processos de adoção tenham acontecido por períodos, motivações e estruturas familiares diferentes, todos eles mostram a potência do amor materno, que não precisa ser baseado no laço sanguíneo para existir. 

A fim de conhecer um pouco mais de cada entrevistada, pedi para elas me contarem uma história marcante relacionada às suas famílias. Me surpreendi pela simplicidade dos relatos.

Ana Flávia, ao adotar Maria Fernanda, recebeu diversas mensagens carinhosas por parte dos familiares. Ela montou um livro para a filha com todas elas. “Outros momentos marcantes são os relacionados aos avós. Quando a gente adota, queremos que toda a família aceite a criança também.” A professora lembra de momentos com sua mãe que, quando precisou andar de cadeira de rodas, colocava a neta no colo para passearem juntas. Ela também ensinou Maria Fernanda a passar batom e a ouvia sempre pedindo “tom, vovó!”.

Andreia também lembra dos momentos que o filho João Pedro passou ao lado do avô. “Meu pai recebeu João de braços abertos e foi um ‘vovozão’. Ele morreu em 2013, conviveram super pouco, mas até hoje o João lembra dele e às vezes até chora de saudade”, ela recorda. Além disso, pequenas coisas como ouvir “eu te amo” de João também preenchem o coração.

A ligação da filha com os avós é compartilhada por Carina. Em uma viagem para o Sul, a fim de levá-la para conhecer seus pais, ela viu Sharon segurar a mão da avó para atravessar o estacionamento. “Minha mãe olhou pra Sharon, depois pra mim, e aí eu entendi que ela estava emocionadíssima, não querendo chorar na frente da neta, porque ela segurou sua mão pela primeira vez”, ela conta. Para Mariana, os momentos marcantes estão relacionados com a vivência entre Julia, filha adotiva, e os gêmeos Nina e Jorge, filhos biológicos. 

Adriana diz que se enche de alegria quando vê Luana e Manuela nos eventos escolares, como festas de dia das mães ou dos pais. “A cada momento, falamos sobre nosso amor uns pelos outros”, ela completa. Uma das formas que suas filhas têm de demonstrar esse sentimento é através de bilhetinhos. Já Loredana tem como história marcante a chegada de seu irmão mais novo. “Foi o dia mais feliz da minha vida”, aponta. Além disso, a estudante ama escutar sua mãe contar como ela e o irmão foram recebidos na família.

 

O outro lado: desafios e idealizações

A maternidade por meio da adoção carrega desafios particulares. Perguntas sobre a árvore genealógica e a história de seu nome, por exemplo, devem ser tratadas com delicadeza, segundo Andreia. “A maioria tem a resposta pronta, mas nós precisamos parar e pensar um pouco. Aproveito a oportunidade para que o João saiba de sua história.” Mariana aponta como difícil o estágio de convivência, período no qual a mãe possui a guarda, mas não os novos documentos do filho. “Além do medo de tirarem a Julia de mim, é ruim ter que ficar explicando o porquê de não ser seu nome que está nos documentos da criança em hospitais e aeroportos, por exemplo.”

Carina diz que o maior desafio da adoção tardia (seu caso) é a criação de vínculos. “Na infância a gente tem um recurso muito importante, que é o brincar”, explica. Momentos como dar banho e ajudar a se alimentar também auxiliam o desenvolvimento de laços com o filho – elementos que, ao adotar um filho adolescente, a mãe não tem a seu favor. Ela aponta que a chave, então, está no diálogo: “Acredito muito no poder da conversa. Eu pergunto todos os dias ‘como foi na escola?’, ‘como foi o seu dia?’. É importante respeitar inclusive a privacidade do adolescente.”

Entre todas as mães, o principal desafio levantado por elas é a idealização. “Muitas pessoas idealizam o ‘filho perfeito’ e acabam se frustrando quando chega um menino que não curte jogar futebol com o pai por exemplo”, aponta Mariana. Ana Flávia afirma que muitos pais acham que, ao adotar, a criança vem “programada” para amar e respeitar independente das circunstâncias, ignorando o processo da construção de laços. “Alguns acham que a criança vem perfeitinha, feliz, capaz de sanar os problemas do casamento e os problemas pessoais que você tem”, critica. Já Carina fala sobre a ideia de estar fazendo caridade, que parte dos imaginários de alguns adotantes: “Eles pensam que essa criança ou adolescente tem que ser grato eternamente a ele ou ela.”

Sobre isso, a psicanalista Sandra Quintino explica que os pais devem compreender que a criança é um indivíduo, não uma extensão deles ou de seus desejos. “A criança não tem papel consciente na construção dos laços, ela não age ativamente (nem tem como), apenas reativamente às iniciativas dos pais”, explica. Por isso, Sandra afirma que os pais devem entender que a criança, mesmo adotada bebê, teve uma quebra do vínculo afetivo com a mãe biológica, portanto, é necessário afeto e amor para que ela se veja capaz de construir novos vínculos afetivos e tenha seu passado respeitado.

Além disso, as entrevistadas falam sobre alguns dos comentários inconvenientes que já ouviram. “Agora você vai engravidar” e “Relaxa que você vai engravidar” foram citados, como se “a mulher estivesse se auto sabotando ou que a adoção fosse remédio para infertilidade”, conforme compartilha Andreia. Outras falas que já ouviram dizem respeito à diferença na aparência entre mãe e filho ou filha. “Lido muito com o racismo pelo fato de meu marido e eu sermos brancos e nossa filha ser negra”, recorda Ana Flávia, que sente como se precisasse justificar a adoção. O sentimento é compartilhado por Adriana, que já ouviu perguntas sobre a adoção de suas filhas pelo fato de não serem parecidas com ela.

 

Para quem quer adotar

Por mais que a caminhada tenha seus desafios, todas as mães dizem que a adoção foi a melhor decisão que poderiam tomar. Quando perguntei sobre conselhos que dariam para pessoas que desejam adotar, Andreia falou que é necessário ser honesto consigo mesmo. “O processo é demorado pois não se trata de conseguir uma criança para os pais, e sim o contrário: estão procurando os melhores pais para aquela criança”, afirma.

Carina diz que a primeira coisa que a pessoa precisa se perguntar é “por que desejo ser pai ou mãe?”. “Você deve estar disposto a acolher uma história, não a desenhar uma nova, e a trabalhar essa história de uma forma que ela possa então se transformar em algo positivo.” Ana Flávia aponta que a adoção é uma escolha, portanto, sua perspectiva tem que estar baseada na formação da família e como você pode construí-la. Aliás, “construção” foi a palavra que Sandra Quintino utilizou para definir família: “ela é baseada em laços afetivos, e gera descendentes como fruto destes laços. Laços afetivos entre os pais permitem a geração do descendente através do processo de adoção.” Todas as mães recomendaram a participação em grupos de adoção para entenderem mais do assunto, não só no aspecto burocrático, mas da dimensão dos laços que serão criados a partir dessa decisão. Eles não diferem daqueles criados entre famílias biológicas.

É como afirmou Andreia: se o desejo de ser mãe, de ser pai e ter uma família existe, vá em frente. O amor dá conta do resto.

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