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Literatura indígena latino-americana contemporânea
Na Estante
10 ago 2020 | Por Juliana Alves (juliana_mendonca@usp.br) e Thomas Toscano (thomastoscano333@usp.br)

Por muitos séculos, tudo o que a sociedade ocidental europeia ficava sabendo dos povos ameríndios era fruto de estereótipos e distorções da realidade. Muito desse conteúdo pejorativo e fantasioso circulou no ideário popular por meio da literatura escrita pelo colonizador. A literatura indígena contemporânea, porém, surge para dar outra visão acerca do que realmente é a cultura indígena. Feita pelos próprios membros da comunidade, que têm propriedade para expressar suas tradições e vivências, ela veio para mudar um paradigma que perdura na América há mais de 500 anos: só sabemos sobre os indígenas aquilo que não-indígenas nos contaram.  

Os primeiros a escrever sobre os povos indígenas na América Latina foram os europeus, em primeiro momento como registro cartográfico e descritivo, cujo exemplo mais notável é do livro Duas Viagens ao Brasil, de Hans Staden. Nesse volume, cujo subtítulo inclui os dizeres História Verdadeira e Descrição de uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América (1557), foi reforçado o estereótipo de animalização dos povos indígenas que perdurou por séculos como a concepção mais aceita de como era a cultura indígena na América.

Já no século 18, com maior conhecimento e convivência com os povos originários, houve um movimento brasileiro inspirado no romantismo europeu que buscava capturar alguns elementos da cultura indígena para fantasiar acerca de suas tradições e de um imaginário mito fundador da origem da América. No Brasil, o principal nome associado a essa corrente é o de José de Alencar, que apesar de apresentar estudos na língua e nos costumes de povos indígenas de todo o país, ainda reforçava estereótipos, como nas descrições de povos indígenas como animais irracionais ou barbarizados.  

Essa visão, presente em obras como Iracema e O Guarani, foi tão popularizada na época que se tornou muito consolidada no imaginário popular e ainda perdura como descrição fiel de “o que é um indígena” na mente de muitas pessoas. Por muito tempo, poucos no Brasil tinham acesso à escrita, de modo que a contestação desse ideal era muito difícil. Mas isso foi mudando com o tempo. Já no século 20 houve tentativas de não-indígenas, como o antropólogo Claude Lévi-Strauss, que traziam descrições mais fiéis e realistas do quotidiano e da cultura de diferentes etnias, mas que ainda eram pela ótica do colonizador. Assim, era necessário que os próprios indígenas recuperassem sua voz apagada por séculos de colonização. 

Estátua em homenagem a Iracema, personagem de José de Alencar, exposta na orla da praia de Iracema, Ceará. [Imagem: Wilson Alexandre/Flickr] 

Estátua em homenagem a Iracema, personagem de José de Alencar, exposta na orla da praia de Iracema, Ceará. [Imagem: Wilson Alexandre/Flickr]

 

Literatura indígena latino-americana: origem

Em contraponto ao movimento indianista alencariano, que remete o imaginário da figura indígena como bom selvagem ou não civilizado, surge a literatura indígena. 

A doutoranda em Teoria da Literatura pela PUCRS, macuxi e autora de Eu sou macuxi e outras histórias (2019), Julie Dorrico, explica a diferença entre essas expressões estético-literárias. Segundo ela, o indianismo usa a cultura indígena como matéria-prima para sua produção escrita, mas no ponto de vista do colonizador. Em muitas obras, Julie aponta a violência, que está muito presente nessa literatura e desumaniza o indígena, ao passo que enaltece o colonizador. A pesquisadora afirma que, dentro dessas narrativas, os indígenas aparecem em segundo lugar, sendo personagens quase sempre adaptados e retirados de complexidade: “A literatura indígena é muito plural, há uma vasta complexidade de povos, de culturas”. 

Essa vertente literária não possui um período de origem determinada, já que se iniciou há séculos, por meio da oralidade, com contos e lendas. Além do mais, segundo a pesquisadora, a escrita alfabética é diferente da escrita indígena: “Como os conjuntos de hieróglifos egípcios também são códigos não descobertos, os povos indígenas também têm um sistema de escrita, mas não é alfabético”.

Escritora Julie Dorrico no TEDxUnisinos. ​[Imagem: Reprodução/YouTube]

Escritora Julie Dorrico no TEDxUnisinos. ​[Imagem: Reprodução/YouTube]

 

Escrita indígena latino-americana contemporânea

A literatura indígena contemporânea começou a ser mais notada na década de 1990 e retratada por vários gêneros textuais, desde romance até poesia. Os escritores abordam diversos assuntos pertinentes como as tradições de seus povos relacionando com a natureza; e a dinâmica do ativismo, com o engajamento de minorias historicamente marginalizadas. Destaca-se esse último tema, considerado um dos fenômenos político-culturais mais importantes da esfera pública. Alguns desses escritores são Daniel Munduruku (de etnia munduruku), Abadio Green (de etnia guandule), Luci Lema (de etnia kichwa) e Vito Apüshana (de etnia wayuu).

Há também, como no caso de Graciela Huinao – escritora e poeta chilena de etnia mapuche que desde 2014 passou a ocupar uma cadeira na Academia Chilena de Letras – a tentativa de reivindicação da língua indígena como oficial no país: “Meu pai foi obrigado a aprender espanhol, apanhou para isso. Quando nasci, ele decidiu que não ia me ensinar mapuche. Minha primeira língua foi o espanhol, tive que estudar seis anos o mapudungun (idioma do povo mapuche) para entendê-lo. Quando publiquei meu livro tinha que fazer bilíngue, pois o fiz pensando em toda a população mapuche do Chile”.

Esse movimento busca conquistar respeito pela tradição oral e pelas outras formas de linguagem que não correspondem à literatura alfabética. Muitos livros trazem consigo também fragmentos orais, áudios e vídeos gravados de danças e cerimônias de narração.

As fronteiras dos países, em muitos dos casos, não correspondem às fronteiras das etnias indígenas, como é o caso dos mapuches do Chile, que por vezes encontram mais unidade e acolhimento com os mapuches da Argentina e até indígenas de outras etnias do que dentro de seus próprio país. Entre si, os indígenas sofrem preconceito e isolamento parecido, não importa a qual etnia vão pertencer, pois os estereótipos, além de tudo, consideram toda uma vasta cultura de mais de 200 línguas como uma coisa só. E a literatura surge justamente para que essa cultura vasta não continue sendo apagada. 

Escritora Graciela Huinao, representante da literatura indígena contemporânea, na Feira Internacional do Livro em Santiago. ​[Imagem: Reprodução/Flickr]

Escritora Graciela Huinao na Feira Internacional do Livro em Santiago. ​[Imagem: Reprodução/Flickr]

Outro elemento muito presente na literatura indígena é a revolta contra os abusos e crimes que as comunidades sofrem. Cenas da tradição e cultura indígena por vezes se mesclam com elementos do presente e conflitos reais, ainda sem resolução. Os escritores indígenas usam seus livros não só como registro cultural, mas também como arma de combate e de revelação de crimes contra seus povos. Tal aspecto é bem presente no poema Salmo 1492, de Graciela Huinao. Sobre a obra e também o histórico de violência, ela diz: “Quando chegou o colonizador aqui, veio com a espada e a cruz. A violência de antes ainda é a violência de hoje, os mapuches passaram por todos os tipos de violências”.

 

Nunca fuimos                                                    Nunca fomos

el pueblo señalado                                           O povo assinalado

pero nos matan                                                Mas nos matam

 en señal de la cruz                                          Com o sinal da cruz

 (Salmo 1492)

 

O mercado de literatura indígena

A literatura indígena escrita nos livros é muito recente. No Brasil, não mais que cem autores se consideram parte do movimento e, ainda, para o público em geral, tais obras são desconhecidas. Isso vem mudando nos últimos anos com a presença de autoras como Julie Dorrico na FLIPOP 2020, uma das maiores feiras literárias da América Latina, falando sobre sua experiência e de sua ancestralidade. Pela primeira vez na história, os povos originários têm a chance de usufruir sua história contada para os não-indígenas por membros de sua comunidade em vez de estrangeiros. Isso gera muito interesse popular e faz com que cada vez mais se estude e procure saber mais sobre essa literatura.

Porém, mesmo em antros de escolaridade, não há um grande conhecimento difundido sobre essas obras e por vezes sua comercialização é dificultada. Na América Latina e no mundo, o comércio literário não tem sido muito sustentável para autores independentes sem contrato com grandes editoras, o que é o caso da maioria dos autores indígenas. Há também o preconceito vigente de que a literatura indígena não é literatura de fato, como Julie comenta: “Muita gente diz que não fazemos literatura pois somos incapazes de criar, pois só recontamos tradições. O preconceito da oralidade é endossado na literatura, pois na oralidade havia sempre a tradição de repetir as histórias e recontá-las”.

Mais recentemente, porém, o cenário está mudando: em 2019, a Companhia das Letras lançou a antologia Nós, reunindo grandes obras da literatura indígena, o que foi considerado um passo importante para a maior divulgação de tais obras. Há também a livraria virtual Maracá, que reúne um grande catálogo de literatura indígena e recebe cada vez mais visitas on-line.

Eliana Potiguara, escritora indígena, em palestra sobre importância da literatura indígena. [Imagem: Mario QuadrosAscom Secult/Fotos Públicas]

Eliana Potiguara, escritora indígena, em palestra sobre importância da literatura. [Imagem: Mario QuadrosAscom Secult/Fotos Públicas]


Acesso e divulgação

Embora a literatura indígena contemporânea seja muito relevante para a cultura latino-americana, por vezes distorcida, há poucos incentivos dos governantes dos países para fomentar a divulgação de livros escritos por povos originários. A escritora Graciela comenta sobre a dificuldade de viver nesse ramo: “A literatura aqui no Chile é para as pessoas que têm situação econômica estável, não para todos. Aqui se diz que escrever não é profissão, mas sim um hobby”. Ela inclui a dificuldade de escritoras indígenas em se destacar, pois 80% dos escritores do país são homens. Além do preconceito por ser mulher, Graciela sofreu muito por ser uma das primeiras mapuches a escrever e ter os livros publicados, e relata que recebia olhares e comentários de espanto, como: “Uma mapuche que escreve? Que esquisito!”.

Já no Brasil, a Lei 11.645, de 2008, torna obrigatório o ensino das culturas indígenas e afro-brasileiras em todo o currículo escolar. Para Julie, a lei impulsionou a divulgação de autores nativos e uma procura maior das editoras pelos materiais indígenas. Ela comenta que esses autores têm orgulho de estar educando gerações que virão depois, como uma estratégia. Porém, para Julie, a lei não é o suficiente. Segundo a escritora, as editoras focam no nicho infanto-juvenil e deixam a desejar outros, por exemplo, o romance. 

Além disso, há outras maneiras de atrair mais leitores para obras de povos nativos, como concursos. Por exemplo, os da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), FNLIJ Curumim e FNLIJ Tamoios, os quais ocorreram em 2004 e 2006, respectivamente, e têm como finalidade levar mais visibilidade aos autores indígenas. Também ocorrem premiações, como a categoria “Literatura Indígena” do Prêmio Casa das Américas. Mas ainda há muito pelo que lutar. O principal objetivo atualmente, segundo ambas autoras, não é tornar a literatura rentável ou abrir negócio. É ter sua voz ouvida e seus direitos respeitados.

 

Luta por direitos

A luta pela reivindicação de direitos é elemento muito presente na literatura indígena. Os autores usam seus livros como voz para relatar e denunciar os horrores do passado e presente que os povos originários sofrem. Os mais recentes são sempre relacionados à disputa de terras e ao assassinato de lideranças, relatados em contraposição aos tempos harmoniosos pré-colonização.

Há também a manifestação de alteridade e do sentimento de não pertencimento à sociedade moderna nas quais suas terras estão. Há o sentimento de não-brasileiro, não-chileno e de certa forma não-latinoamericano, no sentido de não aceitar a língua do colonizador como via única. Por esse motivo, muitos autores lançam suas obras em versões bilíngues, com a língua nativa e a língua oficial do país, tanto para buscar aproximação com a alteridade não-indígena, quanto para representar a dualidade que existe nos indígenas contemporâneos. A escritora Graciela comenta esse sentimento: “O povo mapuche não é chileno, mas meu cartão de identidade diz que sou chilena. Aos povos originários são impostos uma língua, uma nacionalidade, uma religião. Obrigam-nos. Sem essa obrigação, poderíamos andar de cabeça erguida.”

Tupinambás e Pataxós marcham juntos contra a remarcação de terras. [Imagem: Tiago Miotto/Cimi/Fotos Públicas]

Tupinambás e Pataxós marcham juntos contra a remarcação de terras. [Imagem: Tiago Miotto/Cimi/Fotos Públicas]


Diversidade temática

Muitos escritores indígenas da América Latina, como Graciela e Julie, escrevem sobre a cultura de seus povos, a ancestralidade, a relação entre o homem e a natureza, demonstram muita subjetividade e complexidade das vivências dos povos nativos.

Mas também há uma enorme diversidade de outros temas de obras indígenas, desde críticas políticas até análise histórica. Por exemplo, o livro Guerreiras (2018), de Aline Pachamama (de etnia puri), conta relatos de mulheres indígenas sob a ótica urbana, já que migraram para o Rio de Janeiro. Outro exemplo é a obra Teya, un corazón de mujer (2008), de Marisol Ceh Moo (de etnia maia), que narra a história do assassinato de um militante comunista em Yucatán, México. Há também a obra Tenochtitlan (1984), de José León Sánchez (de etnia huetare), que dá voz aos astecas derrotados na Batalha de Tenochtitlan.

Cada escritor tem seu processo criativo e enredo único. Porém todos têm algo em comum: a luta pelos seus direitos. A literatura é utilizada como instrumento dessa resistência. Graciela, que dá voz aos mapuches no Chile, comenta sobre isso: “A principal luta de hoje é colocar todas as atrocidades atuais do povo mapuche, inclusive dos presos políticos, é de ser a voz dos que não tem voz. Escrevo por minhas avós, minhas bisavós, que nunca tiveram voz”. 

Além disso, para os não indígenas, a literatura de povos nativos é importante não apenas para conhecer a identidade cultural da sociedade latina, como também para diminuir o preconceito enraizado diante desses povos. Julie explica a relevância de valorizar: “A literatura indígena deve fazer parte da nossa vida cotidiana. Então, minha esperança é que cada vez mais haja pesquisas em torno do tema e que novos escritores nativos passem a publicar outros livros para fortalecer esse movimento literário”.

Crianças indígenas Tembé sendo incentivadas a entrar em contato com a leitura em Santa Luzia do Pará. [Imagem: Reprodução/Flickr]

Crianças indígenas Tembé sendo incentivadas a entrar em contato com a leitura em Santa Luzia do Pará. [Imagem: Reprodução/Flickr]

Selo do Especial América Latina. [Imagem: Comunicação Visual/Jornalismo Júnior]

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COMENTÁRIOS
Carlos Augusto de Melo
Gostei da publicação! Parabéns pela iniciativa.
02 set 2020
 
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