Home Na Estante “Meia-noite e vinte”: a vida após o fim do mundo
“Meia-noite e vinte”: a vida após o fim do mundo
Na Estante
24 dez 2016 | Por Jornalismo Júnior

É possível que as personagens principais de Meia-noite e vinte sejam a melhor parte do livro, escrito por Daniel Galera e lançado pela Companhia das Letras.

Elas são três: Aurora, uma bióloga; Emiliano, um jornalista; e Antero, um publicitário. Na época em que estavam na faculdade, no fim dos anos noventa, o trio de gaúchos fazia sucesso com a publicação de uma zine digital, enviada por e-mail a seus assinantes, nos primórdios da internet nacional. Agora — estamos no começo de 2014 — eles são trintões e se afastaram afetiva e geograficamente. O que os força a reunir-se é a morte de Duque, escritor de ficção que completava o quarteto — e, de longe, seu membro com o maior potencial.

É em meio a uma Porto Alegre infernal — a temperatura passa dos 40º C, os ônibus estão em greve, os crimes violentos crescem desenfreadamente — que os amigos se reencontram e são forçados a decidir, cada um à sua maneira, o que fazer a partir de agora.

O romance é narrado a partir da alternância dos pontos de vista dos três. Isso se mostra uma aposta certa: as personagens são extremamente vívidas — tive a impressão de que poderia trombar com elas nas ruas a qualquer dia, de tão táteis que são seus maneirismos, referências e gostos, de tão ricas que são as vidas interiores sobre as quais elas se debruçam em seus monólogos.

A autoconsciência aguçadíssima, compartilhada por todas elas, traz sacadas interessantes, ainda que deprimentes, sobre os rumos do mundo. São especialmente pertinentes as avaliações de cada um frente aos protestos de junho de 2013, relidas no romance como uma espécie de revival das expectativas da virada do milênio — de que agora poderia ser a vez da mudança estrutural que o mundo precisa, de que o poder emana do povo, de que a tecnologia é redentora. (“Dava quase para se agarrar naquilo a fim de ter um pouco de esperança no futuro”, comenta Aurora.) Todas essas premissas são novamente frustradas e a vida segue, em estase atordoante.

E, se as personagens são a melhor parte do livro, a melhor parte das personagens, por sua vez, é a sua sexualidade. É na cama, ou pensando nela, que os narradores melhor demonstram seus desejos, ansiedades, vulnerabilidades, ambições e frustrações, às vezes tudo ao mesmo tempo.

O sexo é uma válvula de escape para as decepções cotidianas e para o tédio, e também um sintoma da profunda solidão na qual seus participantes estão envoltos. Nas palavras de Antero: “Estava tudo errado, e por isso mesmo estava tudo certo, era uma dessas ocasiões em que o sexo parecia ter sido feito especialmente para isto, criar abrigo temporário para o que era errado mas não obstante necessitávamos (…)”.

E Galera é um mestre em relacionar cada fetiche e fantasia e pensamento a algo inconsciente, que os transcende largamente e do qual os personagens não conseguem escapar. A melhor manifestação disso é sob a luz de Emiliano, que descreve brilhantemente o processo de se descobrir gay — após anos disfarçando sua orientação sexual como mera “admiração pela virilidade” — e de querer no sexo algo mais que o sexo, de tê-lo como uma consequência da violência física. (“Tirava prazer de ralar os punhos nos dentes do mesmo homem de quem tinha acabado de dar em cima”, ele conta.) Poucos livros sabem explorar bem esse recurso narrativo, e Meia-noite e vinte se destaca entre eles.

A prosa é outro ponto forte do romance. Devido à estrutura introspectiva presente no monólogo de cada narrador — semelhante a um fluxo de consciência, porém mais informado e perspicaz —, o texto é bastante linear e imersivo (ao contrário de seu antecessor, Barba ensopada de sangue, narrado inteiramente no presente, sem sinais gráficos para distinguir um discurso do outro e que emulava os rodapés imensos de David Foster Wallace). Pondo em termos simples: é uma prosa gostosa de ler, e propensa a distrair o leitor de todas as outras coisas por muitas horas, ainda não diga verdades bonitas ou fáceis de assimilar.

O que deixa a desejar, talvez, seja a ausência do meio das histórias. As comparações entre o passado e o presente são incessantes, mas seria interessante conhecer o período de transição entre uma fase e outra. Como que Antero, por exemplo, foi de aspirante a artista plástico, leitor compulsivo, sátiro social, e jovem talento do pornô amador subversivo a um rico e egocêntrico empresário da publicidade? Essa ausência de meio não faz exatamente uma falta, mas atiça curiosidades que não são respondidas ao longo da trama.

(Ainda nessa linha, outra observação: pela minha leitura, o livro não tem a menor pretensão de retratar uma geração, ou traduzir a infelicidade contemporânea, ou qualquer outra coisa que os jornais venham dizendo que ele faz. Não se trata de um romance de tese ou algo do gênero; o texto fala por si próprio e é isso.)

O humor marca uma presença pontual em diversos eixos da história, e nela cai muito bem. Os temas recorrentes são os mesmos da obra anterior de Galera: o corpo, a estética da violência, a publicidade, a relação do ser humano com os outros animais (surpreende a ausência de cachorros, bichos constantes em outros livros de Galera), a natureza como espaço para introspecção, e por aí vai.

A previsão da personagem Aurora — de que o mundo só podia estar acabando naquele começo de 2014 — parece ter um pé na verdade no final de 2016, um ano sem precedentes em concentrar absurdos. Ao final do livro, ela flerta com o misticismo ao avistar um animal supostamente fictício em meio à mata densa do interior gaúcho. É um momento de esperança na trama, mas fora de contexto soa como loucura. Ainda não chegamos nesse ponto enquanto sociedade, mas talvez não estejamos tão longe — como os vinte minutos que separam um dia do outro, logo após a meia-noite.

Por Laura Castanho
laura.castanho.c@gmail.com

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