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‘Meu Corpo Virou Poesia’: cicatrizes expostas e autoconhecimento

Bruna Vieira tornou-se semente, plantou-se sozinha e dá ao leitor uma carta aberta sobre seu processo de queda até o florescer ao sol

Na Estante
09 set 2021 | Por Maria Vitória Faria (mvitoriafaria@usp.br)

Criadora do blog Depois dos Quinze e escritora de diversos livros em prosa, Bruna Vieira embarca na aventura dos poemas em Meu Corpo Virou Poesia (2021), da Editora Seguinte, e mostra um lado seu antes não tão explorado nas redes sociais, mas visível em alguns momentos em seu blog: uma Bruna sensível, mutável e florescendo.

Dividido em quatro partes — Cabeça, Garganta, Pulmão e Ventre —, o livro acompanha a autora do fim de um relacionamento, com um término conturbado, até o reencontro consigo mesma, em um processo cuidadoso de se reerguer e de se ouvir, nos pequenos ou nos grandes detalhes: desde o sofá verde, passando pela transição capilar, até encontrar o seu lugar, independentemente de onde seja.

As quase 200 páginas dançam entre autoconhecimento, recuperação, reconhecimento e cicatrizes, das visíveis até as mais escondidas, inclusive aquelas que fazemos em nós mesmos. Não são poemas sobre ações negativas do outro, mas sobre como agimos de tal modo conosco ao esquecermos quem somos. 

Chega a ser assustador e ao mesmo tempo acolhedor ver a autora tão vulnerável, em um ato corajoso e íntimo — muito mais do que qualquer foto nua, como ela mesma comenta em entrevista para a Seguinte disponível na parte final do livro —, mostrando, em uma metáfora de suas entranhas vivas, como é possível florescer nos momentos mais difíceis. 

 

“a cura vem do processo de entender 

que somos indivíduos diferentes e nem todas as nossas escolhas 

são feitas propositalmente para machucar o outro”

Bruna Vieira, Meu Corpo Virou Poesia

 

Bruna Vieira, que, ao lançar Meu Corpo Virou Poesia (2021), convida o público a recomeçar, independente de quão difícil a jornada tenha sido. [Imagem: Reprodução/Instagram/@brunavieira]

Embora o fim do relacionamento seja um tema constante ao longo dos poemas, ele possui o papel de desencadeador de uma jornada de autoconhecimento, em que Bruna compartilha sua própria caminhada e convida o leitor a ressignificar suas experiências dolorosas com ela, prestando atenção a si e aos detalhes do presente. A causa do sofrimento assume um papel secundário diante das consequências e do aprendizado que promove. Assim, a carne crua exposta, as feridas abertas e o sangue que corre não são o mais importante — nem o mais encantador —, mas sim o fato de que o sangue seca e permite que brotem girassóis.

Os poemas não são do tipo que mostram como a vida é linda apesar de qualquer circunstância, o que seria mentira. Mas são de esperança, de um processo de redescoberta que exibe como os desencontros (com nós mesmos) são naturais e que, de alguma forma, nos levam a algum lugar melhor.

Mesmo aqueles que nunca estiveram em algum relacionamento amoroso, ou que não vivenciaram um término difícil, conseguirão se emocionar com tais palavras e, talvez, se já tiverem estado em situações parecidas, podem até reencontrar o próprio eu nas páginas. É fácil se emocionar com tanta veracidade trazida em cada poema cru, o que torna Meu Corpo Virou Poesia uma leitura envolvente. Não há nada mais belo do que sentir verdade nas palavras, como se a própria autora abrisse seu diário e contasse sua história pessoalmente para você.

Bruna  mostra como a queda permitiu que a semente fosse plantada e brotasse como palavras, desabrochando com calma  — por três anos  — até estarem maduras o suficiente para serem compartilhadas. É um lembrete de que há vida em cada um de nós, tão necessário no momento pandêmico atual, de isolamento e desesperança.

A leitura pode ser agoniante em alguns momentos, mas a mão do leitor não é solta nem por um segundo no processo de descobrir um novo caminho a ser seguido. É gratificante, do começo ao fim, lembrar que, embora a cura de cada um seja única, esta não é uma jornada solitária. Nas palavras da autora:

 

“minha história não me define, ela me ensina”.

 

*Imagem de capa: Maria Vitória Faria/Jornalismo Júnior

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