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Midsommar: O Mal Não Espera a Noite — O estranho e o perturbador que funciona
CINÉFILOS
19 set 2019 | Por Anderson M. Lima (anderson.marques.lima@usp.br)

Quando Hereditário (Hereditary, 2018) saiu nos cinemas, todos se perguntaram quem era o diretor desconhecido que havia feito uma obra tão significativa para o terror moderno. Ao terminar de assistir Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar, 2019), a sensação que fica é que já podemos considerar o diretor Ari Aster um dos expoentes do gênero no cinema atual. 

Poucos ousariam fazer um filme de terror que se passa durante o dia. Muitas vezes, o próprio gênero se escora no conceito de medo do escuro ou do desconhecido, e nisso, os sustos basicamente ficam em torno de jumpscares e outras técnicas que já estão saturadas. Midsommar vai de encontro ao caminho inverso do usual. Em seus campos belos e abertos, o perigo pode estar em qualquer lugar. 

O filme até tem a capacidade de confundir o expectador no começo. Temos Dani (Florence Pugh), que após vivenciar uma tragédia em sua família, parte com o namorado Christian (Jack Reynor) e os amigos para a Suécia a convite de Pelle (Vilhelm Blomgren), amigo de Christian, no intuito de participarem de um festival de solstício de verão. De cara percebemos que há um problema no relacionamento dos dois, principalmente no que tange à figura de Christian. 

A viagem, que poderia acalmar e amenizar os problemas da relação, na verdade só piora e escancara os impasses vividos pelos dois personagens e gradualmente o casal se vê envolvido em rituais pagãos e acontecimentos estranhos e perturbadores. 

Midsommar é quase um estudo de antropologia sobre um povoado que mantém seus ritos e que realmente acreditam no que estão fazendo. Nas figuras de Christian e Josh (William Jackson Harper), vemos dois antropologistas em busca de inspiração para suas teses de faculdade, e o principal erro de ambos é acreditar que eles estão estudando essa comunidade, quando na verdade são eles quem estão sendo analisados, passo a passo. 

O longa brinca com a questão do estranho, pois os costumes do povoado só aparentam ser diferentes para quem é de fora. Tirando as partes elevadas ao limite e de sacrifício, alguns dos rituais do filme ainda são feitos para comemorar o solstício de verão (para deixar registrado, ritos inofensivos). 

Quando estamos de frente com o estranho e essa estranheza assume proporções como as do longa, o ser humano geralmente tem uma única reação: o desespero. E no desespero, as pessoas podem se expressar de diversas maneiras, seja chorando, rindo ou gritando. Levando isso em consideração, não surpreende que algumas cenas causam riso ao espectador, mas um riso nervoso, como na cena em que vemos Christian participar de um ato sexual “ao modo antigo”.  

As tradições são levadas a sério no vilarejo de Halsingland e apesar de suas belas paisagens em campos abertos, o mal pode estar escondido em qualquer canto [Imagem: Csaba Aknay, Courtesy of A24]

A forma como as cenas são mostradas, seja em coreografias de dança ou um café da manhã no campo aberto, pode parecer lenta, mas a cada passo dado, percebemos que os personagens estão cada vez mais presos em uma armadilha inescapável. Em uma cena, vemos uma discussão entre Christian e Dani e enquanto Dani aparece fisicamente no olhar da câmera, Christian é mostrado apenas através de um espelho. Mais cenas como essa ocorrem e a sensação envolvendo esse conceito funciona muito bem. 

A sonoplastia é quase um personagem a parte do longa, pois sentimos a presença dela a todo momento. O som não é usado para criar tensão e causar os famosos jumpscares, mas sim para causar uma sensação desconfortável que cresce gradualmente até explodir em seu clímax.  

Nada é colocado de graça. A nota do instrumento musical que era para parecer calma, na verdade nos coloca em tensão. Os belos vestidos usados pelo povoado de Halsingland e que serviriam como um modo de dar boas-vindas nos traz mais insegurança do que paz. Uma demonstração de preocupação, como a dada pelo personagem Pelle, revela mais segundas intenções do que um sentimento gentil. 

A simbologia envolvida no filme é digna de nota. O espectador mais atento já conseguiria prever alguns dos acontecimentos presenciados durante o longa através das falas, imagens e desenhos. Em um momento do filme, Pelle explica para Josh que a sua comunidade trata a vida das pessoas como estações. Nos primeiros 16 anos de vida de uma pessoa, ela estaria vivendo a primavera. Após isso, a pessoa entraria na época do verão, que duraria até seus 36 anos aproximadamente. Não sabemos exatamente a idade de Dani, mas a personagem aparenta ter seus 25/26 anos, ou seja, ela estaria no meio do caminho do verão, sendo assim, midsummer em inglês, ou literalmente midsommar, o nome do filme. 

Não devemos esquecer que a obra mostra os problemas de relacionamento entre o casal Dani e Christian em seu início, e o final pode ser muito bem uma metáfora para o fim do relacionamento e serve até como homenagem ao clássico O Homem de Palha (The Wicker Man, 1973). Midsommar é o longa que você não espera, mas precisa ver. 

O longa tem estreia prevista para o dia 19 de setembro no Brasil. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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