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Miranda Priestly muito além do diabo de Prada
CINÉFILOS
19 nov 2019 | Por Mariana Carrara (marianacarrara@usp.br)

Imprevisível. Dura. Fria. Sádica. O Diabo. Essas são algumas formas pelas quais se referem a Miranda Priestly (Meryl Streep), editora-chefe da fictícia revista de moda Runaway. Apesar de ilusória, a personagem de O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada, 2006) marcou gerações e ainda é a referência para muitos quando falamos sobre o mundo da moda. 

Miranda comanda uma revista que inspira pessoas ao redor do mundo, o que não é uma tarefa fácil. Com cenas em que ela é dura com suas assistentes e com os funcionários da revista, o filme a mostra como “o diabo”. 

Ser exigente faz parte. Ninguém espera que uma editora-chefe acaricie o cabelo dos funcionários. Mas, mais que isso, o filme a coloca como cruel. 

Exemplo disso é Andy (Anne Hathaway), jornalista que acaba como assistente de Miranda para pagar as contas, mas que não tinha interesse no mundo da moda e não se vestia com estilo. Quando vão contratá-la, falam que precisam de alguém que possa sobreviver, e recebe a ordem: “Não pergunte nada à Miranda”. A personagem olha para Andy de cima à baixo, não faz questão de acertar seu nome e espera que ela esteja disponível 24 horas por dia.

Miranda Priestly dando ordens para a assistente Andy [Imagem: Fox]

Miranda implica com questões como o café, o almoço e demanda tarefas absurdas como conseguir o manuscrito do novo livro do Harry Potter não publicado. 

Ela interrompe as falas de todos, porque ela pode. A personagem é cruel e, mesmo assim, as pessoas sonham em trabalhar com ela. A opinião de Miranda importa. Na verdade, sua opinião é a única que importa: se não gosta, o estilista muda sua coleção inteira. 

Apesar da exigência além da conta, todos querem ser Miranda Priestly. Editora-chefe de uma das revistas mais renomadas no mundo da moda, ou seja, uma mulher bem sucedida. A posição que ela ocupa não é para qualquer um. Miranda sacrificou muito para chegar lá.

Na cena em que conta que se divorciará novamente, Miranda se abre e se mostra não como a chefe cruel, mas como humana. “Pensa o que eles vão falar de mim: Obcecada com a carreira, a rainha do gelo afasta outro Sr. Priestly”. Mas afirma também que está mais  preocupada com as filhas, que não merecem perder outra figura paterna. 

Depois desse desabafo, logo volta a ocupar-se, confirmando que o trabalho é extremamente importante pra ela e que, se sacrificou sua vida pessoal, valeu a pena para chegar à posição que ocupa.

Estar em posições de poder não é fácil para mulheres, até mesmo no mundo da moda, que é majoritariamente feminino. Em uma cena do filme, a assistente Andy afirma que Miranda realmente é dura, mas que se ela fosse um homem, “ninguém ia notar nada nela, a não ser como ela boa no que faz”. 

Esse questionamento se mostra contundente quando analisamos que quando o patrão é um homem, a exigência é vista como algo normal e ele ganha o título de ambicioso, de competente. Entretanto, quando é uma mulher, como Miranda, ela é vista como “o diabo”. Talvez seja por conta de adotar características que vão de encontro com a feminilidade, com a ideia de a mulher deve ser calma e dócil. 

Por ocupar tal cargo, também abandona o papel tradicional de mulher e acaba sacrificando, como já exposto, o casamento e até o tempo com as filhas.

Miranda e todas as mulheres em posição de liderança que dão valor à carreira profissional ainda são frequentemente demonizadas e muito mais mal vistas do que um homem na mesma posição. 


O universo da moda ainda é como o filme representa?

Até hoje temos a visão de que o mundo da moda é como o filme mostra: com chefes, assim como Miranda, mais do que exigentes no modo de vestir dos funcionários e no trabalho. Mas será que isso ainda é realmente é assim?  

Fernanda Morelli, que foi repórter e editora de beleza na revista CLAUDIA, contou em entrevista à Jornalismo Júnior que quando entrou nesse universo, em 2012, esse clima de O Diabo Veste Prada era bem mais explícito do que é hoje, “mais pelo glamour do que pela característica autoritária e abusiva de chefes”. Embora ninguém falasse “você só pode trabalhar aqui se se vestir de tal forma e tiver tal cabelo”, ela comenta que havia sim uma pressão para se adequar ao modelo de se vestir bem, de vestir o estilo que a revista pregava. Fazer isso aumentava a chance de a pessoa estar trabalhando ali. 

Mas com o tempo, isso foi mudando. As revistas de moda e beleza passaram a trabalhar a pluralidade de estilos e as diversas belezas, não só no conteúdo, mas também nas redações, com os funcionários. Além disso, as pessoas não aceitam mais. Existe toda uma rede de suporte, como o RH, e várias outras formas de trabalhar com moda, como pelo instagram, então é mais difícil das pessoas se submeterem a chefes abusivos. 

Para Fernanda, “o filme é super exagerado”, mas as grandes revistas, como Vogue e Glamour, tinham semelhanças com o que vemos no filme, havia chefes que se aproximavam do comportamento abusivo de Miranda Priestly. 

Pedro João, que trabalhou na revista ELLE, declarou que como qualquer um ali, trabalhava muito, mas nunca teve que ir atrás de um manuscrito não publicado de Harry Potter como Andy. O Jornalista também comentou que no universo da moda, você pode se beneficiar bastante sendo fashionista, mas que ele conseguiu sem o fazer. 

Apesar de mudanças e de não ser fator excludente, Fernanda aponta que, hoje em dia, nas revistas de moda “ainda existe essa preferência na contratação por pessoas que seguem e consomem aquele tipo de moda”.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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