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‘Miss Anthropocene’: a deusa da crise climática e do fim da humanidade
Escuta Aí
17 maio 2020 | Por Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br)

Cinco anos após o lançamento de seu último álbum de estúdio, Art Angels, Claire Boucher, conhecida pelo seu nome artístico Grimes, retorna à indústria musical com mais uma obra underground experimental: Miss Anthropocene.

Seu quinto álbum é pautado em um conceito que defende a transmutação de ideias abstratas e complexas em divindades. No dia 23 de fevereiro, em um post deletado de sua conta pessoal do Instagram, a artista expôs que cada uma das canções do álbum corresponde a um “deus” ou “demônio” pensados por ela.

Em So Heavy I Fell Through The Earth, baixos acentuados e vocais agudos exploram as dimensões do demônio do gênero. Para a cantora, que recentemente teve seu primeiro filho, X Æ A-12, o tema do gênero era de grande debate durante sua gravidez. Em uma livestream do YouTube, ela afirmou que não gostaria de impor um gênero sobre seu filho.

A forte, sombria e singular Darkseid retrata o demônio do abuso sexual e conta com a parceria da rapper tailandesa Aristophanes, creditada como 潘pan. A canção é nomeada em homenagem ao vilão homônimo da DC Comics, representante da geração dos personagens “Novos Deuses”, fonte que Boucher utilizou de inspiração para o álbum. Eles são uma raça fictícia habitante de uma realidade além do tempo e do espaço. Praticamente imortais, esses seres são geneticamente desenvolvidos o suficiente para se autointitularem deuses. 

Delete Forever é talvez a música mais intimista. O demônio dos vícios está atrelado às experiências pessoais da vida da cantora. Em entrevista ao repórter Joe Coscarelli do The New York Times, ela conta que já perdeu amigos próximos por conta de opióides. A canção assemelha-se a um folk cósmico e apresenta um lado mais amadurecido e ousado da cantora, ao se afastar da usual superprodução.

Grimes em frame do clipe de Delete Forever [Imagem: Reprodução/YouTube]

Frame do clipe de ‘Delete Forever’ [Imagem: Reprodução/YouTube]

Violence, por sua vez, é a música da deusa dos games. Com fortes aspectos de EDM, o single é um feat com o produtor musical e DJ Garret Lockhart, conhecido como i_o. Seguindo essa linha, 4ÆM imerge o ouvinte numa espécie de ritual futurista. A deusa da simulação é bem contextualizada nessa canção que parece transcender a existência física e integrar um novo mundo, uma nova forma de realidade.

New Gods é sua canção tese. É aqui que Grimes esclarece as intenções, sensações e motivações que levaram à criação de todo esse universo. Em um dos trechos, ela aborda a insatisfação com tudo aquilo que já existe e a busca por significado:

“Mãos buscando novos deuses

Você não pode me dar o que eu quero […]

Apenas deuses totalmente novos podem me salvar” 

O demônio da apatia se configura na excepcional My Name is Dark. A letra irreverente em união ao som punk e caótico da faixa é fundamental na criação de sua imagem. You’ll miss me when I’m not around, possivelmente a canção mais branda do álbum, integra o pop ao estilo da artista canadense para manifestar o demônio do suicídio. Before the fever e a deusa da morte do ego são impositivas, grandiloquentes e, ainda assim, calmas e controladas. Entretanto, a canção é ofuscada pelas outras faixas.  

IDORU, a única música romântica do álbum, é encarregada da deusa da luxúria digital. Em seus quase sete minutos de duração, sons de pássaros se dissipam em um crescente desejo ingênuo, permeado por admiração. A última canção do álbum é da deusa da inteligência artificial e de seu desejo incessante por poder. Em We Appreciate Power, primeiro single do álbum e a faixa de maior alcance, Grimes e HANA criam uma atmosfera distópica e hostil sobre o avanço tecnológico e a natureza humana.  

Há também a deusa da identidade e mídias sociais, a War Nymph, que possui sua própria conta no Instagram e já substituiu sua criadora em um ensaio para a Balenciaga. O avatar digital foi desenvolvido para separar as vidas pública e privada da cantora que, na época do ensaio, já estava em estágios avançados de sua gravidez.

War Nymph, avatar digital de Grimes, para o ensaio da Balenciaga [Imagem: Divulgação]

War Nymph, avatar digital de Grimes, para o ensaio da Balenciaga [Imagem: Divulgação]

Em seu novo projeto, Grimes junta a produção amadurecida e talentosa do synthpop presente em seu último álbum, Art Angels, com os experimentos sonoros ousados de eras mais antigas, como em Visions ou até mesmo em seu primeiro álbum, Geidi Primes. Entretanto, considerando sua divulgação e antecipação como a produção mais revolucionária da cantora, o álbum sofreu um overhype, uma superestimação a qual foi incapaz de atender, e acabou por decepcionar quem aguardava uma experimentação maior. Ainda assim, é digno de muita admiração por ser quase inteiramente produzido por Boucher e representar uma forma de conciliação entre suas raízes experimentais e seu synthpop recente.  

Por fim, a peça-chave para toda a narrativa: Miss_Anthropocene, a deusa da crise climática vigente. A personagem que dá nome ao álbum representa o apocalipse, o fim da raça humana causado pela sua própria ganância. Ela não possui uma canção representativa, pois todo o álbum é dedicado à sua caracterização. No neologismo, Misantropo e Antropoceno se entrelaçam, se fundem para promover o fim do nosso mundo. E, para lidar com esse fim, nossos deuses não são o suficiente. 

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