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Stand-up e a comédia feita por mulheres
Em Cena
05 fev 2021 | Por Isabella Marin (isabellamarinsilva@usp.br)

Cada dia mais as mulheres vêm conquistando seu espaço e tomando parte em mundos que antes eram mais conhecidos com protagonistas masculinos. Felizmente, esse movimento tem crescido cada vez mais em praticamente todos os setores. Então, por que não na comédia?

O stand-up comedy, por exemplo, tem algumas características muito próprias. Nele, não há nenhum tipo de personagem performático, apenas o comediante à frente de um público. A apresentação acontece ao vivo, sem a utilização de equipamentos extras e, normalmente, trata de situações do cotidiano das pessoas. No espetáculo, é possível abordar qualquer tema e fica à escolha do comediante produzir seu texto. 

Uma profissão como todas as outras, fazer stand-up pode parecer fácil de início, um dom, mas ainda é necessário muita preparação para entrar em palco. E, diferente daquilo que se assiste na televisão, há diferenças: “Aprendi com uma de minhas interlocutoras que as atrizes de teatro e de TV são mais como ‘atrizes cômicas’: têm a competência e as habilidades cênicas para assumir uma personagem dentro um roteiro estabelecido. A comediante é mais aquela que faz seu próprio texto e entrega sua própria piada em cena”, relata Juliana Sechinato.

A mestra em Antropologia Social pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e doutoranda em Sociologia na mesma instituição tem como campo de estudo o humor. “A ‘comédia de mulheres’ não nasceu, eu acredito. O que existe é a comédia no Brasil. Mas, seguramente, o humor produzido e/ou encenado por mulheres é anterior às novelas televisivas”. A antropóloga relembra a famosa Dercy Gonçalves, que, a partir da década de 1950, se intitulava comediante com as peças que muitas vezes escrevia e dirigia. Além disso, gravou discos com piadas autorais sobre a própria vida, o que se aproxima do stand-up, porém ainda sem esse nome.

Hoje, o formato que conhecemos é novo no Brasil, diferente de países como Estados Unidos, Inglaterra e Canadá, que já têm uma certa tradição, como aponta Sechinato. “No Brasil ainda é uma forma recente de comédia que ganha destaque nesta última década, embora tenha chegado por aqui com esse nome em meados dos anos 2000”, declara. E, apesar de ser um ambiente com grande predominância de homens, as mulheres têm conseguido garantir seu espaço no meio de forma gradual. 

O festival Mamacitas veio para mostrar isso. Com o objetivo de pensar na visibilidade da mulher dentro do humor, o festival reúne comediantes mulheres de diversos cantos do país para se apresentarem. Na estreia, em 2018, foram mais de 60 participantes e uniu nomes como Carol Zoccoli, Arianna Nutt, Mhel Marrer, Cintia Rosini, Renata Said e Bruna Louise. 

Selfie das comediantes no festival Mamacitas Comedy, em 2018. [Imagem: Reprodução/Instagram/Mamacitas Comedy]

Selfie das comediantes no festival Mamacitas Comedy, em 2018. [Imagem: Reprodução/Instagram/Mamacitas Comedy]

Outros shows de comédia encenados por mulheres passaram a ganhar mais adeptos desde então. Alguns mais conhecidos são o Dopamina, que ocorre em São Paulo, e o Festival das Patroas, no Rio de Janeiro. O crescimento das apresentações ajuda não somente as próprias comediantes a conquistarem seu espaço, como também a sociedade em geral, o que garante cada vez mais perspectivas diferentes de humor. Porém, apesar dos avanços — que são importantes — ainda existem muitos obstáculos a serem derrubados e preconceitos a serem anulados.

 

Barreiras 

“As mulheres em geral não apreciam arte alguma, não as conhecem e não têm talento nenhum.” 

“Uma mulher que exerce sua inteligência torna-se feia, boba e macaca.” 

“Dizemos que as mulheres têm menos interesses sociais que os homens e que entre elas a faculdade de sublimar os instintos torna-se mais débil.”

 

As frases mencionadas acima foram retiradas do livro Dicionário Machista, de Selma Ferraz, e expostas no artigo de Alba Valéria Tinoco Alves Silva para o VI Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Enecult). Foram ditas, respectivamente, por Jean-Jacques Rousseau, Pierre-Joseph Proudhon e Sigmund Freud, todos teóricos aclamados pela academia. Ainda assim, as declarações têm um cunho extremamente depreciativo da capacidade feminina.

Não muito longe dessas figuras, grande parte da sociedade em que vivemos pode compartilhar de pensamentos parecidos. Infelizmente, não é novidade que o povo brasileiro cresceu e cresce em um ambiente marcadamente machista que coloca mulheres em posições de inferioridade em relação à dos homens. Esse estigma estrutural da história do país existe e afeta todas, inclusive aquelas que tentam entrar no humor.

As frases expostas aqui, por exemplo, representam um dos fatores dessa equação. Além do fato de colocarem mulheres como incapazes de entender ou fazer arte, colocam ainda como seres que não podem demonstrar sua inteligência. 

No humor, acontece de forma semelhante. Desde garotas, não são estimuladas a serem engraçadas, ou mesmo são criticadas ao falarem palavrões, o que é muito comum nos shows. Já para os meninos, não há uma repreensão. 

Para Sechinato, algumas das dificuldades nesse sentido são a mulher sair dessa posição de inferioridade que foi criada e conseguir ser a dona do discurso cômico. “A mulher sempre foi capaz de fazer rir, mas foi socialmente desacreditada em relação a essa habilidade, como em tantas outras”, declara. Como consequência, foi constantemente retirada sua oportunidade de conquistar esses lugares de prestígio.

Por isso, se tornar o agente que faz os outros darem risada e sair do objeto risível da piada (do qual se ri) é uma grande barreira em sua concepção. A antropóloga reconhece que isso viria a acontecer, efetivamente, dentro de um imaginário social. Ainda assim, fazer com que essa mudança aconteça pode alterar nosso contexto, gradualmente, à medida que mulheres surgem nesse local. “O estigma é reforçado na ausência, a presença é fundamental para lidar com o outro.”

Nos shows, outras barreiras são evidentes, como o fato de tornar públicas certas questões da vida da mulher. Falar de menstruação, do cotidiano dentro da casa, ou mesmo tratar de elementos que não seriam esperados do gênero feminino, como falar abertamente de sexo, podem ser dificuldades dentro do palco. Porém, Sechinato alerta: “São dificuldades mais da ordem de tornar público e de como a própria audiência vai avaliar essas abordagens (e, claro, vai depender de que audiência é essa), do que da mulher conseguir fazer humor disso”.

Outra temática abordada no palco são problemas sociais que as mulheres passam no dia a dia, como o assédio, a menor valorização salarial ou até os casos de estupro e feminicídio. A antropóloga relata que o stand-up pode ser acionado como um instrumento social e pode apresentar desde piadas de manutenção da ordem (como as racistas) até as transgressoras (sobre os racistas, mostrando a sua escória), na tentativa de encorajar transformações. 

 

Piadas e sociedade

Buscar promover mudanças através do humor é um pouco do que a comediante Cintia Rosini faz. A atriz e locutora formada pela Universidade Anhembi Morumbi começou na comédia há muito tempo, mas, entre idas e vindas, passou a trabalhar direto com o gênero em 2018, após um curso com o humorista Fábio Lins.

Em conversa com o Sala33, Rosini conta que se cobra muito para conseguir atingir a todos, não apenas a parcela LGBT do público ou as mulheres. Uma das tentativas da atriz é fazer com que suas piadas façam as pessoas pensarem e refletirem: “Eu quero falar para todo mundo, inclusive para o preconceituoso, eu quero que ele dê risada daquilo e depois perceba que essa é a visão que ele tem sobre mim. ‘Olha que engraçado o seu preconceito, olha que bobagem isso’”.

Cintia Rosini no especial de comédia brasileiro “Lugar de Mulher”. [Imagem: Reprodução/Netflix]

Cintia Rosini no especial de comédia brasileiro “Lugar de Mulher”. [Imagem: Reprodução/Netflix]

Cintia fala bastante de sua sexualidade no palco para que as pessoas tentem repensar concepções já formuladas que são, muitas vezes, preconceitos. “Enquanto uma mulher que não performa essa feminilidade, eu tento fazer as pessoas repensarem seus preconceitos, repensarem as ideias que elas têm preconcebidas das pessoas e, depois de me ouvir, passarem a tratar melhor a prima lésbica”. No entanto, a atriz reconhece que essas mudanças podem demorar. Ainda assim, fazer com que isso gere reflexões posteriores já é um ponto válido. 

Para ela, a pior barreira na comédia é o machismo que sempre esteve presente. Não somente com as piadas no palco, como também por meio de uma atmosfera na qual muitos não se sentiam confortáveis para assistir aos shows. “Muita gente não assistia stand-up por conta de achar que ia ter bullying, porque as piadas eram muito agressivas”, como ainda acontece. 

Mesmo que exista, o cenário já está mudando, com piadas e públicos diferentes. “Ainda que tenha um público retrógrado, que gosta das piadas de bullying, a gente está construindo um público novo e o stand-up está evoluindo. Quem ainda só fala mal de mulher ou de ‘ai, casei, que chato’, está ficando para trás. As pessoas pedem outras coisas, o público pede uma renovação”, esclarece.

 

O papel da representatividade

Assim como a reflexão que Cintia propõe em seus shows, muitas outras podem ser incentivadas com um maior número de mulheres e mais diversidade na comédia. Por isso, a importância tão grande de mais comediantes mulheres no meio. A partir do momento que há mais ocupação de tais espaços, cada vez mais outras perspectivas podem adentrar.

Não só o papel da lésbica, como a coreana, a negra, a periférica, a muçulmana, entre outras. Hoje, algumas comediantes já se enquadram nessas características, como Jing Jing e Bruna Braga, mas ainda é um grupo pequeno. 

A comediante Daniela Franco sentiu na pele o impacto que isso teve para seu público. Ela começou no stand-up mais tarde do que as demais e tem 51 anos atualmente. Em comentário na live de Fábio Lins, em seu canal do YouTube, sobre o tema, Dani disse que achava muito importante essa identificação de narrativas diversas do público com a comediante. 

“Depois que me apresentei, vieram falar comigo: ‘Primeira vez na vida que vejo uma pessoa falar a palavra menopausa no palco’. Acho que isso é demais mesmo, é a identificação, você se ver representado.” Além disso, outro ponto relevante de uma maior diversidade é a habilidade de medir quais piadas podem ser feitas ou não, e quais são cômicas ou denotam algum preconceito.

Ainda na live, a humorista Bruna Braga faz um alerta a tais representações: “Não só esses pontos de vista, mas não deveria ser uma questão de representatividade. A gente precisa estar ali porque a gente existe. Por que a gente não pode estar ali? Ou quando está é com essa bandeira? Ocupar mais espaços é excelente, mas não deveria ter essa faixa. A gente tem que ocupar esses espaços porque a gente vive neles”.

Um dos internautas que estava assistindo a transmissão concordou com a fala e acrescentou no chat: “Acho que vai chegar um dia em que não vai precisar falar mais de inclusão feminina e LGBTQI+, por já haver equilíbrio e igualdade, sem preconceito. Mas até lá, quem tem voz, tem que dar voz!“, comentou.

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
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