Home Escuta Aí O rap feminino no Brasil
O rap feminino no Brasil
Escuta Aí
07 out 2020 | Por Aline Novakoski (alinenovakoski@usp.br)

“Jogo ainda não virou mas vai virar
Mundo gira
Tempo dirá
Nós queremos as de cem
Isso é nosso também
Tem tempo que assistimos só você se dar bem”

 

Os versos de Brisa Flow no rap As de cem retratam a situação de muitas rappers do Brasil. O estilo conta com uma predominância masculina nos holofotes, apesar de uma forte presença das mulheres em relação ao total de cantores. Prova de que o machismo, além de outros preconceitos, ainda é algo a ser superado dentro da cena do rap. Através das letras, essas artistas mudam diariamente suas realidades e de todos ao seu redor. A partir de suas vivências, elas dominam o país e o mundo falando sobre temas essenciais como racismo, gordofobia, LGBTfobia, misoginia, empoderamento feminino, amor, entre outros.

 

Contexto

O rap, (sigla para “rhythm and poetry”, traduzido como “ritmo e poesia”), chegou ao Brasil na década de 1980, na região do centro de São Paulo, com a criação de um Movimento Nacional. Na época, as cidades que mais se destacavam eram as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, o que é observável até nos dias de hoje. 

Porém, ter mais visibilidade na mídia não significa possuir os melhores rappers ou sons. Meg Pedrozzo, rapper conhecida como Meg Tmthc, afirma que busca outras referências para sair desse centro, e também reitera que dizer que apenas São Paulo tem rap bom é contrariar o que o rap prega em suas letras, como a igualdade e o anseio pelo aprendizado.

Sara Donato, uma rapper nascida e criada no interior de São Paulo, também sente a questão da invisibilidade dentro da cena. A cantora diz que as grandes capitais se fecham para o que vem de fora, e afirma: “Sempre busquei fortalecer essas minas de outros estados. Eu divulgo, conheço o trabalho e fortaleço como eu posso, porque acredito que também é meu dever”.

Na primeira foto, Meg Tmthc, e na segunda, Sara Donato [Imagens: Reprodução/ Instagram]

Na primeira foto, Meg Tmthc, e na segunda, Sara Donato [Imagens: Reprodução/ Instagram]

 

Gênero e rap

Nos últimos 30 anos, o rap e a cultura hip hop começaram a exercer uma função muito mais social. Nos anos 80, a maioria das músicas de rap era utilizada para animar bailes, com um foco muito mais em uma batida dançante do que nas letras. Porém sem essa preocupação, elas se tornaram extremamente machistas e degradantes. Mesmo assim, as mulheres já faziam rap, ainda que em menor número.

Guilherme Botelho, mestre em Filosofia pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP, diz em entrevista ao Jornal da USP que o rap parou de ser produto comercial, meramente, e ganhou uma outra função além disso, que é poder educar a periferia, levar novas perspectivas, levar o debate sobre questões étnicas regionais e globais. Assim ocorre também o início do empoderamento do ser negro. Ele completa trazendo a questão do gênero para o discurso: “Hoje, as mulheres com esse empoderamento feminino contemporâneo, com esse afronte à misoginia mais preciso, têm um discurso mais contundente, muitas vezes, mais com teor de revide do que nos anos 90”. 

Sara percebe na prática os estudos de Guilherme quando afirma que a quantidade crescente de mulheres e pessoas LGBTQ+ dentro da cena vem melhorando cada dia mais, e ressalta que esse espaço é de todos. Porém, a luta é uma constante, e graças às suas ancestrais as rappers de hoje, assim como todas as mulheres, são livres para fazer e frequentar o espaço que quiserem. Mesmo que ainda haja julgamento, essas mulheres estão no fronte de batalha para ganhar o destaque na cena e levar centenas junto com elas.

 

Lute como uma rapper

Apesar da luta constante que as cantoras travam em todos os espaços músicas, elas ainda são muito subvalorizadas na cena. Alegam que produtores ainda não dão tanta atenção para o trabalho delas, e que as casas de show ainda fazem listas de convidados com atrações predominantemente, se não completamente, masculinas. A rivalidade feminina também se faz presente na cena, porém, como afirma Meg, existem horas em que ela desaparece: “Ao olhar do palco e ver uma multidão de pessoas, esqueço-me por um momento que às vezes somos tão rivais, tão egoístas”.

Dentro dos espaços de rap nota-se a subestimação das mulheres por conta da visão que elas passam nas letras. Antes de subir no palco, muitas observam olhares estranhos vindos do público – como se perguntassem “o que essa menina vai fazer?” ou “ela é backing vocal?” – julgamentos que se desfazem ao longo do show, quando o público vê o alto nível em que essas mulheres rimam e como se impõem.

A rapper Luana Hansen constatou ao longo de seus quase 20 anos de carreira como a representatividade das mulheres negras mudou dentro do mundo do hip hop. Ela afirma vir de uma época em que a única representatividade negra que existia na televisão era a Globeleza: “E hoje em dia ver Tássia Reis e Karol Conka em capas de revistas é uma grande mudança, e essa é a prova de que elas estão no caminho certo”.

À esquerda, Karol Conka aparece na capa da revista Rolling Stone, e à direita, Negra Li aparece na capa da revista Circuito. [Imagens: Divulgação]

À esquerda, Karol Conka aparece na capa da revista Rolling Stone, e à direita, Negra Li aparece na capa da revista Circuito. [Imagens: Divulgação]

 

Corrida pelo destaque

Apesar de uma expressiva melhora na representatividade, cantoras do gênero ainda sofrem muitos preconceitos, principalmente pois a grande maioria é de alguma forma prejudicada pelas estruturas sociais. Além de mulheres, a maioria sofre por alguma outra vulnerabilidade social que as torna ainda mais oprimidas – como ser periféricas, negras, gordas, lésbicas, trans, bissexuais entre outras. Por isso, Luana diz: “É uma  militância constante. Eu gosto de militar nas canções. Enquanto a sociedade não parar de ser racista, misógina, transfóbica e lesbofóbica, eu vou continuar lutando”.

A conquista fica mais difícil quando canais como a Pineapple Storm TV, maior canal de rap do Brasil, sub-representa as mulheres de uma maneira muito explícita. A produtora trabalha em seus clipes com um número mínimo de cantoras. Além disso, as poucas artistas que estão lá são em maioria “cis que já têm uma certa visibilidade”, como afirma Sara Donato.

Já Meg afirma: “A ideia da Pineapple foi bem inteligente, mas foi conduzida de uma maneira ruim. Em um lugar onde existe segregação de pessoas é notável que não é algo para todos. Algumas meninas começaram a lançar músicas por lá, o que faz a cena mudar. Porém, elas sequer representam 20% das pessoas desse canal gigante do rap, e por isso ele ainda é o que mais segrega”. Sara também diz que não consome os conteúdos produzidos: “Não vou dar play no que não me representa”. Por exemplo, a gravadora tem o projeto Poetisas no Topo, que envolve apenas mulheres e conta com duas versões. Enquanto um outro projeto, o Poetas no Topo, conta com oito versões e teve a participação de cinco mulheres, dentre outros 46 homens.

 

“A união faz a força”

É comum que as rappers se juntem para fazer colaborações e formar frentes, grupos e coletivos. Isso as faz amadurecer, ganhar mais visibilidade, e conhecer novas pessoas e realidades. Sara, por exemplo, faz parte da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, que segundo ela foi onde aprendeu a admirar a atuação das artistas dentro da cena. Esses grupos também empoderam mulheres, como percebe-se no relato de Meg: “A união sempre faz a força. O grupo Psicopretas foi um marco na minha caminhada no sentido de me empoderar, nos tornamos família”.

Existem dezenas de grupos femininos de rap, como o Rimas e Melodias e o Rima Dela. Também, diversos coletivos por todos os estados do país têm funções especiais e únicas, que mudam realidades não só das participantes, mas também de diversas ouvintes. Estas enxergam suas realidades nas letras, o que também as empodera e torna a representatividade cada vez mais necessária e importante. “Sou procurada quase todos os dias por pessoas que agradecem porque eu falei certas coisas na cypher. Isso não tem preço. É importante demais saber que o que você canta está tocando as vidas das pessoas e mudando o mundo dia a dia”.

A união de todas no mesmo ideal, para se fortalecerem e crescerem juntas, tornam relatos como este únicos, o que traz para as rappers um sentimento de dever cumprido e  mais vontade de continuar em suas batalhas diárias. Uma fala da ativista por direitos aos  afro-americanos, Ella Baker, presente no fim do clipe Psicopretas vol.1, condensa toda a ideia de luta enfrentada pelas rappers: 

“Nós, que acreditamos na liberdade, não podemos descansar até que ela venha.”

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*