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O Apanhador no Campo de Centeio e o retrato de uma geração
Na Estante
03 set 2015 | Por Jornalismo Júnior

Vagando por Nova York, plena madrugada. Ruas vazias, exceto pelos boêmios que enchem os bares e hotéis da cidade. Um garoto de 16 anos, ao ser expulso do colégio, decide não voltar para casa tão cedo, pois sabe que levará uma bela bronca dos pais. Holden Caulfield é seu nome. E a única coisa que ambiciona é ser um apanhador no campo de centeio.

Um livro que marcou uma época e uma geração, sendo considerado pela Times em 2005 como um dos cem melhores livros escritos desde 1923 da língua inglesa. O Apanhador no Campo de Centeio pode até não ter uma história atraente, ou típica, mas não é seu enredo que atrai o leitor. Quem dá o tom da narração são os pensamentos de Holden, carregados de rebeldia, indecisão e sem qualquer pudor ou escrúpulo. Ele, que a princípio, pode aparentar ser um garoto mimado e problemático, como muitos leitores o acusaram, porém, aos que conseguiram atravessar as fronteiras das letras escritas, a personagem acaba se tornando muito carismática, e até certo ponto, amigável.

J.D.Salinger. Imagem: Divulgação.

Numa leitura superficial, qualquer pessoa pode cair na armadilha de J.D.Salinger. As 205 páginas (18 edição da Editora do Autor, 2012) são de uma história de aproximadamente 48 horas extremamente triviais, já que nada de muito emocionante acontece. Holden estudava num colégio interno na Pensilvânia, quando foi expulso por ter sido reprovado em quatro de cinco matérias, conseguindo apenas passar em Inglês. Antes de sair do colégio, conversa com seu professor de história e pega o trem noturno de volta para Nova York, onde sua família morava. Num embate moral, decide não voltar para casa e se hospeda num hotel decadente para passar aqueles dias. Nesses dois dias, Holden, num fluxo de pensamento, nos conta tudo que se passa em sua cabeça, principalmente seus relacionamentos com os pais, irmãos e namoradas. Ele vai a bares, tenta aparentar ser maior de idade para conseguir beber, conhece prostitutas, vai ao zoológico, conversa com sua irmã mais nova, por quem sente muita afinidade, patina no gelo e até assiste um musical. Não há um clímax nessa história, por isso, ao leitor desavisado, o livro pode passar como “desinteressante”.

Então, por que um livro desse se tornou um clássico?

Imagem: Divulgação.

Primeiro, porque a narração é feita em primeira pessoa por uma personagem extremamente carismática, como já mencionado. Holden é um adolescente, por isso fala como tal, não regula as gírias, e muito menos o que vai falar. Esse é um livro sobre um adolescente e para adolescentes. Portanto, a linguagem é extremamente informal, assim como o conteúdo. E informal não quer dizer superficial. Em segundo lugar, O Apanhador no Campo de Centeio nasceu num contexto de mudança de paradigma na cultura e no comportamento dos jovens. O nascimento do rock está intrinsicamente relacionado com essas mudanças. A nova sonoridade criou um sentimento de rebeldia que emanava de suas letras. Holden, de certa forma, ajudou a formatar esse novo jovem, cheio de atitude rebelde, de ideias subversivas a dos pais, de cultura própria e de comportamento singular.

Nossa querida personagem, Holden Caulfield, se tornou um espelho para os adolescentes da década de 1950 (quando o livro foi lançado) e posteriores, daqueles que começavam a questionar uma certa falta de cultura dos próprios jovens. Holden nunca mediu suas palavras, muito menos suas atitudes. Ele fala palavrão e diversas gírias. Quando quis entrar num bar e beber álcool, não houve quem o impedisse. Holden não se importava com suas notas na escola, tanto que fora expulso. Ele achava que todos eram falsos, que todos fingiam sentimentos, ou falavam coisas que não acreditavam. Holden é o genuíno rebelde sem causa da literatura.

Quem mais escreveu sobre esse jovens?

Os anos 50 e 60 foram decisivos para a cultura jovem, principalmente nos campos da literatura, do cinema e da música. Dentro da literatura, O Apanhador exerceu influência inigualável, mas houveram movimentos posteriores, do final da década de 50 e início de 60, que também engataram nessa revolução, como a famigerada Geração Beat. Autores como Jack Kerouac (On The Road), Allen Ginsberg (Howl) e William Burroughs (Naked Lunch) se dedicaram a fortalecer o ideal de rebeldia, tanto comportamental quanto política, fazendo ode às drogas, ao amor livre, ao hedonismo e à vida boêmia, sendo o embrião dos beatniks, movimento socio-cultural do final dos anos 50 e começo de 60.

Imagem: Divulgação.

Já no começo da década de 50 foram lançados filmes que retratavam justamente esse novo jovem. Foram personagens como Jim Stark (James Dean em Juventude Transviada) e Johnny Strabler (Marlon Brando em O Selvagem) que cativaram os adolescentes. Esses ícones de “bons moços”, nada tinham. Muito pelo contrário, eram rapazes irreverentes, charmosos, que usavam jaquetas de couro, andavam de motocicletas, criavam problemas, brigavam com outras gangues e no final, sempre conseguiam ficar com a moçinha. O termo “Rebelde sem causa” nasceu justamente do título de Juventude Transviada, que na tradução original é “Rebel Without a Cause”. Tal expressão sintetiza o jovem que nascia dessa efervescência cultural; cansado de seguir os bons modos dos pais, que tem suas próprias ideias, personalidade, e que sente necessidade de externá-las.

James Dean em Juventude Transviada. Imagem: Divulgação.

 

Mas como o rock se relaciona com tudo isso?

A cena musical do mundo, naquela época, passava por diversas mudanças de sonoridades. O jazz, gênero de sucesso dos anos 30 e 40, já não faziam tanto sucesso quanto o Blues. Apesar de ser um ritmo novo, que tinha certo apelo popular, que era barulhento, ele não agradou os jovens. Os salões de dança frequentados pelos adolescentes eram preenchidos por um Blues mais acelerado, mais agitado, comumente chamado de Rhythm and Blues. Várias bandas e artistas se destacaram por fazer esse som dançante, como Little Walter, Ray Charles, Fats Domino, Little Richard, Muddy Waters e Etta James.

Phil Chess, Muddy Waters, Little Water e Boo Diddley. Imagem: Divulgação.

Foi em 1951 que esse ritmo ganhou um nome definitivo e que marcaria para sempre a história da música. Vislumbrado com a potência do Rhythm and Blues, o DJ Alan Freed nomeou seu programa de rádio de Moondog Rock and Roll, que tocava esse novo ritmo. A origem da expressão Rock and Roll não surgiu nessa época, ela já tinha sido usada em diversas canções antigas como uma gíria para sexo. Outro entusiasta do novo gênero contribuiu de forma significante para a sua consolidação no mercado internacional; O produtor Sam Phillips criou em 1952 a Sun Records, uma gravadora no Tennesse que ficou responsável por lançar diversos artistas consagrados, como B.B.King, Howlin’ Wolf, Johnny Cash, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e o rei, Elvis Presley. A contribuição imagética de Elvis Presley para essa nova cultura foi de grande importância, principalmente por causa da insinuação sexual do seu gingado, do seu modo de dançar e de se vestir. O Rock’n’Roll passou rapidamente a ser o gênero dos novos rebeldes sem causa, que eram atraídos pelo ritmo acelerado, pelo poder de sedução e pela sede de novidades.

Quem foram os Rockers e os Mods?

Um desdobramento perceptível de como o cinema, a literatura e principalmente o rock influenciaram o comportamento desses jovens, foi a criação de dois movimentos antagônicos, os quais diferenciavam-se pela música, comportamento e vestuário. Os Mods eram jovens que gostavam de R&B e Soul, vestiam-se com ternos e camisas engomadas, dirigiam scooters e mantinham o cabelo bem aparado. Já os Rockers vestiam-se com jaquetas de couro pretas e botas, andavam de motocicletas, usavam topetes com gel e ouviam rock dos anos 50 de artistas como Gene Vincent, Eddie Cochran, Boo Diddley e Elvis Presley.

Imagem: Divulgação.

Em meio de 1964 houveram diversas batalhas na Inglaterra entre esses dois grupos. Cidades litorâneas como Brighton, Margate, Bournemouth e Clacton tiveram suas praias invadidas por conflitos entre rockers e mods. Um dos maiores confrontos aconteceu na praia de Brighton, entre os dias 18 e 19 de maio, quando aproximadamente mil jovens saíram de suas casas para brigarem com o grupo inimigo a base de socos, chutes e golpes com facas ou canivetes. Vários foram detidos, houve reforço da polícia, mas a violência não parou. Por anos seguintes a rivalidade persistiu, e o caso foi até discutido entre autoridades, mas nenhuma medida foi adotada. A diminuição veio apenas com a ascenção do movimento hippie que conquistou essa geração e a seguinte.

O filme “Quadrophenia” de 1979, inspirado no disco homônimo do The Who, conta exatamente sobre a batalha de Brighton, do ponto de vista de um jovem da cultura Mod. Além disso, outra obra que também relaciona-se com o crescimento da delinquência juvenil, é o livro Laranja Mecânica, lançado em 1962, que faz alusão à esses grupos de adolescentes que abusavam da violência pelo seu bel-prazer.

Imagem: Divulgação.

Seria, então, J.D. Salinger um profeta?

Claramente não foi esse autor que criou essa geração de jovens rebeldes, mas o diferencial dele foi perceber justamente o que ninguém antes havia prestado atenção. Salinger retratou, num simples livro, um jovem angustiado, que não mantinha ambições para a vida, que odiava o colégio, que tinha seus próprios problemas, mas que era reprimido pelos pais ou pela escola. Holden, apesar de ser uma personagem de ficção, é um jovem de seu tempo, ou melhor, de qualquer tempo. Em pleno 1951, O Apanhador no Campo de Centeio prenunciou uma efervescência da cultura jovem que tinha como sujeito principal o rebelde sem causa. E ninguém melhor para apresentá-lo ao mundo do que o irreverente Holden Caulfield, com seus dilemas sobre a vida, o amor, a família, a amizade e tudo que o cerca.

 

Por Lid Capitani
lidiamcapitani@gmail.com

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