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O Brasil dos grandes festivais de música
Escuta Aí
30 set 2016 | Por Jornalismo Júnior

É quase impossível imaginar eventos que causem maior frisson entre os apreciadores de música brasileiros – e, dada a crescente popularização destes eventos como experiências que vão muito além do som, qualquer um interessado numa grande festa – do que os grandes festivais de música. Os últimos anos viram a chegada de festivais internacionais ao cenário do país, tal como o Lollapalooza, e a criação – e, em muitos casos, morte prematura – de diversos outros, como SWU, Tim Festival, Planeta Terra Festival e, mais recentemente, o Popload Festival.

Público no último dia do Rock In Rio de 1985. Imagem: Divulgação

A inserção do Brasil na rota das grandes atrações mundiais teve início com o primeiro Rock in Rio, em 1985. Levando em conta que a maior parte dos festivais tidos como referência atualmente também surgiram com força nas últimas duas décadas do século passado – a edição original do Lollapalooza, em Chicago (a partir de 1991), o californiano Coachella (1999) e até mesmo o Glastonbury em sua frequência e perfil atuais (1981) são alguns exemplos – dá pra ver que a assimilação da prática por nosso país foi até adiantada.

“Só que a progressão foi gradativa.” pontuou José Norberto Flesch, do Destak, em entrevista ao Sala33, “O Rock in Rio abriu a porta, mas não escancarou. Deixou só uma fresta.” Débora Cassolato, do blog de música Ouvindo antes de morrer, aponta a mudança na economia da indústria da música como o principal fator catalisador, no Brasil e no mundo: a popularização da internet e a criação de uma cultura do download ilegal desestabilizou o negócio musical na virada do século. Assim, os artistas encontraram uma pressão inédita para expandir e intensificar suas tours, vendo múltiplos potenciais no nosso país: “O Brasil entrou nessa rota, dentre outros fatores, por ter público em potencial e disposto a ver seu ídolo pela primeira vez, estar com uma situação econômica estável que propiciou um aumento do poder aquisitivo da população e um câmbio favorável, tornando o risco de investimento dos produtores menor”, apontou Débora.

Ao longo da experiência brasileira com esse tipo de evento, houve uma mudança importante em seu perfil: os festivais de música ao redor do mundo deixaram de ser vistos como uma simples oportunidade de ver shows de diversas bandas de uma só vez e passaram a oferecer uma multitude de atrações – a edição de 2014 do Lollapalooza Brasil contou até com uma pista de patins, o Rock In Rio tem sua tradicional Cidade do Rock – que contribuíram não só para ampliar o perfil dos frequentadores como para tornar estes eventos atraentes independentemente de quem fosse incluído no lineup. “As pessoas querem a experiência do festival, estar dentro de um GIF do tumblr. Muitas vezes quem está no palco não importa tanto assim”, coloca Débora.

O icônico Pyramid Stage do Glastonbury Festival, Inglaterra. Imagem: Divulgação.

Com a ajuda desses recursos, cada festival foi capaz de construir – e manter com a ajuda de muita publicidade – uma própria identidade, e assim, se estabelecer como algo único e imperdível. É isso que permite que as vendas começem antes que os artistas sejam revelados – e, no caso daquele tido como o maior do mundo, o inglês Glastonbury, que todos os ingressos sejam vendidos exatamente um ano antes do evento real.

E como ficam esses eventos na crise econômica?

Mesmo com a melhora dos indicadores econômicos do país ao longo da última década, a recente crise está impactando o setor. Segundo Flesch “A crise afeta diretamente a produção do evento – cachês, transporte, aluguel de casa e equipamento, por exemplo – e a venda de ingressos, mas enquanto se conseguir trabalhar com essa equação de forma produtiva, dá para continuar”.

A manutenção de grandes festivais é auxiliada, essencialmente, pelas características de seu público alvo, as classes A e B. “A crise econômica geralmente afeta as classes mais vulneráveis primeiro e só atinge drasticamente o público A e B em outros estágios. Este público certamente corta certos hábitos e muda o padrão de vida, mas não chega a passar fome como é a realidade da D e E”, ressaltou Débora. “Além de tudo, os shows continuam sendo um evento pontual e de status, algo aspiracional”

Para além da óbvia barreira de classe já existente nesses eventos, eles também se situam dentro da nova lógica de mercado que Henry Jenkins, em Cultura da Convergência (2006), denominou “economia afetiva”: nos últimos anos, o marketing tem reconhecido o imenso potencial econômico dos fãs, e marcas têm feito de tudo para se associarem aos artistas e celebridades em alta. Isso garante que a disposição delas em patrocinar festivais de música se sustente mesmo em tempos menos favoráveis economicamente.

O que aprendemos nos últimos anos

Tomando o Rock In Rio como o início de tudo, o Brasil tem um pouco mais de trinta anos de experiência nas costas. O porte das organizações e a maior frequência de grandes festivais de música evidencia seu aperfeiçoamento no país. “Tudo foi melhorando. Se há anos tínhamos estrutura, porém ainda meio precária, hoje temos capacidade de fazer um festival como se faz em qualquer parte do mundo.” ressaltou Flesch. Outra evolução importante foi a própria frequência e ampliação da gama de atrações interessadas em vir ao Brasil “Antes era impensável ver o show de uma banda mais alternativa, ou até uma mainstream mesmo.” lembrou Débora “Se ela viesse para o Brasil era como se fosse a única chance da sua vida de assistir. Hoje, se você perder um show, tudo bem, sabe que a banda provavelmente voltará daqui um tempo.”

Tame Impala no intimista Popload Festival, 2014. Imagem: I Hate Flash.

Tame Impala no intimista Popload Festival, 2014 (foto: I Hate Flash)

Alguns problemas, no entanto, ainda persistem: como em qualquer evento social, ele inevitavelmente reflete as falhas e insuficiências da sociedade na qual se insere.  “O que acho difícil de resolver, ao menos em São Paulo, maior mercado do país, são o que se poderia chamar de problemas de entorno. Tanto nos 1990 como em 2016, o público tem problemas com transporte de qualquer tipo para chegar aos locais, e muitas vezes as vendas de ingressos são conturbadas, por exemplo.” apontou Flesch. Indo além do nível da infraestrutura, Débora chamou atenção para algo igualmente danoso e frequentemente invisibilizado: o machismo dentro da área. “O assédio e desrespeito tanto para quem trabalha, quanto para quem frequenta é muito grande, quase normal.”

Por Bárbara Reis
barbara.rrreis@gmail.com

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