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O dia em que virei corinthiano
ARQUIBANCADA
19 fev 2020 | Por Gabriel Guerra (gabriel_guerra@usp.br)

O 7 a 1 que mudou a minha vida 

Lembro-me do dia 6 de novembro de 2005 com bastante riqueza de detalhes. Eu, um menino de seis anos de idade, tive minha vida mudada naquele domingo. Era um dia ensolarado e bonito, daqueles que nos levam a passear com a família. Entretanto, aquele fim de semana seria reservado para o tradicional almoço de família em minha casa.

 

Antes da mudança, a história.

Naquele contexto eu não era muito atrelado aos esportes na televisão. Gostava de jogar futebol, mas não era um fã assíduo da prática de assistir jogos semanalmente. Porém, naquele ano, o Campeonato Brasileiro estava sendo muito comentado pela disputa acirrada de título entre Corinthians e Internacional. À época, o torneio contava com 22 equipes, logo cada agremiação jogava 42 vezes até o fim da competição. E o campeonato foi tão disputado que o título só foi decidido na quadragésima segunda rodada, a última da competição. O Corinthians, mesmo perdendo o último confronto para o Goiás por 3 a 2, tornou-se campeão do Brasileirão de 2005 com 81 pontos.Os gaúchos, por sua vez, também perderam a última rodada, para o time do Coritiba por 1 a 0.

Jogadores do Corinthians comemoram um dos gols da virada que mudou a história daquele jogo

[Imagem: Lance]

O contexto familiar

Como costume aos domingos o almoço era tardio. Às 15 horas ecoou da cozinha um grito que dizia “vamos almoçar”, enquanto nos outros cômodos da casa as pessoas respondiam “vamos” com êxtase. Depois do almoço, a sala virou o cômodo com o maior número de pessoas. O motivo era simples: faltavam apenas alguns minutos para o início do clássico entre Corinthians e Santos. A sala cheia não significava que ali só estavam torcedores dos times que jogariam o clássico. Muito pelo contrário, minha família constitui-se majoritariamente de palmeirenses, inclusive meu pai. Enquanto eu, naquele contexto, era neutro em relação ao futebol.

 

Quando o sentimento falou mais alto

Quando a partida se iniciou, não demorou muito para ouvir os primeiros murmúrios na sala, logo no primeiro minuto de jogo o Corinthians abriu o placar. Entretanto, a resposta do Santos também não foi tardia, aos oito minutos a equipe praiana empatou o jogo em 1 a 1, dando a impressão de um clássico equilibrado. Foi nesse empate do Santos que eu comecei a me atentar ao clássico em primeiro foco e não só a momentos de gols. Aos 20 minutos, o argentino Tévez fez o segundo gol do Corinthians. A partir disso eu comecei a sentir uma coisa diferente dentro de mim, algo que mudou aquela criança de 6 anos e a fez soltar um grito de gol bem tímido e baixo. 

Tevez comemorando um gol no clássico deixando mais alto o sentimento do torcedor corinthiano [Imagem: Djalma Vassão / Gazeta Press]

Tévez comemorando um gol no clássico [Imagem: Djalma Vassão / Gazeta Press]

Após o segundo gol a equipe do Corinthians dominou completamente o jogo e a minha atenção. Foram mais dois gols de Tévez e dois de Nilmar. Até aquele momento a goleada estava em 6 a 1 para o Corinthians no clássico alvinegro. Sobre esses quatro gols não vou me prolongar nos detalhes. Só digo que a cada gol o som do meu grito aumentava e minha timidez diminuía. Comemorar um gol, naquela tarde, significava uma felicidade interna verdadeira.

Era a primeira vez que eu me sentia feliz por assistir uma partida de futebol. O jogo estava em 6 a 1 e meu entusiasmo era alto, porém o balançar das redes não haviam cessado. Aos 45 minutos do segundo tempo, o Corinthians tinha uma falta frontal, perto da grande área, para cobrar. Nesse momento eu não ouvia mais os ruídos externos daqueles que estavam na sala, só conseguia olhar fixamente para a televisão. E quando o meia corinthiano Marcelo Mattos cobrou a falta e fez aquele gol com a bola batendo na trave, eu senti o que era ser corinthiano.

Enquanto os jogadores corriam para comemorar no estádio, eu corria para comemorar pelos cômodos da casa. Meu grito era sincronizado com aquele ecoado pela torcida do corinthiana naquele sétimo gol. Aquela baliza sacramentou não só a partida, mas também o time pelo qual  iria torcer e amar no futuro. Foi dessa forma que eu, filho de um palmeirense, me tornei um corinthiano apaixonado. Hoje, ainda grito e corro pela casa para comemorar os gols do meu time de coração. Também assisto às partidas com a mesma fixação daquela criança de seis anos. 

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