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De alguém que não assiste futebol
ARQUIBANCADA
07 abr 2020 | Por Gabriella Sales (gabriellasm@usp.br)

Podem me chamar de traidora, se quiserem, mas eu não gosto muito de futebol. Não jogo. Não tenho costume de assistir. Não tenho muito interesse pelo assunto. Noites de quarta e tardes de domingo não me dizem muita coisa. A Copa do Mundo não interfere drasticamente na minha rotina. Creio que nem ao menos tenho uma camisa da seleção.

Não é que eu tenha um ódio profundo ou que eu ache que o futebol é irrelevante e não deveria existir. É legal, até. Acho bonita a paixão que as pessoas compartilham pelos seus times e, até mesmo, pelo país em tempos de competição. Na verdade, tenho muitas críticas sobre a forma como funciona o universo do futebol atualmente e tudo o que está envolvido nele, mas isso, para mim, não anula essa beleza. E não faz do esporte ruim ou desprezível. A questão não é nenhuma dessas coisas. 

A questão é que eu simplesmente não tenho grandes interesses. A bola rolando pelo gramado verde não ilumina meus olhos. A emoção de uma jogada que antecipa um gol incrível simplesmente… não me emociona. E não adianta perguntar o porquê, pois, sendo bem sincera, na verdade nem eu sei.

Pensando em retrospectiva, percebo que, por um tempo, eu fui uma criança bastante esportiva, inclusive. Por alguns anos, pratiquei desde a natação, passando pelo (pasmem) futsal, até chegar à ginástica rítmica. A partir daí, por algum motivo, passei a me afastar cada vez mais desse universo e a me aproximar do da dança, que eu vejo por uma perspectiva muito mais artística do que esportiva. Talvez por conta dos clássicos comentários descuidados das crianças, já que eu era (usarei o verbo no passado por conveniência) bastante desastrada e não tinha lá muito jeito com a bola. A questão é que eu simplesmente não desenvolvi esse sentimento tão forte do qual tanto falam os torcedores emocionados. Por um tempo até tentei sucumbir às leves pressões do meu pai e me apaixonar pelo Bahia, mas simplesmente não fazia sentido. E foi passando a fazer menos a cada dia. 

Aos poucos, comecei a me interessar um pouco mais por outros esportes. Hoje, aprecio a emoção de um bom jogo de vôlei, a beleza de uma corrida e a precisão das apresentações de ginástica. E, de certa forma, passei a sentir um pouco de raiva pela falta de reconhecimento desses esportes. Afinal, várias e várias vezes a seleção decepcionou na Copa, nas Olimpíadas e em tantos outros campeonatos. Enquanto isso, tantos outros times e atletas ganharam uma série de medalhas e prêmios nas mais diversas competições e modalidades… Apenas transmitidas na TV aberta quando parte de eventos muito importantes. E eu sei que tudo isso foi e é construído socialmente, mas, por isso, é diferente. Tornou-se diferente.

Não há a loucura dos fogos de artifício estourando alto na cidade numa quarta qualquer do ano, nem as conversas acirradas com o amigo do time rival no almoço de sábado. Não tem a empolgação quando surge a possibilidade de ir ao estádio ou as lágrimas irracionalmente derramadas diante de um resultado decepcionante num jogo decisivo.

Preciso dizer que no “país do futebol”, às vezes, me sinto um pouco excluída. Alguns diriam até “menos brasileira”, mas eu tenho bastante certeza de que isso restringiria de forma cruel a cultura do nosso país a uma coisa tão simples. Imensa, mas simples. Emocionante, mas simples. E é aí que eu percebo que, embora eu não a sinta, faz todo o sentido a paixão brasileira por esse esporte. O futebol é tão brasileiro quanto o brasileiro é como o futebol: diverso, intenso, mas, acima de tudo, simples. E, de alguma forma, único.

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