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“O espírito da ficção científica” e o fetiche pela vida de escritor
Na Estante
12 jan 2018 | Por Jornalismo Júnior

Seriam os robôs e as naves a essência da literatura de ficção científica? Qual é o espírito da literatura como um todo? O que diferencia um manuscrito de algo verdadeiramente valioso ou de um simples fluxo de pensamentos de um adolescente irrequieto? O espírito da ficção científica (Companhia das Letras, 2017) acompanha não um, mas dois desses adolescentes em busca do sucesso literário no coração da Cidade do México.

Remo e Jan perseguem a prática e a perfeição, respectivamente, da poesia e da ficção científica em meio às brigas, os amores e às intrigas da juventude. Tudo é contado através das percepções e dos distintos estilos dos dois personagens criados pelo autor chileno Roberto Bolaño (favor não confundir com o ator mexicano Roberto Bolaños, eternizado pelo personagem Chaves).

Bolanõ morreu em 2003, aos 50 anos de idade, por uma insuficiência renal. À época, já havia conquistado o Prêmio Rómulo Gallegos, prêmio venezuelano que destaca as melhores obras da língua espanhola, por seu livro Os Detetives Selvagens, publicado em 1998. Também era conhecido pelas suas críticas ao establishment literário chileno e pela sua luta contra a ditadura de Pinochet. Ainda assim, muitas de suas mais celebradas obras só foram publicadas depois de sua morte.

São cerca de 14 mil páginas deixadas pelo escritor em sua casa em Barcelona, que já geraram mais de uma dúzia de novos livros publicados e anunciados após sua morte. O espírito da ficção científica é um deles.

Escrito entre 1980 e 1984, o romance apresenta a origem de personagens e aspectos do mundo literário de Bolaño que aparecem em obras posteriores. Como é o caso de um dos protagonistas, Remo, presente no primeiro romance publicado pelo autor, A pista de gelo. A edição brasileira lançada pela Companhia das Letras também traz o capítulo Manifesto Mexicano, publicado originalmente no livro de poesias “La Universidad Desconocida” (outro “easter-egg” de Bolaño), mas que casa com a narrativa de Remo e Jan em O espírito da ficção científica.

Ambos personagens são jovens que tentam se lançar como escritores, enfrentando as dificuldades de uma carreira tão desafiadora que fez com que o próprio Bolaño se reinventasse para sustentar sua família, decidindo trocar a poesia pela produção de romances (mais lucrativa que a primeira), após o nascimento de seu filho Lautaro.

O espírito da ficção científica é uma fluida leitura para aqueles que já se afeiçoaram pela escrita de Roberto Bolaño e querem conhecer as origens desse grande nome latino-americano. Para aqueles que ainda não se aventuraram com as narrativas do autor, talvez obras mais aclamadas como 2666 e Os Detetives Selvagens, ambos publicados pela Companhia das Letras, sejam leituras mais indicadas. Juntas, ocupam a primeira e a terceira posição dos 100 melhores livros em língua espanhola publicados nos últimos 25 anos, segundo a lista de Babelia, complemento literário do El País.

Por Larissa Lopes
larissaflopesjor@gmail.com

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