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O Faraó nomeado pelo povo, Mohamed Salah
ARQUIBANCADA
19 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por Gabriel Cillo e Léo Lopes 

Já é Copa e nem só da expectativa pro Hexa o mundial é feito. A atuação da arbitragem aparelhada com o VAR, a primeira participação no torneio da carismática Islândia, a “ótima geração belga e suas estrelas, são muitos elementos além da nossa seleção que chamam a atenção nesta Copa do Mundo e, entre eles, brilha Mohamed Salah.

O egípcio de 26 anos vive o momento mais brilhante de sua carreira no futebol. Não apenas fez uma temporada extraordinária pelo Liverpool com 44 gols e diversos recordes quebrados, como também foi o principal responsável por colocar o Egito novamente em uma Copa do Mundo, após 28 anos. Retornando de uma polêmica lesão, e na sede para tentar disputar o título da FIFA de Melhor Jogador do Ano, a expectativa para ver Salah jogando na Copa era imensa.

Salah após marcar o gol que garantiu o Egito na Copa. (Foto: Islam Safwat / Reprodução)

Como tudo começou 

15 de junho de 1992, em pleno delta do Nilo, na pequena aldeia de Nagrig, nascia o menino Mohamed Salah Ghaly. Desde pequeno era fã de grandes astros como Totti, Ronaldo Fenômeno e Zidane, e o fato do futebol não ser tradicional no Egito nunca desviou o foco do seu sonho de se tornar um jogador profissional.

As dificuldades não demoraram para aparecer. Criado jogando descalço nos campos de terra do seu vilarejo, foi ainda adolescente, quando jogava no sub-15, que Salah começou a trabalhar duro para alcançar seus objetivos. Cinco dias por semana ele encarava 9 horas de ônibus e percorria 120 km até Cairo – capital do Egito – para treinar no CT do clube Al Mokawloon.

Claro que uma rotina dessas afetaria os estudos de um garoto com 14 anos e, para Salah,  o futebol era a única opção. O egípcio obteve uma carta que autorizava a redução de sua carga horária na escola para apenas duas horas por dia, e assim garantiu que pudesse se dedicar quase totalmente aos treinos.

Salah (circulado) com a base do Al Mokawloon. (Foto: Getty Images / Reprodução)

Ainda com 14 anos, o jovem Mo Salah assinaria com o clube da capital seu primeiro contrato como jogador profissional. Ele atuava como lateral esquerdo, mas não demorou muito para o treinador Said El-Shishini perceber que a energia economizada colocando-o no ataque se convertia em muitos gols.

“Lembro quando jogamos pela liga sub-16 contra o ENPPI que tinha uma defesa muito sólida. Mesmo ganhando, vi Salah chorar ao fim do jogo por ter perdido 5 oportunidades cara a cara com o goleiro. O que eu vi não foram as chances desperdiçadas, mas sua habilidade para atravessar o campo inteiro driblando, era muito desgastante então ele errava. Nesse dia eu decidi que o colocaria como ponta direita”, contou El-Shishini para o Bleacher Report.

Aos 16 anos, foi finalmente chamado para integrar a equipe principal, por onde ainda entraria em campo 44 vezes anotando 12 gols.

Primeiros passos na Europa

Em 2012 um massacre ocorreu no estádio Port Said, durante partida entre Al Masry e Al Ahly, válida pelo campeonato egípcio. O campo de futebol se transformou em campo de guerra, resultando na morte de 74 pessoas. Era reflexo do momento de instabilidade política no país, que teve início em 2011, com o desencadear da Primavera Árabe. Uma insurreição popular pedia o fim do governo do ditador Hosni Mubarak – que já durava 30 anos – exigindo abertura política, liberdade e a implementação de uma democracia.

Foto do dia 1º de fevereiro de 2012, fatídico dia da maior tragédia do futebol egípcio. (Foto: Mohamed Darwich / Reprodução)

A tragédia fez com que o futebol do país tivesse paralisação por dois anos, com a suspensão de todos os campeonatos, resultando na ausência de calendário para todos os jogadores profissionais que atuavam na liga do país. Dentre eles o jovem Mohamed Salah, que tinha contrato firmado com o Al Mokawloon. Parecia o fim de seu sonho de ser jogador de futebol profissional, mas era apenas o começo.

Pela falta de calendário, Salah disputou jogos pela seleção sub-23 do Egito, na qual já vinha sendo convocado por conta do destaque em seu clube. Em um dos amistosos contra o Basel, equipe suíça, Salah se destacou tanto durante a partida que logo em seguida fechou um contrato de quatro anos com o clube da Basiléia. O próprio presidente do time suíço, Bernhard Heusler, contou ao site britânico ‘Sky Sports’: “A única razão de querermos aquela partida era a chance de ver Mohamed Salah in loco. Nunca vou esquecer o que eu vi naquele campo, ficamos tão impressionados. Ele foi incrível”.

Salah em gol feito contra o Chelsea na Champions League, temporada 13/14. (Foto: AP / Reprodução)

Por obra do acaso, Mohamed Salah chegou ao futebol europeu de forma precoce. Mesmo que numa equipe de menor expressão –  com a liga suíça também não sendo uma das principais do futebol europeu – foi importante para seu crescimento como atleta e para um melhor entendimento e desenvolvimento de seu futebol. Não teve uma passagem brilhante, marcou 20 gols durante 79 jogos e foi bicampeão da liga suíça, temporadas 2012/13 e 2013/14. Seu melhor momento foi na campanha da UEFA Europa League da temporada 2012/13, chegando até as semifinais. Passando nas quartas pelo Tottenham e parando no Chelsea na fase seguinte, marcando gols em ambos os adversários.    

Fracasso e frustração no Chelsea

Na temporada 2014/15, se transferiu para o mesmo Chelsea da Inglaterra pelo valor de 11 milhões de libras, cerca de 43 milhões de reais. O time de Londres se encantou pelo talento do atacante após sofrer com seus gols em jogos tanto na Europa League quanto na Champions League, quando Salah ainda atuava pelo Basel. Embora não tivesse alcançado o status de estrela no time suíço, fez uma temporada regular, fato que não se repetiu em solo londrino. Salah era comandado pelo técnico português José Mourinho, que até hoje é muito contestado por não ter oferecido mais minutos para o egípcio e por não ter conseguido extrair o melhor futebol de um jogador que atualmente impressiona por sua velocidade, habilidade e faro de gol.

Encerrou sua passagem pelos Blues com participação no título tão cobiçado da Premier League, e também da Copa da Liga Inglesa. Contudo não foi tão aproveitado, fez apenas 19 partidas, sendo titular em somente sete oportunidades e indo às redes em duas. Muito pouco para um atacante e para Salah, que queria se tornar um jogador de ponta a nível mundial. O craque estava extremamente incomodado em não conseguir disputar jogos na Premier League e exibir seu talento.

Salah esperando para entrar em campo pela camisa do Chelsea, ao lado de seu então técnico José Mourinho. (Foto: AFP / Reprodução)

Recomeço da escalada para o sucesso na Itália

Por conta de seu papel de coadjuvante no Chelsea – em que quase não jogou – foi emprestado para a Fiorentina da Itália no meio da temporada 2014/15, em negociação envolvendo uma troca pelo colombiano Cuadrado que estava no time de Florença. Evidentemente abatido por não ter feito uma grande temporada, e por não conseguir ter tido destaque na Premier League, Mohamed Salah queria reencontrar seu futebol.

Na Itália tudo começou a mudar, chegou vestindo a camisa 74, em homenagem às vítimas de Port Said em 2012, fez uma Série A interessante pela Fiorentina, jogando um futebol muito melhor do que no gramado do Stamford Bridge. A viola terminou o campeonato italiano em quarto, com destaque para o egípcio que, mesmo com pouco tempo de clube – seis meses –  ajudou em muito. Foram 34 jogos disputados e nove gols. Seus momentos de auge foram em jogos contra Tottenham e Roma na Liga Europa e na semifinal da Copa da Itália que, mesmo não se classificando para a final, foi autor de dois gols diante da Juventus no jogo de ida, em Turim.

Salah jogando pela Fiorentina no Campeonato Italiano. (Foto: Marco Bertorello/AFP / Reprodução)

Pelo seu destaque no futebol italiano, teve sondagens de muitos clubes do país: Inter de Milão, Roma e Juventus. Acabou desembarcando em Roma, por empréstimo concedido pelo Chelsea, para jogar a temporada 2015/16. Continuou jogando um belo futebol, tendo como marca clara a velocidade, e ajudou a Roma a se classificar para os playoffs da Champions League, por terminar em terceiro na tabela de classificação do italiano. Fechou a temporada com 42 jogos e saldo de 15 gols.

Na temporada seguinte, o time da capital italiana acaba por comprar Salah do Chelsea. Agora com contrato firmado, em definitivo, como jogador da Roma, não mais por empréstimo, o atacante continuou a trilhar uma bela trajetória. Jogando bem, participando ativamente dos lances de ataque e gols, foi novamente um dos destaques da equipe ao lado do bósnio Edin Dzeko. Juntos, jogaram um futebol de excelência, em que a Roma teve o ataque mais goleador de sua história, considerando o formato atual do campeonato, chegando a marca de 90 gols. Infelizmente não conseguiram superar o fortíssimo time da Juventus, amargando um vice-campeonato. Dzeko terminou como artilheiro com 29 gols, Salah foi um dos destaques com 15 tentos e sendo o segundo em assistências na competição com 11.   

O “Rei do Egito” retorna à Inglaterra

Mohamed Salah fez uma grande temporada na Itália, melhorando o nível de seu futebol a cada ano. Esse sucesso despertou o interesse do Liverpool da Inglaterra, que comprou o jogador por 42 milhões de euros, cerca de 156 milhões de reais. Com estas cifras, Salah foi o jogador mais caro da história do Liverpool e, também, a transação mais cara de um africano no mercado da bola. Por isso, chegou sob enorme expectativa, tendo que assumir a responsabilidade de fazer jus ao valor investido em sua contratação e superar a desconfiança gerada após discreta passagem pelo Chelsea.

Logo de cara, mostrou-se um jogador diferente, que tinha passado por um processo de amadurecimento. E para isso teve o técnico Jürgen Klopp, comandante do Liverpool, como um dos responsáveis. O alemão fez Salah mudar seu estilo de jogo, aproveitando suas mais notáveis características, como a explosão com dribles em direção ao gol e a ótima finalização de pé esquerdo. E, para isso, Salah teve que atuar mais próximo ao gol, sendo incentivado a arriscar mais nos dribles e arremates para se tornar o grande goleador que nunca foi.

Mo Salah – O rei do Egito. (Foto: Getty Images / Reprodução)

O atacante do Liverpool chegou à incrível marca de 44 gols na temporada em 52 partidas. Foi uma ascensão estratosférica! Salah foi às redes 32 vezes na Premier League — batendo o recorde de gols numa única temporada da liga, desde que é disputada entre 20 equipes — ultrapassando as marcas históricas de 31 gols de Cristiano Ronaldo em 2007/08, pelo Manchester United; e Luis Suárez em 2013/14, pelo Liverpool.

Salah ainda chegou à final da Champions League diante do poderoso Real Madrid, que era o atual bicampeão. Logo no início da partida decisiva, disputada em Kiev, na Ucrânia, Mohamed Salah sofreu uma lesão no ombro esquerdo, em agarrão do zagueiro madridista Sérgio Ramos. Sendo a principal esperança de gols do time inglês, por conta da grande temporada, foi um baque que desestabilizou totalmente sua equipe, que acabou sucumbindo e sendo derrotada por 3 a 1, coroando o terceiro título consecutivo do time espanhol.

     O ano de Salah foi incrível, quebrando recordes, sendo artilheiro, conquistando marcas individuais. Foi eleito o jogador africano do ano de 2017, superando o gabonês Aubameyang – na época no Borussia Dortmund e hoje no Arsenal – e seu companheiro de clube, o senegalês Sadio Mané. Também ganhou como melhor jogador da temporada na Premier League, em diversas eleições entre jornalistas, jogadores e dentro do Liverpool. No entanto, o que mais cativa e torna mágica a temporada de Salah é seu carisma e o carinho que desperta nos torcedores do Liverpool e do mundo todo, principalmente entre as crianças.

Representatividade islâmica

Mohamed Salah é africano, egípcio e muçulmano. Esses componentes poderiam ser suficientes para uma perseguição ou não aceitação dos ingleses. Tendo em vista o presente momento de truculência vivido na Europa e em geral no mundo todo, com o auge de medidas protecionistas, a retomada da xenofobia e intolerância, em que os países se fecham. Analogamente, há o exemplo do Brexit, saída do Reino Unido da União Europeia. Entretanto, por conta de seu sucesso, com um futebol vistoso, Salah conseguiu atingir patamares inimagináveis, transformando hostilidade em respeito à diversidade religiosa e cultural.

 A representatividade que Salah atingiu, ao conquistar a empatia dos ingleses chutando uma simples bola de futebol, não teria como ser mais efetiva. Os torcedores do Liverpool são tão fanáticos por ele que criaram músicas em sua homenagem, com trechos que tratam de sua religião e também de sua nacionalidade. O “Mo Salah”, mais conhecido como “The Egyptian King” pelo torcedor do Liverpool, conseguiu ir além das quatro linhas e provar que o futebol não é apenas um jogo.   

Salah após fazer um gol, agradecendo com a cabeça abaixada, gesto típico da religião muçulmana. (Foto: Getty Images / Reprodução)

Salah-mania

Essa transcendência de Salah para além dos campos está marcando cada vez mais a sociedade, principalmente a egípcia, e sua última eleição presidencial é um bom indicativo desse fenômeno.

Entre os 25,6 milhões de egípcios que foram às urnas, mais de um milhão optou por invalidar seu voto demonstrando descontentamento com o governo. O que chama a atenção é que muitos aproveitaram para, além de não escolher nenhum candidato, escrever o nome de Salah ou desenhá-lo na cédula eleitoral. A reportagem da revista inglesa “The Economist” não informa quantos dos votos inválidos indicaram Salah para presidente, mas o fato continua impressionante.

Cédula eleitoral egípcia com voto para Salah. (Foto: Jon Nazca/Reuters / Reprodução)

Faz muito sentido o carinho e a idolatria do povo egípcio por Salah. Ele é responsável por diversas transformações diretas que buscam promover uma melhora na qualidade de vida em seu país, principalmente na comunidade de Nagrig. Como apurou o tabloide The Sun, Salah se dedicou à construção de uma escola para que garotas não tenham que sair da cidade para aprender, construiu e equipou um hospital, financiou as primeiras ambulâncias na região, compra suplementos mensalmente para as famílias que precisam, e até mesmo doa dinheiro para noivos da cidade com dificuldades para pagar a cerimônia.

Uma coisa é clara, se hoje Salah realizou seu grande sonho de infância de se tornar um jogador de sucesso e enriqueceu, ninguém pode o culpar de esquecer suas origens. Até mesmo quando o famoso empresário egípcio Mamdouh Abbas ofereceu uma mansão para Salah, ele negou e pediu para que o dinheiro fosse direcionado para sua comunidade. Amr Abul-Naga é um dos administradores da fundação que Salah criou para organizar todas suas ações na região, e ele conta ao The Sun que, mesmo antes dos holofotes serem postos sobre o jogador, ele já realizava esta filantropia, é a sua forma de demonstrar gratidão.

Salah conversando com o prefeito de Nagrig que também administra a fundação do jogador. (Foto: Mahmoud Elsobky e Hany Yassin / Reprodução)

 

Não é à toa que Salah foi nomeado por muitos de Faraó, é um homem que a partir do momento que realizou seu sonho, se empenhou ferrenhamente em melhorar as condições de seu povo para que mais cheguem onde ele chegou. Não importa quão forte a fama tenha o atingido, a sua humildade nem sequer estremeceu.

Expectativa para a Copa

Após 28 anos, a seleção egípcia volta a participar de uma Copa do Mundo, e, se existe motivo para isso, ele é Salah. O último jogo das eliminatórias foi dramático: o Egito precisava da vitória para a classificação, e tudo estava ocorrendo perfeitamente após Salah abrir o placar aos 18 minutos do segundo tempo. O drama começou aos 42 minutos da etapa final, quando a seleção do Congo empatou. O desespero foi tanto que Salah simplesmente desabou no chão na hora do gol. Então, como se fosse um filme, já nos acréscimos, o juiz marca pênalti para o Egito, e, no último lance do jogo, em uma cobrança violenta, o camisa 10 faz o gol decisivo que marca o retorno de sua seleção às Copas, deixando toda uma nação em euforia.

Hoje o craque enfim retornou aos campos após a frustrante contusão no ombro, e com isso a responsabilidade de conduzir a seleção egípcia voltou para suas mãos. Infelizmente nem sempre o esforço e a vontade se transformam em resultado: Salah foi ausente na maior parte do jogo e o Egito sucumbiu para a anfitriã russa. Agora, os egípcios dependem de uma improvável vitória da Arábia Saudita contra o Uruguai para continuar sonhando com a competição.

A hegemonia CR7/Messi deve se manter por mais um ano e o sonho da premiação de Melhor Jogador do Ano se distanciou de Salah, mas sua trajetória comprova que ele não costuma desistir por mais difíceis que seus sonhos sejam. Hoje o Egito tem de novo um Faraó para o representar, mas desta vez nomeado pelo povo.

 

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