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O futebol feminino brasileiro e seus inícios
ARQUIBANCADA
20 nov 2020 | Por Juliana Matias (julianasilvamatias.jsm@usp.br)

Nos últimos anos, o futebol feminino se tornou mais presente na vida da população brasileira. Mas quando ocorreram os primeiros jogos da modalidade no Brasil? Até pouco tempo acreditava-se que o primeiro jogo de futebol feminino aconteceu em 1921, no Rio de Janeiro. Entretanto, não apenas saber quando foi o primeiro jogo, é importante também entender o que tornou possível o seu acontecimento e a história dos muitos primeiros jogos e conquistas da modalidade. 

Ao longo de quase um século de história, o futebol feminino brasileiro já conquistou diversos títulos. Dentre eles, estão sete vitórias nas oito edições da Copa América e o tricampeonato nos Jogos Pan-Americanos. Além disso, a jogadora brasileira Marta Vieira foi eleita pela Fifa a melhor jogadora do mundo por seis vezes e é a maior vencedora do prêmio Fifa The Best entre atletas homens e mulheres. 

Em 2019, o Brasil transmitiu na televisão aberta uma Copa de Futebol Feminino pela primeira vez, batendo recordes de audiência. Isso foi um marco para a modalidade e, também, possibilitou uma maior visibilidade às mulheres que são jornalistas esportivas. 

Entretanto, apesar do que foi citado, as atletas ainda passam por dificuldades como o preconceito, a desvalorização e dificuldades financeiras. Além disso, nem sempre o futebol feminino no Brasil teve o prestígio da mídia e dos telespectadores.

Marta levantando a taça da Copa América Feminina

Marta levantando a taça da Copa América Feminina [Imagem: Divulgação/Lucas Figueiredo/CBF]

 

Os inícios do futebol feminino no Brasil

Até 2015, a data considerada como oficial do primeiro jogo de futebol era 26 de junho de 1921. O jogo aconteceu como um entretenimento em uma festa junina, onde as senhoritas tremembeenses enfrentaram o time das senhoritas catarinenses na Zona Norte de São Paulo. Entretanto, o futebol feminino não teve um início pontual, um primeiro jogo. A modalidade como fenômeno teve diversos inícios e é interessante entender todos eles nas diferentes regiões do país.

Em entrevista concedida ao Arquibancada, Aira Bonfim, historiadora pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pesquisadora do Museu do Futebol, ressalta que “não é importante descobrir quem é o primeiro, mas, sim, realçar as  histórias que acabam sendo invisibilizadas quando a gente gera um destaque para uma cronologia. Pensando no tamanho do Brasil, são sempre vários inícios”.

O futebol feminino no Brasil teve inícios bem diferentes do masculino. Enquanto no masculino a experiência esportiva foi importada da Inglaterra, entendida como uma prática civilizatória, para as jogadoras o cenário foi outro. As mulheres nunca foram incentivadas a formarem times, nem a participar de ligas. As primeiras jogadoras que começaram a praticar tiveram que enfrentar essa barreira existente e ter coragem para se expor publicamente diante da sociedade da época.

Devido a esses fatores, os registros da época são muito mais difíceis de serem encontrados, como comenta Aira: “Como historiadores, principalmente olhando para esse momento histórico, dependemos de registros. Esse universo, por não ser institucionalizado, não pertencer aos clubes ou estar dentro da Confederação, não tem a mesma qualidade de registro”.

A pesquisadora explica que há vários indicadores de eventos bem antigos, dos anos de 1915 ou 1920, em lugares diferentes do Brasil, mas isso não significa que esses jogos são exatamente os primeiros. Segundo ela, é o início dos registros que apareceram em jornais, mas “dificilmente tinham qualidade para que pudéssemos entender quem foram essas garotas que jogaram e, muito menos, para trazer detalhes sobre as partidas. Nessa mesma época, no caso dos homens, já havia uma quantidade de informação extremamente superior”.

É importante lembrar que a presença feminina nos ambientes futebolísticos, começou não diretamente nos campos, mas, sim, nas arquibancadas, como torcedoras. Inclusive o nome “torcedor” veio dessas mulheres que ficavam ao redor dos campos torcendo e querendo, no fundo, participar dessas partidas. No início, os jogos de futebol aconteciam nas festas, bailes, gincanas, ambientes muito diferentes dos estádios de hoje em dia. Nesses locais começou-se a ver meninas jogando com meninos.

Todo esse movimento de aproximação das mulheres com o futebol  “já dá pistas de que existe um desejo de sair da assistência, como eram chamadas as torcedoras e de ter uma experiência prática, do corpo”, analisa a pesquisadora. Para Aira, é essencial entender que o futebol não teve um início comum para homens e mulheres. Como em diversos outros esportes, a “modalidade feminina foi resultado de muita luta, conquista e reivindicação”.

Esse interesse feminino pelo esporte não partiu somente de um estado ou região do Brasil, mas sim de diferentes lugares, cada um começando à sua maneira. Aira faz um tour pelas regiões do Brasil e comenta sobre como o fenômeno foi florescendo em cada uma delas. “Em 1920, há indicadores de experiências nesse sentido no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Norte e em São Paulo. Entre 1915 e 1920 há diversas  iniciativas, que aparecem em lugares e meses diferentes”.

Dessa maneira, o futebol feminino foi surgindo aos poucos no Brasil,  desenvolvendo-se como um espetáculo e não como um esporte, chegando até mesmo a ser atração circense ou jogado em eventos beneficentes.

Atrizes do Circo Queirolo vestindo uniformes de times de futebol nos anos 192

Atrizes do Circo Queirolo vestindo uniformes de times de futebol nos anos 1920 [Imagem: Acervo Público do Estado de São Paulo]

 

A proibição e a luta pela regulamentação 

Em 14 de abril de 1941, por meio de um decreto-lei durante a Era Vargas, a prática do futebol por mulheres foi proibida no Brasil. Esse decreto não explicitava que o futebol em si era proibido para as mulheres, mas proibia a prática de esportes que fosse contra a “natureza feminina” e o futebol rapidamente se encaixou nessa categoria. 

A proibição aconteceu a partir do momento em que as jogadoras foram ganhando espaço e um certo destaque. A sociedade começou a voltar a atenção para essas esportistas e a questionar se elas podiam ou não jogar. “Essas mulheres chegaram a viajar para São Paulo, receberam convites para viajar para o exterior, viajaram para Minas Gerais, Juiz de Fora. Então essa pergunta sobre se pode ou não mulher jogar futebol começou a ocupar os jornais. Algumas partes da imprensa apoiando, outras não. Muitos especialistas, com muitas aspas, dando suas respectivas opiniões sobre o tema”, explica Aira.

Contudo, o decreto-lei não impediu que as mulheres continuassem a jogar futebol. Com o esporte cada vez mais presente no cotidiano dos brasileiros, como por exemplo na Copa de 1950, a frequente diversão nos fins de semana também contagiava as mulheres.

 Porém, as esportistas que jogavam clandestinamente já não tinham o mesmo estrato social daquelas do contexto da introdução do futebol feminino no Brasil, como Aira destaca: “Era uma rede de mais ou menos duas a 15 equipes femininas que se encontravam semanalmente, que viajavam pela cidade do Rio para fazer esses encontros. Eram mulheres suburbanas, algumas negras, trabalhadoras na sua maioria, algumas artistas. Era um estrato social diferente daquele onde futebol foi introduzido, que pertencia a uma elite  da região central e na Zona Sul”.

  O grande problema dessa proibição era que as mulheres não conseguiam se organizar como liga, em uma federação, e o futebol feminino não conseguia se profissionalizar. Havia meninas que jogavam desde pequenas e que já eram boas no esporte, porém, sempre existia esse “teto de vidro” institucional que as mulheres não conseguiam ultrapassar. 

A proibição do futebol feminino no Brasil durou até 1979. Apesar das mulheres poderem voltar a jogar, o esporte ainda não tinha sido regulamentado. A regulamentação pela CBD e CBF só viria a acontecer em 1983, somente depois de muita luta e reivindicação por parte dessas mulheres.

Um exemplo dessa luta pela regulamentação da categoria foi o episódio do encerramento do Festival Nacional de Mulheres nas Artes, que aconteceu em setembro de 1982. Nele, uma frente de mulheres lésbicas e do movimento feminista se uniram e fizeram uma passeata pelas ruas de São Paulo. No encerramento do evento, elas promoveram um jogo entre a equipe feminina carioca e a equipe paulista. A organização do evento recebeu um Mandado de Segurança e um telegrama da Federação Paulista de Futebol, que proibia a partida, porém, as mulheres conseguiram contorná-lo. O jogo aconteceu no Estádio do Morumbi, antes de uma partida entre São Paulo e Corinthians, dando visibilidade política para o movimento.

Passeata do Festival Nacional de Mulheres nas Artes

Passeata do Festival Nacional de Mulheres nas Artes [Imagem: Teatro na Escola]

A primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino

A primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino da FIFA foi acontecer somente em 1991. Devido ao sucesso da primeira edição, a categoria foi inserida nos Jogos de Atlanta, em 1996, como esporte olímpico.

  Mesmo após a regulamentação e a oficialização, as dificuldades das mulheres no esporte continuaram. A historiadora destaca os problemas que as jogadoras enfrentavam: “Não tinham os mesmos subsídios econômicos, a mesma qualidade de divulgação. Elas estavam em um país completamente diferente, sem acolhimento, psicóloga, massagista, com uma estrutura reduzida tudo muito econômico”.

Entretanto, não podemos deixar de considerar a grande conquista que foi o fato de mulheres poderem jogar uma Copa e também a grande diferença que isso promoveu nas vidas das esportistas. Aira comenta sobre as experiências das jogadoras da época: “Elas comentavam muito sobre a possibilidade. A maioria delas eram meninas pobres suburbanas, viajando para outro lado do mundo.” Essas lutas conquistaram espaços para os jogos da época e construíram as bases para o futebol feminino que conhecemos hoje.

Seleção brasileira feminina de 1991

Seleção brasileira feminina de 1991 [Imagem: Reprodução]

A atual onda feminista e sua relação com o futebol feminino

Em 2015, começou-se a identificar o que pode ser uma nova onda do movimento feminista. Essas novas movimentações tiveram início quando o coletivo feminista Think Olga denunciou, por meio de hashtags nas redes sociais, o assédio sexual de crianças. Isso ocorreu devido aos diversos comentários de teor obsceno que Valentina Schulz, participante do Masterchef Junior, começou a receber nas redes sociais. 

Essa nova onda não ficou somente nas mídias digitais e atingiu fortemente o esporte, devido às dificuldades e às desigualdades que sempre estiveram presentes nas modalidades femininas. A Copa de Futebol feminino de 2019 foi um resultado dessas novas movimentações. A imprensa se voltou para a modalidade e atingiu recordes de audiência, o que marca não só o futebol feminino, como também o jornalismo feminista independente. 

As Copas anteriores da categoria já haviam sido transmitidas pelo mundo e até nos canais fechados da televisão brasileira, porém só em 2019 foi ao ar  em canais abertos. Aira explica esse novo modelo na cobertura jornalística do futebol: “Em 2015, há o movimento que insere, inclusive, a presença de um jornalismo independente, feminista, novo, que absorve, que levanta a modalidade. Além disso, os veículos tradicionais passam a ser cobrados de ter um pouco mais de sensibilidade para com essas outras modalidades, para questões da presença de mulheres no futebol principalmente”.

Entretanto, o sucesso da Copa de 2019 se deu por investimentos da imprensa e no próprio futebol. Ana Thaís Matos, jornalista e comentarista do SportTV, cobriu a Copa de 2019 e explica como o futebol feminino conseguiu alcançar recordes de audiência na primeira transmissão em canais abertos da televisão brasileira. “O trabalho do grupo do qual eu faço parte foi colocar o principal casting envolvido na cobertura – narradores, repórteres e comentaristas. Isso deu peso para a competição e reverberou na audiência também. Além de toda a divulgação seis meses antes da competição. O que eu falo sempre é que a televisão é a ponta do iceberg. Um campeonato bem estruturado chama atenção da TV e consequentemente chama atenção do público.”

Apesar de ser apenas a ponta do iceberg, a imprensa tem influência e responsabilidade midiática no esporte. O fato de o jornalismo esportivo brasileiro ser composto majoritariamente por homens altera não só a maneira como o futebol feminino é incentivado na mídia, mas também o tratamento para com as comentaristas mulheres. Ana comenta sobre sua experiência: “A principal dificuldade acredito que seja não ter minha fala desautorizada pelos meus colegas, não é ter medo de não concordar, mas ignorar, ficar em silêncio, não reverberar. Os homens se ajudam muito, até para não concordar um com o outro eles são leais, mas com as mulheres eles silenciam”. 

A jornalista observa que ainda há entre os homens certo medo de citar uma mulher como referência. “Parece que falamos para as paredes, só que eles [colegas homens] pegam nossas falas, falam com outras palavras e saem por cima. Isso é muito triste e confortável para manutenção do status quo. É a maior dificuldade. Não que a mulher precise da aprovação deles, mas se jogassem junto com as mulheres, ajudaria a grande massa nos aceitar, a respeitar nosso lugar.” 

A conquista desse espaço e essa valorização, tanto no futebol feminino quanto na cobertura da modalidade, é importante e faz parte da atual luta. Além disso, é essencial comemorar as novas conquistas e lembrar de todas as outras mulheres, não só de um pequeno grupo da Zona Norte, que através de suas lutas e vitórias tornaram possíveis a experiência do futebol feminino que se conhece atualmente.

Arquibancada
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