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O futuro brilhante de Black Mirror – 3ª Temporada (Parte I)
Controle Remoto
28 nov 2016 | Por Jornalismo Júnior

(SEM SPOILERS)

Se a abertura da série já te causa arrepio, não se preocupe, isso ainda não é nada…

Quando as duas primeiras temporadas (mais o episódio de Natal) ganharam espaço no catálogo da Netflix, Black Mirror (2011-16) foi logo alçado ao título de série mais ousada do século XXI, remontando a muito do que Além da Imaginação (Twilight Zone, 1959-64) havia sido às gerações passadas. De fato, o universo distópico exposto em cada uma das sete estórias era de se espantar, e a ideia tão bem concebida de que a tecnologia poderia logo mais nos levar a futuros obscuros justificava todo o burburinho criado na época. Mais interessante do que isso, no entanto, é se atentar ao fato de que mesmo a tecnologia sendo corruptível, ela é somente pano de fundo para analisar a corrupção da própria humanidade.

Seguindo a estrutura de elencos, cenários e até mesmo realidades diferentes e concebendo ambas as temporadas com três episódios cada, o criador Charlie Brooker provou que é possível oferecer qualidade à quantidade – o que muitas das longas séries americanas (cof, The Walking Dead (2010-16), cof) deveriam aprender. Quando então a Netflix comprou os direitos de produção da Channel 4 britânica e anunciou que a terceira temporada teria 12 episódios, muitos fãs questionaram justamente que a série poderia perder sua essência, o que foi respondido com a quebra da temporada em duas, com seis episódios cada. Eis então a terceira temporada do fênomeno Black Mirror

Nosedive

Imagine que pudéssemos dar e receber avaliações de todas as pessoas que encontrássemos como numa corrida de Uber. Imagine agora que o valor da sua nota poderia privá-lo de frequentar determinados círculos sociais e locais públicos. O mundo viveria então num constante estado de aparências, em que por uma maior aceitação social, o café matinal ou passeio com o cachorro tivessem que ser convertidos no maior número de curtidas e compartilhamentos nas redes sociais. Nada que já não exista em alguma medida…

Sociedade de aparências, alienação e segregação social são então alguns dos temas trabalhados no episódio que abre a terceira temporada. Nosedive que em seu título – cuja tradução literal significa o declínio repentino de algo –, já nos planta a hipótese de que a estória irá abaixo. De fato, após ser chamada para um casamento repleto de convidados da mais fina sociedade, Lacie (Bryce Dallas Howard) prepara-se arduamente para causar a melhor impressão. O que ela não esperava, no entanto, era que seu caminho até a cerimônia fugisse totalmente do planejado.

Para tal, é interessante como todas as personagens que entram no jogo sejam retratadas de maneira bastante caricata, o que serve de contraste direto àqueles que pouco ligam e, que por conta disso, pareçam muito mais às pessoas que veríamos no dia-a-dia. A própria Lacie é um exemplo categórico disso. Quando na intimidade da casa, suas reações são muito mais contidas do que os exageros que empreende em público. E até mesmo a sua risada torna-se extremamente irritante quando tenta mostrar simpatia ao mundo afora.

Infelizmente, a premissa que no papel é tão inventiva torna-se fraca pela condução esquemática com que é levada. No momento-chave da trama, o roteiro introduz uma personagem-messias (que tudo sabe e tudo percebe) que serve apenas para verbalizar tudo que a protagonista sentia. Esta abordagem é bastante preguiçosa, pois induz através das palavras o que deveríamos sentir, ao invés de construir momentos que nos fizessem sentir o mesmo por conta própria. Com isso, os desdobramentos acabam soando artificiais e o final surge apenas como mais uma repetição de tudo que já havia sido comentado. Sem contar que a aleatoriedade da exata última cena atesta como o desfecho poderia ter acabado de qualquer outra forma.

Playtest

Cansado da rotina diária que levava, Cooper (Wyatt Russell) decide viajar por uma dezena de países para se reencontrar. Em Londres, alguns dias antes de voltar para os EUA, ele conhece e passa a noite com Sonja (Hannah John-Kamen), que o indica um free-lance para testes de jogos de terror na empresa de videogames mais famosa do mundo. Chegando lá, o criador – que é assumidamente inspirado em Hideo Kojima, da franquia Metal Gear Solid –, o levará a uma casa afastada onde terá que passar algumas horas sozinho frente a seus maiores medos.

Além das hipóteses de futuro levantadas pela realidade virtual dos jogos e os dilemas entre ilusão e realidade, Playstest centra-se como The Entire Story of You, da primeira temporada, na questão da memória e dos traumas dela. Diferentemente da primeira vez, em que o problema eram as consequências de se lembrar de tudo, a perda da memória é o que aqui mobiliza a trama. A saudade, o carinho, o amor, tudo surge de nossas lembranças, mas elas também podem mexer com o nosso subconsciente mais primitivo, o medo. Desse modo, a dúvida que se põe é a seguinte: se o medo são traumas de memória dos quais não gostamos de nos lembrar, será que eliminá-las seja a melhor saída? E se criássemos um jogo sobre isso? Seria ele moral?

Após um prólogo que se estende mais do que o necessário, a trama finalmente engrena e somos conduzidos cada vez mais para dentro dos traumas de Cooper. Dessa forma, é inteligente como a lógica do jogo comece com sustos bobos e gratuitos – os famigerados jump scares – que pouco a pouco vão se tornando cada vez mais complexos e psicológicos. Como se seguisse uma escala do medo, o jogo vai se adaptando às sensações dele, deixando-nos totalmente aterrorizados quando as viradas de roteiro começam a se suceder pelo final do episódio. A cada nova reviravolta, a realidade que se põe à nossa frente é mais questionável. Assim, terror e confusão são os motores perfeitos para que passemos a duvidar até mesmo das memórias do próprio protagonista.

E quando um de seus maiores traumas – o problema de Alzheimer da família – é transposto à realidade do jogo, a discussão em torno das memórias e do esquecimento fica mais forte do que nunca. Lamentavelmente, o roteiro ainda nos guardaria mais um revés, e tudo seria descartado pela solução mais fácil e batida que poderíamos imaginar. Frente a isso, a também (nossa) memória vem à tona, e lembramos de todos os outros problemas que o episódio tinha.

Shut Up and Dance

O episódio mais convencional da temporada é também o mais próximo da realidade atual. Direto ao ponto, Shut Up and Dance introduz Kenny (Alex Lawther), um garoto bondoso e sem jeito, que após ser gravado se masturbando por um vírus em sua webcam, recebe ameaças de que o vídeo será publicado nas redes sociais. O que poderia muito bem ser uma chamada de qualquer periódico diário, ganha um toque a mais de insanidade quando, anonimamente, o invasor diz que o deixará livre se cumprir com algumas ordens. A partir desse momento, o episódio deixa de lado seu potencial de drama (gênero cinematográfico) pelo qual poderia se enveredar para investir num thriller, que somente “respirará” na conclusão.

Com a também direção mais inventiva da temporada, é incrível se atentar à forma como a cena de masturbação/chantagem é composta. Enquanto prepara para se masturbar, a câmera está num tripé, aproximando-se num zoom que parece prenunciar que algo de errado estaria por vir. Já quando o garoto recebe o email com a chantagem, a câmera está na mão tremendo e fazendo movimentos bruscos em sincronia com a apreensão do ocorrido. A trilha sonora é também bastante tensa, só cessando subitamente quando ele precisa fingir à mãe que não há nada de errado.

A condução do filme é ainda tão engenhosa que em uma cena de corrida de bicicleta, ela ainda nos presenteia com ângulos de câmera incomuns – como um no guidom e outro na traseira da bike –, que dão muita dinamicidade ao momento. E mesmo que todo um segmento envolvendo uma carona seja desnecessário, a sutileza com que a projeção dá dicas da resolução que o episódio daria engrandecem a obra como um todo.

Brincando lindamente com as nossas expectativas, a vítima da estória será calmamente desconstruída, ao ponto de não sabermos mais por quem nos simpatizar. Além disso, uma vez superado o choque, começamos a nos questionar acerca da ética do ocorrido – reflexão que também será suscitada no último episódio da temporada, Hated in the Nation. Mesmo assim, quando chegamos perto dos créditos finais, o verso “We hope that you choke” (esperamos que você engasgue, em português) de Exit Music (For a Film), do Radiohead, ecoa na cena final como se fosse a repulsa que sentimos por termos depositado confiança na pessoa errada.

Confira a crítica dos próximos três episódios na segunda parte! O futuro é brilhante 😉

Por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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