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O futuro brilhante de Black Mirror – 3ª Temporada (Parte II)
Controle Remoto
30 nov 2016 | Por Jornalismo Júnior

(SEM SPOILERS)

(Caso você ainda não tenha lido a crítica dos três primeiros episódios, dá uma passadinha aqui)

San Junipero

San Junipero é uma cidade de festas dos anos 80. Ninguém parece se preocupar mais do que apenas encontrar um par para passar a noite. Todos, com exceção de Yorkie (Mackenzie Davis), uma garota tímida e que parece estar meio avulsa no local. Justamente por isso, Kelly (Gugu Mbatha-Raw), por provavelmente já ter ficado com diversos depravados, sente uma atração pela inocência da garota. Tendo provavelmente o tom mais diferente dos episódios da série, especialmente pelo desfecho mais positivo, muitos dos segredos só serão revelados perto do fim. Mesmo assim, muitos são os estranhamentos pressentidos – como as festas só poderem acontecer até a meia-noite – que, desde os primeiros minutos, indicam que a realidade que acompanhamos talvez não seja o que de fato imaginávamos.

Os cartazes de filmes – Os Garotos Perdidos, (The Lost Boys, 1987) –, os jogos de videogame – Bubble Booble (1986) e Top Speed (1987) –, as músicas – Heaven is Place on Earth, de Belinda Carlisle (1987) – e as roupas extravagantes e reluzentes nos transportam a uma recomposição de época que é ainda acentuada pelas luzes neon que preenchem os quadros. Diante disso, se num primeiro momento a personalidade de Yorkie parecia distanciá-la do ambiente, os trajes mais “certinhos” e óculos de lentes garrafais o fazem ainda mais, o que pouco a pouco descobrimos ser relacionado com um passado sofrido e cheio de traumas. Achando-a, por outro lado, autêntica, Kelly, com seus trajes volumosos e repleto de apetrechos será o exato oposto de Yorkie, o que faz com que a curiosidade que uma tenha pela outra seja genuína, recheando os momentos de tensão sexual e nos fazendo acreditar no sentimento que floresce entre as duas.

Numa primeira camada, temos já um ótimo estudo de personagem. Porém, é apenas quando a revelação final dá as caras que entendemos o porquê desta ser uma estória com o selo Black Mirror. O problema é que para discutir os principais temas do episódio, é difícil não acabar soltando algum SPOILER. Então a partir DAQUI, fica o aviso. Quando nos damos conta de que San Junipero é na verdade uma realidade virtual para onde as pessoas que já ou estão para morrer vão, muitos dilemas se abrem. Se a vida é única, quão moral é driblá-la para que possamos viver eternamente jovens? Mas se para sermos residentes permanentes precisamos ter morrido, até que ponto a cidade não é uma espécie de Paraíso? Será então o problema as pessoas saberem de sua existência antes da morte? Por outro lado ainda, se considerarmos que essa realidade pode servir como redenção àqueles que tiveram uma vida sofrida, como a própria protagonista, será tão anti-ético assim proporcioná-los um pouco de paz?

Misturando também questões de eutanásia e conservadorismo familiar, Kelly é quem mesma oferece algumas saídas. Ainda viva fora de San Junipero, ela comenta que a cidade é apenas um refúgio de solitários que, conforme passam mais tempo, precisam cada vez mais procurar excentridades – como no trecho em que conhecemos Quagmire. Empregando por fim um bom tempo para explicar a promessa que havia feito ao marido, ela basicamente destroi a ideia de realidade virtual, junto das esperanças que Yorkie tinha. Minutos depois, infelizmente (mais uma vez), tudo será descartado por uma escolha abrupta, como se toda a sequência anterior não tivesse existido. E por mais bonito que seja as duas acabarem juntas ao som de Carlisle – “we’ll make heaven a place on earth” (nós vamos fazer do Paraíso um lugar na Terra, em português) –, a incongruência e desleixo narrativo falam mais alto.

Men Against Fire

Num futuro distópico onde a comida é escassa e a população miserável, os humanos tiveram que se militarizar para sobreviver. Durante as diversas varreduras realizadas, o objetivo é matar o maior número de baratas, espécie que tomou o planeta e comprometeu a supremacia humana. “Baratas”, cuja denominação utilizada em um episódio (ou seja, uma ficção) para se referir àqueles que devem ser eliminados, poderia muito bem caber na atualidade no lugar de muçulmanos ou “favelados”, e em escala maior, até mesmo no de negros ou homossexuais.

Baseado no livro homônimo de S. L. Marshall – que levanta a hipótese de que um a cada quatro combatentes de guerra nunca chegaram a atirar –, Men Against Fire traz um dos personagens ostentando os diversos métodos que procuraram melhorar essas estatísticas aplicados ao decorrer da história até a chegada da tecnologia. O que esse discurso esconde, por outro lado, é como desumanização midiática e governamental faz com que dirijamos nosso preconceito a todo um grupo pelo sentimento único e exclusivo do medo. E não é por menos que a trama ainda faça os mocinhos serem impassíveis a cheiros, como forma do Estado suprimir a individualidade deles.

Provando assim como a discriminação nos precede, o episódio é preciso em acompanhar Stripe (Malachi Kirby), recém-recrutado que, após sua primeira ofensiva, começa a perceber que a realidade talvez não seja de fato como pensa. Real ou não, se ainda considerarmos a pobreza dessa que já se apresenta, não é à toa que ele pareça se sentir muito mais confortável quando sonha. E é engenhoso como estas sequências são compostas com uma fotografia alaranjada, cuja sensação de conforto se opõe às paredes brancas e rígidas da realidade de fato.

Com um longo monólogo final, o episódio nunca soa expositivo demais por um detalhe da trama que justifica toda essa explicação. E por mais que doa aceitar a escolha tomada pelo protagonista – numa conclusão que, aliás, lembra muito Fifteen Million Merits da primeira temporada –, ela faz todo sentido. Pior, ela nos mostra que apesar de nos inconformarmos com os problemas à nossa volta, a realidade crua pode nos obrigar a tomar decisões mais confortáveis. Dentre todas as discussões que suscita – alienação do Exército, manipulação social e preconceito –, o maior dos dilemas é o presente em cada um de nós: a moral. E ao vê-la corrompida, sentimos do melhor (ou pior) que Black Mirror muitas vezes antes já nos ofereceu.

Hated in the Nation

Em 2014, após ser fotografado com uma mulher desconhecida, Marcelo Adnet, que ainda hoje é casado com Dani Calabresi, foi execrado nas redes sociais pela suposta traição. Quando esclareceu a situação, dizendo que por terem uma relação aberta, ela não se importava com o ocorrido, a internet foi mais uma vez à loucura, condenando-a. O caso elucida a necessidade que as pessoas têm de criar e apontar erros nos outros, esquecendo que elas também agem muitas vezes da mesma forma. Assim, Hated in the Nation trabalhará justamente em torno dessa hipocrisia, desenvolvendo ao extremo a tese de que todo julgamento também pode ser passível do mesmo.

Após uma sucessão de mortes estranhas envolvendo uma hashtag, a cética Karin (Kelly Macdonald) acredita que tudo não passa de uma série de coincidências. Com a ajuda de Blue (Faye Marsay), Shaun (Benedict Wong) e Rasmus (Jonas Karlsson), ela se dá conta de que o caso possui desdobramentos tecnológicos, prosseguindo a partir daí como um thriller policial. O maior artifício do episódio é sem dúvida o roteiro. Encadeando cada descoberta à seguinte, a trama ainda é cuidadosa em dar indícios de algo que virá somente mais à frente, enquanto outra linha narrativa é desenvolvida ao mesmo tempo – como na cena em que uma das vítimas que morrerá somente mais adiante aparece rapidamente na televisão, minutos antes de sabermos que a outra personagem que acompanhávamos foi assassinada. Apresentando cada elemento de maneira bastante dinâmica, a estória acaba assim nos envolvendo e, por consequência, discutindo ainda mais incisivamente seus temas.

Temas esses que comentam desde a criação sintética de animais extintos até a o monitoramento dos cidadãos pelo Estado. Mas o questionamento que de fato mais incomoda é o do poder com que as pessoas se sentem resguardadas quando atrás de alguns pixels. E o aterrador se mostra quando isso é generalizado, e pior, regido por discursos que precedem o indivíduo. Em outras palavras, como a opinião pública – tema tão bem trabalhado em The National Anthem da primeira temporada –, pode em um dia massacrar uma pessoa pública, para no outro ovacioná-la. É interessante ainda observar como os primeiros ataques costumam geralmente se voltar contra figuras políticas, como se expressassem a anarquia de vozes que as redes sociais falsamente parecem transparecer.

Diante de uma sociedade altamente moralista, é curioso como a grande revelação do episódio trate o combate deste moralismo com mais moralismo, o que em última instância prova que nenhuma retaliação deve vir na mesma medida, muito menos numa maior. E se a complexidade da discussão mostra a riqueza de Hated in the Nation, é com muita tristeza que – pela terceira vez nessa temporada – um episódio acabe de modo tão genérico ou aquém de tudo que vinha sendo desenvolvido até então.

Usando os avanços obscuros da tecnologia para deflagrar os problemas da própria humanidade, a terceira temporada de Black Mirror segue exatamente o esquema das anteriores. E embora todos os episódios tenham temas e ideias incríveis, ele parece ter se esquecido da lição mais básica e tão bem conduzida nos anos passados, a de contar – ou mais especificamente, de terminar – uma estória. Com dois episódios maravilhosos, três extremamente decepcionantes em seu desfecho e um total desastre, o que fica é um gosto amargo; amargo não de indigesto, como os episódios normalmente costumam nos fazer sentir e refletir, mas de que poderia ter sido ainda melhor do que vimos.

Por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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