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O GP em que vencer não foi o suficiente
ARQUIBANCADA
22 out 2019 | Por Arthur Nascimento (arthur.gm.nascimento@usp.br) e Vanessa Evelyn (vanessaevelyn@usp.br)

No dia 22 de outubro de 1989, foi disputada a penúltima corrida da temporada na Fórmula 1, o GP do Japão. Alain Prost já estava com uma mão na taça, 16 pontos à frente do segundo colocado – em um tempo que vitórias valiam somente 9 pontos. Só um milagre poderia tirar o título do francês.

Mas, se havia alguém que poderia realizar essa façanha, era Ayrton Senna. O piloto brasileiro era o atual campeão da categoria e precisava vencer para continuar na briga pelo bicampeonato. 

O GP do Japão poderia entrar para a história como o símbolo de uma arrancada de Senna rumo ao título improvável. Mas não foi isso o que aconteceu. 22 de outubro de 1989 sempre será lembrado no mundo da Fórmula 1 como o dia em que Alain Prost se consagrou campeão de maneira controversa. 30 anos depois, o Arquibancada relembra essa história.

Prost e Senna em perseguição pelo título [Imagem: Motorsport]

Começo animador até a primeira curva

Ayrton Senna chegou ao GP do Japão como único piloto capaz de tirar o título de Alain Prost. A desvantagem de 16 pontos colocava o francês em grande vantagem sobre o seu companheiro de equipe, já que Senna poderia conquistar no máximo 18 pontos se vencesse as duas corridas restantes. Bastava apenas que o brasileiro não conquistasse uma vitória para o francês se sagrar tricampeão.

Mas, apesar do cenário amplamente favorável a seu rival, Senna não desistiu da luta pelo bicampeonato. Inspirado pela corrida de recuperação que fez no Japão no ano anterior para se sagrar campeão, o brasileiro entrou na pista com a missão de novamente fazer história em Suzuka.

O resultado dos treinos foi empolgante para Senna. Ele realizou a volta mais rápida em todas as etapas da qualificação e fez a pole position com 1:38.041, quase dois segundos à frente de Alain Prost. A vantagem de largar na frente era fundamental para manter as esperanças brasileiras vivas.

Mas a situação de Senna ficou ainda mais complicada logo antes da primeira curva na pista de Suzuka. Prost largou com mais velocidade e assumiu a liderança rapidamente, colocando o brasileiro na segunda posição. Nesse momento, o título estava mais perto do que nunca para o francês.

No entanto, Senna não se deu por vencido e perseguiu o companheiro de equipe pelas voltas seguintes. Os dois correram um GP à parte dos demais, assim como havia sido durante toda a temporada – Senna e Prost haviam vencido dez das 14 corridas disputadas até então.

disputa entre Prost e Senna pela melhor posição [Imagem: Momória F1]

Senna chegou a assumir a liderança da prova, mas foram por apenas três voltas. Na 21ª primeira volta, Prost foi para os boxes trocar os pneus, dando a liderança provisória ao brasileiro, que naturalmente também precisou ir aos boxes, e o francês recuperou a liderança na 24ª volta.

Assim seguiu a corrida por mais de 20 voltas. Esse ritmo era perfeito para Prost, que garantia o tricampeonato. Senna, que perseguia o francês, não tinha nada a perder. Apenas uma ultrapassagem diante do líder renovaria as esperanças de uma reviravolta no campeonato. Por isso, o brasileiro precisava arriscar.

 

Bandeirada para Senna… mas ele venceu mesmo?

Ayrton Senna perseguia Alain Prost com todas as forças que tinha. Apesar de impor um ritmo de corrida forte, o francês tinha um carro tão potente quanto e muito domínio de seu veículo, tornando difícil a ultrapassagem do brasileiro. Por isso, Senna aproveitava cada centímetro que podia em busca da tão sonhada ultrapassagem. Volta após volta, curva após curva, tentava reduzir a desvantagem e conquistar a primeira posição.

Na 47ª volta, Senna se viu obrigado a arriscar. O piloto se aproximou o quanto podia de Prost até chegar à chicane. Tentou a ultrapassagem por dentro, mas seu rival não facilitou a sua tarefa. Os dois carros se chocaram, aparentemente encerrando a disputa pelo campeonato.

Essa batida gera controvérsia até hoje. Há quem defenda que Alain Prost jogou o carro intencionalmente para cima de Senna com a intenção de tirá-lo da corrida e assim sacramentar seu título. Já o próprio Prost afirmou, em entrevista à revista britânica F1 Racing, que ninguém é culpado no acidente. Segundo o francês, se abrisse a porta para a ultrapassagem de Senna ele não seria capaz de completar a curva, e isso não era uma possibilidade, já que queria ser campeão do mundo.

Polêmicas à parte, ainda havia corrida pela frente. O carro de Prost de fato não tinha mais condições de concluir a prova. E o veículo de Senna precisou ser empurrado pelos fiscais para fora da pista, por conta do risco de novos acidentes. Nessa movimentação, o brasileiro conseguiu fazer o carro andar, utilizou a pista de emergência e retornou ao trajeto principal depois da chicane, apesar de muitos problemas.

O carro de Senna não tinha condições de concluir a prova, mesmo faltando apenas cinco voltas. A vantagem que antes era enorme para Alessandro Nannini, o terceiro colocado, foi se reduzindo. Quando Senna foi aos boxes trocar a asa dianteira, foi ultrapassado. Tinha apenas quatro voltas para impor seu ritmo e tomar novamente a dianteira.

Faltando duas voltas para o final, ele enfim conseguiu a primeira posição de maneira definitiva. Parecia que nada poderia apagar a resiliência demonstrada pelo brasileiro na pista, que ao fim da 53ª volta recebeu a bandeira quadriculada. Vitória épica de Ayrton Senna, vitória do povo brasileiro. A disputa pelo título de 1989 ia para o GP da Austrália.

Isso era o que havia acontecido dentro da pista, mas os comissários de prova não viram a situação dessa forma. Eles consideraram ilegal o fato de Senna cortar a chicane, mesmo que ele não tivesse outra possibilidade, já que foi empurrado pelos fiscais para fora da pista. De qualquer forma, não houve qualquer vantagem técnica por esse corte, já que ele perdeu muitos segundos no toque com Prost.

Senna sequer subiu para o pódio e foi desclassificado da prova. Nannini foi coroado com a vitória e Prost foi campeão mundial de Fórmula 1 em 1989.

Pódio do GP do Japão em 1989, com Nannini ao centro [Imagem: Motorsport]

Depois da corrida… Os comentários

Se hoje temos acesso às informações instantaneamente, em 1989 as coisas eram um pouco diferentes. Sem a internet e redes sociais, as informações que chegavam aos amantes da F1 eram transmitidas apenas pela televisão, e os comentários resultantes desses episódios eram passados de boca em boca em almoços de família e conversas de bar.

Para Roberth Oliveira, um telespectador fervoroso da época, essa comunicação feita exclusivamente pela televisão pode ter sido um os motivos da polêmica que envolve esse dia: “E aí ocorreu que o pódio não acontecia. A globo encerrou a transmissão, e ninguém sabia o que havia ocorrido”. Para ele, e muitos amantes da Fórmula 1 daquele período, a notícia de que Senna na verdade não havia ganhado a prova foi uma surpresa.

Por mais que não existam registros em redes sociais, por exemplo, sabe-se que a partir do momento em que se tornou de conhecimento público a desclassificação de Senna, uma discussão acalorada entre os espectadores teve ínicio. Embora o próprio Galvão tenha comentado durante a transmissão que o ato de Senna ter cortado a chicane poderia gerar uma punição, muitas pessoas acharam a decisão injusta e principalmente arbitrária. Roberth comenta: “mas até hoje eu tenho por mim que foi injusto a eliminação de Senna da prova. Claro que, pelo regulamento da época, Senna fez algo errado… Ele não deveria ter cortado pela chicane.Mas ele foi muito prejudicado pela batida, que o fez perder tempo” 

Para o jornalista Flávio Gomes, ficou claro que a  irregularidade de Senna realmente era válida daquela punição e ele ainda elogia a cobertura jornalística da época: “Mas é bom dizer que no jornalismo houve um elogiável equilíbrio na análise do que de fato aconteceu”. Gomes também concorda que, se essa corrida acontecesse nos dias de hoje, provavelmente caberia alguma punição a Prost, mas naquela época não era comum punir ações desse tipo.

Essa visão de que Senna havia sido injustiçado ganhou força com a justificativa de que Balestre, presidente da FIA naquela ocasião, era amigo particular de Prost. Balestre ameaçou tirar a Superlicença de Senna, o que fez com que muitos brasileiros entendessem tais medidas como perseguição ao piloto . Segundo Roberth, essa perseguição a Senna começou antes mesmo da corrida. Durante o treino, Ayrton conseguiu obter 1.7 segundos de vantagem em relação ao seu adversário.

Como Senna acabou largando mal, o que se viu depois disso foi uma perseguição de Ayrton a Prost, que mais tarde gerou o fatídico e polêmico choque entre os dois pilotos. Enquanto muitas pessoas defendem que esse choque tenha sido proposital, Flávio Gomes discorda: “O que aconteceu ali foi uma tentativa de ultrapassagem legítima e uma tentativa de defesa um pouco agressiva, da mesma forma que a ultrapassagem também foi”. Para ele, evitar o choque significaria a desistência de um dos lados: “O Prost estava na frente, a missão de ultrapassar era do Senna e piloto nenhum estende o tapete vermelho pro outro passar, ainda mais com um título em jogo. Então, acho que foi um incidente comum de corrida”.

Há quem diga que esse título, por causar opiniões divergentes entre os acompanhantes da época, pode ter sido uma mancha na carreira de Prost, fato esse que Flávio discorda: “Ele fez uma grande campanha e, mesmo que o Senna tivesse ganho essa corrida, ele precisaria ganhar também na Austrália. Isso foi apenas um evento histórico envolvendo os dois maiores rivais que a  Fórmula 1 já conheceu”.

 

A grande rivalidade…

A rivalidade entre Ayrton Senna e Alain Prost teve início naquele mesmo ano, em Ímola. Os dois tinham  um acordo que não permitia que um atasse o outro logo na primeira volta, porém Ayrton o rompeu. A partir daquele momento, os dois pararam de se falar e uma verdadeira guerra nas pistas da Fórmula 1 foi iniciada. 

Ayrton Senna e Prost lado a lado [Imagem: El Confidencial]

Dentro da equipe, essa rivalidade acabou gerando um clima ruim, uma vez que o ambiente não se tornava agradável tendo dois inimigos como os pilotos da equipe. Porém, a Mclaren conseguiu transformar a rivalidade em resultados, sagrando-se campeã duas vezes seguidas, uma com cada piloto, além de conquistar o título de construtores nas duas temporadas.

Segundo Flávio, essa inimizade foi benéfica para a categoria, pois atraiu muita mídia. Tudo o que um piloto falava sobre o outro virava notícia, o que fazia surgir um interesse maior das pessoas. Todos queriam saber quem seria o grande campeão. 

Rivalidades como essa foram comuns na Fórmula 1, e trouxeram grande visibilidade. Porém, Flávio acredita que não seja a melhor forma de se manter uma equipe: “Isso é tão certo quando saber que sol vai nascer todos os dias: dois pilotos de ponta não se bicam, e é por isso que as equipes evitam pilotos no mesmo nível com o mesmo currículo, campeões”.

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