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O médico, o monstro, o TikTok e o POV

Uma análise dos comos e porquês os POVs são criados e assistidos

JPRESS
23 jun 2020 | Por Gabriella Ramus (gabriellaramus@usp.br)

Todos nós já fantasiamos como seria tocar, beijar, namorar com aquela pessoa especial. Aquela pessoa que você não necessariamente conhece direito, mas que, mesmo assim, é perfeita em todos os sentidos imagináveis. Aquela pessoa que passa e faz o mundo inteiro mudar de cor e cheirar melhor. Aquela pessoa. E se ela te conhecesse? E se ela te amasse incondicionalmente e passasse por todo tipo de aventura com você? E se vocês vivessem a fantasia juntos e recebessem o carimbo de “e todos viveram felizes para sempre” no final?

Isso tudo está a um clique de distância com o aplicativo TikTok. Através de um tipo de vídeo chamado “POV” (point of view ou ponto de vista), esse sonho torna-se real e incrivelmente tangível para milhões de garotas no mundo todo. O cara perfeito com a cara perfeita falando palavras perfeitas numa situação perfeita. Nessa matéria, investiguei desde como e por que os POVs são criados e até mesmo assistidos.

Mas antes, vamos conversar sobre o TikTok.

 

O que é TikTok?

Em princípio, o TikTok é uma rede social de vídeos curtos. Podem se estender em até um minuto, mas a média e o formato são próprios para 15 segundos, o que faz com que o próprio aplicativo se autodeclare “o principal destino do mundo para vídeos breves em celulares”.

O TikTok nasceu, na verdade, com um nome diferente em 2016 na China: “Douyin”, o que significa “som trêmulo” em português.  Sua empresa Bytedance fundiu-o com outro aplicativo de vídeos curtos (o já famoso Musical.ly) em 2017 e, em seguida, entrou para o mercado americano como TikTok. Assim, a mãe multimilionária chinesa (Bytedance), a irmã celebrada pelos jovens americanos (Musical.ly) e um primo distante engraçado (Vine) garantiram o sangue azul do novo aplicativo e, portanto, grandes expectativas para seu futuro.

Já em 2018, o TikTok foi baixado mais de 663 milhões de vezes por todo o mundo (excluindo a versão chinesa do aplicativo), de acordo com o Sensor Tower. Em apenas um ano após seu lançamento, ele já ultrapassava os 444 milhões de downloads do Instagram, alcançando o 4º lugar no ranking mundial de aplicativos mais baixados. Foi só esperar mais um ano que subiu uma posição e tornou-se o terceiro app mais baixado de 2019. Em 2020, não foi diferente e nos dois primeiros meses do ano, foi o aplicativo não-jogo com maior número de downloads. Ou seja, não é de se surpreender que o TikTok esteja conquistando jovens de todos os cantos do mundo. Hoje, está disponível em 154 países e em 75 línguas diferentes.

No Brasil, o número de downloads chegou até a ultrapassar o número estadunidense em fevereiro de 2020. Segundo o Sensor Tower, houve 9,7 milhões de downloads brasileiros no mês, já nos Estados Unidos, o número não ultrapassou os 6,4 milhões. No total, foram 113 milhões no mundo inteiro, fazendo com que o Brasil e os EUA participassem respectivamente com 8,6% e 5,6% do total. Apesar de a Índia  ser o país que mais se destacou em fevereiro de 2020 – com 41,3% dos downloads mundiais –, o crescimento de 573,3% da relevância brasileira em um ano (de fevereiro 2019 até fevereiro 2020) foi o mais significativo.

Infográfico sobre TikTok


Como o TikTok funciona?

O TikTok funciona tomando como base princípios bem-sucedidos de outros aplicativos famosos. Ele recicla, portanto, ideias como a hashtag e a lógica de seguidor originárias do Twitter; o algoritmo e conteúdo personalizado do Instagram; os efeitos e filtros do Snapchat; o apelo para música e lip-syncing do Musical.ly e a ideia de compartilhar vídeos curtos de humor do Vine. Ou seja, o TikTok é uma grande sopa de ideias alheias.

Mas o que o torna tão diferente de qualquer outra rede social é a inversão de importância entre o conteúdo que se segue voluntariamente e o conteúdo personalizado sugerido pelo algoritmo. Assim que o aplicativo é aberto, a homepage aparece e um vídeo já começa a tocar automaticamente. No canto superior da tela, vemos duas opções: “Seguindo” e “Para Você”. O vídeo que começa a tocar é da segunda página. Logo, aquilo que é indicado pelo algoritmo é valorizado em detrimento daquilo que é indicado pelo próprio usuário do aplicativo. É como um Instagram centrado na página do “Explorar” ou um Facebook com o feed cheio mesmo sem nenhum amigo.

 

Tela do TikTok

[Imagem: TikTok]

Tudo que o espectador tem que fazer é, ao criar uma conta, indicar quais são os tipos de vídeos pelos quais está mais interessado: comédia, animais de estimação, beleza e estilo, comida, motivação e orientação, faça você mesmo, talentos, esportes, fandom, jogos, família ou vida cotidiana.

 

Como se faz um TikTok?

Para entender o funcionamento do aplicativo, é essencial desvendar os mecanismos envolvidos na produção de um TikTok. A palavra-chave para tal é trend. Ressuscitada do Musical.ly, a ideia de trends embasadas em determinadas músicas é o que destaca o aplicativo. Cada trend é como uma fórmula: há um áudio específico que se encaixa com o conteúdo específico, os quais são repetidos infinitamente por várias pessoas diferentes. Dessa forma, o aúdio ajuda as pessoas a identificarem mais facilmente a trend e, consequentemente, aumenta a possibilidade de elas participarem do fenômeno.

Além disso, a existência de músicas virais já estabelece uma relação de reconhecimento  entre o espectador e o vídeo antes mesmo que o primeiro tenha que entender do que o segundo se trata. Por exemplo, há a trend chamada “Do you ever look at someone and wonder what’s going on inside their head?” (Você já olhou para alguém e perguntou-se o que está acontecendo na mente dele?), em que pessoas (ou animais) agindo loucamente são apresentados ao som de um remix de Sweet Dreams do Eurythmics. Em seguida, o TikTok encoraja as pessoas a pularem de trend em trend, de challenge em challenge, de audiência em audiência, no que se assemelha a um ciclo sem fim de piadas internas e gerador de grandes contingentes de conteúdo. 

 

@pearltekuruDo you ever look at someone and wonder… ##fyp @ruthybabyyy♬ Inside Their Head – TT remix

 

@capitalofficialDo you ever look at someone and wonder what is going on inside their head? @jadethirlwall 🤔 ##littlemix ##fyp♬ original sound – capitalofficial

@brandiwilson18##ferret ##doyoueverlookatsomeoneandwonder ##sillypets ##funny ##funnypets♬ Inside Their Head – TT remix

Em relação à cinematografia dos vídeos, o estudioso Ethan Bresnik da Universidade da Carolina do Sul, em seu artigo Brincadeira Intensa: estudo cinematográfico do aplicativo TikTok, afirmou que os recursos disponíveis para a  produção de um TikTok se assemelham a um playground. Isso porque os vídeos podem ter a velocidade acelerada ou retardada, há efeitos que oferecem a substituição de rosto e a brincadeira com a realidade aumentada, opções de mixagem audiovisual (tela dividida, imagem em imagem, biblioteca de áudio) e pode-se fazer sequenciação cronológica e montagens. Dessa forma, o TikTok oferece inúmeras ferramentas para florescer a criatividade de seus usuários – e para eles genuinamente se divertirem produzindo um vídeo sem muito esforço.

Vídeos do TikTok

[Imagem: TikTok]


Além disso, participando de uma lógica de “interatividade”, a possibilidade de fazer TikToks
duets ou reacts também é digna de nota. Nesse caso, a tela é dividida em dois e o TikToker interage com outro TikToker ou mesmo com um fã. Com mecanismos como esse, tanto os criadores de conteúdo quanto os usuários são incentivados a ter um papel ativo dentro do aplicativo. 

@rafael_vasconcelos_##duet with @keenan.te ##cantando ##singing ##foryoupage ##fyp♬ original sound – keenan.te

@tyshonlawrence##react to @tyler.brash I couldn’t breathe 😭😭😭🤮🤮🤢🤢 (click link in bio)♬ original sound – tyler.brash

Com todas essas opções, pode parecer que o aplicativo é complicado de se usar, mas a verdade é exatamente o oposto. A facilidade de se produzir um TikTok foi até o que atraiu a TikToker Sofia Espanha (16 anos, Varginha-MG, @sofiaespanha) inicialmente ao aplicativo. “Muito prático, muito rápido de fazer, não preciso ter uma produção gigantesca, não preciso nem me arrumar para gravar”, conta ela. 

Por ser tão fácil de fazer, os TikTokers fazem vários todos os dias. Sofia passa em média 3 horas os produzindo. Por sua vez, Santiago Armando (16 anos, St Petersburg – Florida, @santiago_armando) demora desde alguns minutos até uma hora produzindo cada um dos quatro que posta, em média, todos os dias.

@sofiaespanhaeu tava me sentindo bonita o-ok 😳😔♬ original sound – colloquialshirts

@santiago_armandoIt was the worst of times it was the bests of times♬ original sound – maihualee


Por que é viciante?

Não precisa sequer ser um viciado em tecnologia e redes sociais para ficar viciado em TikTok. Conforme declarado por Beatriz Staufacar (18 anos, Dearborn, Michigan), o aplicativo faz as “pessoas perderem a noção do tempo”. Ao conversar com algumas consumidoras ávidas de TikToks, é possível listar ferramentas do aplicativo que contribuem para seu caráter viciante.

Em primeiro lugar, o algoritmo é muito bom. Ele reconhece facilmente os gostos de cada usuário e consegue selecionar com excelência aquilo que vai agradar daquilo que vai irritar. Dessa forma, “se você já sabe que o que vai estar ali você vai gostar, vai continuar assistindo”, continua Beatriz.

Em segundo lugar, os vídeos não têm a mesma duração. Vídeos extremamente curtos misturam-se com vídeos longos e em ambos os casos a duração exata não é explícita. À vista disso, é difícil de calcular quanto tempo foi gasto naquela “entradinha rápida” no aplicativo.

Em terceiro lugar, não existe escolha no TikTok: não existe botão para dar pause ou play; o aplicativo muito menos mostra o horário, uma vez que o vídeo cobre a tela inteira e o usuário não decide conscientemente assistir ao vídeo – como no Youtube, por exemplo. Os vídeos tocam automaticamente num feed infindável. 

Por último, os TikToks funcionam como um tipo de feitiço. O espectador fica vidrado na tela por poucos segundos tentando absorver o que está acontecendo. Assim que o cérebro interpreta a situação, ele se envolve na história e o vídeo acaba. Porém, instantaneamente inicia-se outro e o ciclo retorna, sem dar espaço para a reflexão de quanto tempo está sendo gasto naquela atividade inofensiva. Dessa forma, é incrivelmente fácil passar cinco horas diárias no aplicativo, como acontece com Maria Eduarda Giusti (17 anos, São Paulo-SP). Quando se está entediado, quando está fazendo outra coisa que não requer muita atenção, quando o filme está chato, o TikTok acaba preenchendo o papel de distração da vida monótona, principalmente na quarentena.


Por que o TikTok é tão popular?

Não é novidade que os jovens amam vídeos curtos . A transposição daquilo que era escrito e falado para o vídeo não foi nenhuma ideia revolucionária. E seguindo os passos do Vine e do Musical.ly, não tinha como errar. Mas com tantos outros aplicativos na Apple Store e no Google Play que saem da mesma premissa, o que faz o TikTok ser diferente? E o que faz ele ser a estrela do momento?

Antes de qualquer coisa, é importante reconhecer que o TikTok democratiza o entretenimento. De acordo com a psicóloga e pesquisadora do Laboratório de Psicologia em Tecnologia, Informação e Comunicação da PUC-SP, Andréa Jotta, as pessoas já tinham percebido que a suposta representação da vida real prometida pelas redes sociais não estava sendo cumprida. Quem tinha dinheiro é que se fazia influente com a ajuda de “grandes maquiagens, grandes cenários, a vida maravilhosa”. “Mas isso ia na contramão da demanda do ser humano. A gente queria ver as coisas reais, ver a realidade do outro”, afirma ela. E é exatamente essa a função do TikTok. 

@biancca_mznão pode chegar nele ! se arrastarem vou ter que excluir♬ som original – thiagoshin

@jenniferjacobbbi told her that i learned a new dance 😂😂 ##fyp♬ Geek’d (feat. Lil Baby) – Bhad Bhabie

Além desse atributo básico do aplicativo, os pesquisadores Shuai Yanga, Yuzhen Zhaob e Yifang Mac, das Universidades de Xijing e Xi’an na China, reiteram que “o TikTok pôde crescer em um ritmo tão rápido, porque está intimamente ligado a um nível sofisticado de produção, conteúdo estiloso, poder de celebridades e ideias interessantes de propaganda”. Em seu artigo Análise das razões e desenvolvimento de aplicativos de vídeos breves: tomando o TikTok como exemplo, fica clara a importância de uma união entre bom planejamento no layout e inteligentes estratégias de marketing. Assim, o bom funcionamento do algoritmo em selecionar conteúdo personalizado, os contratos com importantes gravadoras para a utilização de suas músicas e a antecipada propaganda do aplicativo com celebridades preparou o solo para a semente do TikTok.

Além disso, o TikTok floresce bem na hora que mais precisamos dele. Segundo Andréa Jotta, “é um conteúdo espontâneo, é um conteúdo que você faz para brincar. E isso acaba ganhando popularidade no momento em que a criatividade é um dos requisitos básicos para conseguimos suportar emocionalmente de maneira saudável a pandemia”.


O que é um POV?

O POV é, antes de tudo, uma das trends mais famosas do TikTok, chegando a ser tão popular que se transformou numa das marcas registradas do aplicativo. Num POV, um TikToker cria uma cena e atua de acordo, explicando o contexto na legenda do TikTok. Mas a característica definidora de um POV é a direta interação com a câmera, de forma que a cena é filmada na perspectiva do espectador (“Point Of View shot”). É importante ressaltar que, até agora, a descrição se assemelha com uma fita de audição para um papel. Porém, a fita de audição e o POV são diferenciados através das músicas, isto é, em POVs, os TikTokers atuam ao mesmo tempo que fazem lip-syncing em cima de músicas famosas, cenas de séries e filmes ou áudios originais.

A quantidade de nichos e tipos de POVs é absurda, demonstrando mais uma vez o quão vasta é a imaginação da juventude. Porém, após uma pesquisa mais aprofundada, é possível perceber que há quatro ramos principais do POV: os darks, os engraçados, os distópicos e os românticos. Logo, a extensão de temas varia muito: “POV: a mafia te vendou e fez você atirar ou no seu namorado ou no assassino de sua família”, “POV: você é sequestrado e conhece seu amigável sequestrador”, “POV: no seu aniversário de 16 anos as primeiras palavras que a sua alma gêmea falará para você aparecem no seu pulso”, “POV: ele te pede em casamento”.

@yuppitsmo##pov the mafia blindfolded you and made you shoot your boyfriend or the killer of your family ..♬ I.F.L.Y. by Bazzi – daycore.audios

@holdtheelevatorPOV: When you’re kidnapped and meet your friendly murderer 🤣 ##pov ##foryou ##foryourpage ##funny♬ original sound – holdtheelevator

@miaathorsenPov: on your 16th birthday the first words your soulmate will say to you appear on your wrist. ##foryou ##fyp♬ You – Petit Biscuit

@kiocyrrrPOV: He asks you to marry him♬ twenty one pilots – Doubt – favsoundds

Quanto mais observamos essas temáticas recorrentes, mais fica clara sua semelhança com sonhos e pesadelos. De acordo com a psicóloga Andréa Jotta, o POV é uma janela para o inconsciente, está “sempre nesse espaço mais interno, que ao mesmo tempo é muito sedutor e negro”. Uma cena que pode ser tanto o pesadelo de infância de ser raptado quanto o devaneio adolescente do primeiro beijo perfeito. São os desejos e os medos mais profundos, é o sonho e o pesadelo, o médico e o monstro.


O que é um POV romântico?

No mundo dos TikToks românticos, o conteúdo encontrado parece ser retirado, na grande maioria das vezes, de uma comédia romântica ou de uma fanfic. As situações encenadas pelos milhões de garotos que fazem esse tipo de vídeo lembram – e muito – as cenas prediletas das garotas nesse gênero de filme: a o primeiro contato (e do primeiro flerte), a primeira briga, o tão esperado final feliz, etc. Os estereótipos que os filmes românticos há anos cultivam também são recorrentes, sendo o badboy a grande estrela do aplicativo. Contudo, considerando que o TikTok é uma plataforma com um grande número de ferramentas para ser criativo, seria mentiroso dizer que todo o conteúdo é clichê.

Tecnicamente, a nova geração inova com efeitos, filtros, cortes, sons que funcionam quase como um verniz criativo para cobrir um conteúdo já conhecido pela audiência. Eles criam ainda um novo olhar para essas cenas melosas. Literalmente, uma nova forma de enxergar a cena com a perspectiva POV, na qual o espectador acaba participando também de toda a ação. Com relação ao conteúdo, as histórias contadas não são sempre um literal “crtl+C, ctrl+ V” dos filmes e envolvem surpresas e aspectos ligeiramente distópicos e darks (demonstrando intersecções entre os tipos de POVs anteriormente citados).  

@devincaherly##pov I saw my ex at a party for the first time since we broke up ##devincaherly ##fyp ##ex♬ original sound – fire.soundz0

@danielprestage##pov I’m the son of a drug lord but when my father was finally caught I decided to take over.. ##fyp ##fypage ##foryoupage♬ We Will Rock You – why mona

@brandonmundinePov: when you look into someone’s eyes you can see their future♬ maribou state tongue slowed – xangeb


Quem são as pessoas por trás dos TikToks?

Em uma lista das 40 contas com mais seguidores no mundo do aplicativo TikTok, a Business Insider desconsiderou ex-estrelas de outros aplicativos e contas de empresas (como o próprio TikTok). Datada de 25 de março de 2020, ela apresenta 24 contas de países que falam inglês (EUA, Inglaterra, Austrália), 2 contas europeias, 13 indianas e uma de um cachorro chamado JiffPom. As 5 contas mais seguidas são:

  1. Charli D’amelio, com 58.1 milhões
  2. Loren Gray, com 43.5 milhões
  3. Addison Rae, com 42.2 milhões
  4. Riyaz Afreen, com 39.1 milhões
  5. Baby Ariel, com 33.2 milhões

De tais dados, podemos tirar algumas conclusões. A primeira conclusão é que há uma preferência mundial pelo conteúdo em inglês. Mais da metade das maiores contas são originárias dos EUA e os indianos, mesmo com maior peso no número dos downloads, concentram apenas 32,5% dos 40 e uma das 5 maiores contas. E o Brasil?

Ainda que tenha o mercado que mais cresceu no último ano, os brasileiros não têm nenhuma conta que participou da lista. Esse fato nos leva à segunda conclusão: brasileiro não assiste brasileiro. E dessa afirmação partilha Maria Eduarda, que “só gosta e assiste os americanos”.

A terceira conclusão é que a maioria esmagadora das pessoas participantes da lista são jovens, brancas e atraentes. Ou seja, não só há falta de representatividade de brasileiros, como há também falta de representatividade de negros e pessoas fora do padrão estético de beleza. 

Essa fórmula mágica (estadunidense, jovem, branco e bonito) fica ainda mais evidente no sucesso da Hype House. Essa consiste de um grupo de amigos que vive na mesma mansão em Los Angeles e criam conteúdo juntos para o TikTok. Tal conjunto engloba 5 dos 40 mais seguidos da Business Insider, incluindo a maior conta (Charli D’Amelio). Eles inferem uma influência absurda em tudo que é produzido no aplicativo ao começar ou popularizar determinadas trends. São também a personificação do que é e de como é ser famoso no aplicativo, com direito a tours pela mansão, Teslas e pulseiras da Cartier.

@thehypehouseNew house tour @bangenergy @bangenergy.ceo♬ original sound – thehypehouse

@charlidamelio@larrayeeee♬ Bitch From Da Souf – Mulatto


Como é a vida de um TikToker?

Os TikTokers relatam uma trajetória comum em sua relação com o aplicativo. A maioria dos entrevistados criou sua conta no ano passado e assistiu ao crescimento súbito dela em um pequeno intervalo de tempo. Daniel Prestage (19 anos, Temeluca, Califórnia, @danielprestage) relata: “comecei a usar o TikTok depois de baixá-lo em dezembro de 2019, sem pensar muito no momento até começar a obter seguidores mais rapidamente do que o normal, passando de alguns seguidores por dia para algumas centenas e assim por diante”. Inicialmente, seu crescimento era lento e gradual, porém, isso mudou quando alguns de seus vídeos tornaram-se virais e seus números foram ficando cada vez maiores. Hoje, ele tem mais de 196 mil seguidores no aplicativo.

Tal crescimento é sustentado, além disso, com ajuda do próprio TikTok. Sofia Espanha esclarece que assim que a marca de 100 mil seguidores é ultrapassada, o TikTok manda uma mensagem pelo aplicativo pedindo informações pessoais como o nome, o número de celular e o nome da conta na rede social.  Em seguida, o TikToker é contatado por um manager que está ali para apoiá-lo na escalada da popularidade no aplicativo. 

Contudo, os crescentes números trazem alguns efeitos colaterais, como DMs sinistras. Santiago Armando conta que recebe diariamente mensagens sexualmente explícitas de meninas de 10 anos  e Sofia relata que teve que bloquear um homem que a importunava nas redes sociais. Após o ocorrido, o homem criou outra conta e continuou a incomodar. Outro episódio assustador foi quando seis crianças de 11 anos apareceram na porta de sua casa pedindo autógrafos. Eles tinham desvendado sozinhos onde ela morava com base numa foto de seu Instagram.

@_ansar_a##greenscreen here u go, a part 2! ##dm ##mama ##brown ##brownboy ##desi ##tiktokcanada ##wipeitdown ##funny ##fypシ♬ original sound – _ansar_a

Mas como essa atenção na vida virtual reflete na vida real? Devin Caherly (19 anos, Westfield-Nova Jersey, @devincaherly) sofreu no início com julgamento alheio, já que achavam que seu conteúdo era “constrangedor”. Mas tudo mudou quando ele começou a ficar famoso. Brandon Mundine (19 anos, Mount Laurel-Nova Jersey, @brandonmundine) teve uma experiência muito parecida ao perceber que alguns de seus amigos estavam mais interessados nas coisas que ele estava ganhando de parcerias do que na amizade em si. Sua família foi cética desde o início, duvidando de sua capacidade de conseguir alguma coisa das incontáveis horas que passava no aplicativo. Por isso, ele fez de seu objetivo prová-los equivocados e que pode ser “bem-sucedido ao deixar as outras pessoas felizes e dar a elas um conteúdo que gostem”. O preconceito e o estigma foram tão intensos que tanto Daniel quanto Sofia não contaram a seus pais sobre suas contas até que foram reconhecidos na rua ou até que tinham eventos do TikTok para ir. 

O lado positivo é que o TikTok promove várias dessas convenções, as quais nos EUA recebem o nome de playlists. Nelas, os TikTokers têm a chance de interagir com seus fãs, receber patrocínios e fazer amigos. Brandon e Santiago conheceram alguns de seus melhores amigos, os quais consideram família, através do aplicativo e desses eventos.

 

Quem são as pessoas por trás dos POVs românticos?

Seguindo a lógica geral dos TikToks, as contas mais famosas de POVs românticos também são de jovens estadunidenses. Mais especificamente, são meninos de 17 a 22 anos (ligeiramente mais velhos que sua audiência) e muitos dos quais seguem a e-boy aesthetic, popularizada pelo aplicativo. Tal estética pode ser descrita como sendo a evolução do emo fundida com elementos do k-pop. 

Não é incomum encontrar TikToks em que meninas comparam seu gosto para homens antes e depois de começarem a usar o aplicativo. O primeiro tipo de homem parece condizer com a imagem formada pelos galãs de filmes e séries: alto, loiro, musculoso. Contudo, o segundo tipo de homem é o contrário disso: ele é um e-boy. Tem a pele lisinha e pálida, cabelo escuro (às vezes pintado de branco), mandíbula definida, corpo bem magro e bem alto, unhas com esmalte preto, quarto com luzes LED no teto, correntes e anéis pratas e brincos compridos com cruzes (popularizados pelas estrelas do pop coreano). Ele veste-se como emo e gosta de tirar fotos revirando os olhos e com a língua para fora. Eles são os novos badboys e o novo sonho de milhões de meninas no mundo inteiro.

@brittany_broskiTikTok has changed my taste in men and im mad 🥴😑😑😑 ##fyp ##foryou ##eboy♬ original sound – brittanyt445

@sebastianwroe##greenscreen tiktok is ruining women’s taste in men ##fyp ##foryou ##fy ##viral ##taste ##asaprocky ##lilhuddy ##joshrichards♬ original sound – koriee_m

Agora, por que essa estética se tornou popular? De acordo com Andréa Jotta, pesquisadora da PUC-SP, os e-boys representam a “não-imagem”, na medida em que vão contra tudo aquilo que é esperado de um “homem atraente” na mídia tradicional e por isso chamam tanta atenção. 

Em primeiro lugar, eles transitam entre o feminino e o masculino, quebrando os padrões (sendo com suas roupas, sendo com suas atitudes) de um “homem macho”. Em segundo lugar, eles representam, sem medo, tanto a sensibilidade quanto a obscuridade do mundo interno. “Os e-boys são mais andrógenos, têm a imagem unificada. É dark, porque aquilo que é interno é mais obscuro. É mais sensível, porque aquilo que é interno é mais mais delicado”, afirma a psicóloga. Ao fazer isso, eles se permitem livrar-se de expectativas arbitrárias de identidade e construir sua própria imagem em seus próprios termos, daí a expressão “não-imagem”. 

“Existe uma transição desse novo ser humano que vem transitando entre imagem, desejos internos e aquilo que ele expõe que é uma transformação. E, nesse lugar de transformação, algumas pessoas preferem lidar com a ‘não-imagem’. A ‘não-imagem’ me dá muito mais liberdade que a imagem”, conclui Jotta.

@lilhuddyPRANK3D @noeneubanks♬ send feet pics to anthpo – anthpo

@heir.of.atticusYour eyes are so red ##xyzbca ##fyp♬ SICK DUCK XIX 6 19 – karmthetool

 

@autumnasaboyPOV you call me out for being nervous on our first date♬ Swing Lynn – Harmless

Todavia, apesar de a estética do e-boy ser um importante passo contra o padrão, não significa que não há um modelo estético para quem faz POVs. Assim como nos TikToks em geral, ser atraente é o mais importante requisito para popularidade. De acordo com Daniel Prestage, TikToker que faz POVs regularmente, “infelizmente, a aparência desempenha um grande papel no TikTok. Parece vencer do trabalho duro na maioria das vezes”. 

Com ele concorda Brandon Mundine, outro TikToker que percebe que não há representatividade suficiente da comunidade negra no aplicativo. Uma vez que é branco, bonito e rico, já é meio caminho andado e é bem mais fácil de conseguir seguidores. 

Em conclusão, apesar de popularizar o rebelde e-boy, o POV segue o molde da sociedade: para se ter fama, é bem mais fácil quando se é jovem, estadunidense, atraente e branco.

 

Por que as pessoas fazem TikToks e POVs?

O primeiro possível motivo que surge na mente é “dinheiro”. Contudo, esse mito foi quebrado ao conversar com os TikTokers. Sofia Espanha conta que, por enquanto é impossível monetizar os vídeos. O dinheiro adquirido da rede social vem dos chamados “presentes” dados pelos fãs durantes as lives (os TikTokers recebem 60% do lucro) e por parcerias com empresas através de marketing dos seus produtos nos TikToks. Além disso, projetos de casas inspiradas na Hype House– como a PlayHouse Brasil, da qual participará – fazem dinheiro circular por meio de patrocínios e mercadorias. Porém, no final, não é muito o que sobra. 

@jasonderuloR U kidding me ##IceDerulo ?? 😅😱 Have you tried the ##Walmart2hrExpress challenge? @walmart ##ad♬ Getaway – CHUNNYT

Mas, então, por que fazem TikToks? Para o TikToker Devin Caherly, começar uma conta no TikTok foi sinônimo de começar uma carreira nas mídias sociais e com foco em atuação. Para Brandon Mundine, foi mais uma piada, já que seus amigos diziam que ele seria bom nisso. Para Daniel Prestage, foi uma forma de evitar o tédio. Para Santiago Armando, foi uma válvula de escape da realidade. E para Sofia Espanha, foi por pura vontade de criar e contar histórias.

Mas além de todos os motivos práticos que podem levar uma pessoa a criar uma conta no TikTok e produzir POVs, fazer TikToks é divertido. Até a pesquisadora Andréa Jotta concorda que “TikTok é diversão, pura diversão.” E que acaba sendo essencial “no momento que a gente não tem nada para fazer de criativo, em que as questões criativas têm sido extremamente polidas, porque a gente quase não consegue sair de casa”.

E os POVs? Não esqueçamos de que os POVs dão views. Devin começou a fazer POVs, porque, após experimentar a trend, percebeu que poderia tornar-se viral e conseguir grande exposição com isso. Santiago Armando, após fazer somente dois POVs, foi de 300 mil seguidores para 1 milhão em três semanas. Mas a motivação não precisa ser necessariamente essa.

Brandon vê os POVs românticos apenas como uma forma de apresentar seu lado paquerador, assim como seu lado brincalhão e engraçado que aparece em seus outros tipos de conteúdo. E tanto o Daniel quanto a Sofia veem nos POVs uma forma de usar a criatividade e “ser quem ou o que quiser e poder fazer qualquer tipo de história”, nas palavras do primeiro. 

De um ponto de vista mais prático, os POVs podem ser vistos também como uma forma de treinar comportamento. “Internet sempre foi, desde os primórdios, treino de comportamento”, afirma Jotta. Dessa forma, pré-adolescentes e adolescentes aprendem a navegar no mundo do romance utilizando a internet como meio. Sucessos e fracassos fazem parte do caminho para entender o olhar, a fala, a linguagem corporal que funciona para chamar a atenção do público.

 

Por que meninas não fazem POVs românticos?

É só pesquisar “TikTok POV boys” no Youtube que aparecem milhares de compilações de POVs românticos com os mais variados temas. Alguns canais fazem só isso e criam compilações com até 38 partes. Todavia, é extremamente raro de se achar vídeos que foquem no mesmo conteúdo, só que feito por meninas.

De acordo com a psicóloga Andréa Jotta, isso ocorre “porque meninos são meninos e meninas são meninas. Meninas vivem na fantasia e meninos vivem na prática”. A sedução masculina vem de vídeos de flerte que simulam cenas inspiradas em filmes, que é o que as meninas querem assistir. E “a sedução feminina vai para um outro lado. Se procurarmos ‘danças funk’ no TikTok, você vai encontrar muito mais menina do que menino. Os meninos querem funk e as meninas querem sedução e história”, conta Jotta.

@iamoliviaponton@whotfisdarianka♬ original sound – paytiiii

O flerte masculino também está incluído numa “sociedade, em que há a norma de que os homens precisam dar o primeiro passo na mulher”, aponta Devin Caherly. Sofia Espanha concorda com a afirmação e defende ainda que se meninas fossem fazer esse tipo de conteúdo, muito provavelmente seriam criticadas e não louvadas, como acontece com os meninos.

 

Quem são as pessoas que assistem a POVS e por que?

Não é nenhuma surpresa que as pessoas que assistem a POVs sejam meninas entre 11-19 anos. Esse grupo representa 70% da audiência da Sofia Espanha, 85% da audiência de Brandon Mundine e 89% da de Santiago Armando. Mas por que pré-adolescentes e adolescentes acham os POVs românticos interessantes? E por que há tantas pessoas que os acham, muito pelo contrário, constrangedores?

Comecemos pelo constrangimento. De acordo com a psicóloga Andréa Jotta, o POV é constrangedor, porque expõe e tudo aquilo que expõe é visto pelos outros como constrangedor. Enquanto o TikToker partilha uma experiência particular, o público sente como se estivesse participando dessa sem ter realmente consentido. “Está você e ele ali… se encarando”, descreve Maria Eduarda. É isso que torna a experiência inteira de ver um POV romântico pela primeira vez tão esquisita e até mesmo dolorosa. 

@lzmaario##pov Minha ex se arrependeu de não ter me valorizado quando a gente namorava.♬ me siga – juliäh

@peixinh0#pov Você me segue até o Banheiro da festa para poder me “mostrar uma coisa”… 👀🔥 #foryou #viral♬ sweater weather mood drop – emilyreaganbee

Mas o constrangimento passa e é aqui que o sonho começa. De acordo com Maria, o que torna o POV cativante é o envolvimento construído com a história. E a narrativa envolve tanto, porque está atrelada a “medos, amores, afetos, sentimentos e desejos mais enraizados dentro da gente”, de acordo com Jotta. E são todas essas emoções que se materializam na forma de um sonho. “Estamos lidando diretamente com coisas não-conscientes. Estamos brincando o tempo inteiro com ampliação de consciência. Quando você sonha, você tem as sensações, os sentimentos dos seus sonhos. O seu organismo responde ao seu sonho“ e, assim, o público reage como se a cena realmente tivesse acontecido, respondendo ao corar, por exemplo.

Para Beatriz Staufacar, os POVs reúnem tudo aquilo que as meninas querem ver: “é aquela sensação de ter um cara mais velho e interessado em você que não tem medo de ser sexy e que é charmoso”, “é o fetiche nacional que as pessoas têm por gente americana”, “é sonho e a ilusão que elas querem, mas não conseguem na vida real”. É o conforto e a válvula de escape de um mundo cada vez mais caótico e solitário. “Parece que o TikTok é uma casa, um lugar onde meninas se sentem seguras”, conclui Beatriz.

E essa casa não está distante. Na verdade, está a um clique de distância. As borboletas no estômago e a sensação de ser desejada estão todas muito próximas e não é necessário nem sair de casa.

Assim sendo, o TikTok, e especialmente os POVs, oferecem uma janela para o inconsciente. Eles exemplificam nossos maiores sonhos, nossos maiores medos, servem de conforto, servem de aviso. Logo, os POVs são tanto o médico quanto o monstro.

E agora, em meio ao distanciamento social, os POVs acabam preenchendo o buraco de interação interpessoal. E, claro, de entretenimento também. Porque se tem uma palavra que descreve o TikTok, essa palavra é “diversão”.  

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